quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Resenha: VIDAS SECAS


VIDAS SECAS

 

A obra Vidas secas, de Graciliano Ramos, (Martins, 1973) apresenta ao longo do romance, a trajetória de uma família de retirantes que percorrem a caatinga do sertão nordestino em busca de uma vida melhor e, principalmente, procuram fugir da seca, miséria, fome.

Publicada em 1938, sendo os personagens principais, Fabiano, Sinha Vitória, dois filhos, a cachorra baleia e um papagaio. O romance é marcado como obra regionalista, de denúncia e crítica social. Em analogia com o sertão do Nordeste Brasileiro.

O próprio título da obra remete o leitor a um cenário de seca, desde a vegetação, amarela e cinzenta, até o pensamento dos personagens. A comunicação entre eles poderia ser comparada como de um “animal”, já que não há diálogo, apenas sons, onomatopeias. O narrador entra em ação, visto que não há comunicação entre os envolvidos na história. Como Antonio Candido afirma em seu artigo sobre a obra de Graciliano Ramos:

 

A partir de personagens quase incapazes de falar, devido à rusticidade extrema, para os quais o narrador elabora uma linguagem virtual a partir do silêncio.

(CANDIDO, 1973, p. 104)

 

Vidas secas surpreende pelo relato objetivo dessas vidas sem horizontes, sem grandes ambições e por consequência acabam sendo exploradas por outros homens. Sendo apenas manifesto pela Sinhá Vitória seu imenso desejo de ter uma cama de lastro de couro, igual a do “Seu Tomás da Bolandeira”, visto que dormia em cama de varas e por Fabiano o desejo de um futuro promissor para seus filhos.

É possível perceber a crítica em relação à sociedade, há o conformismo diante daquela vida em que se encontram, não desejam evoluir, estão estagnados, acomodados. Sofrem por estarem vivendo aquilo, mas não tomam a iniciativa de mudar de rumo. A família de Fabiano apresenta essas características em diversos trechos do livro. Antonio expressa este pensamento no seguinte fragmento:

 

Em Vida secas não vemos a sociedade do alto, nos seus planos e nas suas linhas de movimento coletivo, mas a surpreendemos na repercussão profunda dos seus problemas, através de vidas humanas que vão passando, a braços com a miséria, perseguidas por opressões e sofrimentos.

(CANDIDO, 1973, p. 105)

 

              Não há uma relação amorosa, conversação, entre pais e filhos, são secos uns com os outros. Sinhá Vitória, desprovida de qualquer conhecimento, não consegue explicar para seu filho o significado da palavra inferno e acaba tratando-o mal.

 

O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe:

– Como é?

Sinha Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.

– A senhora viu?
                                    Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote.
                                   (RAMOS, 1973. p. 56)

 

Já para Fabiano as crianças não deveriam perguntar sobre acontecimentos ou palavras que tivessem dúvidas, diante de uma pergunta do filho. É possível perceber tal afirmação no trecho abaixo:

 

O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: - Esses capetas têm ideias...
                                   (RAMOS, 1973. p. 10)
 
                           Mesmo Fabiano não tendo um afeto explícito com os filhos, nunca deixa de pensar neles. Quando foi preso (no capítulo Cadeia) remoia aquele sentimento de pensar nos filhos, em como iriam ficar com a sua ausência sem luz e sem sal. Diante disto, é possível perceber a preocupação, que Fabiano tinha com os filhos, mas não conseguia demonstrar isso a eles, talvez porque nunca recebeu e, no entanto, não aprenderá a conceder.

Dentre os personagens, a cachorra Baleia é a mais humana dentro da obra, ironicamente, ela está em todos os ambientes, expõe seus pensamentos, indagações, sobre a própria família, e por ser um animal é a que mais pensa durante toda a narrativa, até mesmo quando morre continua no pensamento da família.

O sertanejo em Vidas secas não é qualificado como sentimental, pitoresco, e sim o indivíduo que é influenciado pelo meio (seca), em que acaba se transformando em um “homem-bicho”, diante das condições em que vivem.

Em suma, os personagens passam a vida inteira lutando para sobreviver já que o ciclo do livro é iniciado com “Mudança” e finalizado com “Fuga”, diante da seca, são secos, amarelos, duros, fechados e magros, estão sempre tendo que se locomover de onde se encontram em face dos acontecimentos que acabam presenciando.

 

Juliana Aguiar Brando.
Faculdade CCAA, Rio de Janeiro.
 

REFERÊNCIA

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo. Martins, 1973.

Resenha: AS FASES LINEARES DE VIDAS SECAS

AS FASES LINEARES DE VIDAS SECAS

             O livro Vidas secas, de Graciliano Ramos, relata a história de uma família de retirantes que está fugindo da seca do sertão nordestino e representa a prosa de 30, que se concretizou como o marco na história literária do Brasil e fez parte da segunda fase do Modernismo. Teve como importância a temática da seca, dos retirantes e do engenho com características do romance e seu caráter social, econômico e cultural. Essa prosa se encontrava comprometida com a problemática do país de um modo generalizada e tinha como intuito encerrar com todos os parâmetros tradicionais existentes naquela época.

A narrativa revela a vida sofrida dos personagens no agreste nordestino e caracteriza as condições de algumas famílias, que por sua vez são miseráveis e dão de si para mudarem a vida social, mesmo que essas pessoas tenham pouco estudo e oportunidade na vida.

            Nessa obra, o tempo não é medido sobre mudanças cronológicas, pois presente, passado e futuro apresentam a mesma perspectiva e a história é linear.

            O autor Graciliano Ramos descreveu essa obra para confrontar com a época, pois esse fato foi abordado de forma contestadora e indignada. Os problemas de condições sociais que viviam os habitantes nordestinos, entre a fome, a miséria e a pobreza pertencente a esse lugar.

            O povo nordestino sempre se caracterizou como um grupo digno de caráter, mas desprovido de oportunidade de formação escolar, e por isso sem grandes oportunidades de formação profissional, assim obtendo sempre uma vida obscura e dilacerada pela pobreza, ou seja, vivem em uma condição desumana.

            Mesclando a história ao decorrer da obra, as figuras de linguagens encontradas são para atribuir uma aproximação do leitor com a linguagem coloquial de forma que o entendido da obra fosse relatado com clareza e grande facilitação.

No primeiro capítulo, a obra de Graciliano é caracterizada pela mudança ocorrente; os sertanejos Fabiano, o pai, Sinhá Vitória, a mãe, os dois meninos, acompanhados pela cachorra baleia e o papagaio, cruzaram a caatinga do agreste do sertão, desgastados pela fome, sede, seca e miséria que se encontravam por essa situação agravante, eles resolveram matar o papagaio para fazer do animal indefeso um alimento, pois também acreditavam que o louro era mudo e inútil, pois não tinha uma boa fala devido aos demais personagens não se expressarem verbalmente.

