SILÊNCIO
Joyce
Dantas
Silêncio. Era tudo o que ele podia ouvir de dentro do
armário. Nenhum passo, nenhuma respiração. Nem o barulho da chuva lá fora. Seus
olhos azuis tentavam se acostumar com a escuridão ao redor e lentamente iam
conseguindo enxergar os contornos das suas próprias mãos trêmulas. Ele já havia
conseguido controlar a respiração pesada e entrecortada de antes e agora
também, tinha conseguido controlar as lágrimas de terror que saiam de seus
olhos. Ele precisava ficar calmo, mas o silêncio não ajudava. Ficar em um
armário escuro, sem saber o que estava acontecendo do lado de fora não ajudava
também. Talvez tivesse sido uma péssima escolha, mas ele não tinha tido muito
tempo para pensar. Um grito havia cortado a noite, aquele grito assustador que
faz gelar a alma. No começo ele pensou que estivesse sonhando, que fosse mais
um dos pesadelos que ele tinha todas as noites. Percebeu tarde demais, talvez,
que o barulho não era de dentro da sua cabeça. O barulho dos passos pesados em
frente a sua porta o fez abrir os olhos para a escuridão. Ele ouvia os passos e
alguma coisa sendo arrastada. Ele pulou da cama o mais rápido que pode e correu
na direção do armário. E agora ele estava ali, sem saber o que fazer. Ele havia
escutado o barulho da porta abrindo, mas não sabia se as pessoas haviam
entrado. Não havia mais grito, não havia mais barulho algum e o silêncio fez
casa em seu coração.
Ele estava em um daqueles armários todo fechado, que
não entra nenhuma luz. Era até um armário espaçoso, cabiam roupas e brinquedos
e todas as coisas que ele jogava ali dentro quando sua mãe o mandava arrumar o
quarto. Era prático, mas não tinha sido uma boa ideia também, não agora que ele
precisava ficar imóvel dentro desse armário. Seria arriscado demais abrir um
pouco a porta para ver o que estava acontecendo, mas ele teria que fazer isso
eventualmente. Era difícil respirar ali dentro. Ele só não sabia se isso era
por causa do nervosismo ou se o lugar era fechado demais.
Um
barulho abafado de carro cortou a noite e o coração de Alan disparou no mesmo
instante. Um gemido baixo saiu de seus lábios e ele levou instantaneamente a
mão à boca torcendo para que ninguém tivesse escutado. Ele desconfiava até que
a vizinhança inteira poderia escutar as batidas incontroláveis do seu coração.
O barulho do carro se foi e o silêncio voltou ao seu estado normal. Alan até
desejou por alguns momentos que aquele barulho voltasse, mas nada aconteceu. O
tempo passava devagar, como se alguém estivesse brincando com ele. E talvez até
estivessem, mas pensar isso era assustador demais. O silêncio permaneceu na
casa por tempo suficiente para Alan achar que estava sozinho. Talvez todos
tivessem ido embora e não tivessem percebido que ele estava ali. Era nisso que
ele queria acreditar, mas alguma coisa dentro dele estava dizendo que acreditar
nisso era muito perigoso. Quem quer que estivesse fazendo todo esse silêncio,
teria percebido que a sua cama estava desarrumada. Mas ficar ali dentro, não
parecia mais uma opção. Todas as coisas dentro daquele armário pareciam ser
ameaças, como se fossem capazes de tirar a sua vida. Talvez ali dentro fosse
mais perigoso do que o lado de fora. Se ele ficasse mais algum tempo dentro
daquele silêncio, no escuro e sozinho, ele com certeza iria morrer.
