Dóris
Seis da manhã, até agora só havia tirado uns duzentos paus. A concorrência se tornava acirrada. Bonecas vindas do interior, outras voltando da Europa, após quebrarem a cara por lá ou serem chutadas pelos seus machos... E sempre tinha aquela mais vistosa e novinha por quem o cliente não se chateava em ter de esperar terminar o programa com outro. Isso não era vida pra Dóris, ela era uma lady, uma artista. Mas como ninguém come arte nem as contas se pagam sozinhas, a rua foi a solução.
— Viado escroto! — xingava o valentão ou o cliente insatisfeito. No entanto, quem era mais viado afinal? Elas, as travas que em sua androginia tinham muito mais de feminino do que masculino, ou homens que não dão a mínima pinta, mas... viram de bruços assim que chegam num fétido e decrépito quarto num hotelzinho de rotação?
Como tudo era bizarro, triste e até engraçado para Dóris.
Ela não nascera pra isso...
Na Itália, tinha seu flat, tirava um bom dinheiro por semana, comia- bem e roupas elegantes não faltavam. Teve que voltar, pra sua tristeza.
Dóris se meteu num escândalo com um conhecido político corrupto e grotesco, e teve que ir amarrar seu burro no quartinho dos fundos da sua amiga Carina, que fazia uns truques, enrolava uns gringos e conseguia sobreviver um dia após o outro...
No inverno, era sempre pior, ficar desfilando seminua pela Atlântica, atraiando olhares e ouvindo barbaridades do hipócritas e playboyzinhos desocupados. Isso quando não tomava um coió de algum pitboy no fim da madrugada ao sair de algum inferninho.
Porém, esse garoto parecia diferente. Tímido, bem criado e gentil, só faltava jogar seu suéter ao chão para ela não sujar seus pés numa poça de esgoto, como faziam nos melodramas hollywoodianos. Resolveu arriscar e foi pra casa dele, prática que sempre evitara.
O apartamento do rapaz, localizado numa área das mais caras da Zona Sul, era bastante espartano e frio, não condizente com o que se imaginaria ser o lar dum cara de seus vinte e cinco anos.
Somente um sofá e uma estante em uma sala, e uma mesa, média, oval, com quatro cadeiras, com aparência de não ter sido usada há meses.
Assim que adentraram no apartamento, Dóris sentiu uma mudança na expressão do homem. Não sorria mais e parecia ansioso, agitado.
Pediu que se sentasse, enquanto preparava um drink.
Dóris não estava mais à vontade, algo ali cheirava mal, figurativa e literalmente.
Tudo numa penumbra, um silêncio angustiante. Cortinas roxas, mobília escura e um tapete que emanava um odor nauseabundo.
Pensou logo em sair fora dali o mais rápido possível, mas sabia que esses tipos esquisitões ficavam violentos quando contrariados. Curioso que quando conversavam era um gentleman, agora não tinha mais certeza disso.
O cara voltara da cozinha.
— Eu que eu não bebo isso, vai que me aplica um boa-noite cinderela. Porra, deveria ser o contrário, quem deveria estar nervosa era eu, quem teme que algo dê errado deveria ser ele, não estou gostando disso — pensou, e puxando qualquer assunto banal, estava mais alerta do que nunca.
O almofadinha abriu um pequeno armário no quarto e podia-se observar diversos implementos de praticantes de bondage, sadomasoquismo e afins. Isso não era nada, o que assustava era a expressão dele, e a forma como a olhava, parecia uma serpenta cercando o rato antes de dar o bote.
Então, ele começou a falar de criminologia, de filmes que havia visto, de canibais russos, falava calmamente e com um tom sinistro na voz, mal se importando se a conversa desagradava.
Dóris já estava com a mão na bolsa, segurando sua navalha, sentia algo viscoso, era sangue escorrendo de tanta pressão que fazia sobre o objeto. Suava frio, mas qualquer movimento brusco poderia despertar algo naquele biruta.
E o cara sentou-se no chão de frente ao sofá, lá a encarando impassível.
Decidiu fugir, mas a chave não estava na porta, a janela era muito alta.
Ele se levantou, ficou por trás de Dóris. Então ela sentiu um golpe, e algo frio na nuca. Tudo ficou escuro.
“Travesti encontrado esquartejado em apartamento do Leblon” dizia a manchete.
Vizinhos ouviram novamente barulhos e gritos vindos do apartamento no sexto andar e decidiram chamar a polícia.
Dentro do freezer, pedaços de corpos de vários tamanhos e tipos. No quarto, um cadáver em decomposição. Fotografias escabrosas enfeitavam um mural num quarto no fundo do caro apê com IPTU altíssimo. O acusado tinha um histórico de BOs, mas sempre conseguira se safar.
Chamavam-no nos jornais e noticiários de “o vampiro do Leblon”.
E Dóris, coitada, que havia sido tão feliz na Itália... teve que ser enterrada com a tampa do caixão cerrada.
Laura V. Guerra
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