No quarto capítulo, Sinhá Vitória demonstra uma desilusão extrema de acordo com a situação de pobreza e de miséria que sua família se encontrava, cada dia que passava se tornava mais difícil obter o mínimo de dignidade e de Sinhá Vitória realizar seu grande sonho que era ter uma cama de couro; sendo essa um dado que evidencia a humildade e a simplicidade obtida de sua família.

A história do capítulo nove exprime um emocional característico pela morte da baleia cadela; ela ficou doente, seus pelos caíram, as costelas exprimiam uma pele avermelhada, onde manchas escuras convertiam-se em pus e sangravam. As chagas cobriam-lhe a boca de inchaço, e por esse fato Fabiano resolver tirar a vida da pobre cadela para que o sofrimento da cachorra acabasse de uma vez por todas.

O último capítulo da obra revela que a família tentou fazer mudança a respeito de sua condição de vida, mas essa tentativa foi por água a baixo, pois eles caminharam a procura de uma condição humana de vida e de nada adiantou, e para degradar a situação, todos estavam desolados pela morte da cachorra baleia. Contudo isso, eles não sabiam por onde mais caminhar, só sabiam que tinham que seguir estrada em busca de um melhor caminho de vida.

Segundo Nelly Novaes Coelho, a forma de construir a obra foi feita através de quadros e cada um deles é o estudo psicológico de seus personagens. Em cada capítulo, procura-se analisar as “pessoas” por meio de seu comportamento que está voltado para a natureza e para os animais, já que existe uma fusão entre eles.

Essa obra carrega um emblema de defesa sobre os preceitos socio-históricos encontrados naquela época, com isso, o autor veio com sua escrita relatar uma denúncia social configurando o sertão do Nordeste Brasileiro. Essa visão beneficiária está configurando toda a problemática existente nesse meio.

Entretanto, o autor mostra o lado dos personagens com características bastante obscuras que denotam certa negação em descrever os fenótipos dos mesmos, assim dando esse ponto como um lado.

Respaldando os contrapontos embutidos na obra, Graciliano faz uma representação de “secura” e frigidez nas características não só da vida dos personagens, mas também, de suas reais personalidades, pois cada uma tinha sua vida seca fincada na vida que levava no interior do Nordeste.
               

Tatiane Joana Baptista
FACULDADE CCAA, Rio de Janeiro

 
REFERÊNCIAS

ANDRADE, Luiz Eduardo da Silva. A Natureza Monstruosa em Vidas Secas, de Graciliano Ramos,Sergipe, ano 7 n.11, Revista da Literatura em Meio Digital,2009.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo. Martins, 1973.

Resenha: VIDAS EM MEIO À DEVASTADORA SECA EM GRACILIANO RAMOS


VIDAS EM MEIO À DEVASTADORA SECA EM GRACILIANO RAMOS

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo: Martins, 1973.

 O romance Vidas secas, publicado em 1938, é dividido em treze capítulos postos como contos. A obra trata-se de uma família de retirantes que está em constante fuga da seca no sertão nordestino.
          O texto se dá em formato de prosa. A narrativa em determinados momentos assume o caráter descritivo, pois descreve minuciosamente, assim como dá a sensação por meio de palavras que remetem a coisas sensoriais.
           A geração de 30 – situada com segunda fase do modernismo brasileiro – se caracterizou por ser muito inovadora e crítica e por quebrar todos os paradigmas literários do Brasil naquela época. prosa moderna de trinta motivou a abordagem de temas nacionais, focando em uma linguagem mais brasileira, com um enfoque mais direto dos fatos que aludem a procedimentos similares ao Realismo e Naturalismo do século XIX. Os romances escritos nesse período focaram no regionalismo, principalmente do nordeste, devido a problemas como seca, migração, falta de recursos para o trabalhador rural, miséria.
           A obra propõe o que se pode chamar de realismo reflexivo, nela o narrador transmite os sentimentos e pensamentos de forma analítica, indagando pontos sociais e existenciais. O discurso é seco, os capítulos são curtos e a escrita reflete essa seca. A linguagem entre os personagens é mais transmitida pelo olhar do que oral e quando falavam algo, falavam alto e quase que por monossílabos. A obra retrata vidas secas e sem grandes ambições.
            O espaço na obra se dá em meio a um clima semiárido, em que a vegetação por sua vez é pobre devido à escassez de chuvas na região. O ambiente não apresenta variação paisagística tendo em vista que o sertão é um local vasto e sem nada. A obra não revela as mudanças temporais, nesta por sua vez são apontadas as variações entre passado, presente e futuro dentro de uma perspectiva linear, mas não ocorre nenhuma mudança no modo de vida da família.
           O fato que leva a família a migrar durante todo o decorrer da narrativa é a seca que faz com que a família não tenha nenhuma estabilidade de moradia, o que acarreta na má qualidade de vida.
            O autor da obra Graciliano Ramos ao criar esta obra expõe toda sua indignação social sobre o modo de vida dos retirantes nordestinos, por isto ele coloca nesta obra personagens que confirmam a realidade do povo nordestino no país, povo este que está sempre “condenado” a não ter nenhuma mudança em sua condição de vida social, econômica e sociocultural, são raras as exceções de pessoas que são do nordeste do país e obtêm satisfação profissional, concluem os estudos, assim como têm acesso a uma boa qualidade de vida.
           O primeiro capítulo do livro, que tem por tema “Mudança”, inicia-se com a peregrinação de Fabiano, Sinhá Vitória, filho mais velho, filho mais novo, Baleia, a cadela e o papagaio. Neste capítulo, percebemos o cansaço dos personagens, a fome e as necessidades pelas quais passaram durante a peregrinação pela caatinga. Este trecho da obra também aborda a morte do papagaio que morre com a finalidade de alimentar a família. A desculpa é que o animal é mudo, logo inútil. Porém não existia a possibilidade do louro desenvolver uma boa fala, devido ao fato dos demais personagens falarem pouco. Temos aqui na figura do papagaio a síntese da falta de comunicação na família.
            Localizado no capítulo dois temos os episódios de peregrinação da família pela caatinga, de hospedagem da família na fazenda que se encontrava abandonada e temos a caçada de Baleia aos preás.
             O terceiro capítulo, que tem por título “cadeia”, alude à prisão de Fabiano por ter xingado a mãe do soldado amarelo, depois de ser muito importunado na feira pelo soldado.
            Situado no quarto capítulo da obra “Sinhá Vitória”, percebemos o desejo que Sinhá Vitória tem de possuir uma cama de lastros de couro e as inconveniências que dizia ao marido sobre a cama de vara. 
           Com a chegada do inverno no capítulo sete, chega também a esperança de um futuro melhor, de ver os pastos verdejantes, as árvores frutíferas, o gado engordando e procriando, além da família ficando mais robusta.
            No capítulo nove, que tem por título “Baleia”, a cadela fica muito doente e por decisão da família resolvem sacrificá-la, pois tinham medo de que a doença de Baleia fosse contagiosa e com isto atingisse os filhos. Fabiano, o chefe da família, é quem mata a cadela com um tiro; Baleia só vem a falecer depois de tanto agonizar de dor, pois o tiro que seu dono lhe deu não foi certeiro, durante o período de agonia a cadela sonhava com um mundo de felicidade plena e repleto de comida como ela sempre quis.
           No capítulo final do livro, que se intitula por “fuga”, percebemos que a vida na fazenda se torna difícil devido à seca e com isto a família tem que ir embora da fazenda, apesar de não quererem afastar-se de lá. A família por vezes adiou a viagem até que chegou certo momento que a fazenda havia se transformado em um verdadeiro “cemitério”, por tudo o que estava nela e ao seu redor perecer, e é neste instante que a família decide partir para um local mais habitado, a cidade, mas temiam por não conseguir trabalho; durante a peregrinação para a cidade grande a família pensava em como seria a vida nova e o que esta poderia vir a desencadear.
            De acordo com Álvaro Lins (1977), Graciliano Ramos fez a escolha deste título porque a vida dos personagens também era seca devido às condições sub-humanas, o modo de criação, os costumes da época. Álvaro Lins também diz que a obra representa um estado de razão, de lucidez, de sobriedade.
            De acordo com Massaud Moisés, em seu livro História da Literatura Brasileira, o romance possui uma estrutura novelesca que se caracteriza pela ausência de um conflito central e pelo domínio da ação, de acordo com um ritmo que impõe, a cada capítulo, a mudança do protagonista e do foco de visão. Dentro desta perspectiva, a intenção de Graciliano Ramos de acordo com Massaud Moisés seria abordar com clareza o drama dos banidos pelas secas, sobretudo atribuindo um tom trágico à trajetória de vida dos personagens. Com a palavra Moíses:

