quarta-feira, 12 de dezembro de 2012


RAPUNZEL ARTIGO 12

 

“Amigo, um quarto...”

“¿Cómo?”

“Quarto! Dormir... Cama... Para nós duas...”

Caralho! Ele não entende.

“Si.”

 “¿Una habitácion?”

“Habitação? Hã?”

¿Qué nombres?”

“Hã?”

“¿Tus nombres?”

“Nomes? É isso? É...”

 

Eu e Rapunzel nos olhamos como no dia em que os carcereiros nos informaram sobre a rebelião do setor “4”. Bem... Informar não é bem a palavra apropriada. As pancadas com cassetetes de borracha durante o banho de sol nos custaram algumas costelas quebradas e manchas roxas pelo corpo.

Suamos frio. O que fazer agora? O que dizer?

“Rapunzel e Teresa.”

O paraguaio nos olha fixamente. Congelo! Rapunzel me cutuca por trás do balcão. Ela está nervosa e murmura baixinho: “Fodeu!”

“Teresa com “s” ou “z” ?”

“s”

Ele sorri.

“De esta manera, señoras.”

“O quê?”

O Seguimos. Alívio! Incrédulas, escondemos o sorriso no canto da boca quando o homenzinho nos entrega a chave do quarto. Deu certo! Entramos e nos beijamos. Sinto a sua boca doce como a primeira vez. Agora é hora de planejar o futuro. Que futuro? Eu não sei, mas daqui a um minuto é amanhã.

“Entra logo, sua puta! Entra porra!”

“Vai se foder, Jacaré!”

“Tranca essa porra aí!”

“Precisa bater, Jacaré, precisa?”

Sábado, 15 de agosto, 7h 15min. O meu primeiro dia naquele inferno. Após as devidas apresentações, fui encaminhada para o pátio. Cheguei na hora boa. Banho de sol do pavilhão “5”.  Foi lá que eu conheci Rapunzel, a minha flor. Foi amor à primeira vista. Seu sorriso encantador, suas mãos macias e o seu hálito... Ah... Quantos beijos apaixonados nós trocamos naquele inferno! Já na minha segunda semana, passamos a dividir as escovas de dente, o doce de abóbora do bandejão, o xampu, o sabonete... Nossas confidências e as nossas intimidades.

Rapunzel, como eu, puxava cadeia pela primeira vez. Artigo 12. Ela, de tão doce, me fez acreditar em sua inocência... Mas o amor tem dessas coisas e bandido idem. O amor é cego e nenhum encarcerado tem culpa no cartório... Minha flor estava ali há pouco mais de três meses, mas conhecia tudo e todos. Rapunzel me apresentou Jacaré e me contou os segredos dali... Ou pelo menos boa parte deles...

Jacaré é o agente penitenciário mais antigo da casa de detenção. Era com ele que conseguíamos tudo. Cigarros... erva... pó... celulares, bebidas... Claro, pagamos por isso. Na penitenciária, assim como nas ruas, nada é de graça. A gente sempre dá um jeitinho. Por sorte, nascemos mulheres e muitas vezes nos aproveitamos da xoxota para conseguir algumas coisas com os imbecis. A vida carcerária é “foda” e aprendemos que o nosso corpo é a única moeda de troca. Tudo bem que para as patricinhas, o papai e a mamãe facilitam as coisas... Os agentes penitenciários sempre dão um jeitinho... Desde quando riquinho se dá mal no Brasil?

“Fodeu Teresa! Fodeu! Nós vamos morrer!”

“Calma, porra! Calma!”

“Deu merda no “4”! Deu merda no “4”! A gente vai morrer!”

Hoje, o dia amanheceu esquisito. Nublado e com muita neblina. Logo pela manhã, durante o café, Neide “Saravá” passou mal e vomitou todo o refeitório. Parecia prever o pior. Saravá, porque ela volta e meia diz receber uns caboclos. Coincidência ou não, isso sempre acontece quando tem merda. As detentas se olham desconfiadas. Jacaré anda de um lado para o outro. Alguma coisa parece fugir ao controle.

