segunda-feira, 23 de maio de 2011

Ausente Ocupado Invisível
Fulano está solteiro(a) há 14 minutos. Beltrano está em relacionamento enrolado(a) há 33 minutos. Virei a ampulheta... O tempo corre e você precisa encontrar a sua cara metade. Sicrana também? Solteiro(a) há 2 minutos. Como assim? Como alguém se apaixona ou desapaixona em tão pouco tempo? Cronometrado, medido! Será que isto aconteceu diante de um monitor? Diante de milhares de testemunhas virtuais? Curti! Sicrana curtiu Fulano. Será que ela gostou de saber que Fulano não ama mais. Agora, há 16 minutos? Seria essa informação um anúncio publicitário? Vende-se Sicrana, solteiro(a) há 18 minutos. Vejam como eu penso, o que eu escrevo, onde moro, o que eu gosto de fazer... E as fotos? Assim, essa aqui... De ladinho... Encolhe a barriga, empina a bunda. Gostosa. Quem dá mais? Quem dá mais? Comprei, ou melhor, curti! Já se passaram 25 minutos e nada. Me curtiram... Não gostei! Deleto! Como assim? Extermino sem piedade! Era um "fake", mas... E se não fosse? Esquece! Nem lembro mais para ser sincero. Vou desligar. Preciso comer alguma coisa. Estou desde ontem conectado... Que dia é hoje?
Cale-se enquanto isso...
O amor vai além do discurso. Não se mede em palavras. O amor é tudo! O início e o fim. É a certeza... A entrega completa. A perfeição no oblíquo, a ciência no insano. O amor é assim... O resto é apenas desejo... Desejo de amar. Então, quando me procurar e me disser que me ama... Cale-se! Você só pensa em você!
Sufocar que seja (Não é necessário por aspas em textos nem para iniciar o corpo do texto. A voz do narrador já se impõe sozinha.)
Você pode falar e escrever o que quiser. Nada daquilo que foi lido ou dito pode ter significação correspondente. O inefável só pertence a mim! Sufocar o pensamento é a pior das agressões.

Raio XOlhe a fotografia. Eles estão abraçados e celebram aquele momento único. Especial talvez... Para eles, é claro! Mas o que os levou até ali? O que os levou a registrar e compartilhar aquela cena? Ela, uma "puta"! Mal caráter de carteirinha, profissional da cobiça. Alguém suficientemente incapaz de se sustentar por meio do seu próprio esforço... Sempre em busca de mordomia. Prazer barato proporcionado pelo que o dinheiro pode comprar. Racionalidade monetária. Corpo e sentimento em leilão. E ele? Inexpressivo. Funcionário bem remunerado por desempenhar a sua própria anulação. A empresa o adora. Escova os dentes depois das refeições, controla sistematicamente a conta bancária, ações, investimentos... Usa terno todos os dias. Viagens a trabalho, a negócios... Com ela também, é claro! Nas férias, é óbvio! Compram perfumes no Dutty Free. Conversam sobre a vida.
É... Guardarei a fotografia. Quem sabe não a uso na próxima pesquisa da escola da minha filha. Sempre pedem para colar em uma cartolina. Talvez, peçam exemplos de casais que se amam, felizes".

“Cegueira”
_
_Hã?
_
_Não entendi...
_
_Não entendo esses sinais... O que isto quer dizer?
_
_Ele é “mudinho”, “tadinho”.
O surdo sorri. Acha graça da própria exclusão. Quantas vezes ele já passou por situações constrangedoras como esta... Por quantas ainda irá passar? Possivelmente, já se acostumou com esse tipo de comentário ignorante e preconceituoso. Mas por que isso? Por que o tratam como “anormal”? Mas... O que é ser “normal” nesse mundo de diferenças? Mundo de multiplicidades culturais, globalização, da miscigenação étnica, do medo de burlar... Mais ainda! Desde quando essa “pseudonormalidade” pode ser considerada como uma referência absoluta?
Certamente se o sujeito conhecesse a Língua Brasileira de Sinais ou tivesse acesso a Lei número 10.436 de 24 de abril de 2002, ele não cometeria tamanho desatino. Por outro lado, é fácil de se entender o porquê de tamanha ignorância. Os veículos de comunicação, embora obrigados oficialmente, não disponibilizam espaço para os que não ouvem.
Para se entender um pouco melhor a surdez, genericamente, podemos classificá-la de duas maneiras: a perda da audição durante a vida adulta e o surdo pré-lingual. Elas se diferem pela percepção de seus problemas e por meio de suas necessidades. Os pré-linguais, muito embora aceitem com maior facilidade esta perda, têm enormes dificuldades de comunicação. Por sua vez, descobrem a sua própria língua, de natureza visual-motora.
A perda auditiva pode ser: leve, moderada, com possibilidade de audição por meio de aparelhos, acentuada, severa e profunda.
Vale ressaltar também a perda sensorial. Esta, a forma mais grave. Ela impossibilita a compreensão da voz humana e a percepção precisa do som. Percebe-se tão somente sons graves e fortes. Há ainda, os hipersensíveis. Para estes, o som provoca dor.
É... O surdo sorri novamente e diante da perplexidade do ignorante. O cidadão se abaixa, apanha a carteira do sujeito, a entrega e sai em seguida silenciosamente.
“Obrigado, “mudinho”. Eu não vi que a minha carteira tinha caído...”

Tarifa
“Vai me dar um dinheiro? Vai ou não? Se me der um dinheiro pode até ser...”
Não sei ao certo o porquê deste diálogo ter me despertado tanto interesse. Sinceramente, eu não quero acreditar na possibilidade de ser mais uma vítima do mundo hipermoderno, do capitalismo exacerbado e de todos os “hipers” possíveis e inimagináveis deste organismo vivo e devorador, entretanto, por alguns instantes me concentro naquela conversa e divago.
Sim! É verdade. Se uma viagem de ônibus pode se transformar em um excelente exercício de observação da vida alheia, tentar entender o que se passa pela cabeça das pessoas, então, ultrapassa os limites do discernimento. Beira a insanidade!
Pois bem, eis a cena: sem titubear, aquele menino implora por carinho, pelo colo e concorda com o que a sua mãe pede. Claro! O moleque não tem a mínima noção do que aquilo representa nem mesmo o bonequinho verde, brinde promocional da mais famosa fast food mundial, é capaz de trazer-lhe sentido. Seria indício do surgimento de uma geração sem referências e ideologicamente esvaziada? Surgimento mesmo ou tão somente manutenção dela?
“Vai me dar um dinheiro? Vai ou não? Se me der um dinheiro pode até ser...”
“Vou, mamãe! Vou!”
Após alguns míseros minutos de afagos, ela se irrita com a própria angústia e passa novamente a criança para os braços da avó.
“Vem, amor. A vovó compra uma revista para você quando chegarmos lá.”
Puxo a cordinha. O próximo ponto é o meu.
Beijarei tua boca tão somente isso...
"Beijarei tua boca até engolir a sua língua! Beijarei tua boca até que nossas almas se misturem em saliva! Beijarei tua boca até seu sexo derreter por entre suas pernas! Beijarei tua boca até o cheiro se tornar mais forte do que o seu gosto.
Beijarei tua boca tão somente isso...

Quatro dias de CarnavalO que de pior pode se ver não é nem sombra do que alguém pode tentar guardar como segredo. Quantos são os que se escondem atrás das máscaras e que não percebem que o carnaval dura apenas quatro dias.

Sem pudores
Ela costuma se olhar no espelho enquanto se lambuza com o falo. Em um determinado momento, a mocinha interrompe o ato e diz: preciso de dinheiro. Imediatamente, preencho um cheque. Ela não para. Entrego-lhe a folha e ouço sua voz... Falando baixinho: desculpe ter te pedido grana, assim... Tão sem pudores!


Sorriso de CelofaneConversas no "reservado":
_E aí, Barcelos, tudo bem com você?
_Tudo bem...
Percebo Barcelos reticente e sigo em frente.
_Aconteceu alguma coisa, meu caro mestre?
_É... Aconteceu...
_O que houve, Barcelos?
_Descobri que por tanto tempo dediquei o meu amor por tão pouco.
_Como assim?
_Redes sociais são um paraíso para investigadores solitários, curiosos patológicos, obsessivos depressivos...
_Desembucha, Barcelos! Desembucha!
_Encontrei na internet, o perfil da mulher que mais amei na minha vida.
_E aí, Barcelos? E aí?
_Olhei algumas fotos. Ela não está sozinha...
_Está triste com isso, meu caro?
_Sim, querido... Estou.
_Não fique assim, meu amigo. Sofrer por amor é inerente ao ser humano. Acontece com todos...
Barcelos me interrompe como quem se engasga com a própria saliva.
_Não, meu querido! Não é nada disso...
_O que foi então, Barcelos? Por que está triste então?
_Estou triste, porque paguei adiantado a minha terapia. Não gasto mais um centavo com esse assunto.
De fato, Barcelos sempre achou frescura esse negócio de divã.

Garantias por tempo indeterminadoBarcelos é o típico malandro agulha. Quantas vezes se faz de bobo para sair de uma saia justa. Certo dia, conversávamos animadamente no boteco do portuga lá na Glória. Enquanto degustávamos salaminho e entornávamos algumas geladas, perguntei-lhe como quem não quer nada sobre o casamento: "E então, Barcelos, quando você casa com a Desiré? Mulher apaixonada deve ser levada para o altar antes que seja tarde."
Barcelos sorriu, palitou os dentes e me respondeu: "Altar? Só se for para o sacrifício. Mulher nunca se apaixona, apenas te usa por conveniência. Daqui a pouco muda de operadora, troca o chip e distribui o telefone para um bocado."
Me surpreendi com a revelação e continuei: "Mas Barcelos... E todo aquele amor entre vocês?"
"Ué... É o de sempre! O do momento, presente. Ela só não joga a sua agenda telefônica fora. Está tudo anotadinho a caneta. Garantias por tempo indeterminado."
"Traz mais uma bem gelada, portuga!"