Dois aspectos de Vidas secas têm atraído a atenção dos leitores e críticos: o da cachorra Baleia, que acompanha os retirantes como um ser humano, protagonizando um capítulo que tem sido destacado (inclusive publicado pelo autor) como uma história independente, um conto. E do “menino mais velho”, o da criança, nem sempre vista com propriedade, quando lhe é dado comparecer nos microcosmos dos retirantes.
                        (MOISÉS, 2001, p.175)

Como ponto positivo da obra, percebemos que a prosa ficcional de trinta foi considerada como uma literatura da infância, devido a Graciliano Ramos fazer com que seus personagens recordem a infância; tornando explícito assim a criança como a possível invenção de um adulto problemático, descobrindo então o foco dos possíveis problemas, para assim tentar solucioná-los premeditadamente.
            Como ponto negativo da obra, percebemos o intenso foco dado ao lado negativo da vida de quem habita o sertão, a caatinga, o nordeste, regiões em que os habitantes normalmente apresentam pouco grau de instrução e por isto muitas das vezes são discriminados devido à forma de expressão coloquial que utilizam.
 

Michelle da Silva Guedes
FACULDADE CCAA, Rio de Janeiro.


REFERÊNCIAS

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo: Martins, 1973.
MOISES, Massaud. História da literatura brasileira: modernismo 1922 - atualidade. São Paulo: Cultrix, 2001. v. III.
LINS, Álvaro. “Valores e Misérias das Vidas Secas”. In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 36. ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1977. p. 135-167.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Resenha: Vidas secas

Resenha: Vidas secas

 Vidas secas, Graciliano Ramos, (Record; 138 páginas), é um livro que mostra a situação de total miséria e desumanização de um povo, neste caso o brasileiro.

 A leitura do livro favorece uma excelente reflexão a cerca do que é ser homem e de sua existência em um meio pouco favorável. Fica o questionamento: o que é ser animal nessa situação? A história aborda um tema bastante relevante para a época: um grupo está preocupado em sobreviver e, consequentemente, superar problemas vindos da própria natureza humanos e do meio ambiente. A trajetória da família traz à tona todo tipo de pobreza vivida pelos personagens que perambulavam pelo sertão brasileiro.

 No entanto, o autor não trata apenas dos problemas da seca, ele apresenta as mazelas vividas por homens simples totalmente hostilizados e oprimidos pela natureza e pela sociedade. Graciliano Ramos construiu sua obra com tanta veemência que conseguiu retratar uma triste realidade que precisava ser verdadeiramente pensada, fazendo da linguagem um espelho do caso narrado.

A linguagem utilizada é tão lacônica e dura, quanto à história escrita. O autor utilizando-se de criaturas que mal falavam pelo simples fato de não terem o que falar ou por acharem que não o tinham. A verbalização de pensamentos e de sentimentos, portanto, evidencia-se como tarefa bastante difícil para aquela família.

 As personagens principais são Fabiano, o pai, sinhá Vitória, a mãe, os dois filhos que nem nomes tinham e a cachorra Baleia. É notório o fato dos pais não terem consciência da necessidade de amparo, de carinho e de valorização. Eles se dirigiam aos filhos com palavras ofensivas, de modo a chocar todos que leem a obra. E o reflexo da secura no próprio relacionamento familiar.

Tudo isso pode ser pensado a partir da realidade desumana e brutal em que esses seres viviam. Fabiano era confundido com um animal, era um quase bicho, se sentia forte, era humilhado como um bicho e se identificava como tal, como podemos conferir no trecho abaixo:

Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia... (RAMOS, 2008, p. 20)

 Essa dualidade homem/bicho pode ser pensada de duas maneiras: ser bicho era também ser forte, resistente ao meio, à seca, às dificuldades de sobrevivência ao clima árido e por isso tal identificação por parte do personagem. No entanto, podemos observar o lado negativo da questão, ser bicho era não ser homem com todos os seus valores e dignidade humana. A dificuldade de se comunicar, seu completo desconhecimento acerca de sua língua, consequentemente gerou um desconhecimento de sua realidade. Pois, dominar a linguagem, as palavras, é dominar o mundo, a realidade ao redor. Na condição de bicho, era humilhado e explorado pelo patrão e não se dava conta disso; pois, para ele, aquela situação era legítima.

Ao tratarmos de questões tão sérias como a miséria, o preconceito para com pessoas que estão à margem da sociedade, é como se tivéssemos reconhecendo a existência de dois “Brasis”. Um em que a classe burguesa dominante detém o poder e outra sem classificação alguma que compõe aquele grupo que é dominado, ou seja, aquele sem voz, sem poder de decisão, alienado na condição de servo de um regime em que as coisas são impostas. Esse binômio dominantes/dominados, exploradores/explorados foi assim no passado, no presente e certamente perpassará séculos a fora.

