MENINA DE RUA
De roupas rasgadas e pés descalços segue a solitária menina pelas ruas da cidade. Os olhos grudados nas vitrines das lojas em admiração às luxuosas bonecas: belos vestidos rodados, olhos azuis e longos cabelos louros. Ali, a lembrança dos momentos ainda em sua casa. E o sonho de ter novamente o direito de viver as fantasias da infância.
Com lágrimas nos olhos, a realidade volta a lhe incomodar. A tristeza invade seu coração vazio: esperanças não há. Desde o dia que se perdeu dos pais, a única coisa que conhece é a crueldade das noites frias e a fome que roe as paredes de seu estômago na falta de comida. Poucas vezes, consegue despertar a compaixão de alguém que lhe sirva algo para comer.
A calçada coberta por papelões se transforma em cama na tentativa de descanso para o corpo. Todas as noites é uma conversa sincera com Deus, como só as crianças sabem fazer, o que acalma seu coração:
- Querido Deus, avise meu papai e minha mamãe onde estou. Diga a eles que a saudade é grande e que preciso sair daqui. As noites são frias e sinto fome. Não aguento mais tanta dor!
Terminada a prece, o sono vence o medo. No céu, a Lua brilhante e as estrelas iluminam seus sonhos. As madrugadas abrigam suas fantasias e o reencontro familiar. A mamãe e o papai carinhosamente a abraçam e os irmãos festejam a sua chegada. O almoço farto de domingo alimenta o corpo e a sobremesa saborosa que adoça a alma. A tarde é alegre e repleta de emoções...
“Acorda, acorda! Saia já daí. Os homens querem nos matar.”
Uma correria desesperada interrompe a inocência da pequena. O medo e a solidão voltam a ser seus companheiros.
É preciso procura outro abrigo... Aquela calçada ela não poderá mais habitar.
Karen Canto
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