Fartar-seQue tal um chope? Sugere Barcelos. Prefiro destilado, responde Desiré. Gosto de Scoth, sem gelo. Te acompanho. Não. Eu bebo uma cerveja. E o destilado? Insiste ele. Peça uma água sem gás. Salada? Bife com fritas. Muita gordura. Barcelos e Desiré se levantam e saem sem consumir nada. Não pagam sequer o couvert artístico. Foram a um motel e se fartaram de amor...

220A conheci em uma night. O clima esquentou. Ferveu! Fomos ao seu apê. Apalpei-lhe os seios. Ela gritou: devagar! São 220 ml. Uma fúria animal me fez puxar suas madeixas. Ela suspirou: gastei 500 pratas no mega hair. Decidi possui-la sobre o piano de cauda. Ela gritou: não! Vai desafinar! Pôe o preservativo. Não tomei o remédio. Não gosto assim. Cuidado com o móvel. Comprei um Mac lanche feliz e ganhei o bonequinho do "Coisa". Melhor!

Passa a cachaça pra cá!Fomos a um barzinho de esquina da Rua da Glória. Uns 20 amigos. Homens e mulheres. Barcelos pediu uma aguardente daquelas de arder o rabo e uma vitamina mista. O garçom que nos servia, colocou os dois copos sobre a mesa. A bagaça para Barcelos e o suco de saúde para Desiré. Ela gritou: machista de merda! Passa a cachaça pra cá!

Tia OdeteBarcelos comprou uma rosa para Desiré. Ela, apesar do bafo de cana, retribuiu o carinho com o beijo "isolados no mundo". Sabe quando tentamos conversar com um casal, mas nos sentimos meros oportunistas dos seus momentos de distração um do outro. Pois é, "isolados no mundo". Depois do beijo e de sentir o perfume da flor, Desiré virou-se para todos e disse: me lembrei da tia Odete. Fomos ao enterro dela.

Alexandre Calheiros
ENCOMENDA


Seu Edgar gostava de caminhar pela praça naquele passinho miúdo. Ficava olhando em volta, devagar, apreciando o movimento. Um velho de noventa anos não devia ter mesmo muito que fazer. As crianças correndo ao redor e o velho lá olhando. Admira um velho desses ter tanta paciência. Ednice, a enfermeira do velho, o carregava pendurado no braço. Era uma mulata gostosa, as coxas roliças e a bunda enorme meio contida numa saia curta. Todo mundo olhava a bunda de Ednice.
Capitão França, o rei do carteado da praça, comentava sempre que o velho devia comer a enfermeira. E eu dizia que era impossível, que o coroa não tinha força nem para andar, quanto mais para dar conta de uma bunda daquelas. O velho França respondia que seu Edgar fazia cara de tarado sempre que passeava pela praça. A velharada que jogava ria de babar quando ele falava.
Um dia, fui entregar uma encomenda para o Barão, vizinho do seu Edgar. Barão colecionava uns “berros” que eu trazia. Só que também gostava de dar uns tecos e mais de uma vez desfilou com a nareba suja de pó pelo bairro. E já tinha escapado de levar um sacode da polícia, tudo na mais pura sorte. Só que, apesar de vacilão, o Barão era bom freguês, pagava certo e não dava mole com os “berros”.
Chegando ao apartamento, bati na porta e ninguém atendeu. Pensei, porra, aquele merda do Barão esqueceu o combinado e saiu. Deve ter fungado umas três carreiras e detonou a cabeça de vez.
Aí fui apurando o ouvido para ver se escutava alguma coisa no apê do Barão e ouvi um gemido abafado. Não era o Barão, era no apartamento de cima, do Seu Edgar. Será que o velhote estava traçando a mulata? Resolvi investigar, curioso.
Quando me encostei à porta, ela abriu silenciosamente. Dei com as costas enrugadas do velho. A cueca do velho parecia um saco vazio pendendo daquela bunda seca. E, diante dele, amarrado no sofá, estava o Fabinho, filho do porteiro, de olhão arregalado, boca tampada com um pano imundo e também de cueca. Ednice roncava na poltrona, de calcinha, com a seringa ainda espetada na veia do braço.
Lembrei-me do França e da descrição da cara do tarado e saquei imediatamente qual era o negócio. A pistola saltou rápido da minha cintura e quatro pipocos atravessaram as costas do velho saindo no peito murcho. Uma das balas abriu um rombo no sofá ao lado da enfermeira. Ela abriu um olho e fechou em seguida, para nunca mais abrir. Esvaziei o pente no peito da mulata e corri até o garoto: some, moleque, vaza, desaparece e nem pensa em falar porra nenhuma do que você viu aqui! O moleque me olhou e quase sorriu.
Saí do prédio. Não vendo mercadoria usada, o Barão ia ficar na mão. Também, que mandou o otário ir passear na hora errada?


César Calheiros
A Era de Aquário é aqui...

por Felipe Aveiro

"Quando a lua dominar o céu
E Júpiter chegar em Marte
A paz há de lavar o mundo
O amor vai derramar
Na madrugada dessa Era de Aquário"

A Era de Aquário já começou e está em cartaz até o fim do mês no Teatro Oi Casa Grande em mais um maravilhoso espetáculo da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho. A peça é "Hair", versão da peça homônima que estreou no off-Broadway em 1967 com música de Galt MacDermot e letras e libreto de James Rado e Gerome Ragni tornando-se um fenômeno que marcou época.

Enquanto os Estados Unidos causavam horror ao mundo através do primeiro conflito televisionado internacionalmente, a Guerra do Vietnã, um movimento contracultural pregava o pacifismo, o uso de drogas e o sexo livre. Os hippies. A trama principal gira em torno de Claude (Hugo Bonemer), jovem que é convocado para a guerra e nos conflitos que essa convocação causa nele próprio e na "Tribo", o grupo ao qual pertence liderado por Berger (Igor Rickli) e conta ainda com Sheila (Carol Puntel), Jeanie (Carol Puntel, engraçadíssima), Woof (Marcelo Octavio), Crissy (Tatih Köhler), Dionne (Karin Hils, ex-integrante do grupo Rouge que dá um show cantando "Aquarius") entre outros. Aqueles familiarizados com a versão cinematográfica, dirigida por Milos Forman de 1979, perceberão algumas diferenças no enredo.

Apesar de 40 anos já terem se passado, a mensagem da peça permanece atual. Os hippies já abraçavam o ambientalismo muito antes de se ouvir sobre o aquecimento global. A legalização das drogas é um tema que tem sido discutido e ganhou adeptos de peso como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Impossível não tratar do tema da liberdade sexual, levando em consideração às agressões homofóbicas recentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. E como não falar da paz enquanto forças aliadas bombardeiam a Líbia. "Hair" é, sobretudo, uma colorida celebração à liberdade, principalmente a comportamental.

A montagem brasileira não deixa nada a dever às americanas, com o belo cenário de Rogério Falcão, emulando uma espécie de galpão abandonado, com uma kombi psicodélica e latões com os rostos pintados de John Lennon, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison (quantos "jotas"!). Os figurinos hippies elaborados por Marcelo Pies contribuem ainda mais para a profusão de cores que é o espetáculo. E tudo perfeitamente iluminado por Paulo Cesar Medeiros, que já trabalhou com Möeller e Botelho, assinando a iluminação de "O Despertar da Primavera" que lhe rendeu um prêmio Shell. Os números de dança coreografados por Alonso Barros são brilhantemente executados e completam as versões das canções em português de Cláudio Botelho, com direção musical de Marcelo Castro, para as canções que viraram hinos como "Aquarius", "Hair" e "Let the Sunshine In".

Mas o que mais chama a atenção é o talento do elenco composto por 30 jovens atores-cantores-dançarinos, selecionados em cerca de 700 audições, e que vêm mostrar que essa nova geração do teatro musical brasileiro é extremamente profissional e já está dando o que falar. Ao final, o elenco convida o público a participar da festa e a juntar-se a eles no palco para todos deixarem "o sol entrar".

Cabeludos no Brasil

A primeira montagem de Hair no Brasil estreou em outubro de 1969, menos de um ano após a publicação do AI-5, em plena ditadura militar. A peça causou polêmica com sua cena de nudez que repercutiu por todo o país. A peça dirigida por Ademar Guerra, contou com nomes, hoje consagrados, como Antônio Fagundes, Aracy Balabanian, Ney Latorraca e a estreante Sônia Braga, cuja participação no espetáculo foi imortalizada na canção "Tigresa" de Caetano Veloso ("Ela me conta que era atriz, e trabalhou no Hair...").
"O ESPELHO"
Um Roteiro
de
Felipe Aveiro

baseado no conto “O Espelho” de Machado de Assis


Em um fundo negro, em letras brancas, aparece a frase:
“Conhece a ti mesmo” - Sócrates

INT. – QUARTO – DIA
Um rapaz está em seu quarto deitado na cama apenas de samba-canção e falando em seu iPhone. Seu quarto é espaçoso e percebe-se que ele é de uma família de posses. Um porta-retratos na cabeceira de sua cama mostra sua linda namorada e, ao lado, encontra-se um grande troféu. Em uma cadeira, repousa a roupa nova que ele comprou para ir a uma festa à noite. Ele fala com sua namorada, Isabella, ao telefone
ISABELLA (V.O)
Amor, eu tô no salão me preparando para a festa. Não dá pra você esperar um pouquinho, não?
ELE
Não. Saiu hoje a classificação da UFRJ e adivinha quem ficou com o primeiro lugar em Medicina.
ISABELLA (V.O)
Ahhhhhhh (gritando de felicidade). Não acredito!.
ELE
É (ri), eu sou foda! Não disse que ia ser mole?
ISABELLA (V.O)
Você é foda mesmo. Ontem você fez o gol que ganhou o campeonato e hoje essa. Você é foda mesmo, e vai ser o médico mais lindo do mundo. Alguém vai ganhar uma surpresinha hoje à noite...
ELE
Mal posso esperar. (o celular apita) Opa! Peraí que tem outra ligação aqui. É o Alex. Ó Isa, vou passar na tua casa pra te pegar às dez. Beijo.
ISABELLA (V.O)
Beijo, gato.
ELE
(Atendendo a outra ligação) Faaaala moleque, o que é que tu manda?