 Vidas secas apresenta características da prosa moderna bem demarcadas, de modo que o romance traz uma concepção geral sobre o que é o Brasil em suas entranhas, suas riquezas e pobrezas. E nesse momento a luta é a favor de se conquistar algo diferente. Recriação e afirmação de uma cultura que tivesse a cara do povo brasileiro, ou seja, uma cultura própria e original do povo brasileiro. É bastante latente que não se tratava de fazer apenas uma literatura que abordasse uma região do Brasil; mas, a realidade como um todo.

 No que diz respeito à crítica e à escrita em Vidas secas, Graciliano chamou atenção para a ambiguidade dos ditames, para o quanto a realidade nacional era diferente dos moldes que a sociedade insistia em aplicar. E é pertinente por parte do autor a utilização do homem em sua condição de quase animal que é perseguido por esta sociedade extremamente injusta. E para que o resultado fosse positivo foi preciso circunscrever todo o universo e as consequências dessa realidade.

 
Priscila Gonçalves Nogueira Penna
Faculdade CCAA, Rio de Janeiro.

 

REFERÊNCIAS

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2008.
CANDIDO, Antonio. Dialética da Malandragem. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, n.8, 1970.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

DIÁLOGO


DIÁLOGO[1]

por
Sill Claudio Lopes Furtado

Antunes possuía uma vida plana, pacata, sem ondulações, completamente uníssona, previsível, poderia mesmo se dizer estável no significado mais extremado do termo.  Casado, morador do bairro de Higienópolis, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em um apartamento alugado de dois quartos, pintado com cores neutras, com sua mulher Ana e seus dois filhos, o menino Antonio, que herdara o gênio do pai, calado, quase autista, porém estudioso e responsável e uma menina, Mara, obediente, religiosa e zelosa com as coisas do lar, como a mãe.

Desde a infância, Antunes evitava conversas, discussões, nem pensar, nas peladas com os moleques da rua, preferia o gol.  Poucos são os que se preocupam com a técnica ou a tática empregada pelos goleiros, não deixar a bola entrar bastava. Afinal aquelas explicações e debates ao fim do jogo deixavam-no intranquilo e na sua visão eram desnecessários. Afinal o resultado não poderia ser mudado. 

No esporte, o futebol, o atraía, mas escolhera para torcer o São Cristovão Futebol Clube, o alvinegro da Leopoldina, campeão em 1930 ou 1933, sei lá, não importa, o principal é que não havia outros meninos com quem tivesse de dividir sua paixão e perder tardes e noites discutindo sobre os lances, as infelicidades, os gols perdidos e a falta de engajamento dos atletas que não demonstravam seu amor pelo seu glorioso.

A vida escolar trazia algumas complicações, todavia, destacava-se nas ciências exatas, simplesmente porque elas eram como ele imaginava o mundo, simples e sem senões, não havia tentativa persuasiva que convencesse quem quer que fosse que a raiz quadrada de sessenta e quatro não era oito.

A língua, não era seu forte, adorava o sujeito oculto, tinha certa simpatia pelo indeterminado e pelo passivo, porém detestava o composto. Agora, se a mestra ameaçasse chamá-lo para interpretar algum texto, por mais simples que fosse o pequeno Murilo (este era seu primeiro nome), se estremecia todo, ficava com urticárias, gaguejava e danava a chorar.  Decididamente, não seria um bom orador, político nem pensar.  

Nas outras disciplinas, talvez por seu bom comportamento, concordava com tudo e com todos, não teve maiores dissabores, seus professores sempre o promoviam ao ano seguinte.  Certa vez, na aula de biologia tivera dificuldade para entender o mecanismo da metamorfose como forma de proteção natural, não conseguia entender a naturalidade do recurso utilizado. 

A vida avançou Murilo agora já era um rapaz, Murilo Antunes Calado, prestou serviço militar no exército brasileiro.  Soldado muito conceituado, Calado, era seu nome de guerra, entendeu perfeitamente o papel que deveria desempenhar para dar sua contribuição à pátria, obedecer sempre seus superiores e realizar as tarefas sem questionamento.  Era a época do regime de exceção, da ditadura.  Bons tempos aqueles.

Calado, posteriormente saiu do exército antes de ser promovido a cabo.  Houve mudanças no país e na estrutura das Forças Armadas que não o satisfizeram, além do que, deixando de ser proscrito, deveria expor suas idéias a um pequeno grupo de comandados o que poderia ser desgastante, provavelmente alguns discordariam (o novo regime já o permitia), haveria debate e ele odiava polêmicas.

O jovem Murilo sente que seu corpo anseia por um complemento, busca um adjunto para o restante de sua existência.   Nos bailes (como eram conhecidos as baladas, a night ou o pancadão de hoje) que freqüenta, seu jeito introvertido acaba dividindo opiniões, algumas meninas o acham misterioso e praticamente imploram por uma palavra de carinho.

Em uma tarde dessas que se destacam das outras seja pela clareza e luminosidade ou pelos fatos eloqüentes que a circundam, Calado avistou Ana, vestida de azul claro, tristonha, sentada sozinha na mesa em frente à lanchonete do Clube de Sargentos do Rocha, onde a matinê havia sido cancelada e as atrações remarcadas para o sábado seguinte, se não houvesse outros imprevistos que não as impedissem.  

Certamente você deve estar se perguntando quais foram os imprevistos que impediram a matinê daquela tarde luminosa do baile do Rocha em que Calado conheceu Ana, mais infelizmente Calado nunca disse uma só palavra sobre isso.

 

 

 

O que realmente importa é que Antunes ao conhecer Ana, sentiu que ela era sua cara metade, sua alma gêmea, a goiabada para o seu queijo, a tampa da sua garrafa, a linha para sua agulha e o chinelo para seu pé descalço.  Afinal Antunes, falava pouco ou quase nada, mas seus hormônios o faziam sentir intensamente o que não sabia expressar.

O namoro foi quase automático, sem maiores delongas, Ana, moça de família, filha única, católica fervorosa, prendada, simples e muito dedicada à mãe Luzia, deficiente visual, viúva de um militar há mais de quinze anos, como todas as raparigas da época tencionava encontrar um rapaz sério e trabalhador que a levasse ao altar.

A reputação de Antunes falava por si só.  Sisudo, porém honesto, tímido, mas, sobretudo trabalhador, bom filho estava sempre ao lado da mãe, Dona Inês, também viúva que infelizmente por ocasião da morte do esposo em um acidente com explosivos, perdera definitivamente a audição, fato que em nada diminuíra a estima que nutria por seu filho Calado.

Um fato veio a antecipar os planos de matrimônio de Antunes e Ana. Passeavam pelas ruas tranqüilas do bairro, Inês e Luzia, quando não se sabe bem de onde, surge uma vemaguete em alta velocidade e num descuido visual de Luzia e apesar dos gritos dos transeuntes que não foram ouvidos por Dona Inês, colheu as duas senhoras, colocando Luzia em estado grave no Hospital Salgado Filho no Méier, ato contínuo Inês é morta.

