sexta-feira, 5 de novembro de 2010

VOVÓ OLINDA

Vovó Olinda tem 73 anos. Mas quem imagina uma vovó-modelo, grisalha, de vestido escuro, manejando céleres agulhas de tricô, está fadado à decepção. Vovó Olinda é hoje uma daquelas vovós ultra-modernas, cabeleira vermelha (segundo ela, a tintura chama-se vermelho-vibrante-intenso), jaqueta de couro, jeans justíssimo e óculos estilo "matrix".

Nem sempre foi assim. Viúva aos quarenta e poucos, viveu a meia-idade dentro de uma bolha de amargura e saudade até os sessenta e nove. Durante esses quase trinta anos, foi exatamente a vovó tradicional estilo "história do chapeuzinho vermelho". Até conhecer o Mazinho.

Mazinho, que desde a adolescência não escondia sua preferência por balzaquianas, e sempre foi um entusiasmado defensor das senhoras de idade avançada. Enquanto os meninos de dezesseis anos corriam atrás das ninfetinhas de tez imaculada, ele se divertia nos braços das quarentonas empoadas, de pele já não tão sedosa e macia. Dizia que as mulheres maduras tinham muito mais a oferecer, que a experiência superava qualquer vigor juvenil.

Conheceram-se numa festa. O pátio da igreja lotado de barraquinhas vendendo todo o tipo de quitute junino e bugigangas diversas. Crianças, jovens e adultos circulando sob o sereno e a música estridente reverberando.

Então os olhares se cruzaram e foi como se o ar ficasse, de repente, carregado de eletricidade estática. Sem jeito, Olinda baixou os olhos, espantada com o olhar penetrante do jovem de 25 anos. Ele se aproximou devagar, perguntou o seu nome e ofereceu-lhe uma maçã-do-amor. Conversaram durante toda a noite, assistiram juntos à queima de fogos e ao leilão, dividiram a cartela do bingo, comeram salsichão e riram de boca cheia de farofa, trocaram números de telefone.

No dia seguinte, encontraram-se na praça e foram a uma lanchonete. Ele pediu chá, ela, uma coca-cola bem gelada, com gelo e limão. Ele roçou de leve a mão dela sobre a mesa, ela corou mas gostou da sensação de estremecimento a tanto tempo esquecida.

E, então ficaram juntos.

Estou sentado na varanda, Vovó Olinda me acena do outro lado da rua e vem ao meu encontro. Seu sorriso é impressionante, mais até que a mini-saia e a meia arrastão preta.

- Vou dar uma voltinha de moto – Ela diz.

- Ué, vó, o Mazinho tá de moto?

- Não. É minha. Uma 250, lindona, tirei no consórcio!

- E o Mazinho?

- Ah, o Mazinho já era! Tô pegando um garotão de 34. Cansei de franguinho!

É... Essa é a vovó Olinda...


Cesar Calheiros

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