ALEX (V.O)
Caralho, brother! Vai tomar no cu!. Por isso que lá na escola todas as piranhas te querem. Tem dinheiro, é boa pinta, o melhor jogador de futebol da escola, tá pegando, com todo respeito, a delicinha da Isa e ainda por cima, passa em primeiro na UFRJ. Eu te odeio. Como a vida é injusta.
ELE
Para, para (rindo)... Eu sei que eu sou “o cara”, não precisa lembrar.
ALEX (V.O)
Então, não vai perder a festa hoje, né? A Lu tá doida pra te dar uns pegas.
ELE
Tô ligado, só preciso dar um perdido na Isa antes (ri). É claro que eu vou, mas eu não perco essa festa nem fudendo. Comprei roupa nova. Vou na beca...
A bateria do celular acaba. Ele deixa seu iPhone de lado e senta em frente ao seu computador. Coloca seu fone e começa a escutar música, enquanto fica no MSN. Diversas janelas abrem. Ele é popular e todos querem falar com ele. Ao entrar no Facebook, ele vê diversas mensagens o parabenizando pelo campeonato e pela classificação na prova, além de uma mensagem da Lu.
Sua mãe chega por trás e começa a falar com ele, mas ele não a escuta.
MÃE (V.O.)
Lindo, seu pai e eu vamos jantar fora. Fizemos uma cópia nova da chave pra você e deixamos naquela caixinha no aparador da sala.
Ele continua a ouvir música
MÃE (V.O.)
Ouviu? (perguntou tirando o fone de um dos ouvidos dele)
ELE
Ouvi mãe, ouvi. Ó, vou pr’uma festa hoje lá no Leblon e só devo chegar de manhãzinha.
MÃE (V.O.)
Você tem dinheiro pro táxi?

ELE
Tenho sim. Divirtam-se.
MÃE (V.O.)
Juízo, hein. E parece que vai chover bastante hoje, então se você sair antes da gente chegar, não se esqueça de fechar tudo direitinho.
Seus pais saem, e ele continua no computador até que a energia acaba. Ele olha para o computador por um tempo frustrado, pois estava no meio de um chat com os amigos. Pega o telefone para continuar o papo, mas percebe que o mesmo não funciona devido à queda de energia, é um telefone elétrico. Levanta e sai do quarto.
INT. – CORREDOR – DIA
Ele se depara com um espelho no corredor. É um espelho grande e antigo. Tem moldura de madeira. Ao lado do espelho, em um aparador, um busto de Machado de Assis. Ele então vê seu reflexo, se admira e ajeita o cabelo. Continua seu caminho.
INT. – SALA – DIA
Vai até a porta da saída, mas percebe que a porta está trancada. Ele havia perdido sua chave e pediu que sua mãe lhe fizesse uma nova cópia, porém ele não sabe onde encontrá-la.
Ele perambula pelo apartamento a busca de algo para fazer. Está entediado. Olha pela janela e fica um tempo observando a rua. Resolve voltar para seu quarto.
INT. – QUARTO – DIA
Deita novamente em sua cama e fica olhando para o teto e acaba por cochilar.
INT. – QUARTO – NOITE
Ele acorda. Já está escuro. Garoa lá fora. Ele se levanta e tenta ver a hora em seu iPhone mas lembra que a bateria acabou e ele não o havia posto para carregar. Levanta.
INT. – CORREDOR – NOITE
Anda vagarosamente pelo corredor, vê novamente o espelho, e vai a cozinha onde guardam as velas.
INT – COZINHA – NOITE
Pega uma em uma gaveta e a acende. A chuva aumenta bastante, assim como o vento.
INT. – CORREDOR – NOITE
Vê novamente o espelho e toma um susto com seu reflexo por causa da escuridão. Para e se admira por mais um tempo. Sua imagem começa a parecer borrada. Ele se aproxima mais do espelho e percebe que seu reflexo está completamente difuso e se apavora. Recua. Ele não sabe o que fazer. É como se ele não pudesse mais ver quem ele é. E, sozinho, não tem quem o lembre disso. Ele corre pro seu quarto. A chuva se intensifica ainda mais.
INT. – QUARTO – NOITE
Não sabe bem o porquê, mas ele pega o paletó separado em sua cadeira e o veste, pega seu troféu e volta para o corredor.
INT. – CORREDOR – NOITE
Olha novamente para o espelho e consegue, finalmente, ver seu reflexo. Por um tempo se sente aliviado, porém seu reflexo novamente começa a ficar borrado. Começa a ventar bastante. Desesperado, ele quebra o espelho e corre para o seu quarto.
INT. – QUARTO – NOITE
Uma tempestade já está formada, está no ápice. Ele já tirou o paletó e pula em sua cama. Ele cobre todo o seu corpo com um edredom.
INT. – QUARTO – NOITE
O edredom é puxado com força. Para ele é como se tivesse sido no mesmo momento. Não percebeu o tempo passar. Ele grita, mas é a sua mãe e a luz já está normalizada.
MÃE
Que aconteceu, meu filho? Pesadelo?
Ele, sem entender o que está acontecendo, olha pra sua mãe assustado.
ELE
Não mãe, que horas são? (Pergunta perturbado)
MÃE
São “15 pras 10”. Você não ia passar na casa da Isa pra vocês irem à festa? É melhor você ir se arrumando.
Ela sai do quarto. A chuva a essa hora já cessou por completo. Ele pensa que tudo foi apenas um sonho. Ouve a voz de seu pai.
PAI (V.O.)
E esse espelho aqui quebrado, menino, você se cortou?

FIM
Muito legal! Bom diálogo com o texto de Machado.
Por ser um roteiro, você precisa dar mais detalhes: posicionamento dos personagens, descrevê-los, a fim de facilitar a montagem da peça.
Sugiro que leia uma peça de teatro de Nelson Rodrigues para ter uma ideia das indicações que são feitas.
O LANÇAMENTO

O sol entrava tímido pela janela aberta, uma brisa fraca refrescava o quarto quente. Estava tudo organizado, com exceção das roupas jogadas pelo chão, dando a impressão de que a noite havia sido agitada. Deitado na cama, Allan se apoiava em um braço só, sorrindo e olhando para a pessoa que deitava ao seu lado. Passou a mão pelo seu rosto, tirando o cabelo que caia nos olhos enquanto se aproximava dando-lhe um beijo na boca. Os belos olhos verdes que tanto amava se abriram e aqueles lábios se transformaram em um sorriso.
Allan tinha um compromisso importante nesse dia, era o lançamento de mais um livro que havia escrito. Ele ainda não conseguia acreditar no sucesso que seus livros haviam sido e continuavam sendo. Em seus 35 anos, em ótima forma e saúde, se sentia mais bem disposto do que havia sido quando era mais novo. Olhou para o relógio na mesa ao lado da cama. O carro iria buscá-lo às 10 horas para levá-lo para a livraria. Já eram 9 horas, mas ele não conseguia resistir àquelas mãos tentadoras que passavam pelo seu corpo o convidando para mais um daqueles momentos libertadores de sexo e prazer.
Allan segurou aqueles belos cabelos loiros e os puxou em sua direção, começou a morder o pescoço até arrancar gemidos de prazer. Os beijos estavam ficando mais quentes, ele conseguia sentir seu pau ficando duro dentro de sua cueca e percebeu mãos sedentas procurando pelo seu órgão para deixá-lo ainda mais excitado. Os movimentos de vai e vem o deixavam louco e os gemidos que escutava estavam lhe deixando sem fôlego. Ele segurou as mãos que o excitavam com força, fazendo os movimentos pararem. Puxou-as para o lado, e deixou-as na parede em frente a ele. Segurou ambas as mãos com apenas uma e o pau perto daquela gostosa que estava só esperando por ele.
- Vou comer sua bunda! – disse chegando mais perto e sussurrando no ouvido, arrancando mais gemidos de prazer. – Sei que é disso que gosta. – continuou falando enquanto enfiava com toda vontade naquele corpo que ele adorava. – Eu vou gozar dentro desse seu rabo. – continuou fazendo movimentos cada vez mais rápidos.
Os gemidos estavam cada vez mais altos, misturados com o suor e as tentativas de chamar pelo seu nome. Allan deixou as duas mãos que segurava livres novamente e começou a puxar o corpo perfeito na sua frente pra mais perto dele.
- Goza, Allan. – disse aquela voz que o fazia completamente escravo. – Vai! Agora.
Allan enfiou com mais vontade e aquela sensação maravilhosa tomou conta de seu ser. Os dois corpos suados caíram na cama se abraçando aos beijos.
- Eu te amo. – disse Allan encarando aqueles olhos verdes. – Para sempre.
Allan se levantou olhando para o relógio. Já haviam passado das 10 horas, ele estava atrasado.
- Porra, estou atrasado pra caralho! – gritou correndo para o banheiro. – Vem comigo.
Os dois tomaram um banho rápido e vestiram roupas limpas. O carro que vinha buscar Allan o estava esperando na porta de sua casa. Eles entraram no carro e o motorista dirigiu o mais rápido que pode até a livraria que já estava lotada de gente. Allan entrou na livraria acompanhado de alguns seguranças. Ele era importante na comunidade literária. Pegou aquelas mãos que tanto o excitaram há alguns minutos e puxou para perto dele. Os dois seguiram para perto da mesa e Allan se sentou. Milhares de fãs se apinhavam por toda a livraria para comprar um livro e pedir um autógrafo. Mas, a pessoa mais importante da sua vida estava bem ao lado dele. Ele não se importava que as pessoas soubessem, não tinha medo da repercussão na mídia.
- Daniel. – chamou mais tarde quando todos os livros já haviam sido vendidos. – Vamos pra casa, meu amor. – Não era nenhum segredo que ele era homossexual, o único segredo era que o homem que ele amava, era seu irmão.