Ana e Antunes se calam perante os acontecimentos, ele mais uma vez órfão, ao perder sua confidente sente que ninguém mais vai ouvi-lo com a mesma doçura.  

Ana ainda tem a esperança que a providencia divina não lhe faltará, infelizmente, o destino também retira Luzia, que não resistiu aos ferimentos, de sua vida, falta-lhe a partir de agora a luz que guiava seus caminhos, tudo parece ser revestido por trevas, ainda bem que Ana tem o consolo dele, Calado.

Ana, filha única de pai militar, na falta da mãe, passa a receber a pensão do genitor, propõe a Antunes a junção dos trapos, morarem juntos (regime precursor da união estável) e Calado, para não perdê-la (não se sabe se a companheira ou a pensão) aceita. 

Para Antunes a não formalização do casamento fora uma saída bastante conveniente, proclamas, testemunhas, a famosa resposta à pergunta do padre, nada disso o agradava muito, além disso, o importante era a junção das vidas numa só carne, uma só idéia e, sobretudo numa só palavra.

Vieram os filhos, primeiro Mara, linda, delicada, lembrava à avó paterna, chorava pouco, dispensava maiores cuidados, desde cedo cativava o pai, era capaz de ficar horas e horas a contemplá-lo sem exigir um só murmúrio ou exclamação de satisfação ou agrado.

Antonio, Toninho como era pouco chamado, trazia nos olhos um que de auto-suficiência, de conhecimento interior que dispensava maiores explicações, aprendera todas as operações e as letras instintivamente, possuía as melhores notas da sala, lembrava muito ao pai, porém não comungava da mesma paixão pelo São Cristovão, preferia dedicar-se entusiasticamente ao Bonsucesso, mesmo contrariando às pretensões implícitas de seu genitor.

Exímio escrevente processual, Calado fazia a sua profissão como verdadeiro sacerdócio, concursado que fora, mesmo tendo zerado a prova oral, que era apenas classificatória, havia ido tão bem na etapa escrita que foi aprovado.  Quando chamado para a posse não foi contemplado com tarefas edificantes, o que não o agradou, porém não esmoreceu e continuou calado.

Antunes já não é mais o mesmo de antes, sua vida profissional passa por turbulências que jamais imaginara enfrentar.  Acusado de corrupção passiva, Calado prefere silenciar por entender que o silêncio é a principal arma dos justos e que dessa forma pautou toda a sua vida.

Exonerado, injustamente, sente que a família é agora seu único porto seguro, volta ao seio do lar, com imensa dificuldade em encarar sua mulher e filhos, pois poupara a todos das agruras que vinha atravessando.  Suas feições são outras, seu semblante pesado, o olhar firme e sereno de outrora mareja com a lembrança dos verbetes terríveis proferidos contra ele.  Regurgita ainda a impressão causada pelos vocábulos, as interjeições e as exclamações usados para lhe acusar.  

Julgado e sentenciado, mesmo tendo exercido o direito de permanecer calado, Calado fora injustiçado e destituído daquilo que havia conseguido por direito e mérito próprio, a palavra de outrem, não a sua, que o uso tanto evitara, se voltara contra ele e o igualara ao mais vil dos seres, o que não tem dignidade, serventia, pois perdera seu objeto de labor e com ele a sua voz.

Murilo, sentindo-se mudo diante dos fatos, eleva seus pensamentos aos céus, recorre às orações que aprendera na infância, mas sente intensa dificuldade de manter ligação espiritual com Deus.  Sempre preferira as preces tradicionais, prefeitas, pois que não clamam pela dialética, basta a simples súplica e o merecimento para serem atendidas. Modernamente, dizem os espiritualizados ser necessária a comunhão de mentes e espíritos para conseguirmos as graças solicitadas.

No silencio de seu interior, Antunes toma uma decisão e resolve poupar àqueles que ama ensurdecedoramente, de seus infortúnios.  Manter-se-á calado diante dos acontecimentos e ele, Calado, sairá de casa.  Seus filhos já estão criados, sua mulher recebe a pensão paterna do exercito que é o bastante para mantê-la e além do mais são fortes e como ele Calados, não merecem o exprobro público.

Calado sai de casa pela manhã bem cedo, não consegue mais encarar a mulher e os filhos, deixa apenas um bilhete onde pede que não o censurem e que os ama com toda a força que suas palavras não serão capazes de traduzir.  A luz do dia que raia no horizonte é sua única testemunha.  A vida parece se lhe esvair e a angustia em seu peito prenuncia a realidade de seu novo mundo.

Desde o início do relato das desventuras de Antunes Calado, muitos anos se passaram.  Calado, maltrapilho e desnutrido, leva a vida sem maiores pretensões como um morador de rua comum.  À noite, divide um barraco com outros sem terra, sem família, sem voz e sem dignidade, no Morro do Quieto e durante o dia pode ser visto pelos passantes mais atentos, pelas ruas sombrias da Cidade Maravilhosa, com as mãos estendidas, suplicando: Dialoguem comigo pelo amor de Deus.

 

 



[1] Trabalho apresentado ao Professor André Scucato como requisito parcial para aprovação na disciplina Tópicos Especiais do curso de Letras da Faculdade CCAA. Rio de Janeiro. 08 de novembro de 2011
 
 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

E NO MEU PEITO CABE VOCÊ


E NO MEU PEITO CABE VOCÊ

 

por

Marcelo Zaly

 

 

 

A leitura esclarecedora

Os 40x10 do quintal considerando a parte frontal

A mesa destruída pela ação do tempo – depreciação natural

A tia avó está com licantropia – doença mental

Suspirei com veemência

Desejei a vitória para que nos fins seja uma vencedora

Sem rodeio, escrevo tudo que sinto e vejo

Eu amo minha progenitora

Os fundos têm 40x20

E no meu peito cabe você.

 

O solo, o chão desregulado

Cimento, pedra e gramado

Fico sentado no sofá marrom observando todo arredor

O solitário pé de mamão

As colunas com vergalhões aparentes...

Continuidade do que era pra ser um casarão – hoje casebre.

A pequena natureza rasteirinha

Fartavam-se dos raios do astro rei

E a brisa gélida desta manhã.

Nos ouvidos o dedilhar extraído das cordas do Groovin

A varejeira acabou de pousar

Vasculha os centímetros deste lugar

Parece querer se alimentar – eu tenho fome!

E pressa de encontrá-la.

I! A mosca partiu em retirada

Acredito que tenha se assustado com o som do liquidificador – um Walita com copo de vidro transparente.

Amo-a cada dia mais.

E no meu peito cabe você.

 

A vizinha portuguesa

O cumprimento

O balbucio balbuciante

As pequenas arvorezinhas

Suas flores na cor lilás

As toalhas balançam nos varais

O muro de salpisco – alto

Ah esses meus rabiscos!