Com todo
o controle que uma criança de doze anos poderia ter, Alan abriu lentamente a
porta do armário. Todos os seus músculos se contraíram e ele prendeu a
respiração como se isso fosse fazer o rangido da porta não ter acontecido. Era
quase como se tudo estivesse contra ele. A porta do armário nunca havia rangido
antes, nem sequer um barulhinho e agora, quando sua vida praticamente dependia
dela, ela fazia aquele barulho abafado, mas que parecia poder ser ouvido há
quilômetros dali. Alan lutou contra a vontade de fechar a porta novamente, de
nada iria adiantar. Se não sabiam que ele estava dentro do armário antes,
provavelmente agora descobririam. A porta do armário estava aberta, mas Alan
não conseguia dar o primeiro passo para fora dele. O quarto estava um pouco
iluminado pela luz do corredor. Eles haviam deixado a porta aberta. Essa era a
única diferença. O silêncio ainda estava em todos os lugares e seu coração
parecia não querer voltar ao normal. Alan respirou fundo e tomou coragem para
sair dali. Todo o seu corpo tentava não o obedecer, como se ele estivesse
fazendo algo de muito errado. Ele seguiu devagar até a cortina pesada que
fechava a janela e abriu o suficiente para ver a rua lá fora. Tudo parecia
tranquilo e silencioso, apesar da chuva que batia na janela. As luzes da rua
estavam acesas e alguns carros estavam estacionados nas calçadas. Uma noite
comum, não fosse pelo grito que o havia acordado. Naquele momento, como se a
ideia tivesse aparecido pra ele exatamente ali, um desespero entrou em seu
coração e fez um arrepio percorrer seu corpo. Sua mãe. O grito provavelmente
havia sido dela. Alan se sentiu culpado por não ter chegado a essa conclusão
antes, mas sua mente não estava funcionando bem. Parecia mais difícil pensar
agora. Sua mente estava cheia de imagens da sua mãe sofrendo de várias maneiras
diferentes. Era uma tortura e o silêncio continuava. Agora, o silêncio também
tinha um aspecto lúgubre, como se refletisse o estado de profunda tristeza em
que se encontrava. Alan respirou fundo e apesar de se sentir dormente de alguma
forma, o medo voltou a frequentar sua alma quando o silêncio pareceu ficar
ainda mais pesado. Era como se ele, realmente, fosse vivo. Alan reuniu sua
coragem novamente e deu alguns passos na direção da luz que vinha do corredor.
Até seus passos pareciam abafados por todo aquele silêncio.
O
corredor estava vazio, mas marcas vermelhas deixavam um rastro pelo chão. Alan
levou a mão novamente à boca, e as lágrimas começaram a escorrer de seus olhos
sem que ele tivesse dado permissão. Pelo menos, ele tinha conseguido não gritar
e não sair correndo. Talvez ele fosse mais corajoso do que ele havia pensado.
Alan seguiu os rastros lentamente, tentando não fazer barulho. Mas com todo
aquele silêncio, tudo era barulho. Até os seus passos abafados e os seus
soluços contidos. Talvez, até as lágrimas que ele não limpava, fizessem barulho
quando caíssem no chão. Era uma tortura. Tortura em todos os sentidos. O
silêncio, o medo, a tristeza, até conter as lágrimas e os soluços era uma
tortura. Ele queria se jogar na cama e chorar, chorar até não conseguir mais.
Chorar até dormir. Mas naquele momento, ele tinha que andar em silêncio.
Silêncio. O silêncio o deixava perturbado. Nada poderia ser tão silencioso
assim. Seus olhos se enchiam de lágrimas a cada passo que ele dava. O único
alívio que sentia, era que o corredor não estava escuro. A escuridão com
certeza faria tudo pior. Um arrepio percorreu seu corpo e ele olhou na direção
da luz, como se ela fosse apagar a qualquer momento. Mas nada aconteceu, apenas
seus olhos começaram a enxergar pequenos pontos coloridos. Também não havia
sido uma ideia muito boa. Alan parou na frente da entrada para a sala e se
abaixou perto da parede. Os rastros continuavam por ali, mas ele não queria
mais segui-los. Entrar na sala significava estar mais exposto. Existiam vários
lugares para se esconder ali, como ele já sabia bem. Quando era pequeno ele se
escondia e esperava sua mãe o achar. Um pequeno sorriso passou pelo seu rosto,
mas logo foi levado embora por uma lágrima. Alan olhou para trás. Uma sensação
estranha tomou conta dele, como se ele estivesse sendo observado, mas não havia
ninguém ali. Ninguém em lugar algum, só silêncio. Às vezes, ele chegava a
duvidar que pudesse ouvir a sua própria voz.