Joyce
O DESTINO


Atravessando a rua apressado, Tobias não viu o carro que se aproximava. Um Ford vermelho guiado por Isabela, que acertou em cheio o rapaz.
A moça desesperada não sabia o que fazer diante daquele terrível acidente. A ajuda das pessoas que passavam por ali foi fundamental até a chegada do socorro médico.
Isabela seguiu com Tobias para o hospital. Acompanhou aflita todos os exames.
- Foi uma pancada e tanto, disse o médico. Sorte o rapaz não ter morrido. Apenas alguns ossos quebrados.
- Obrigada, doutor. O Senhor não sabe o quanto essa notícia me acalma. Eu não o vi atravessando. O sinal estava verde. Não sabia que alguém seria tão louco em tentar atravessar num local com tantos veículos em alta velocidade.
- É verdade! As pessoas estão cada dia mais imprudentes no que diz respeito ao trânsito. Não só os motoristas, mas também os pedestres.
Isabela continuou no hospital. Queria esperar até que Tobias acordasse da anestesia e lhe pedir desculpas pessoalmente. A solidariedade da moça era o mínimo diante do episódio.
Ligou para a irmã e pediu ajuda com os esclarecimentos policiais e avisou que só sairia dali quando pudesse conversar com o rapaz.
Tobias já estava consciente e o médico liberou a visita de Isabela. A enfermeira os deixou conversar a sós, após aplicar no rapaz a injeção com o medicamento.
- Perdoe-me! Em lágrimas pediu Isabela.
- Fique calma moça. Eu é quem devo pedir desculpas. Não vi o sinal aberto e distraído acabei atravessando em sua frente.
- Não! A culpa foi minha. Deveria ter prestado mais atenção no cruzamento.
- Já disse para ficar calma. Logo saio daqui e a vida continua numa boa.
- Deixe-me ajudar até o fim de sua recuperação. Eu te peço. Isso fará com que me sinta menos culpada.
- Tudo bem! Se preferir... Pode começar me fazendo companhia aqui no hospital. Não tenho família e nem amigos. Andava solitário pelas ruas da cidade. Talvez esse acidente não tenha acontecido por acaso.
Aquelas palavras tocaram fundo o coração de Isabela. Os olhos brilhantes daquele solitário rapaz lhe despertaram algo além de piedade.
Os dias iam passando e a recuperação de Tobias seguia em constate avanço.
Os médicos lhe deram alta e como estava sem lugar para ficar, Isabela o hospedou em sua casa.
O sentimento entre os dois a cada dia ficava mais forte. Não muito tempo depois já eram grandes amigos e confidentes.
Na noite de aniversário de Tobias, Isabela preparou um jantar para comemorar. O fim foi marcado por um apaixonante beijo.
O sono dos dois foi interrompido pelo “sonhar acordado” da paixão.
Quando amanheceu, Isabela foi ao quarto de Tobias, mas a tristeza a possuiu ao perceber que o rapaz havia deixado sua casa, sem despedida.
Ela o procurou por todos os lugares, mas não foi possível encontrá-lo.
A dor da saudade consumia seu coração.

Muito tempo se passou e como no primeiro encontro, o inesperado aconteceu. Agora, não um acidente, e sim o acaso.
Isabela reconheceu o olhar de Tobias atrás de um balcão num bar da Zona Sul.
Era ele. O jovem que despertou em seu coração o sentimento mais bonito e intenso que podia sentir.
A moça o chamou pelo nome e esse na tentativa de se esconder, disfarçou fingindo não ouvir o que a moça falava.
Foi em vão. Isabela estava certa de que aquele era Tobias e nada a fez desistir do seu amor.
O rapaz já não conseguia disfarçar o sentimento que também estava preso em seu peito e se rendeu aos apelos de Isabela. A beijou como no jantar de aniversário.
Naquele bar, o amor dos dois foi eternizado.
Tobias percebeu que as diferenças sociais que até então ele julgava serem empecilho para o relacionamento dos dois, não era grande o bastante para separá-los diante de um amor tão sincero e verdadeiro.

Karen C.
O ESTAGIÁRIO

Tudo ia bem aquela noite.
O expediente acabara as vintes horas e, como de costume nas sextas-feiras, a equipe do escritório saia do trabalho diretamente para o bar do Freitas, a duas quadras dali.
Marcelo, o estagiário recém-contratado fazia sua estreia no chope com a nova equipe.
Todos os bares na orla de Ipanema estavam lotados. Um cenário sempre visto naquele dia da semana e horário. Grupos de amigos, namorados e solitários estressados com o dia tumultuado buscavam fugir da rotina nos copos de bebida e aperitivos, acompanhados de boa música e diversão.
O jovem Marcelo já estava completamente fascinado por aquele novo universo. As garotas do departamento de cobrança sempre tão sérias no exercício da profissão, nem pareciam as mesmas com os cabelos bagunçados e a malha do uniforme molhada de suor que marcavam ainda mais os corpos considerados por ele, verdadeiras esculturas.
Chefes e subordinados se misturavam a cada gole de cerveja.
Marcelo queria fazer parte daquele universo tão interessante comentado pelos mais experientes da mesa.
Estava disposto a conhecer todos os prazeres naquela noite.
Começou a investir nas meninas do escritório, mas não conseguiu sucesso na conquista.
De repente, seu olhar se cruzou ao de Soraia. Uma mulher de aproximadamente uns trinta anos que fez o garoto balançar.
Os dois começaram com uma excitante troca de olhares e logo partiram para as carícias. Nenhum pudor diante das pessoas que ali estavam.
As coisas foram ficando mais quentes. Soraia convidou o garoto para uma esticada fora dali.
Marcelo se despediu dos colegas de trabalho que tentaram o alertar para o perigo.
O rapaz estava consumido pelo desejo de provar os prazeres do sexo. Disse ao pessoal para não se preocupar e garantiu que na segunda-feira estaria no escritório.
- O jovem inexperiente se deixou levar pelos impulsos de fazer parte de um universo encantador. Acabou entrando num perigoso caminho sem volta.
O menino virgem que conheceu o prazer sexual misturado à alucinação do uso da cocaína.
Um orgasmo intenso e delirante de excitação física e psicológica.
O Sol nasceu no Vidigal e o garoto já partia com a mochila abastecida com pedras de crack e trouxinhas de maconha. Atento ouvia as ordens do novo chefe. Pássaro de Fogo acabara de recrutar mais um soldado. Não houve nenhuma resistência diante dos prazeres oferecidos. Soraia, a amante de um dos maiores traficantes da cidade era isca perfeita
No escritório, ninguém mais veria Marcelo.
Meses se passaram após aquela noite e o jovem agora já faz parte da alta criminalidade.
Foi promovido à gerente do Tráfico.
Com Pássaro de Fogonegociou o direito de continuar as transas com Soraia. Essa era a musa da primeira vez, e o gozo com ela tinha gosto especial.
Ele já saia com outras meninas na comunidade. Do menino tímido do escritório, nem se tinha lembrança. Já era o pegador do beco e o sonho de muitas jovens que almejam ser a “fiel” do chefão do pedaço.
Pássaro de Fogo ensinou direitinho ao menino, e hoje tem nas mãos o administrador perfeito para o “movimento”. Marcelo cuida da boca de fumo e sabe cobrar bem quem deve dinheiro ao patrão.



Pá.Pá. Pá.....
- É a polícia marginal.
- Todo o morro tá cercado. “Vamo” invadir geral.
A polícia invade o Vidigal.
Marcelo corre com o fuzil nas mãos pelos becos da favela. O espaço é estreito e o tiroteio intenso.
Um grupo de PM’s se aproxima e um tiro certeiro estoura a cabeça de Pássaro de Fogo. Marcelo estava sozinho e perdido diante do confronto.
O rapaz lembra-se da noite no bar. Da ansiedade de pertencer ao grupo dos experientes. Do primeiro orgasmo com Soraia... Da primeira carreira de cocaína... O fuzil parece pesar em suas mãos e numa tentativa desesperada de voltar a ser o jovem estagiário, ele decide se entregar à polícia...
Tarde demais! Marcelo é atingido no peito e o tiro nem se sabe de onde partiu. Se da arma de um PM ou de algum outro criminoso que invejava sua posição no morro.
A única certeza que se tem é que Marcelo, o novo estagiário que apenas queria conhecer os prazeres daquela noite, agora sente na boca o amargo gosto de sangue.
KAREN C.
O CONQUISTADOR E O DEPUTADO

Josué, o conquistador da cidade, acabara de falar ao telefone com a mulher que há tempos queria ter em seus braços. Possuído por grande euforia, grita aos companheiros de trabalho que enfim conseguiu fazê-la ceder às suas investidas.
Os amigos, remoídos de inveja, alertam o colega para o perigo daquele encontro.
- A mulher não é casada? Disse Dorival.
- Aí está o valor da conquista, meu caro. Sempre quis ter uma mulher comprometida. E esta é perfeita! Linda da cabeça aos pés, um ar de seriedade. E o melhor... casada com o Deputado Borges. Comigo fará sua estreia na vida de adultério. E o corno será o Deputado. Doce ironia! Enquanto ele rouba o nosso dinheiro nos cofres públicos, eu me delicio roubando a inocência de sua mulher.
No escritório, todos estavam tontos diante daquela revelação.
Valéria, a esposa do Deputado, conhecido e marcado pelas acusações de corrupção e envolvimento em crimes de homicídio Estava evidente o perigo que Josué corria ao se envolver com ela.Poderia ter nas mãos qualquer moça da cidade, mas não podia desejar Valéria.


O encontro marcado para as dezessete horas no Flamengo. No apartamento que Josué mantinha alugado para seus encontros amorosos. Aquele seria o cenário perfeito para saciar o desejo de possuir aquela que lhe daria o prazer de macho viril e ao mesmo tempo a vingança do cidadão enganado.
Às dezessete e quinze Valéria bate à porta. Está vestida do mesmo jeito sério e misterioso que encantara Josué desde o primeiro dia em que a viu.
Ele abre a porta e sem que diga uma só palavra, a mulher inicia as revelações.
- Só vim, porque meu marido me convenceu.
- O quê? Seu marido? Ele sabe do nosso encontro?
- Claro! Sou uma mulher honesta e não minto para ele.
- Não acredito! O Deputado vai acabar com minha vida!
- Fique calmo! Daqui a pouco ele vai subir e você verá que ele não é tão mau quanto dizem por aí. Eu apenas vim na frente para ir adiantando as coisas.
- Coisas? Que coisas? ... Olha moça, É melhor ir embora e explicar tudo ao seu marido. Ele vai entender que tudo não passou de um grande mal entendido.
- Conquistador... Eu até que achei você bonitinho, mas foi o Borges que me despertou o interesse para o quanto essa nossa tarde pode ser prazerosa.
- Moça, por favor!
- Tolinho! Agora é tarde. O meu marido adora esse tipo de encontro. É seu fetiche preferido para quebrar a rotina sexual.
Batem a porta outra vez...
É o Deputado. Josué tonto e desesperado não tem nada a fazer. O jeito é participar da perigosa, porém, excitante brincadeira.