Persisto, insisto – fortuito

A rogativa prece

A indulgência desfavorece

Violência, agressão, lutas

Tamanha confusão

A ignorância em exposição 

As lágrimas lavam as almas, legitimam a redenção

A obcecação, a obscenidade não podem imperar.

A paixão desenfreada precisamos abandonar, precisamos frear.

O amor puro vamos encontrar e ele vai nos fortalecer.

A união dos gametas programa as heranças dos ancestrais

Leis de causa e efeito

A anulação material

A forte energia na vinculação ao espermatozóide.

As características biológicas dos pais vêm do chakra cerebral

Iluminando tudo a volta como pequeno arco-íris

E no meu peito cabe você.

 

A luminosidade passa de prateada para o tom azulado

Há fecundação no óvulo

A união dos receptores de proteína na pelúcida.

A reação enzimática.

A perfuração foi facilitada normalmente

Em vinte minutos

Há implantação na câmara uterina

Ela deseja Alice – então será o nome da nossa doce menina.

A jornada é cheia de desafios

A distância a vencer é larga

Têm velocidade de um centímetro por minuto

O alvo, o porto seguro estão a uns trinta centímetros.

Devagarzinho venho voltando

Meu corpo sobre a cama

São 04h 49min – estou despertando

A ansiedade toma conta de mim

O celular tocou!

Ela chorando felicidade disse me amar sim.

“AMO VOCÊ cada dia mais e mais...

É impossível esquecer você,

É impossível esquecer o que ainda nem vivi”

Interatividade, timidez

Escrevi um poema no qual ditei seu nome

Há amor desta vez

E no meu peito cabe você.

 

Quanto eu mereço? O que importa é que caibo no seu coração!

Terá repleta de beleza e bondade por trás da porta estreita.

Sim, você tem a medida certa

Hoje eu preciso de você – hoje só sua presença é capaz de me deixar feliz.

Estou jogando fora as chaves e trancafiando-a no meu pensamento.

O amor nos invade

O amor cara metade

Sim, consigo te pegar no colo!

Eu quero teu amor sincero

A muito espero – hoje o dia e as emoções

Amanhã as realizações – nosso vídeo tem e fala de amor

Nosso vídeo é o nosso mais puro amor

E no meu peito cabe você.

 

04/08/2011


 

 

 

 

UM RELACIONAMENTO OU UMA LOUCURA?


UM RELACIONAMENTO OU UMA LOUCURA?

 

por

Lília D.

 

Naquela tarde, tudo parecia mais divertido do que nunca fora para Mariana. Isto porque seu novo professor de história, do colégio, mais parecia um deus grego saído dos livros do que, necessariamente, um respeitado professor. Bastante sério, que por sinal reparara, mas algo nele a instigava... Ele sequer fizera um comentário sobre esposa, filhos ou família como seus professores costumavam fazer, mas então porque ele tinha uma marca de alinça deixada pelo seu no seu anular esquerdo, em sinal que já fora casado?! Será que eles haviam se separado ou ela morrera?! Bem, estas perguntas só ele poderia responder então prefiriu se aguentar até que o professor se acostumasse com a turma e começasse a dizer alguma coisa a respeito de sua vida pessoal.

No dia seguinte, chegara cedo. Rezando para que seu professor também chegasse e pudesse lhe arrancar alguma informação a respeito dele...e para sua sorte foi o que ocorreu. Ela pediu licença e entrou, deixou sua mochila na carteira e andou até ele, mas no meio do caminho a vergonha falou mais alto e foi em direção a porta e saiu. Lá fora ela se perguntava, porque não havia criado coragem e falara com ele. Bem, a explicação era simples: se ele não dava o menor sinal de que queria falar de sua vida pessoal com seus alunos como ela poderia lhe perguntar algo que não fosse relacionado a matéria?!

Pensou, repenseu e finalmente chegou a uma solução: se ele só responderia questões referentes a matéria então ela lhe perguntaria sobre a matéria e, assim, tentaria criar algum vínculo de amizade para mais pra frente poder finalmente lhe perguntar sobre a sua vida pessoal. Voltou para a sala e foi na direção do professor, novamente, e desta vez convencida de que seriam amigos. Lhe pediu licença e perguntou se ele se importaria de lhe tirar algumas dúvidas da matéria do dia anterior que ele havia dado e que ao chegar em casa para estudar ela se dera conta que não havia entendido. Ele lhe deu um sorriso, e disse se ela se importava de se reunirem mais tarde, por volta de 17 horas, porque após a aula ele daria aula em outro colégio. Ela concordara, e ele lhe pediu que não comentasse com mais ninguém, porque a escola não permitia este tipo de reunião fora do horário das aulas. Ela se surpreendeu com a compreensão e se sentiu culpada já que era mentira, que não havia entendido a materia, ao contrário, inclusive tirara dúvidas de alguns de seus amigos.

Ela sorriu, sem graça, e lhe disse que não queria causar nenhum problema, ele sorriu de volta e disse se ela se importava de só marcarem ali na porta do colégio e irem para a casa dele que assim ninguém saberia só os dois. Ali estava a oportunidade que ela precisava, pensou, e retrucou: "ah!, mas eu não quero ser incoveniente, sua esposa pode querer conversar com você" e riu, esperando alguma resposta. Ele sorriu, dizendo que não seria problema já que morava sozinho, pois não era mais casado e sua filha só o iria visitar no fim de semana. Pronto! Descobrira! Já foi casado e tem uma filha. Porém, a segunda informação de alguma forma a incomodara, mas não sabia o porquê.

Às 17 h em ponto, lá estava ela, aliás antes das 17. Ficara tão ansiosa que chegara meia hora antes do combinado. Não conseguiu mentir para sua mãe, porém não lhe disse o real motivo de sua ida à casa dele, disse exatamente o mesmo que dissera ao seu professor: "estou com dúvida na matéria". A hora parecia passar devagar, olhou em seu relógio, marcavam 17h 03min. Estava atrasado, mas antes que tivesse tempo de ficar com raiva ele a chamou: "Mariana, desculpe o atraso. Então?! Vamos?" Ela se virou para a rua e lá estava ele, mais lindo que nunca, com óculos escuros. Nossa! Seria difícil fingir se concentrar assim! Ela deu a volta no carro e se sentou ao seu lado, no banco do carona. Mas, sua alegria durou pouco... Isto porque ele precisava passar no mercado, mas, por quê? Ela sorriu, fingindo não ter nenhum problema, mas ficara curiosa para saber, porque ele "precisava" ir ao mercado. Ao chegarem, ele pediu que pegasse um carrinho e prometeu que não iriam demorar, mas antes que ele lhe desse as costas ela o segurou e perguntou:

_ Márcio, por que estamos no mercado? Se é por minha causa não precisa tanta cerimônia eu como qualquer coisa... - lhe disse com um meio sorriso.

