VIDAS SECAS
A obra Vidas secas, de
Graciliano Ramos, (Martins, 1973) apresenta ao longo do romance, a trajetória
de uma família de retirantes que percorrem a caatinga do sertão nordestino em
busca de uma vida melhor e, principalmente, procuram fugir da seca, miséria,
fome.
Publicada em 1938, sendo os personagens principais, Fabiano, Sinha Vitória, dois filhos, a
cachorra baleia e um papagaio. O romance é marcado como obra regionalista, de denúncia e crítica
social. Em analogia com o sertão do Nordeste Brasileiro.
O próprio título da obra remete o
leitor a um cenário de seca, desde a vegetação, amarela e cinzenta, até o
pensamento dos personagens. A comunicação entre eles poderia ser comparada como
de um “animal”, já que não há diálogo, apenas sons, onomatopeias. O narrador
entra em ação, visto que não há comunicação entre os envolvidos na história.
Como Antonio Candido afirma em seu artigo sobre a obra de Graciliano Ramos:
A partir de personagens quase
incapazes de falar, devido à rusticidade extrema, para os quais o narrador
elabora uma linguagem virtual a partir do silêncio.
(CANDIDO, 1973, p. 104)
Vidas secas surpreende pelo relato objetivo
dessas vidas sem horizontes, sem grandes ambições e por consequência acabam
sendo exploradas por outros homens. Sendo apenas manifesto pela Sinhá Vitória
seu imenso desejo de ter uma cama de lastro de couro, igual a do “Seu Tomás da
Bolandeira”, visto que dormia em cama de varas e por Fabiano o desejo de um
futuro promissor para seus filhos.
É possível perceber a crítica em
relação à sociedade, há o conformismo diante daquela vida em que se encontram,
não desejam evoluir, estão estagnados, acomodados. Sofrem por estarem vivendo
aquilo, mas não tomam a iniciativa de mudar de rumo. A família de Fabiano
apresenta essas características em diversos trechos do livro. Antonio expressa
este pensamento no seguinte fragmento:
Em Vida secas não vemos a
sociedade do alto, nos seus planos e nas suas linhas de movimento coletivo, mas
a surpreendemos na repercussão profunda dos seus problemas, através de vidas
humanas que vão passando, a braços com a miséria, perseguidas por opressões e
sofrimentos.
(CANDIDO, 1973, p. 105)
Não há uma
relação amorosa, conversação, entre pais e filhos, são secos uns com os outros. Sinhá Vitória, desprovida de qualquer
conhecimento, não consegue explicar para seu filho o significado da palavra
inferno e acaba tratando-o mal.
O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por
ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou à
cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe:
– Como é?
Sinha Vitória falou em espetos quentes e
fogueiras.
– A senhora viu?
Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o insolente
e aplicou-lhe um cocorote.(RAMOS, 1973. p. 56)
Já para Fabiano as crianças não
deveriam perguntar sobre acontecimentos ou palavras que tivessem dúvidas,
diante de uma pergunta do filho. É possível perceber tal afirmação no trecho
abaixo:
O menino estava ficando muito
curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da
conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: - Esses capetas têm ideias...
(RAMOS, 1973. p. 10)
Mesmo Fabiano não tendo um afeto explícito com os filhos, nunca
deixa de pensar neles. Quando foi preso (no capítulo Cadeia) remoia aquele
sentimento de pensar nos filhos, em como iriam ficar com a sua ausência sem luz
e sem sal. Diante disto, é possível perceber a preocupação, que Fabiano tinha
com os filhos, mas não conseguia demonstrar isso a eles, talvez porque nunca
recebeu e, no entanto, não aprenderá a conceder.
Dentre os personagens, a cachorra
Baleia é a mais humana dentro da obra, ironicamente, ela está em todos os
ambientes, expõe seus pensamentos, indagações, sobre a própria família, e por
ser um animal é a que mais pensa durante toda a narrativa, até mesmo quando
morre continua no pensamento da família.
O sertanejo em Vidas secas não é qualificado como sentimental, pitoresco, e sim o
indivíduo que é influenciado pelo meio (seca), em que acaba se transformando em
um “homem-bicho”, diante das condições em que vivem.
Em suma, os personagens passam a vida
inteira lutando para sobreviver já que o ciclo do livro é iniciado com
“Mudança” e finalizado com “Fuga”, diante da seca, são secos, amarelos, duros,
fechados e magros, estão sempre tendo que se locomover de onde se encontram em
face dos acontecimentos que acabam presenciando.
Juliana Aguiar Brando.
Faculdade CCAA, Rio de Janeiro.
REFERÊNCIA
RAMOS,
Graciliano. Vidas secas. São Paulo.
Martins, 1973.
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