KAREN C.

Texto de referência: O pediatra, de Nelson Rodrigues
Noite triste

Nessa solidão que se estendia
A infelicidade em seu coração penetrava...
Na confissão do mais triste dia
Que se acabava em noite de tempestade brava.

Em terra e água o solo se confundia.
A dor em seu peito se entrelaçava.
O sono que o vento em assovio interrompia,
E a tristeza na escuridão lhe assombrava.

As lágrimas cruéis que de teus olhos caiam,
Pensamentos obscuros que teus sentimentos confundiam
E a força para lutar com a solidão aos poucos se acabava.

Porém os raios de sol surgiam em esperança,
Deixando o infeliz momento longe da lembrança.
Enfim, a noite em dia se transformava.

Karen Canto
MENINA DE RUA

De roupas rasgadas e pés descalços segue a solitária menina pelas ruas da cidade. Os olhos grudados nas vitrines das lojas em admiração às luxuosas bonecas: belos vestidos rodados, olhos azuis e longos cabelos louros. Ali, a lembrança dos momentos ainda em sua casa. E o sonho de ter novamente o direito de viver as fantasias da infância.
Com lágrimas nos olhos, a realidade volta a lhe incomodar. A tristeza invade seu coração vazio: esperanças não há. Desde o dia que se perdeu dos pais, a única coisa que conhece é a crueldade das noites frias e a fome que roe as paredes de seu estômago na falta de comida. Poucas vezes, consegue despertar a compaixão de alguém que lhe sirva algo para comer.
A calçada coberta por papelões se transforma em cama na tentativa de descanso para o corpo. Todas as noites é uma conversa sincera com Deus, como só as crianças sabem fazer, o que acalma seu coração:
- Querido Deus, avise meu papai e minha mamãe onde estou. Diga a eles que a saudade é grande e que preciso sair daqui. As noites são frias e sinto fome. Não aguento mais tanta dor!
Terminada a prece, o sono vence o medo. No céu, a Lua brilhante e as estrelas iluminam seus sonhos. As madrugadas abrigam suas fantasias e o reencontro familiar. A mamãe e o papai carinhosamente a abraçam e os irmãos festejam a sua chegada. O almoço farto de domingo alimenta o corpo e a sobremesa saborosa que adoça a alma. A tarde é alegre e repleta de emoções...
“Acorda, acorda! Saia já daí. Os homens querem nos matar.”
Uma correria desesperada interrompe a inocência da pequena. O medo e a solidão voltam a ser seus companheiros.
É preciso procura outro abrigo... Aquela calçada ela não poderá mais habitar.

Karen Canto
Realidade brasileira
Crimes, corrupção e incertezas. Realidade de uma sociedade marcada pela incivilidade e banditismo.
Crianças que crescem, tornando-se jovens perdidos num mundo impregnado pelas drogas e destruído pela ignorância e violência, vividas muitas vezes, até mesmo dentro de suas próprias casas.
Famílias desestruturadas pela ação criminosa de elementos que buscam recrutar soldados para fortalecerem seu exército na luta do mal contra o bem.
Pessoas que vivem num vazio de sonhos e buscam refúgio para suas angústias nas sensações “prazerosas” oferecidas pelo efeito do consumo das drogas.
Pais que não podem acompanhar seus filhos nas atividades escolares e nem orienta-los para a vida, pois precisam trabalhar tanto na tentativa desesperada de escapar das ações da pobreza que a cada dia atinge mais pessoas.
O Brasil abriga uma população que segue sua rotina assombrada pela incerteza do futuro que lhe é reservado.
Assim como o exército do mal se fortalece, o lado do bem também precisa se fortalecer.
O país necessita urgentemente de líderes comprometidos com a educação de qualidade para formar verdadeiros cidadãos que possam mudar a realidade vivida nos dias de hoje.
A população brasileira depende de uma união que resulte em bem estar para todos, dando ao país um caminho certo a ser seguido.
Famílias devem se constituir num lar de amor, harmonia e respeito. Assim seus frutos se tornarão adultos conhecedores de sentimentos capazes de tornar um território hoje marcado pela miséria e violência em um lugar onde a maior valorização seja dada a quem realmente merece: os cidadãos brasileiros.

Karen Canto
MACHADIANDO COM MACHADO


eu já não sei quem sou,
nem se eu sou o que não sei,
ou se serei o que um dia achei que não seria
ou se não seria o que achei que seria.
portanto, serei o que sou
sem saber se sou o que sei.


Kelly e Joyce
O DESEJO
Toda semana era obrigada a assistir àquela aula. O problema não estava na aula, mas no professor que exercia sobre mim um fascínio louco. A relação aluna-professor é algo que sempre mexeu com a minha libido.
A cada aula, eu ficava mais atraída por aquele homem. Educador, um ser que se divide em dois. Afinal professor é meio ator, uma parte é ele mesmo, mas a outra é uma incógnita. O que ele pensa, o que ele deseja ou o que realmente sente, não há como saber.
Com o passar dos meses, o desejo por ele só aumentou, meu corpo já não me respeitava.. Saia de todas as aulas molhada e com um tesão incontrolável. Por isso resolvi deixar que ele percebesse meu interesse, não de forma direta, afinal sou tímida. Não sei se fiz o certo, mas aquela masturbação mental não poderia continuar.
Comecei a ir às aulas com roupas provocantes. Quando ia com decotes aproveitava para passar os dedos em meu colo enquanto mordia a caneta de forma sensual. Quando ia de saia curta cruzava as pernas de forma a provocá-lo. Passava a aula olhando pra ele, não um olhar de aluna, mas o olhar de uma fêmea com fome. Queria aquele homem, precisava senti-lo.
Eu me perguntava todas as noites como aquele homem, inteligente, todo cheio de si poderia ter um olhar tão suave e encantador. Ele era a contradição em pessoa. E pensar nisso só servia para me deixar mais excitada e confusa.
E agora? O que devo fazer? Acho que já passei dos limites, impossível que ele não tenha percebido... Devo desistir? Devo ousar mais? Já sei, preciso falar com ele.
Comecei dizendo um simples: - Oi, tudo bem?
E percebi que a simples menção de falar com ele exercia em mim um poder maior, o poder de calar minha mente, emudecer minhas palavras. Não conseguia dizer nada alem disso. Travava. E agora? Como faço?
Mais alguns meses se passaram, e eu apenas sonhando, imaginando como seria possuir aquele homem. Me sentia cada dia com mais fome, mas tesão, mais vontade e não sabia como solucionar isso. Fazer sexo com meu marido já não me bastava mais. Precisava imaginar que era ele a me tocar. Minhas fantasias sempre o incluíam. Eu já não era mais eu, era o desejo em pessoa, era um vulcão em erupção.
Esqueci de mencionar, sou casada e amo meu marido. Mas amor nada tem haver com sexo e tesão. E o que sinto por esse professor é o mais profundo desejo de possuí-lo. Ah, antes que me esqueça, ele também é casado.
Resolvi continuar apenas imaginando. Na última aula,enquanto ele falava, me desliguei do que estava a minha volta. Ouvindo o som de sua voz fui indo cada vez mais profundo em meus pensamentos e quando percebi já estava pertinho dele, dizendo em seu ouvido:
-Professor, quero transar com você!
E, nesse momento, comecei a beijá-lo, primeiro passei minha língua por sua orelha aproveitando para avisá-lo que seria devorado por inteiro. Depois lambi sua nuca com toda delicadeza ao mesmo tempo em que o puxava para mais perto de meu corpo. Corpos colados, senti seu membro tenro, o que me deixou mais alucinada, afinal esperava por isso há meses.
O empurrei com vontade sobre a mesa, me ajoelhei abrindo sua calça e comecei a lamber lentamente. Não esqueci nenhum centímetro, me deliciei por muito tempo lambendo e chupando o meu objeto de desejo. Como queria esse homem, como eu estava molhada de tesão. Levantei e retirei minha calcinha, entreguei a ele dizendo quase que em sussurro:
- Um presentinho para se lembrar desse momento.
Seu olhar de surpresa e sua respiração ofegante era o melhor troféu que eu poderia almejar. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, subi em seu pau e cavalguei. Como era bom realizar meu desejo. A sensação de vitória me fazia mexer com mais força e vontade.
Ele me vendo em êxtase virou-me de quatro e me penetrou com vontade, realizando o que faltava para me completar. Me devorou, segurava em minha cintura com uma das mãos e com a outra meus cabelos. Me xingava baixinho - gemia, dizia que eu era louca, e gemia... Ah como era bom ouvir aqueles gemidos. Era a certeza de que estávamos em sintonia, de que éramos desejo e prazer! Nossos gemidos se misturavam, éramos um só... E eu Gemia feito louca! Nesse momento, sinto uma mão tocando em meu ombro e percebo que a aula acabou. Mas não tem problema, na próxima aula tem mais! E eu me sentia a puta, a vadia, a gazela a mulher satisfeita.

Kelly Sampaio Vianna da Conceição
SEM TÍTULO

(Conto Joyce em poema)

Um Sorriso, Uma Felicidade
Um Alívio e uma Certeza.

A Realidade trouxe uma Realização
Obter uma Concretização.

Acelerar
Pular
Sorrir.

Lágrimas de Felicidade
Tristeza e Medo
Confusão de emoções.

Olhar e Sumir
Sonhar o Real
Se sentir Leve e Radiante.

Aumenta a Ansiedade
Vem a Amizade
O Carinho e o Amor
Completa a Euforia.

Lágrimas recheadas de Realidade
Sorrisos em Família.

Longe
Alivio
Pertencer
ser
Lugar.


A Saudade se mistura com a Busca
O Encontro com o ser Infante.