O pavilhão “4” é uma jaula. As piores da penitenciária ficam trancafiadas lá. Separadas uma a uma. Isoladas em celas de pouco mais de um metro e meio. Comem uma vez por dia e dormem em pé. São tratadas como bicho. Talvez realmente sejam animais. As atenções do complexo estão voltadas para lá. Se der uma merda no “4”, fodeu! “Para a nossa sorte”, somos vizinhas. Puta que pariu! O nosso pavilhão é sempre o alvo.

Todos os dias são assim. Boatos sempre circulam. Um dia o “4” vai explodir... O “4” está fervendo... Elas vão matar todo mundo. Quando isso acontecer... Fodeu! Vai virar um inferno!

Pois é... Hoje... Ele explodiu!

“Vem... Rápido, porra...

“Vamos sair daqui, Rapunzel.”

“Eu não vou.

“Vamos, porra. Larga de ser medrosa.”

“Não... Não vai dar certo... Para onde a gente vai?”

Muita fumaça. O cheiro é forte. Colchões são queimados. Ouvem-se tiros. Em pânico, os agentes penitenciários gritam e usam a força para manter a ordem. De nada adianta. Eu e Rapunzel ficamos na cela. Não vamos participar dessa loucura. O cadeado não está fechado. Muitas se foram. Se vamos morrer, então, vamos morrer juntas, abraçadas. A gente sabe... Se nos pegarem, não irão nos poupar. Estamos fodidas! Maldito o dia em que eu aceitei ser “mula”. Tudo pela grana!

Jacaré aparece. Ele nos olha e tomba. Cai a nossa frente segurando as tripas. Jacaré foi esfaqueado.

“Vamos. Morrer é o caralho! Vamos sair daqui.”

“Pra onde?”

“Vem, porra.”

Subimos para o telhado. De cima, é possível ver a merda toda como está incontrolável. Caralho... Elas tomaram tudo. Cheira a sangue, carne queimada, vômito. Arrancamos algumas telhas. Falta ar.

“Vamos sair daqui.”

“Eu tenho medo de altura, Teresa. Eu não vou conseguir!”

“Porra, vamos sair daqui.”

O telhado é alto para cacete. É preciso pular para o outro lado, para o prédio da administração e depois descer. Não sei se consigo, mas é a única chance. Rapunzel não vai conseguir. Nunca desejei tanto a chegada da polícia. Pela histeria coletiva, elas já deviam estar na nossa galeria. Não posso deixar a Rapunzel aqui. Morreremos juntas! Puta que pariu! Não... Eu não posso desistir. Não sou dessas que desiste facilmente. Se eu vou morrer, eu vou morrer tentando. Vou arriscar!

“Eu vou lá embaixo, me espera aqui.”

“Não me deixa aqui sozinha, Teresa!”

“Eu vou voltar.”

“Eu vou morrer...”

“Se liga... Espera aqui. Eu volto.”

“E se te pegarem? O que eu vou fazer?”

“Não sai daqui, ok?”

Desço. Caralho... É o inferno. O ambiente é demasiado hostil. Nenhuma novidade, mas está acima dos níveis suportáveis. O chão está coberto de sangue. Chego a um dos corredores. Cortaram a luz. É um breu só. A gritaria vem do rancho e me assusta. Consigo apanhar alguns lençóis nas celas e no carrinho da lavanderia. O pouco do sol quadrado ilumina o caminho. Jacaré agoniza estirado no chão. Filho da puta! Agora ele me olha com esses olhos esbugalhados de desespero... Foda-se, filho da puta! Do outro lado dá para ver algumas cabeças degoladas e penduradas como troféus. Puta que pariu! Que visão é essa?  

“Graças a Deus!”

“Eu não disse que voltava?”

“Tive medo...”

“Eu te amo.”

“Eu também! Agora me ajuda com isso.”

Amarramos os lençóis uns nos outros e os prendemos em uma das vigas de sustentação do telhado. Seja o que Deus quiser. É amarrar na cintura e descer no rapel. Eu vi funcionar na TV no Luciano Huck.

            “Vamos, Rapunzel.”

