quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Resenha: VIDAS SECAS


VIDAS SECAS

 

A obra Vidas secas, de Graciliano Ramos, (Martins, 1973) apresenta ao longo do romance, a trajetória de uma família de retirantes que percorrem a caatinga do sertão nordestino em busca de uma vida melhor e, principalmente, procuram fugir da seca, miséria, fome.

Publicada em 1938, sendo os personagens principais, Fabiano, Sinha Vitória, dois filhos, a cachorra baleia e um papagaio. O romance é marcado como obra regionalista, de denúncia e crítica social. Em analogia com o sertão do Nordeste Brasileiro.

O próprio título da obra remete o leitor a um cenário de seca, desde a vegetação, amarela e cinzenta, até o pensamento dos personagens. A comunicação entre eles poderia ser comparada como de um “animal”, já que não há diálogo, apenas sons, onomatopeias. O narrador entra em ação, visto que não há comunicação entre os envolvidos na história. Como Antonio Candido afirma em seu artigo sobre a obra de Graciliano Ramos:

 

A partir de personagens quase incapazes de falar, devido à rusticidade extrema, para os quais o narrador elabora uma linguagem virtual a partir do silêncio.

(CANDIDO, 1973, p. 104)

 

Vidas secas surpreende pelo relato objetivo dessas vidas sem horizontes, sem grandes ambições e por consequência acabam sendo exploradas por outros homens. Sendo apenas manifesto pela Sinhá Vitória seu imenso desejo de ter uma cama de lastro de couro, igual a do “Seu Tomás da Bolandeira”, visto que dormia em cama de varas e por Fabiano o desejo de um futuro promissor para seus filhos.

É possível perceber a crítica em relação à sociedade, há o conformismo diante daquela vida em que se encontram, não desejam evoluir, estão estagnados, acomodados. Sofrem por estarem vivendo aquilo, mas não tomam a iniciativa de mudar de rumo. A família de Fabiano apresenta essas características em diversos trechos do livro. Antonio expressa este pensamento no seguinte fragmento:

 

Em Vida secas não vemos a sociedade do alto, nos seus planos e nas suas linhas de movimento coletivo, mas a surpreendemos na repercussão profunda dos seus problemas, através de vidas humanas que vão passando, a braços com a miséria, perseguidas por opressões e sofrimentos.

(CANDIDO, 1973, p. 105)

 

              Não há uma relação amorosa, conversação, entre pais e filhos, são secos uns com os outros. Sinhá Vitória, desprovida de qualquer conhecimento, não consegue explicar para seu filho o significado da palavra inferno e acaba tratando-o mal.

 

O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe:

– Como é?

Sinha Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.

– A senhora viu?
                                    Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote.
                                   (RAMOS, 1973. p. 56)

 

Já para Fabiano as crianças não deveriam perguntar sobre acontecimentos ou palavras que tivessem dúvidas, diante de uma pergunta do filho. É possível perceber tal afirmação no trecho abaixo:

 

O menino estava ficando muito curioso, muito enxerido. Se continuasse assim, metido com o que não era da conta dele, como iria acabar? Repeliu-o, vexado: - Esses capetas têm ideias...
                                   (RAMOS, 1973. p. 10)
 
                           Mesmo Fabiano não tendo um afeto explícito com os filhos, nunca deixa de pensar neles. Quando foi preso (no capítulo Cadeia) remoia aquele sentimento de pensar nos filhos, em como iriam ficar com a sua ausência sem luz e sem sal. Diante disto, é possível perceber a preocupação, que Fabiano tinha com os filhos, mas não conseguia demonstrar isso a eles, talvez porque nunca recebeu e, no entanto, não aprenderá a conceder.

Dentre os personagens, a cachorra Baleia é a mais humana dentro da obra, ironicamente, ela está em todos os ambientes, expõe seus pensamentos, indagações, sobre a própria família, e por ser um animal é a que mais pensa durante toda a narrativa, até mesmo quando morre continua no pensamento da família.

O sertanejo em Vidas secas não é qualificado como sentimental, pitoresco, e sim o indivíduo que é influenciado pelo meio (seca), em que acaba se transformando em um “homem-bicho”, diante das condições em que vivem.

Em suma, os personagens passam a vida inteira lutando para sobreviver já que o ciclo do livro é iniciado com “Mudança” e finalizado com “Fuga”, diante da seca, são secos, amarelos, duros, fechados e magros, estão sempre tendo que se locomover de onde se encontram em face dos acontecimentos que acabam presenciando.

 

Juliana Aguiar Brando.
Faculdade CCAA, Rio de Janeiro.
 

REFERÊNCIA

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. São Paulo. Martins, 1973.

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