quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

BOLA SETE NA CAÇAPA DO MEIO


BOLA SETE NA CAÇAPA DO MEIO

 

por

Alex Calheiros

 

Tânia nunca foi boa bisca. Pinta braba da Pavuna, a loira falsificada não perde uma festinha na empresa em que o seu pai trabalha. Também pudera, sempre atrás de um bom partido para garantir o seu futuro de princesa, a diva suburbana capricha na mini saia e no salto 18 para impressionar a alta cúpula. É... Ela sabe fazer isso como ninguém. Tânia é a única que tem acesso livre à diretoria. Nem mesmo ao próprio pai é permitido isso. A verdade é que os chefões babam pelas estonteantes coxas da filha do Noronha. Dizem as más línguas, inclusive, que é ela que mantém o emprego do coroa. Tânia abusa da provocação. O seu objetivo? Dimas, o herdeiro do patrão. Um semideus.

Dimas é daqueles meninos criados a leite de cabra e filé mignon. O primeiro da dinastia dos Herculano Pedrosa. O rapaz nunca usou roupa sem passar e jamais andou descalço na rua. Ao completar dezoito anos, ganhou do pai, um carango importado novinho em folha, uma supermaquina esportiva de causar inveja aos velozes e furiosos. Entretanto, se o dinheiro nunca foi problema para o príncipe, as meninas costumavam deixá-lo a ver navios. Embora bonitão, Dimas é extremamente tímido. A sua ingenuidade beira a estupidez, o ridículo. Inseguro e inexperiente, ele é presa fácil para qualquer sirigaita oportunista. O seu pai sabe muito bem disso e está sempre por perto dos relacionamentos pessoais do filho. Doutor Lídio Herculano conhece todos que se aproximam dele.

Vida que segue e nada como um dia após o outro. Depois de um ano de muita labuta, a empresa de Noronha ferve a espera da festa de final de ano. O sítio "Bom Camarada" é o palco preferido. Além de amplo, é lá que a rapaziada apronta as piores mazelas. A birita é liberada e farta, o churrasco é de picanha. Tudo por conta do doutor Lídio. Tânia não sai da mesa de sinuca. Ganhando ou perdendo, ela é um colírio entre uma tacada e outra. Festa do trabalho é sempre muito engraçada. Tudo é permitido. Tudo pode acontecer e normalmente acontece. As pessoas só se esquecem de um pequeno detalhe: a segunda-feira... Tudo volta ao normal...

Depois de tanto insistir, doutor Lídio Herculano convence Dimas. Para o pai já é hora do rapaz conhecer seus funcionários e se habituar com o poder. Nada melhor do que uma festa de confraternização para isso...

"Dimas, meu filho. Não se misture com essa gente. Eles irão se aproximar de você pelo que você representa, mas eles são seus empregados. Empregados, ouviu bem?" O rapaz concorda com a cabeça.

A chegada dos dois é anunciada. Um minuto de silêncio?!? É respeitado para o cumprimento. As palavras do doutor recebem uma salva de palmas. Dimas também fala: "oi gente." Mais palmas. Puta que pariu!

Dimas é carregado em triunfo. Todos se aproximam com a esperança de se tornarem seus melhores amigos. Logo lhe servem cerveja, wiskhy, vodka, champagne... O rapaz recusa. Ele não bebe. Doutor Lídio Herculano perde o filho de vista. Dimas caminha em direção ao salão de jogos. Uma legião de súditos o segue a espera de um aceno, um pedido. Ele se aproxima. A mesa de bilhar está cercada. A multidão, então, abre passagem para o príncipe passar. Tânia passa giz na ponta do taco. Provocativa. Gostosa demais! Ela levanta o olhar: "preta na caçapa do meio." Dimas estremece. Tânia, propositalmente, se posiciona a frente do rapaz. Ele a encoxa, ela rebola. Tânia mastiga chiclete. Ele está excitado. Tânia dá a tacada. Dimas sente o seu perfume, o calor do seu corpo. Caçapa!

Tânia está à espera do segundo neto do homem.


 

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