Flutuar
Mistério
Impossibilidade
Único
Memória
Meio.


O Passado trás uma Revolta e termina em um Perdão.

União
Separação
Alivio.

Os Sons traduzem as Emoções
A Atmosfera completa o Momento
Eternizar a satisfação
Completa a Plenitude!

kELLY
DANÇA DAS EMOÇÕES

O sonho provoca lembranças
Lembranças que misturam impressões
Impressões que misturam emoções
Emoções que traduzem os sentidos.

Olhos encharcados de beijos
Boca lambuzada de cheiros
Ouvidos zunindo de toques
Pele marcada de sons
Corpo agregando desejos.

SEM TÍTULO

Os pensamentos invadem minha mente,
A saudade profana meu corpo,
O sonho é meu refugio.
Viajo ao passado,
Relembro o futuro
E vivo o impossível.
Nele sou deusa
santa
puta
pura
profana
mundana
consagrada
amada
sensível
flexível
Sou o que não sou
Sou o que sou
Sou eu mesma.

DESEJO O TEU DESEJO

Meu corpo arde,
Preciso te falar,
Contar-te os meus segredos...

Preciso desabafar
Todos os meus sonhos
E vontades...

Quero beijar
teus lábios
incendiando-os com os meus...

Preciso abraçar teu corpo
Que me atormenta...

Como queria poder conquistar
O teu mundo vaidoso,
Esse teu ar misterioso...

Kelly Sampaio Vianna da Conceição
AMARGURADO ENTRE LENÇÓIS

Já passavam das 3 horas da manhã, descamisado, amargurado entre lençóis, o corpo suado como se acordasse de um pesadelo, olhando para o espelho da penteadeira, viu a face desfigurada e aflita.
Era cedo, tomava seu café no mesmo bar de todos os dias, bar frequentado por trabalhadores entediados por mais um dia, em cada gole do forte e quente café que descia em sua garganta, vinha as lembranças daquela mulher.
A traição não saia de sua cabeça, os seus olhos vermelhos de cansaço escondiam por trás de tudo aquilo, uma tomada decisão, lembrava-se do passado, lembrança daquele rosto gracioso, sorriso que dava paz até na hora mais difícil da sua existência.
Ele se perguntava!
Mas repentinamente, mudou a direção da sua rotina, ao encontro da mulher dos seus sonhos, começou a caminhar rápido, cabisbaixo, imaginando o encontro esperado e assim ele foi de repente à lucidez tomou conta do seu ser, parou por alguns segundos e lembrou as pessoas que estavam esperando por ele naquele dia, hesitou alguns segundos e seguiu.
Ao atravessar a cidade, fitou-a na coluna do portão em sua casa e mão que acaricia os longos cabelos castanhos, vestindo longo, vaidosa, perfumada, logo apareceu antes que ele chegasse um homem de terno escuro, muito cuidadoso e educado, aproximou-se e a beijou intimamente.
Ao avistar quem procurava a amargura que tomava conta do seu peito, aquele sentimento desviava-se da imagem encantadora daquela mulher, passavam-se lembranças virtuosas, cenas de gestos de carinhos, mas a presença daquele homem o trouxe para decisão que tomara naquele bar, de aniquilar aquela ao qual foi deixado no altar.
Ele não hesitou em abrir a pasta em que tinha seus pertences, médico respeitado, um cirurgião de renome nacional, pegou um de seus apetrechos e foi em direção a mulher que até há pouco segundos pensava em perdoar, com o primeiro golpe feriu a jugular daquele homem sem rosto, no segundo golpe pegando-a pelo braço, olhando em seus olhos, perfurava suas costas. Ele a deitava em seus braços e apreciava a sua beleza e o fechar de seus olhos.

L. Santos
Dóris
Seis da manhã, até agora só havia tirado uns duzentos paus. A concorrência se tornava acirrada. Bonecas vindas do interior, outras voltando da Europa, após quebrarem a cara por lá ou serem chutadas pelos seus machos... E sempre tinha aquela mais vistosa e novinha por quem o cliente não se chateava em ter de esperar terminar o programa com outro. Isso não era vida pra Dóris, ela era uma lady, uma artista. Mas como ninguém come arte nem as contas se pagam sozinhas, a rua foi a solução.
— Viado escroto! — xingava o valentão ou o cliente insatisfeito. No entanto, quem era mais viado afinal? Elas, as travas que em sua androginia tinham muito mais de feminino do que masculino, ou homens que não dão a mínima pinta, mas... viram de bruços assim que chegam num fétido e decrépito quarto num hotelzinho de rotação?
Como tudo era bizarro, triste e até engraçado para Dóris.
Ela não nascera pra isso...
Na Itália, tinha seu flat, tirava um bom dinheiro por semana, comia- bem e roupas elegantes não faltavam. Teve que voltar, pra sua tristeza.
Dóris se meteu num escândalo com um conhecido político corrupto e grotesco, e teve que ir amarrar seu burro no quartinho dos fundos da sua amiga Carina, que fazia uns truques, enrolava uns gringos e conseguia sobreviver um dia após o outro...
No inverno, era sempre pior, ficar desfilando seminua pela Atlântica, atraiando olhares e ouvindo barbaridades do hipócritas e playboyzinhos desocupados. Isso quando não tomava um coió de algum pitboy no fim da madrugada ao sair de algum inferninho.
Porém, esse garoto parecia diferente. Tímido, bem criado e gentil, só faltava jogar seu suéter ao chão para ela não sujar seus pés numa poça de esgoto, como faziam nos melodramas hollywoodianos. Resolveu arriscar e foi pra casa dele, prática que sempre evitara.
O apartamento do rapaz, localizado numa área das mais caras da Zona Sul, era bastante espartano e frio, não condizente com o que se imaginaria ser o lar dum cara de seus vinte e cinco anos.
Somente um sofá e uma estante em uma sala, e uma mesa, média, oval, com quatro cadeiras, com aparência de não ter sido usada há meses.
Assim que adentraram no apartamento, Dóris sentiu uma mudança na expressão do homem. Não sorria mais e parecia ansioso, agitado.
Pediu que se sentasse, enquanto preparava um drink.
Dóris não estava mais à vontade, algo ali cheirava mal, figurativa e literalmente.
Tudo numa penumbra, um silêncio angustiante. Cortinas roxas, mobília escura e um tapete que emanava um odor nauseabundo.
Pensou logo em sair fora dali o mais rápido possível, mas sabia que esses tipos esquisitões ficavam violentos quando contrariados. Curioso que quando conversavam era um gentleman, agora não tinha mais certeza disso.
O cara voltara da cozinha.
— Eu que eu não bebo isso, vai que me aplica um boa-noite cinderela. Porra, deveria ser o contrário, quem deveria estar nervosa era eu, quem teme que algo dê errado deveria ser ele, não estou gostando disso — pensou, e puxando qualquer assunto banal, estava mais alerta do que nunca.
O almofadinha abriu um pequeno armário no quarto e podia-se observar diversos implementos de praticantes de bondage, sadomasoquismo e afins. Isso não era nada, o que assustava era a expressão dele, e a forma como a olhava, parecia uma serpenta cercando o rato antes de dar o bote.
Então, ele começou a falar de criminologia, de filmes que havia visto, de canibais russos, falava calmamente e com um tom sinistro na voz, mal se importando se a conversa desagradava.
Dóris já estava com a mão na bolsa, segurando sua navalha, sentia algo viscoso, era sangue escorrendo de tanta pressão que fazia sobre o objeto. Suava frio, mas qualquer movimento brusco poderia despertar algo naquele biruta.
E o cara sentou-se no chão de frente ao sofá, lá a encarando impassível.
Decidiu fugir, mas a chave não estava na porta, a janela era muito alta.
Ele se levantou, ficou por trás de Dóris. Então ela sentiu um golpe, e algo frio na nuca. Tudo ficou escuro.

“Travesti encontrado esquartejado em apartamento do Leblon” dizia a manchete.
Vizinhos ouviram novamente barulhos e gritos vindos do apartamento no sexto andar e decidiram chamar a polícia.
Dentro do freezer, pedaços de corpos de vários tamanhos e tipos. No quarto, um cadáver em decomposição. Fotografias escabrosas enfeitavam um mural num quarto no fundo do caro apê com IPTU altíssimo. O acusado tinha um histórico de BOs, mas sempre conseguira se safar.
Chamavam-no nos jornais e noticiários de “o vampiro do Leblon”.

E Dóris, coitada, que havia sido tão feliz na Itália... teve que ser enterrada com a tampa do caixão cerrada.

Laura V. Guerra
A ATRIZ OU “LIE”


Até aqui foi tudo uma mentira.

Lisa esperava o terceiro sinal, sentada na coxia. Ninguém poderia dizer que era uma má atriz. Há 35 anos vinha interpretando a si mesma -- aquela que queria que pensassem que era.
O teatro estava cheio naquela noite.
– Só me faltava essa – pensou, enquanto espiava atrás das cortinas e vira Vic na segunda fileira. Se pudesse, iria embora, jogaria tudo pro alto. Cansara dessa palhaçada. Não suportava o diretor, o elenco de apoio era medíocre, mas o texto, ah, o texto valia a pena. Mas pra que modernizar Salomé? Querer inovar somente conferia um ar ridículo ao que seria perfeito se fosse da forma mais simples possível: um cenário, maquiagem e boa luz.
Não, cacete, aquele afetado tinha que colocar rock ao fundo e inverter os gêneros das personagens pra mostrar que era criativo. No que é perfeito não se mexe.
– Quando se tem contas a pagar tudo muda. Arte pela Arte soa muito bonito pra quem nasceu em berço de ouro. – e num suspiro se encaminhou para o palco.

“... Ah! beijei-te a boca, Iocanaã, beijei-te a boca. Havia um sabor acre nos teus lábios: Seria o sabor do sangue?... Mas talvez seja o sabor do amor. Diz-se que o amor tem um sabor acre...” emitia as frases automaticamente, as faíscas em seus olhos não eram mais as mesmas de antes.
Aquele na platéia, o intruso, tantas vezes passara o texto com ela. Queria tirar aquele sorrisinho de canto de boca do seu rosto com um murro.
Logo acabaria, hoje é a última noite. Então, táxi, aeroporto, bye bye Vic, tchau família, adeus, adeus, não me procurem mais. Iria começar a viver de verdade.

