Resenha: Vidas secas
Vidas secas, Graciliano Ramos, (Record; 138 páginas), é um livro que mostra a
situação de total miséria e desumanização de um povo, neste caso o brasileiro.
A leitura do livro favorece uma excelente reflexão a cerca do que é ser
homem e de sua existência em um meio pouco favorável. Fica o questionamento: o
que é ser animal nessa situação? A história aborda um tema bastante relevante
para a época: um grupo está preocupado em sobreviver e, consequentemente,
superar problemas vindos da própria natureza humanos e do meio ambiente. A
trajetória da família traz à tona todo tipo de pobreza vivida pelos personagens
que perambulavam pelo sertão brasileiro.
No entanto, o
autor não trata apenas dos problemas da seca, ele apresenta as mazelas vividas
por homens simples totalmente hostilizados e oprimidos pela natureza e pela
sociedade. Graciliano Ramos construiu sua obra com tanta veemência que
conseguiu retratar uma triste realidade que precisava ser verdadeiramente
pensada, fazendo da linguagem um espelho do caso narrado.
A linguagem utilizada
é tão lacônica e dura, quanto à história escrita. O autor utilizando-se de
criaturas que mal falavam pelo simples fato de não terem o que falar ou por
acharem que não o tinham. A verbalização de pensamentos e de sentimentos,
portanto, evidencia-se como tarefa bastante difícil para aquela família.
As personagens
principais são Fabiano, o pai, sinhá Vitória, a mãe, os dois filhos que nem
nomes tinham e a cachorra Baleia. É notório o fato dos pais não terem consciência
da necessidade de amparo, de carinho e de valorização. Eles se dirigiam aos filhos
com palavras ofensivas, de modo a chocar todos que leem a obra. E o reflexo da secura
no próprio relacionamento familiar.
Tudo isso pode
ser pensado a partir da realidade desumana e brutal em que esses seres viviam.
Fabiano era confundido com um animal, era um quase bicho, se sentia forte, era
humilhado como um bicho e se identificava como tal, como podemos conferir no
trecho abaixo:
Vivia longe dos
homens, só se dava bem com os animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e
não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se
a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o
companheiro entendia... (RAMOS, 2008, p. 20)
Essa dualidade
homem/bicho pode ser pensada de duas maneiras: ser bicho era também ser forte,
resistente ao meio, à seca, às dificuldades de sobrevivência ao clima árido e
por isso tal identificação por parte do personagem. No entanto, podemos
observar o lado negativo da questão, ser bicho era não ser homem com todos os
seus valores e dignidade humana. A dificuldade de se comunicar, seu completo
desconhecimento acerca de sua língua, consequentemente gerou um desconhecimento
de sua realidade. Pois, dominar a linguagem, as palavras, é dominar o mundo, a
realidade ao redor. Na condição de bicho, era humilhado e explorado pelo patrão
e não se dava conta disso; pois, para ele, aquela situação era legítima.
Ao tratarmos de
questões tão sérias como a miséria, o preconceito para com pessoas que estão à
margem da sociedade, é como se tivéssemos reconhecendo a existência de dois
“Brasis”. Um em que a classe burguesa dominante detém o poder e outra sem
classificação alguma que compõe aquele grupo que é dominado, ou seja, aquele
sem voz, sem poder de decisão, alienado na condição de servo de um regime em
que as coisas são impostas. Esse binômio dominantes/dominados,
exploradores/explorados foi assim no passado, no presente e certamente
perpassará séculos a fora.
Vidas secas apresenta características da prosa moderna bem demarcadas, de
modo que o romance traz uma concepção geral sobre o que é o Brasil em suas
entranhas, suas riquezas e pobrezas. E nesse momento a luta é a favor de se
conquistar algo diferente. Recriação e afirmação de uma cultura que tivesse a
cara do povo brasileiro, ou seja, uma cultura própria e original do povo
brasileiro. É bastante latente que não se tratava de fazer apenas uma
literatura que abordasse uma região do Brasil; mas, a realidade como um todo.
No que diz
respeito à crítica e à escrita em Vidas
secas, Graciliano chamou atenção para a ambiguidade dos ditames, para o
quanto a realidade nacional era diferente dos moldes que a sociedade insistia
em aplicar. E é pertinente por parte do autor a utilização do homem em sua
condição de quase animal que é perseguido por esta sociedade extremamente
injusta. E para que o resultado fosse positivo foi preciso circunscrever todo o
universo e as consequências dessa realidade.
Priscila
Gonçalves Nogueira Penna
Faculdade
CCAA, Rio de Janeiro.
REFERÊNCIAS
RAMOS, Graciliano. Vidas
secas. Rio de Janeiro: Record, 2008.
CANDIDO, Antonio. Dialética da Malandragem. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros.
São Paulo, n.8, 1970.
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