RAPUNZEL ARTIGO 12
“Amigo, um quarto...”
“¿Cómo?”
“Quarto! Dormir... Cama...
Para nós duas...”
Caralho! Ele não entende.
“Si.”
“¿Una habitácion?”
“Habitação? Hã?”
¿Qué nombres?”
“Hã?”
“¿Tus nombres?”
“Nomes? É isso? É...”
Eu e Rapunzel nos olhamos
como no dia em que os carcereiros nos informaram sobre a rebelião do setor “4” . Bem... Informar não é bem a
palavra apropriada. As pancadas com cassetetes de borracha durante o banho de
sol nos custaram algumas costelas quebradas e manchas roxas pelo corpo.
Suamos frio. O que fazer
agora? O que dizer?
“Rapunzel e Teresa.”
O paraguaio nos olha
fixamente. Congelo! Rapunzel me cutuca por trás do balcão. Ela está nervosa e murmura
baixinho: “Fodeu!”
“Teresa com “s” ou “z” ?”
“s”
Ele sorri.
“De esta manera, señoras.”
“O quê?”
O Seguimos. Alívio! Incrédulas,
escondemos o sorriso no canto da boca quando o homenzinho nos entrega a chave
do quarto. Deu certo! Entramos e nos beijamos. Sinto a sua boca doce como a
primeira vez. Agora é hora de planejar o futuro. Que futuro? Eu não sei, mas
daqui a um minuto é amanhã.
“Entra logo, sua puta!
Entra porra!”
“Vai se foder, Jacaré!”
“Tranca essa porra aí!”
“Precisa bater, Jacaré, precisa?”
Sábado, 15 de agosto, 7h 15min.
O meu primeiro dia naquele inferno. Após as devidas apresentações, fui
encaminhada para o pátio. Cheguei na hora boa. Banho de sol do pavilhão “5” . Foi lá que eu conheci Rapunzel, a minha flor.
Foi amor à primeira vista. Seu sorriso encantador, suas mãos macias e o seu
hálito... Ah... Quantos beijos apaixonados nós trocamos naquele inferno! Já na minha
segunda semana, passamos a dividir as escovas de
dente, o doce de abóbora do bandejão, o xampu, o sabonete... Nossas
confidências e as nossas intimidades.
Rapunzel, como eu, puxava cadeia
pela primeira vez. Artigo 12. Ela, de tão doce, me fez acreditar em sua
inocência... Mas o amor tem dessas coisas e bandido idem. O amor é cego e nenhum
encarcerado tem culpa no cartório... Minha flor estava ali há pouco mais de três
meses, mas conhecia tudo e todos. Rapunzel me apresentou Jacaré e me contou os
segredos dali... Ou pelo menos boa parte deles...
Jacaré é o agente
penitenciário mais antigo da casa de detenção. Era com ele que conseguíamos tudo.
Cigarros... erva... pó... celulares, bebidas... Claro, pagamos por isso. Na
penitenciária, assim como nas ruas, nada é de graça. A gente sempre dá um
jeitinho. Por sorte, nascemos mulheres e muitas
vezes nos aproveitamos da xoxota para conseguir algumas coisas com os imbecis.
A vida carcerária é “foda” e aprendemos que o nosso corpo é a única moeda de
troca. Tudo bem que para as patricinhas, o papai e a mamãe facilitam as
coisas... Os agentes penitenciários sempre dão um jeitinho... Desde quando
riquinho se dá mal no Brasil?
“Fodeu Teresa! Fodeu! Nós
vamos morrer!”
“Calma, porra! Calma!”
“Deu merda no “4” ! Deu merda no “4” ! A gente vai morrer!”
Hoje, o dia amanheceu
esquisito. Nublado e com muita neblina. Logo pela manhã, durante o café, Neide
“Saravá” passou mal e vomitou todo o refeitório. Parecia prever o pior. Saravá, porque ela volta e meia diz receber uns caboclos. Coincidência
ou não, isso sempre acontece quando tem merda. As detentas se olham
desconfiadas. Jacaré anda de um lado para o outro. Alguma coisa parece fugir ao
controle.