Ninguém conhecia a Lisa de verdade a não ser ela. Ela que nunca duvidou. Não atrás de não, olhares disfarçados e gestos reveladores. Só Diana sabia quem era aquela mulher.
Porém era uma atriz, convencia a si mesma das mentiras nas quais se forçava a repetir, repetir, até que se tornavam verdade para o mundo.
Noivo, planos, amigas de escola, happy hours animadas, noites dançantes... tudo mentira. O choro que sufocava noite sim, noite não nos travesseiros de Vic, e o rosto que imaginava quando o beijava... eram de Diana.
Diana, a única parte dela que não fingia.

Conheceram-se numa livraria. Diana bateu o olho e gamou. Nunca hesitava em puxar assunto com quem quer que fosse, da empregadinha à perua de nariz empinado. Com seu charme andrógino sempre conseguia pelo menos um sorriso daquela a quem dirigia seu olhar clínico. Já estava treinada, lia nos gestos, nos olhos, nas palavras e nas entrelinhas. -- Toda mulher é bissexual até que se comprove o contrário. Abusada, talvez, mas quem não arrisca... bem...

Numa dessas tardes passeando pelo Arpoador, que coincidência! Lá estava ela. Com um cara “pintoso”, como dizia, ao lado, mas não percebia afinidade alguma. Ficou só observando. Quando viu que ele se despedia com um beijo no rosto da mulher, ficou de prontidão. Contou até 50, e se aproximou. Como quem não quer nada, puxou um assunto. Falou do tempo, apresentou-se e logo estavam marcando de tomar um chope.

Foi o primeiro de inúmeros. Não tocava em assunto algum sobre namoro, casamento, homens, mulheres, gays, lésbicas etc. Só conversavam, sobre cinema, sobre música, sobre teatro, sobre o tempo. Ou deixavam seus olhos se entenderem. Diana via através da máscara. Lisa era uma atriz, mas com seu verdadeiro amor se despia da personagem. Até o primeiro beijo, que em minutos progrediu para a primeira noite. Então, todo o tempo livre que Lisa tinha, ela se disfarçava de si mesma e era feliz.

Mas como quase sempre, -- Meu Deus, o que minha mãe iria pensar, e meu pai, e o povo da Igreja? Casamento marcado, putzgrila... Devo estar louca.
E as crises se intensificavam. Ela mergulhava em alguma peça, em algum livro, em meia dúzia de garrafas, ou três maços de cigarro.

A Felicidade cutucava, e incomodava, e queria entrar. Fingia não ouvir, entorpecia os sentidos pra não ver. De óculos escuros ficava mais fácil disfarçar os olhos vermelhos, as olheiras profundas.
Diana não pressionava, não sofria. Sabia que havia ganhado a parada. Lisa nunca havia amado homem algum, ela era a única, e o que estava escrito, estava escrito, acreditava. Eram metades perdidas que sozinhas não funcionavam.

Então, surgiu a chance. – Vou fazer um curso de cinema em NY. Pois bem, não mentiu, mas também não deixou que descobrissem que era pretexto. Vic sabia, mas não ligava, mulher pra ele não seria problema. Rico, bonito, chato pra cacete...

Na dança de Salomé para Herodes, a atriz se empolgou, e a cada véu que tirava era uma mentira jogada fora. E ria como louca, adrenalina e felicidade, ou loucura mesmo, porque amor é loucura.

O avião a decolar, elas se entendiam só olho no olho. Não precisavam de palavras.
E que se foda a personagem!

Laura V. Guerra
O PLANO

Já era hora de falar com o professor, todos estavam apreensivos devido às notas anteriores terem sido, de maneira geral, baixas. Mas, eu já sabia o que iria ocorrer: prova final! Fui até onde estava, vi a nota, assinei o papel e, por nervosismo, comecei a rir. Meus amigos que já sabem como sou entenderam: estava em prova final. O que eles não imaginavam é que eu havia ficado em prova final por um ponto...
Ao final da aula, ele comunicou à turma que estaria disposto a conversar com quem quisesse vista de prova. Numa tentativa, em vão, fui procurá-lo e argumentei que ele havia sido rígido demais na correção da primeira questão. O resultado já era o que eu esperava: não houve mudança na nota. Passei o dia irritada, porque sabia que havia sido pessoal, outros alunos haviam cometido o mesmo erro que o meu e ele não foi tão rígido na correção como foi comigo. Só havia um jeito de mudar aquela situação: tentar uma conversa a sós, na esperança de sem outros alunos por perto, ele considerar.
Mandei um e-mail na mesma tarde, propondo conversarmos no final daquela semana ou quando melhor fosse para ele. Na manhã seguinte, obtive resposta e para minha surpresa ele aceitou, mas não poderia ser para o final da semana como propus, teria que ser no começo da outra. Passei o final de semana todo pensando se deveria fazer o que estava pensando: seduzi-lo! Tentei me distrair para não transparecer para ninguém o que pensava em fazer, só eu e ele saberíamos.
No dia marcado acordei cedo, me perfumei, me maquiei, usei um vestido bem decotado e provocante, pus um salto alto e fui à faculdade. Havíamos marcado no refeitório, já que seria uma conversa informal. A me ver, se levantou e sorriu, mas não transpareceu nada, a não ser uma modesta cordialidade. Aceitei me sentar na cadeira que ele havia puxado, cruzei as pernas e o olhei, mas não era o mesmo olhar de sempre, havia malícia em meu olhar e, para minha surpresa, ele me lançou um olhar discreto, porém sutilmente sensual, um olhar que só eu e ele entendemos.
A conversa já havia mudado de curso há alguns minutos e aquela altura eu já não mais sabia quem seduzia quem, só pensava numa coisa: diga o local e vamos logo! Ficamos mais alguns minutos, rimos um pouco e então ele se deu conta que já era hora de ir para seu outro trabalho. Nos levantamos e houve um longo silêncio, nos olhamos e então perguntou se estava indo para casa ou se tinha algum compromisso. Entramos no elevador e lhe respondi que tinha o resto do dia livre e então fui surpreendida mais uma vez: me convidou para almoçarmos juntos. Tentei transparecer certo desdém, lhe dizendo que não havia vindo preparada financeiramente, dei um sorriso sem graça e olhei para baixo. Ele levantou meu queixo e disse que minha companhia era o suficiente, que não me preocupasse e sorriu. Aceitei.
Caminhamos juntos em direção ao estacionamento. Aquela altura ele já não estava tentando disfarçar nada, ao menos não para mim, deixando bem claro qual seria o cardápio. O estacionamento estava um pouco escuro, pois havia deixado seu carro no subsolo. Loucura ou desejo incontido ele fez o que qualquer homem em seu lugar faria: me empurrou para a parede atrás de mim e me beijou. Foi um beijo forte, cheio de desejo e um certo tom de selvageria. Parou, segurou meu rosto entre as mãos e me olhou fixamente. Ficamos assim alguns minutos até que escutamos passos e nos recompusemos, caminhando discretamente. Entramos e novamente me agarrou, agora com certa indiscrição, já que do lado de fora não se via o que ocorria entre nós devido aos vidros escuros e também à pouca luz. Decidimos ir para um lugar mais sossegado e, assim, fazermos o que realmente queríamos sem nos preocuparmos se alguém nos veria.
Passados alguns minutos, lá estávamos. Sem dizermos nada, nos abraçamos, nos olhamos e nos beijamos, mas desta vez sem a ferocidade anterior, agora o fazíamos com carinho e as carícias quem as faziam eram nossos lábios. Nos despimos, com toda a calma e sensualidade que um momento como este necessita e, finalmente, nos embebemos um com o sexo do outro. Por fim, ficamos abraçados nos olhando e nos acariciando até que nos demos conta que havíamos passado a tarde juntos. Ele devia explicações ao trabalho e eu precisaria de uma boa desculpa ao chegar em casa tão tarde se só iria conversar por alguns minutos com o professor. Nos vestimos sem pressa, já que de qualquer forma estávamos atrasados, ele pagou a conta e, para minha surpresa, me deixou na porta de casa. A gentileza me comoveu.
Ao chegar ao meu destino, o circo já estava armado. Minha mãe me esperava com seriedade à porta. Ao me deparar com seu rosto sem expressão e o olhar fixo, me sobressaltei de susto. Tentando não contar exatamente o que havia ocorrido, expliquei que perdi a noção do tempo por ficar conversando mais do que somente a prova com o professor e que se achasse necessário que telefonasse para a faculdade e perguntasse na portaria o horário de minha saída. Rezei para que não ligasse. Não fez. Mas, me fez prometer que se o mesmo voltasse a ocorrer que telefonasse avisando que me demoraria, pois ela ficava preocupada. Por fim perguntou-me qual havia sido o resultado da conversa. Ri e lhe expliquei que havíamos conversando muito sobre literatura, mas que nem por um segundo me lembrei de lhe perguntar. Ela estranhou no inicio, mas devido à minha personalidade distraída, fui salva. Lhe expliquei que enviaria um e-mail para ele mais tarde lhe perguntando. Foi o que fiz, mas além da resposta me foi perguntado algo que nunca esperaria ouvir. Me confirmou que me passaria, mas que a forma com a qual lhe devolvi o favor havia sido modesta demais e ele queria mais e me perguntou se estaria livre no fim de semana. Não lhe respondi de imediato, não sabia ao certo o que responder. Pensei e repensei e cheguei a uma divina conclusão: ele trabalhava em outro lugar e sempre enviava convites aos seus alunos para conhecer o local e assistirmos a palestras. Inclusive minha mãe mais de uma ocasião me perguntou por que não ia. Resolvi assim: à ele lhe respondi com sinceridade; à minha mãe lhe dei uma desculpa. Chegado o dia ele preferiu por me buscar em frente ao meu prédio, nos dirigimos ao local programado e nos tomamos como já era previsto.
O que de inicio era uma vingança passou a ser um romance. A aluna passou a ser amante. Passamos a nos encontrar toda semana. O pagamento agora se chamava paixão. Passaram-se meses até que ele veio com uma conversa que não esperava: me disse que se havia apaixonado. Largaria mulher, trabalho para ficarmos juntos, conversaria com minha mãe... Não quis! O encantamento se quebrou. O perigo me excitava. Não queria carinho ou qualquer outro sentimento. Vingança era o que me acometia.