_ Bem, realmente era por sua causa, mas também por mim. Eu não tive tempo de ir ao mercado e não tenho nada, nem balinha - lhe respondeu rindo.

Ela não aguentou a piada e riu também, riram juntos e ele sem se dar conta lhe segurou a mão, mas na cabeça de Mariana só poderia ser porque ele a via como uma filha e isso a deixou com raiva.

Eles andaram um pouco pelo mercado, de mãos dadas, e então ela se dera conta que mesmo quando ele se dirigia a uma prateleira para pegar alguma coisa ele voltava e lhe pegava novamente a mão. Foi então que ela começou a pensar muita coisa... menos que ele era como um pai para ela. Eles andaram mais um pouco e, antes que ele a pegasse novamente pela mão, ele percebeu que o tempo todo eles andavam de mãos dadas... mas porque ela não o alertara?! Bem, não deixaria a menina envergonhada. Quando eles estivessem no carrro lhe perguntaria. E foi o que fez: antes de ligar o carro ele pegou na mão de Mariana, olhou dentro de seus olhos e perguntou:

_ Mariana, desculpe ter andado de mãos dadas pelo mercado, mas quero saber uma coisa. Por que você não me avisou?

_ Ah! Bem... é que... - com o rosto todo vermelho, de vergonha, pela pergunta direta murmurava uma resposta, mas não conseguia completar uma frase inteira. E Márcio, então, continuou:

_ Mariana você realmente está com alguma dúvida na matéria?! - lhe perguntou esperando um não, mas se surpreende com o porquê.

Sem responder, pela vergonha que a corroía, só conseguiu balançar a cabeça negativamente. Ele levantou sua cabeça pelo queixo num gesto delicado e sensual e fez uma coisa que nem ele esperava fazer, mas no fundo os dois sabiam o porquê. A beijou. Foi um beijo inicialmente lento, como se um estivesse saboreando a boca do outro, e então ele a abraçou e a beijou mais profundamente, com mais intimidade e extrema sensualidade. Ela gemeu de prazer. Ao ouvi-la ele parou, a olhou e disse:

_ Mariana, você não é minha filha, mas tem idade suficiente pra ser e quero te fazer uma pergunta, que por ser pai tenho que fazer, mas quero que você me responda com muita sinceridade...

Antes que ele perguntasse Mariana já pensava na pergunta e morreria de vergonha se ele a pronunciasse, então lhe tampou a boca com os dedos e em tom sensual lhe disse ao ouvido: 

_ Não sou virgem se é o que quer saber, mas se o fosse eu nem te diria, porque o que estou pensando em fazer independe disto, é só um detalhe e um detalhe que não me arrependeria de perder contigo.

_ Mari, posso te chamar assim?!

_Claro, querido. Posso te chamar assim?!

_ Se não se importar me chame de tudo menos de professor...

Quando disse isso, Mariana não aguentou e começou a rir, ele também e antes que voltassem às caricias ligou o carro e lhe disse:

_ Vamos, que acho que aqui não é um bom lugar pra fazer isto. E partiram.

No caminho eles foram conversando. Ele querendo saber, porque ela se interessara por ele, já que dava as aulas com muita seriedade, quase com mau humor, e ela lhe explicou que era isso que a atraía, porque sua curiosidade em saber o motivo de agir assim a corroia. Riram, e continuaram a conversa, mas agora como se fossem dois namorados que acabaram de se conhecer. Perguntaram sobre gostos, músicas que ouviam, até sobre seus signos eles conversaram. Quando chegaram à casa de Márcio, subiram o elevador de mãos dadas e ainda dentro eles se beijaram. Sem se importarem pro que iriam pensar se os vissem juntos, devido à diferença de idade. Eles já nem falavam da escola, porque ao final deste dia nem sabiam como se olhariam, sem transparecer este sentimento que estava começando a surgir...

Ele lhe mostrou a casa toda, inclusive o quarto da filha. Então, sem dizer nada, antes que ela pudesse reagir, a puxou para mais perto e a pegou no colo e a beijou. Surpresa só pensava que nunca esqueceria este dia. 

A pôs no chão e, de mãos dadas, foram para a cozinha. Antes que ela pudesse se oferecer para ajudar ele lhe disse:

_ Nem pense em me ajudar, você é minha convidada. Aliás, acho que depois de hoje seremos bem mais... E não terminou a frase, apenas deixou no ar. Para curiosidade de Mariana. O que ele quis dizer?! Ela só saberia se ficasse.

Ela se sentou num dos bancos da cozinha e o admirou. Como ele era cuidadoso. Para um homem parecia estar bastante acostumado a cozinhar e, então, ficou pensando porque seu pai não cozinhava para sua mãe...

Antes que chegasse a uma conclusão sobre o casamento dos pais, ele interrompeu seus pensamentos e disse:

_ Antes de comermos gostaria de tomar um banho. Você se importa de esperar?

_ Não, aliás bem que gostaria de um banho também, aceita companhia?

_ Hmmmm... acho que vou demorar hoje no banho... - concluiu rindo, de forma instigante.

Ela riu e eles foram de mãos dadas até o banheiro. Mas, para sua surpresa, ele tinha uma suíte e antes que pudesse pensar qualquer coisa, ele a puxou para perto, colando seu corpo no dela e se beijaram. Então, ele foi beijando seu pescoço, descendo para o colo e com uma das mãos por dentro de sua blusa, fazia carícias em suas costas. Lhe desabotoou o sutiã com uma das mãos e com a outra levantou a blusa, fazendo-a levantar os braços para despi-la, e, antes de tirar o sutiã, a pegou no colo e se dirigiu para a cama, onde a deitou com todo cuidado, sem lhe desviar o olhar. A beijou novamente e a enlaçou com uma das pernas, para olhá-la enquanto lhe tirava o sutiã, lentamente e com delicadeza, saboreando cada poro de sua pele. Ao tirar por completo o sutiã a olhou, maravilhado com o formato, a cor rosada de seus bicos e notou como estavam rijos. A tocou levemente com os dedos e tomou um deles com a boca. Com a língua, fazia pequenos círculos, joguinhos que a estavam enlouquecendo e a faziam gemer de prazer. Voltou a olhá-la e levantando o corpo foi descendo-lhe a saia. Se despiram por completo e após algumas carícias enlouquecedoras ele a tomou. Com cuidado, primeiramente, pois não estava convencido de que ela não era virgem, mas ao perceber que ela lhe dissera a verdade aumentou a velocidade e chegaram ao gozo juntos. Ainda deitados se beijaram e de mãos dadas, ainda com a respiração acelerada, pelo ato, entraram no banho. Após mais algumas horas de diversão, Mariana se deu conta do horário e lhe disse que combinara com sua mãe de chegar no máximo às 22, como já eram 21 tinha que se arrumar, porque era mais ou menos o tempo que levaria até chegar em casa. Ele se vestiu e antes que ela se negasse ele disse que não se preocupasse, chegaria cedo. Ele a levaria de carro, não a deixaria ir sozinha. Ela discutiu um pouco, mas por fim aceitou a gentileza e o advertiu que não se beijassem porque morava em seu prédio desde pequena e o porteiro poderia ver e contar para sua mãe. Ele lhe respondeu que não se importava, já que não era casado não devia satisfações a ninguém e caso sua mãe brigasse com ela que o avisasse, ele conversaria com sua mãe. Ela se espantou de início, mas gostou. Enfim, parecia que ele não queria só isso...

