BOLA SETE NA CAÇAPA DO MEIO
por
Alex Calheiros
Tânia nunca foi boa bisca. Pinta
braba da Pavuna, a loira falsificada não perde uma festinha na empresa em que o
seu pai trabalha. Também pudera, sempre atrás de um bom partido para garantir o
seu futuro de princesa, a diva suburbana capricha na mini saia e no salto 18
para impressionar a alta cúpula. É... Ela sabe fazer isso como ninguém. Tânia é
a única que tem acesso livre à diretoria. Nem mesmo ao próprio pai é permitido
isso. A verdade é que os chefões babam pelas estonteantes coxas da filha do
Noronha. Dizem as más línguas, inclusive, que é ela que mantém o emprego do
coroa. Tânia abusa da provocação. O seu objetivo? Dimas, o herdeiro do patrão.
Um semideus.
Dimas é daqueles meninos criados
a leite de cabra e filé mignon. O primeiro da dinastia dos Herculano Pedrosa. O
rapaz nunca usou roupa sem passar e jamais andou descalço na rua. Ao completar
dezoito anos, ganhou do pai, um carango importado novinho em folha, uma supermaquina
esportiva de causar inveja aos velozes e furiosos. Entretanto, se o dinheiro
nunca foi problema para o príncipe, as meninas costumavam deixá-lo a ver
navios. Embora bonitão, Dimas é extremamente tímido. A sua ingenuidade beira a
estupidez, o ridículo. Inseguro e inexperiente, ele é presa fácil para qualquer
sirigaita oportunista. O seu pai sabe muito bem disso e está sempre por perto
dos relacionamentos pessoais do filho. Doutor Lídio Herculano conhece todos que
se aproximam dele.
Vida que segue e nada como um dia
após o outro. Depois de um ano de muita labuta, a empresa de Noronha ferve a
espera da festa de final de ano. O sítio "Bom Camarada" é o palco
preferido. Além de amplo, é lá que a rapaziada apronta as piores mazelas. A
birita é liberada e farta, o churrasco é de picanha. Tudo por conta do doutor
Lídio. Tânia não sai da mesa de sinuca. Ganhando ou perdendo, ela é um colírio
entre uma tacada e outra. Festa do trabalho é sempre muito engraçada. Tudo é
permitido. Tudo pode acontecer e normalmente acontece. As pessoas só se esquecem
de um pequeno detalhe: a segunda-feira... Tudo volta ao normal...
Depois de tanto insistir, doutor
Lídio Herculano convence Dimas. Para o pai já é hora do rapaz conhecer seus
funcionários e se habituar com o poder. Nada melhor do que uma festa de confraternização
para isso...
"Dimas, meu filho. Não se
misture com essa gente. Eles irão se aproximar de você pelo que você
representa, mas eles são seus empregados. Empregados, ouviu bem?" O rapaz
concorda com a cabeça.
A chegada dos dois é anunciada.
Um minuto de silêncio?!? É respeitado para o cumprimento. As palavras do doutor
recebem uma salva de palmas. Dimas também fala: "oi gente." Mais
palmas. Puta que pariu!
Dimas é carregado em triunfo. Todos se
aproximam com a esperança de se tornarem seus melhores amigos. Logo lhe servem
cerveja, wiskhy, vodka, champagne... O rapaz recusa. Ele não bebe. Doutor Lídio
Herculano perde o filho de vista. Dimas caminha em direção ao salão de jogos.
Uma legião de súditos o segue a espera de um aceno, um pedido. Ele se aproxima.
A mesa de bilhar está cercada. A multidão, então, abre passagem para o príncipe
passar. Tânia passa giz na ponta do taco. Provocativa. Gostosa demais! Ela
levanta o olhar: "preta na caçapa do meio." Dimas estremece. Tânia,
propositalmente, se posiciona a frente do rapaz. Ele a encoxa, ela rebola.
Tânia mastiga chiclete. Ele está excitado. Tânia dá a tacada. Dimas sente o seu
perfume, o calor do seu corpo. Caçapa!
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