Sua mãe
estaria ali em algum lugar. Alan não gostava de pensar na possibilidade de ela
estar morta. Seu coração começou a bater mais forte. A sala também não estava
escura. Alan não conseguia decidir se isso era o que deixava a cena mais
assustadora. As coisas e os detalhes estavam expostos para quem quisesse
enxergar. E ele não queria. Talvez a escuridão o poupasse da brutalidade com
que o sangue no chão parecia vivo e pulsante. Uma mistura de medo e raiva tomou
conta de Alan. Ele ficou alguns minutos parado olhando para o sangue, até que
outra coisa chamou a sua atenção. Luzes entravam na sala, aquelas luzes
coloridas da sirene da polícia. E só então, Alan começou a escutar barulhos.
Barulhos. Era quase um alívio escutar alguma coisa que não fosse o silêncio.
Mas os barulhos pareciam tão distantes, pareciam abafados como todos os outros
barulhos que ele havia escutado. Alan não entendia o porquê de tanto silêncio,
talvez seus ouvidos estivessem com algum problema. Aquele silêncio parecia
estar em todos os lugares.
Os
policiais gritaram alguma coisa e mandaram abrir a porta. Alan teve vontade de
se esconder com medo de que alguém aparecesse na sala e o visse ali. Mas o
silêncio dentro da casa continuava. Os sons dos policiais gritando não eram
mais alto que o som da sua respiração ou o som do seu coração batendo forte.
Era estranho como o ambiente parecia abafado e distante. Alan hesitou alguns
segundos, talvez segundos demais, pois a porta estava no chão e dois policiais
estavam entrando na casa antes mesmo de ele ter conseguido decidir o que fazer.
Alan se levantou e entrou na sala, sujando seus pés descalços de vermelho. Os
policiais pareciam não ter percebido ele. Ele seguiu os rastros de sangue com
os olhos e percebeu que eles o levariam para a entrada de outra sala. Era a
sala que ficava as coisas de trabalho da sua mãe. Ele se lembrava de ter se
escondido ali várias vezes. Como se o seu pensamento se tornasse realidade, sua
mãe abriu a porta da sala aos poucos. Ela estava sentada e apenas sua cabeça
aparecia na porta. Alan prendeu a respiração e um sorriso apareceu em seus
lábios. Ela estava viva. Ele correu em sua direção. Ela estava chorando. Sua
mãe terminou de abrir a porta e uma expressão de alívio apareceu em seu rosto.
Mas alguma coisa estava errada. Seus olhos estavam tão tristes e cheios de dor.
A porta terminou de se abrir e Alan correu pra dentro da sala. Ele queria um
abraço, queria dizer o quando ele a amava e estava feliz por nada ter
acontecido com ela, mas todas as palavras ficaram presas em seu peito.
Silêncio. Ele não havia percebido como o silêncio havia tomado conta de tudo.
Da sirene da polícia, dos passos dos policiais, do choro da sua mãe, não havia
nem ao menos aquele som abafado. Tudo era silêncio e no colo da sua mãe, uma
criança estava deitada. Os olhos fechados, aqueles olhos que seriam azuis. A
cabeça encostada nos ombros daquela mulher triste que estava jogada no chão. O
sangue no chão terminado a trilha que o havia levado até ali. O terror tomou
conta de sua alma. Medo, vazio e tristeza. Silêncio. Era tudo o que ele podia
ouvir.
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