O pavilhão “4” é uma jaula. As piores da
penitenciária ficam trancafiadas lá. Separadas uma a uma. Isoladas em celas de
pouco mais de um metro e meio. Comem uma vez por dia e dormem em pé. São tratadas como
bicho. Talvez realmente sejam animais. As atenções do complexo estão voltadas
para lá. Se der uma merda no “4” ,
fodeu! “Para a nossa sorte”, somos vizinhas. Puta que pariu! O nosso pavilhão é
sempre o alvo.
Todos os dias são assim. Boatos
sempre circulam. Um dia o “4”
vai explodir... O “4”
está fervendo... Elas vão matar todo mundo. Quando isso acontecer... Fodeu! Vai
virar um inferno!
Pois é... Hoje... Ele
explodiu!
“Vem... Rápido, porra...
“Vamos sair daqui,
Rapunzel.”
“Eu não vou.
“Vamos, porra. Larga de
ser medrosa.”
“Não... Não vai dar
certo... Para onde a gente vai?”
Muita fumaça.
O cheiro é forte. Colchões são queimados. Ouvem-se tiros. Em pânico, os agentes
penitenciários gritam e usam a força para manter a ordem. De nada adianta. Eu e
Rapunzel ficamos na cela. Não vamos participar dessa loucura. O cadeado não
está fechado. Muitas se foram. Se vamos morrer, então, vamos morrer juntas,
abraçadas. A gente sabe... Se nos pegarem, não irão nos poupar. Estamos fodidas!
Maldito o dia em que eu aceitei ser “mula”. Tudo pela grana!
Jacaré aparece. Ele nos
olha e tomba. Cai a nossa frente segurando as tripas. Jacaré foi esfaqueado.
“Vamos. Morrer é o
caralho! Vamos sair daqui.”
“Pra onde?”
“Vem, porra.”
Subimos para o telhado. De
cima, é possível ver a merda toda como está incontrolável. Caralho... Elas
tomaram tudo. Cheira a sangue, carne queimada, vômito. Arrancamos algumas
telhas. Falta ar.
“Vamos sair daqui.”
“Eu tenho medo de altura,
Teresa. Eu não vou conseguir!”
“Porra, vamos sair daqui.”
O telhado é alto para
cacete. É preciso pular para o outro lado, para o prédio da administração e
depois descer. Não sei se consigo, mas é a única chance. Rapunzel não vai
conseguir. Nunca desejei tanto a chegada da polícia. Pela histeria coletiva,
elas já deviam estar na nossa galeria. Não posso deixar a Rapunzel aqui.
Morreremos juntas! Puta que pariu! Não... Eu não posso desistir. Não sou dessas
que desiste facilmente. Se eu vou morrer, eu vou morrer tentando. Vou arriscar!
“Eu vou lá embaixo, me
espera aqui.”
“Não me deixa aqui
sozinha, Teresa!”
“Eu vou voltar.”
“Eu vou morrer...”
“Se liga... Espera aqui.
Eu volto.”
“E se te pegarem? O que eu
vou fazer?”
“Não sai daqui, ok?”
Desço. Caralho... É o
inferno. O ambiente é demasiado hostil. Nenhuma novidade, mas está acima dos
níveis suportáveis. O chão está coberto de sangue. Chego a um dos corredores. Cortaram
a luz. É um breu só. A gritaria vem do rancho e me assusta. Consigo apanhar alguns
lençóis nas celas e no carrinho da lavanderia. O pouco do sol quadrado ilumina
o caminho. Jacaré agoniza estirado no chão. Filho da puta! Agora ele me olha
com esses olhos esbugalhados de desespero... Foda-se, filho da puta! Do outro
lado dá para ver algumas cabeças degoladas e penduradas como troféus. Puta que
pariu! Que visão é essa?
“Graças a Deus!”
“Eu não disse que
voltava?”
“Tive medo...”
“Eu te amo.”
“Eu também! Agora me ajuda
com isso.”
Amarramos os lençóis uns
nos outros e os prendemos em uma das vigas de sustentação do telhado. Seja o
que Deus quiser. É amarrar na cintura e descer no rapel. Eu vi funcionar na TV
no Luciano Huck.
“Vamos,
Rapunzel.”
“Você primeiro...”