“Você primeiro...”

Vou primeiro. Se eu não for, ela não vai descer de jeito nenhum. Amarro uma das pontas da corda na cintura. No mais, desde o primeiro dia em que se chega ao inferno, a todo instante, se aprende a criar possibilidades com quase nada. O objetivo é sempre o mesmo: pular fora o quanto antes. Aqui, um garfo pode virar um soco inglês, uma escova de dente, uma faca. Agora é rezar para dar certo. Aos poucos, vou descendo lentamente. Corto as mãos nos vidros do muro. Elas sangram e mancham os lençóis de vermelho. Chego a “ADM”. Agora é a vez dela...

“Vem, Rapunzel. Puxa a corda... Amarra... Isso. Na cintura. Desce devagar. Rapunzel. Devagar. Rapunzel. Você está me ouvindo? Rapunzel, porra. Desce, caralho. Puta que pariu Rapunzel!”

Na cadeia é foda. O medo é o passaporte para a morte. Ele te coloca na lista dos que vão se foder na primeira merda que der lá dentro. Rapunzel sabe disso. Com muito custo, ela desce. Nossas mãos estão feridas, mas vamos em frente. Ela chora copiosamente. Sinto pena, mas foda-se! Não se pode pensar muito em uma hora dessas. Não há espaço para sentimentalismo barato.

O prédio parece vazio. Não vai demorar e isso aqui também vai explodir. É um barril de pólvora. Os helicópteros começam a sobrevoar o complexo. Andamos no telhado, agachadas, escondidas. Chegamos próximo ao muro. Precisamos chegar ao outro pátio, o das visitas, ao lado do depósito de mantimentos. De lá, tudo fica mais fácil.

“Corre, flor, vamos atrás da nossa liberdade!”

Rapunzel sorri. Nunca a vi sorrir daquele jeito. Descemos pelas escadas de serviço. Ao lado da tubulação de gás. Deu vontade de explodir toda aquela merda. Acabar com tudo. Na cadeia não tem santo, mas a gente sai de lá muito pior. Chegamos ao pátio. Um “merdelê” só. Um corre-corre fodido.  Quem assiste pela televisão, não faz ideia da doideira que é. Ninguém se entende. Uma puta desorganização. Se no dia a dia já é uma zona, imagine quando tudo conspira contra. A polícia, por sua vez, chega arregaçando. Como sempre. Direitos humanos é o caralho! Eu e Rapunzel nos misturamos aos visitantes. Parece que facilitar a fuga de bandido está para a família dos detentos, assim como a hóstia está para o cristão. Aliás, por falar nisso, a cadeia é a casa do diabo. Deus não passa nem na porta.

Saímos, ou melhor, fomos “saídos” de lá. A polícia escorraçou geral. Apanhou até criança. É assim que funciona. Família de bandido é bandido também. Aproveitamos o rebuliço e metemos o pé. E agora? O que fazer? Estar na rua não significa muito... Na verdade, não significa porra nenhuma! O Estado nos condena a prisão perpétua. Qual a diferença dos que fogem para os que cumprem as suas penas e pagam as suas dívidas com a justiça? Nenhuma. O olhar de desconfiança é o mesmo, o repúdio é idêntico, a exclusão social é a única certeza. Conseguimos uma carona de um caminhoneiro. Quer dizer... Trabalhamos para isso... Um boquete na boleia. A vantagem de sermos duas é essa. 50% adiantado e 50% no final da viagem. Todo escroto sonha com duas mulheres. De boquete em boquete, trepada em trepada, chegamos a Assunção e ainda arrumamos um troco.

“Polícia, para o chão. Para o chão.”

“Tudo bem, tudo bem. Não precisa atirar.”

Silêncio... Rapunzel está em silêncio. O seu olhar é perdido. Eu não sei o que ela está pensando agora, mas imagino... De volta ao inferno. Distantes... Separadas... Desta vez, cada uma para um lado e sequer sabemos o destino uma da outra. Tudo poderia ser diferente. O pior é o vazio que fica. Vou sentir saudades da minha flor... Amor, filho da puta!

 

 

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