quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


AGORA, FALANDO SÉRIO

 

          Acordei amuado. Cheguei à conclusão que eu devo estar mentindo. Esses dias passaram e cheguei quase a me convencer que algo tinha mudado. Vi tantos soldados na rua e fugi de todos eles com medo de não poder gritar. Vivi toda a solidão dos fugitivos que não sabem muito bem onde se meter quando são perseguidos.

          Levantei-me da cama com minha boca cheirando a acre dos tempos de chumbo.

          Agora, falando sério, nunca percebi tanta mixórdia nesses dias que vivemos. Eu resolvi ir contra tudo que se diz perfeito. Dei um chute no lirismo que pensava estar presente na literatura, na música, nos quadros que ambiciono pintar.

           Penso que enlouqueci de vez, ao matar sem dó o meu sabiá. Seu canto estava repetitivo. Até a banda que Nara cantou estava me molestando. Resolvi fazer a mala, saí do quarto um pouco sem saber para onde ir e corri, corri, corri, sem dó de minhas pernas que doíam tal como quando corria da PM na Av. Passos em 1968. Mas eu não queria ver banda nenhuma outra vez passar por minha vida. Até porque eu nem estou mais à toa na vida.

           Agora, falando sério, eu quero realmente deixar de mentir como minto. Falar a verdade, doa a quem doer e até a mim mesmo se doer eu aguento, como aguentei esse tempo inteiro querendo mascarar sentimentos, iludindo a todos. Chega de tanto driblar os ventos que entram pela minha sacada e vão jogando os papéis que escrevo no chão. Chega de tanto desencanto por não falar sério. Se estás lendo o que Chico gostaria de ter dito e que coube a mim dizê-lo hoje, eu não vou revelar o que está havendo comigo. Nem o que acontece no meu quintal. As flores, por exemplo, estão desvairadas. Chico diz que há traição no reino vegetal. Será?  O amor-perfeito está traindo. Mas a quem trai a flor se é perfeito o seu amor? Falando sério, ter uma rosa que cheira mal, se sempre faço um buquê para dar a minha amada com rosas perfumadas, vivas, vermelhas, brancas, suaves, se abrindo, já abertas, são rosas, como disse Caymmi: “rosas de mim.”  Eu não quero mais mentir. Quero falar sério e dizer ao leitor que a sempre-viva está morrendo. Essa notícia assombra a qualquer um, até porque o nome deveria sempre retratar sua função vital, mas não, ao passar pelo jardim, a vi chorando e confessando sua desgraça ao lírio, seu melhor amigo.

Mas, agora falando sério, não quero falar nada que pudesse te distrair. Quero-te ágil, para que percebas que há um sono difícil nos invadindo nesses dias de falsa liberdade. Meu livre arbítrio não é capaz de me dar paz, porque os sonhos que tive antes ficaram escondidos nos abismos do tempo que jamais se consolidarão. Minha passividade é como um acalanto. Já não domino o que vivo nem o que durmo, nem o que sonho. O barulho da noite hoje se transforma no silêncio que ninguém jamais ouviu antes. Imagine o barulho de nada. Imagine querer sentir o cheiro de algo que não tem perfume ou de algo que não queima, que não solta gases, cuja existência não se propaga no espaço. É o maldito silêncio que quero fazer. Um silêncio doente, imaginário que faça o vizinho reclamar do não barulho. Que lhe invoque a raiva e chame a polícia e o médico e até o síndico do meu enfado. Que ele arrombe porta adentro o meu tédio e me peça para eu cantar.

 Agora, falando sério, eu jamais cantarei, porque não quero impedir o silêncio que esperei tanto ter, nem tampouco falar para não estragar o diálogo que não terei. Agora, falando sério...

 

Ricardo Macedo

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