Vou primeiro. Se eu não
for, ela não vai descer de jeito nenhum. Amarro uma das pontas da corda na
cintura. No mais, desde o primeiro dia em que se chega ao inferno, a todo
instante, se aprende a criar possibilidades com quase nada. O objetivo é sempre
o mesmo: pular fora o quanto antes. Aqui, um garfo pode virar um soco inglês,
uma escova de dente, uma faca. Agora é rezar para dar certo. Aos poucos, vou
descendo lentamente. Corto as mãos nos vidros do muro. Elas sangram e mancham
os lençóis de vermelho. Chego a “ADM”. Agora é a vez dela...
“Vem, Rapunzel. Puxa a
corda... Amarra... Isso. Na cintura. Desce devagar. Rapunzel. Devagar. Rapunzel.
Você está me ouvindo? Rapunzel, porra. Desce, caralho. Puta que pariu Rapunzel!”
Na cadeia é foda. O medo é
o passaporte para a morte. Ele te coloca na lista dos que vão se foder na
primeira merda que der lá dentro. Rapunzel sabe disso. Com muito custo, ela
desce. Nossas mãos estão feridas, mas vamos em frente. Ela chora
copiosamente. Sinto pena, mas foda-se! Não se pode pensar muito em uma hora
dessas. Não há espaço para sentimentalismo barato.
O prédio parece vazio. Não
vai demorar e isso aqui também vai explodir. É um barril de pólvora. Os helicópteros
começam a sobrevoar o complexo. Andamos no telhado, agachadas, escondidas. Chegamos
próximo ao muro. Precisamos chegar ao outro pátio, o das visitas, ao lado do
depósito de mantimentos. De lá, tudo fica mais fácil.
“Corre, flor, vamos atrás
da nossa liberdade!”
Rapunzel sorri. Nunca a vi
sorrir daquele jeito. Descemos pelas escadas de serviço. Ao lado da tubulação de
gás. Deu vontade de explodir toda aquela merda. Acabar com tudo. Na cadeia não
tem santo, mas a gente sai de lá muito pior. Chegamos ao pátio. Um “merdelê” só.
Um corre-corre fodido. Quem assiste pela
televisão, não faz ideia da doideira que é. Ninguém se entende. Uma puta
desorganização. Se no dia a dia já é uma zona, imagine quando tudo conspira
contra. A polícia, por sua vez, chega arregaçando. Como sempre. Direitos
humanos é o caralho! Eu e Rapunzel nos misturamos aos visitantes. Parece que
facilitar a fuga de bandido está para a família dos detentos, assim como a
hóstia está para o cristão. Aliás, por falar nisso, a cadeia é a casa do diabo.
Deus não passa nem na porta.
Saímos, ou melhor, fomos
“saídos” de lá. A polícia escorraçou geral. Apanhou até criança. É assim que
funciona. Família de bandido é bandido também. Aproveitamos o rebuliço e
metemos o pé. E agora? O que fazer? Estar na rua não significa muito... Na
verdade, não significa porra nenhuma! O Estado nos condena a prisão perpétua. Qual
a diferença dos que fogem para os que cumprem as suas penas e pagam as suas
dívidas com a justiça? Nenhuma. O olhar de desconfiança é o mesmo, o repúdio é
idêntico, a exclusão social é a única certeza. Conseguimos uma carona de um
caminhoneiro. Quer dizer... Trabalhamos para isso... Um boquete na boleia. A
vantagem de sermos duas é essa. 50% adiantado e 50% no final da viagem. Todo
escroto sonha com duas mulheres. De boquete em boquete, trepada em trepada,
chegamos a Assunção e ainda arrumamos um troco.
“Polícia, para o chão.
Para o chão.”
“Tudo bem, tudo bem. Não
precisa atirar.”
Silêncio... Rapunzel está em silêncio. O seu olhar
é perdido. Eu não sei o que ela está pensando agora, mas imagino... De volta ao
inferno. Distantes... Separadas... Desta vez, cada uma para um lado e sequer
sabemos o destino uma da outra. Tudo poderia ser diferente. O pior é o vazio
que fica. Vou sentir saudades da minha flor... Amor, filho da puta!
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