quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

MEU CAVALO DEU PRA FALAR ESPANHOL


MEU CAVALO DEU PRA FALAR ESPANHOL, EM UM MUNDO DE JOÃO E MARIA DE CHICO BUARQUE DE HOLANDA

 

por

Ricardo Macedo dos Santos

 

       Esta noite eu sonhei todos os sonhos e me perdi em vão em todos meus pesadelos.

      Andei pela campina a cavalo, montado sobre uma cela de ouro, bastante fulgente, que roubei da rainha. O couro do arreio era legítimo, todo trabalhado com superior esmero.

      Sentia-me um “gaucho” argentino dominando seu ginete, conduzindo sua montaria como quem comanda uma tropa.

      Na verdade, eu tinha o aspecto de um heroi. Olhava o horizonte e sob meus olhos o chão era verdinho.

      Havia sementes perdidas no solo que morriam para dar frutos. 

      Busquei encontrar os moinhos de vento de Quixote. Mas o perímetro de minha loucura não permitia que eu fosse mais além do que um sonho poderia querer.

      As alucinações prosseguiam noite adentro. Cavalguei no meio de um bosque, sem saber muito bem para onde estava indo. De repente, meu cavalo balbucia: !Adelante! Não compreendi muito bem o que estava acontecendo. Imaginei que talvez minha vontade de querer avançar me sugeria agora aquela palavra em espanhol. Não, me equivoquei, pensei. O cavalo repetiu: !Adelante! O meu cavalo deu pra falar espanhol. Dos seus grandes dentes amarelos saiu até uma frase. E era de Che: !Hasta la Victoria siempre!. Imagine!  Meu cavalo conhecia Che.

      Eu sonhava, mas o que estava vendo saía da esfera do inconsciente.

      Consegui chegar a um lugar onde havia um bosque. O sol se mostrava altaneiro. Uma grande festa de luz espocava seus mais ardentes fogos.

      De repente, a uns 500 metros, vejo um alazão imponente, vindo fagueiro em minha direção. Sobre ele, uma linda amazona, usando uma roupa de fada. Lentamente se desviava do seu trajeto e passou por mim como quem quisesse romper o tempo, chegar a uma estrela e resplandecer em luz.

      Vi então que era a noiva do cowboy que sempre estava presente em minhas revistas em quadrinhos. Lembro-me de Roy Rogers, do Dr. Robledo que se travestia no Cavaleiro Negro e de Rock Lane, meu mocinho preferido.

      Senti-me forte por me ter permitido imaginar como seria a fada que cavalgava. 

      Comecei a ter coragem, logo eu que sempre fui tão covarde. Inventei uma guerra só para usar uniforme com várias cores, com espada e mosquetão.

      Eu enfrentava os batalhões que assomavam nas montanhas. Havia principalmente alemães com seus capacetes inconfundíveis. Seus canhões eram certeiros, mas, como era sonho, os projéteis se diluíam no ar até chegarem perto de mim e do meu cavalo.

      Percebi então que não havia uniformes nem armas e tive que lançar mão de um rudimentar bodoque para me defender. Acabado o combate, minha roupa havia mudado. Agora eu era o rei. Mas me chamavam de bedel e me chamaram até para julgar entreveros como um autêntico juiz.

      Nas matinês do cinema do reino, eu chegava a ensaiar rock, mas nunca tive talento para fazer o que Elvis ou Little Richard fizeram. O que mais gostei de fazer nesse sonho foi julgar, porque pude aprovar uma lei que obrigava as pessoas a serem felizes.

      Como rei, fiz coroar uma princesa. Sua beleza era admirada pela gente de todas as regiões que se limitavam com o meu país. Chocou-me muito saber, entretanto, que ela era tão linda, que gostava de andar nua pelo meu país.

      -Soube que queres fugir, disse-lhe desesperado. Ela respondeu-me que sim. Chorei e me fiz de brinquedo, um pião em suas mãos, um bicho de estimação que ela pudesse brincar, o que quisesse fazer. Ela me deu a mão. Falei-lhe com cuidado chamando sua atenção para o que estava acontecendo.

      Fiz-lhe saber que vivíamos em tempos de chumbo, mas já não tínhamos mais medo. Como um verdadeiro delírio descobrimos que nascemos muito depois desses tempos da maldade.

      Teria que suportar as nuances dos pesadelos que me assolavam. Eram movimentos fortes de ambiguidade, martírio e, ao mesmo tempo, um mergulho no nada.

       Agora não havia escolha, haveria que terminar esse faz de conta.  Caminhava além do quintal dos meus sonhos que se alimentavam do fim da noite. Quando imaginava que fosse acordar, a fada sumiu no mundo, com seu alazão, sorrateiramente, sem me avisar. Eu perguntei a todos, como louco, por aquela visão de mulher mais linda. Acordei frustrado e me pergunto então: o que é que a vida vai fazer de mim?


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