terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Resenha: Vidas secas

Resenha: Vidas secas

 Vidas secas, Graciliano Ramos, (Record; 138 páginas), é um livro que mostra a situação de total miséria e desumanização de um povo, neste caso o brasileiro.

 A leitura do livro favorece uma excelente reflexão a cerca do que é ser homem e de sua existência em um meio pouco favorável. Fica o questionamento: o que é ser animal nessa situação? A história aborda um tema bastante relevante para a época: um grupo está preocupado em sobreviver e, consequentemente, superar problemas vindos da própria natureza humanos e do meio ambiente. A trajetória da família traz à tona todo tipo de pobreza vivida pelos personagens que perambulavam pelo sertão brasileiro.

 No entanto, o autor não trata apenas dos problemas da seca, ele apresenta as mazelas vividas por homens simples totalmente hostilizados e oprimidos pela natureza e pela sociedade. Graciliano Ramos construiu sua obra com tanta veemência que conseguiu retratar uma triste realidade que precisava ser verdadeiramente pensada, fazendo da linguagem um espelho do caso narrado.

A linguagem utilizada é tão lacônica e dura, quanto à história escrita. O autor utilizando-se de criaturas que mal falavam pelo simples fato de não terem o que falar ou por acharem que não o tinham. A verbalização de pensamentos e de sentimentos, portanto, evidencia-se como tarefa bastante difícil para aquela família.

 As personagens principais são Fabiano, o pai, sinhá Vitória, a mãe, os dois filhos que nem nomes tinham e a cachorra Baleia. É notório o fato dos pais não terem consciência da necessidade de amparo, de carinho e de valorização. Eles se dirigiam aos filhos com palavras ofensivas, de modo a chocar todos que leem a obra. E o reflexo da secura no próprio relacionamento familiar.

Tudo isso pode ser pensado a partir da realidade desumana e brutal em que esses seres viviam. Fabiano era confundido com um animal, era um quase bicho, se sentia forte, era humilhado como um bicho e se identificava como tal, como podemos conferir no trecho abaixo:

Vivia longe dos homens, só se dava bem com os animais. Os seus pés duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra. Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o companheiro entendia... (RAMOS, 2008, p. 20)

 Essa dualidade homem/bicho pode ser pensada de duas maneiras: ser bicho era também ser forte, resistente ao meio, à seca, às dificuldades de sobrevivência ao clima árido e por isso tal identificação por parte do personagem. No entanto, podemos observar o lado negativo da questão, ser bicho era não ser homem com todos os seus valores e dignidade humana. A dificuldade de se comunicar, seu completo desconhecimento acerca de sua língua, consequentemente gerou um desconhecimento de sua realidade. Pois, dominar a linguagem, as palavras, é dominar o mundo, a realidade ao redor. Na condição de bicho, era humilhado e explorado pelo patrão e não se dava conta disso; pois, para ele, aquela situação era legítima.

Ao tratarmos de questões tão sérias como a miséria, o preconceito para com pessoas que estão à margem da sociedade, é como se tivéssemos reconhecendo a existência de dois “Brasis”. Um em que a classe burguesa dominante detém o poder e outra sem classificação alguma que compõe aquele grupo que é dominado, ou seja, aquele sem voz, sem poder de decisão, alienado na condição de servo de um regime em que as coisas são impostas. Esse binômio dominantes/dominados, exploradores/explorados foi assim no passado, no presente e certamente perpassará séculos a fora.

 Vidas secas apresenta características da prosa moderna bem demarcadas, de modo que o romance traz uma concepção geral sobre o que é o Brasil em suas entranhas, suas riquezas e pobrezas. E nesse momento a luta é a favor de se conquistar algo diferente. Recriação e afirmação de uma cultura que tivesse a cara do povo brasileiro, ou seja, uma cultura própria e original do povo brasileiro. É bastante latente que não se tratava de fazer apenas uma literatura que abordasse uma região do Brasil; mas, a realidade como um todo.

 No que diz respeito à crítica e à escrita em Vidas secas, Graciliano chamou atenção para a ambiguidade dos ditames, para o quanto a realidade nacional era diferente dos moldes que a sociedade insistia em aplicar. E é pertinente por parte do autor a utilização do homem em sua condição de quase animal que é perseguido por esta sociedade extremamente injusta. E para que o resultado fosse positivo foi preciso circunscrever todo o universo e as consequências dessa realidade.

 
Priscila Gonçalves Nogueira Penna
Faculdade CCAA, Rio de Janeiro.

 

REFERÊNCIAS

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2008.
CANDIDO, Antonio. Dialética da Malandragem. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. São Paulo, n.8, 1970.

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