Ele a deixou na porta de seu  prédio e lhe abriu a porta para que saísse, mas antes de conseguir correr para o prédio ele a segurou e a beijou. O porteiro, ao vê-la entrar, deu boa noite em meio a risinhos debochados e ela, sem graça, o saludou de volta. Dentro do elevador, se perguntava o que diria a sua mãe.  Ao notar que seus cabelos ainda estavam molhadas devido ao banho, não lhe restava outra alternativa senão contar a verdade. Não mentia nunca para sua mãe, mas só de pensar em como a mãe reagiria morria só de pensar. Nunca brigara com ela. Eram muito amigas e conversavam sobre tudo, inclusive quando perdeu a vingindade. Sua mãe que a acompanhou para o ginecologista pra que avaliassem se ela poderia tomar pílula e todo mês sua mãe, pontualmente, lhe comprava e junto lhe dava um caixa de preservativos. Sempre foram amigas, cúmplices. Mas, será que isso acabaria agora?! Ao abrir a porta sua mãe a esperava acordada. Estava vendo tv e nem se importara com a hora, a abraçou e ao lhe perguntar como foi o dia ela lhe respondeu com um simples: "ótimo". A mãe riu, mas a deixou ir para o quarto trocar de roupa. Ainda nem acabara de trocar a roupa sua mãe bateu na porta, entrou e lhe disse: 

_ Filha, sabe que você não precisa me esconder nada, né?! Se não quiser contar pro seu pai desse seu namorado novo tudo bem, mas não precisa mentir que foi no seu professor. Agora, me conta! Estou curiosa para saber quem é o felizardo?

Mariana se espantou e acabou rindo porque mesmo que quisesse não conseguiria mesmo mentir. Sua mãe até se dera conta que ela não estivera estudando e respondeu com sinceridade:

_ Mãe, eu realmente não estava estudando... eu ia mas, tomou outro rumo minha visita...

_Hã?? 

_ Bem, vou te explicar. É melhor você se sentar...

Se sentaram na cama de Marina e ela lhe contou como tudo ocorrera: o passeio pelo mercado, os beijos no estacionamento, enfim, a tarde de amor na cama de seu professor. Sua mãe estava em choque! Mas, não lhe demonstrara nada, nem sequer nojo. Nada! Parecia tão surpresa, quanto ela mesma ficara, ao se dar conta de que ele também a olhara com outros olhos.

Enfim, passados alguns minutos, sua mãe lhe disse:

_ Então seu novo namorado é seu professor de História?

_ Não sei, mas depois de hoje penso que sim. Ele me disse que faria questão de falar com a senhora se eu tivesse algum problema e que me proibia de te esconder alguma coisa, a você e ao papai. Ele me proibiu de mentir!

_ Bem, se ele tem uma filha, acho que ele está agindo como gostaria que um homem agisse com ele se o mesmo ocorresse com ela... Sei que você deve estar pensando o que vou dizer, então só tenho uma coisa a dizer: Que bom gosto hein!! Eu também faria o mesmo no seu lugar!

Relaxada e espantada, Mariana riu com a mãe. Conversaram, e sua mãe decidiu que, por enquanto, já que não sabiam se isso tudo daria realmente em compromisso, não falaria nada ao seu pai e que ela poderia se encontrar mais vezes com ele, mas que ela fazia questão que lhe contasse tudo! Porque ela iria arder de curiosidade. Mariana e sua mãe gargalharam. E ela contou como havia sido tudo e por fim se deitaram.

No dia seguinte, Mariana levantou cedo, pois agora que ela tinha um motivo e uma desculpa, também, para se arrumar melhor. Tudo bem que o uniforme não ajudava, mas poderia dar um jeito com uma maquiagem, mesmo que leve, e faria um penteado diferente. Todos, inclusive Márcio, se dariam conta da mudança.

Se arrumou, tomou café e foi para a escola. Sua mãe, como sempre, a deixara na porta, de carro, e seguiu para o trabalho. Ao entrar, ainda no portão, seu olhar se cruzou com seu professor, agora não mais estranhos. Precisava manter o controle, mas devido ao tumulto de alunos na porta ninguém percebeu quando ele lhe acariciou a mão ao passar. Ela sorriu, ele sorriu de volta e se cumprimentaram com um simples "Bom Dia!" e seguiram para suas salas, lado a lado, ele para a sala de professores e ela para sua aula de geografia. No intervalo, estranhou a falta de Márcio. Ele sempre descia pra comer alguma coisa. Mas, por que não descera?! Então, quando olhou para as escadas percebeu que ele estava indo embora e pelo visto com todo seu material. Ela não entendeu. Sua próxima aula, depois do intervalo, era com ele! Só conseguia imaginar que ele fora mandado embora e o pior porque ele decidira, sozinho, que o melhor era sair da escola antes que algo mais acontecesse. Passou o resto do intervalo triste. Mas não chorara, estava tão chocada, que não conseguia chorar. Nem uma lágrima.

Já na sala, se acalmou. Nada ocorrera. Até esquecera que ele era professor substituto. Na sua confusão mental, pelo que vira, nem pensara nisto. A professora estava de volta. Então, ele não seria mais seu professor... Então será que haviam esperanças?! Agora que não era mais seu professor poderiam ficar juntos! Não seria antiético. Seria?!

Passou a aula toda pensando na saída de Márcio. Será que ele deixaria a escola ou apenas daria outra disciplina?! Já que a professora que ele substituira retornará... Quando o sinal da saída tocou quase saltou. Nem se dera conta do tempo que passara pensando. Guardou seu material e ainda no portão viu que Márcio estava encostado em seu carro, do lado de fora do carro. Na frente de quase a escola inteira! Meu Deus! Ele não faria isso, faria?!

Ao sair, fingiu que não o vira. Mas, era tarde e ele a acompanhava com o olhar sua saída inteira, sem desviar um segundo. A pegou pela mão e se beijaram. Ainda na porta, todos começaram a cuchichar e ela se sentiu a mulher mais sortuda do mundo, com toda a vaidade, normal em sua idade. Duas amigas suas, que estavam paradas na calçada conversando, a olharam e piscaram. Elas aprovaram! Era o que ela precisava, o apoio de suas amigas. Entraram no carro... Mariana acordou. Loucura?! Sonho?! Relacionamento?! Mariana teria que descobrir, mais tarde, na escola...