Lília Durán
O porquinho Prático e a amizade do lobo

Ricardo Macedo dos Santos

Um lobo pode fazer amizade com um porquinho? Pois este que vou apresentar a vocês conseguiu um relacionamento singular e inteligente com um porquinho trabalhador, chamado “Prático”, por ser trabalhador e previdente.
Essa amizade aconteceu quando Prático estava construindo sua casa de tijolos. O porquinho queria acabar rápido, porque estava em época de chuvas e onde morava havia muita goteira e não tinha proteção alguma contra possíveis invasores. Foi assim que Prático procurava alguém para ajudá-lo, que tivesse algum tipo de experiência e, principalmente, que fosse um bom trabalhador. O lobo soube do anúncio, procurou-o e assim começou a trabalhar na construção de uma casa sólida, de tijolos, impenetrável por animais que quisessem subtrair alguma coisa do porquinho.
Trabalhou, trabalhou, dias, tardes, noites, madrugadas, mais dias, semanas, meses, até que conseguiu completar seu serviço e ainda recebeu abraços e um prêmio extra no seu salário final. Ali se iniciou algo que jamais alguém poderia ter lido em livros de histórias infantis, ou em revistas em quadrinhos. Era um acontecimento raro. Jamais Monteiro Lobato poderia supor uma união fraternal de dois personagens tão antagônicos. Nem toda a literatura infantil mundial supôs tal coisa. Personagens como esses aqui relatados tinham que evidenciar uma certa verossimilhança. Imagine um lobo e um cordeiro juntos. Nem pensar. Pense num lobo e um coelho juntos. Impossível! Agora, tente conceber um lobo e um porquinho sendo amigos! Nem em sonho de maritacas. Pois aconteceu.
A questão não é simplesmente se escandalizar, falar mal do contador de histórias ou perceber que tudo o que aqui foi narrado é falso. Não, esse é um ledo e estúpido engano. O que mais sobressai nessa amizade é a atitude indolente, apática mesmo, dos outros dois porquinhos, irmãos de Prático que a tudo assistiram e nada fizeram. Não esboçaram qualquer comentário, mesmo sabendo que lobo não pode gostar de porco, porque lobo é um predador nato e um animal abjeto, temido pelos demais.Os porquinhos já tinham lido um pequeno Novo Testamento achado em um carro de bois e lá estava escrito que o lobo era um animal que dizimava ovelhas e por causa disso sempre foi necessária a permanência de um pastor cuidando do rebanho para que os animais não fossem devorados. Mesmo assim assistiram a tudo e não se opuseram.
Os animais da redondeza fizeram uma manifestação. Convidaram a Rede Globo, para denunciar o perigo. Chegou a passar no jornal nacional e tudo. Representantes de grupos protetores dos direitos dos animais protestaram veementemente. Tudo em vão.
Acabada a construção da casa, o lobo despediu-se de Prático e foi embora para a montanha. Todos os demais bichinhos tiveram temor naquela noite. O que o lobo realmente queria? O que planejara contra o porquinho? Por que não obedeceu ao seu instinto animal? Por que não fez logo a festa, devorando Prático? E ficaram assim pensando.
Os outros porquinhos, de repente começaram a refletir, a matutar e resolveram também construir suas casas com tijolos, iguais a de Prático. E o que fizeram? Chamaram o lobo, o mesmo lobo que ali estivera e realizara um trabalho de mestre. O lobo aceitou e disse que voltaria no dia seguinte.
Naquela noite, em plena escuridão, quando o silêncio já caía inerte sobre o lugar, uma alcateia começava a descer lentamente do morro que cercava as casas dos três porquinhos. À frente o lobo construtor. Já não apresentava o mesmo jeito, seu tom pacato de antes se transformara com um aspecto atemorizador. Passou pela casa do primeiro porquinho e soprou e tudo veio abaixo. Soprou violentamente a casa do segundo porquinho e não restou nada em pé. Chegou então próximo à casa de tijolos que construíra. Lá estavam os dois porquinhos amedrontados atrás do sofá. Prático foi à rua e se deparou com o lobo e seus amigos com muita baba descendo pelos dentes pontudos e brancos. Disse então ao lobo com sua voz enérgica. O que é isso? O que está pretendendo, lobo?
Todos os anos há uma romaria de animais visitando a casa de Prático. Lá colocam flores e rezam pelos porquinhos trucidados. Há muitos discursos durante a visita. Um serviu até de inspiração para que se escrevesse a história dos três porquinhos, mostrando a verdadeira personalidade do lobo. Essa história virou desenho animado, diversos edições de livro infantil, ganhou prêmios e faz parte do imaginário das pessoas até hoje.
Saussure que me perdoe, mas a “parole” é fundamental

Ricardo Macedo dos Santos

Gosto da diversidade linguística. Que bárbaro quando ouvimos um paulista discutindo “futebol”. Quando então se ouve no estádio, em uníssono, a torcida gritando: “Framengo”! A “parole” é tudo o que temos para subverter e humilhar a “langue” – o “status-quo” dos estruturalistas. Gosto da comunicação livre, sem antolhos ou cabrestos. Ouvir, por exemplo, um “r” retroflexo. Como me encanta, de repente, conversar com um paulista e ouvi-lo falar “farol” quando eu falaria sinal! Mas Saussure teve o atrevimento de se preocupar unicamente com a “langue”, o que é uma lástima... Como se esquecer da nossa raiva, pela qual gritamos palavras desconexas, livres dos aguilhões das formas cultas? E as expressões idiomáticas? Saussure se escandalizaria se ouvisse, por exemplo, um argentino dizendo para outro: “Vete a hacer puñetas!”, querendo simplesmente mandá-lo sair de sua presença, já que está causando muito aborrecimento. Como seremos estruturalistas em uma sociedade totalmente mergulhada na diversidade linguística?
Acordei outro dia e fiquei pensando em nomes de ruas. E cá com os meus botões imaginei: que tal uma rua com o nome: Diatópica? Em pleno centro de Recife, alguém perguntaria: “Onde fica a Rua Diatópica, por favor? Outra pessoa responderia com o seu sotaque de vogais abertas:” Ó, é fácil: Droba a direcha e na primera esquina jaé a rua.” Que linda essa transgressão! Em meio a tanta forma de falar, Saussure poderia ter um colapso ou mesmo se engasgar com um “nós foi!”. O João povinho nunca ouviu ou ouvirá falar do célebre “Ferdinand”, ou da “langue”, ou da noção de significado linguístico, ou dos pressupostos acadêmicos da norma culta. Zé da Silva quer saber é que todo o mês tem que receber o “bolsa-família”, que Lula prometeu e que Dilma ainda está cumprindo. Quanto ao resto – se isso concorda com aquilo – ou se o verbo é defectivo, ou se o signo tem que ser linear e arbitrário, é “conversa pra boi dormir”. Afinal o que é melhor do que “um bom chops” e “dois pastel?”
LOBO

II

JUSTIFICATIVA

CANTANDO

O LOBO NÃO É MAU.
O LOBO É UM CARA LEGAL.
ELE ROUBA O DOCE DA FESTA,
POIS SE ACABOU O RANGO DA FLORESTA.

PRA CONTAR MINHA SINA,
EU USO ESTA CANÇÃO
DE UM CARA QUE TERMINA
SEMPRE COMO UM VILÃO.
NÃO DEVOREI NINGUÉM,
NÃO BATI NA VOVOZINHA,
NÃO ASSUSTO NEM NENÉM,
EU SÓ ATACO A COZINHA.


O LOBO NÃO É MAU.
O LOBO É UM CARA LEGAL.
ELE ROUBA O DOCE DA FESTA,
PORQUE ACABOU O RANGO NA FLORESTA.

JÁ FUI CONDENADO
SEM DIREITO A REVISÃO.
NUNCA TIVE ADVOGADO
E FUI JOGADO NA PRISÃO.
E O PIOR DESSA HISTÓRIA
VOU CONTAR PARA VOCÊS:
TENHO QUE COMER CHICÓRIA
30 DIAS TODO MÊS.

O LOBO NÃO É MAU.
O LOBO É UM CARA LEGAL.
ELE ROUBA O DOCE DA FESTA,
PORQUE ACABOU O RANGO NA FLORESTA.


CUIDAR DA NATUREZA,
EVITAR FAZER BARULHO.
AFINAL, TANTA BELEZA
SÓ NOS ENCHE DE ORGULHO.
MANTER MINHA CASA LIMPA
NÃO É SÓ OBRIGAÇÃO.
É UM JEITO BEM SUPIMPA
DE ESPANTAR A POLUIÇÃO.


O LOBO NÃO É MAU.
O LOBO É UM CARA LEGAL.
ELE ROUBA O DOCE DA FESTA,
POIS SE ACABOU O RANGO DA FLORESTA.

APESAR DE TUDO ISSO,
TENHO MUITA ESPERANÇA.
TENHO FÉ NO COMPROMISSO
DENTRO DE TODA CRIANÇA.
ESTE MEU BRASIL É LINDO,
MUITO BOM PRA SE VIVER.
O FUTURO SERÁ BEMVINDO
COM O QUE EU PUDER FAZER.


O LOBO NÃO É MAU.
O LOBO É UM CARA LEGAL.
ELE ROUBA O DOCE DA FESTA,
POIS SE ACABOU O RANGO DA FLORESTA.


ESTA É A PáTRIA DO EVANGELHO,
O PAÍS DO CORAÇÃO.
Para o MENINO E PARA O VELHO
JUNTOS NUMA SÓ MISSÃO:
PRESERVAR NOSSO SISTEMA,
CONSERVAR A NOSSA LUZ.
CARIDADE É O NOSSO LEMA.
COMO NOS PEDIU JESUS.


O LOBO NÃO É MAU.
O LOBO É UM CARA LEGAL.
ELE ROUBA O DOCE DA FESTA,
POIS SE ACABOU O RANGO DA FLORESTA.

Sill Cláudio