segunda-feira, 23 de maio de 2011

Saussure que me perdoe, mas a “parole” é fundamental

Ricardo Macedo dos Santos

Gosto da diversidade linguística. Que bárbaro quando ouvimos um paulista discutindo “futebol”. Quando então se ouve no estádio, em uníssono, a torcida gritando: “Framengo”! A “parole” é tudo o que temos para subverter e humilhar a “langue” – o “status-quo” dos estruturalistas. Gosto da comunicação livre, sem antolhos ou cabrestos. Ouvir, por exemplo, um “r” retroflexo. Como me encanta, de repente, conversar com um paulista e ouvi-lo falar “farol” quando eu falaria sinal! Mas Saussure teve o atrevimento de se preocupar unicamente com a “langue”, o que é uma lástima... Como se esquecer da nossa raiva, pela qual gritamos palavras desconexas, livres dos aguilhões das formas cultas? E as expressões idiomáticas? Saussure se escandalizaria se ouvisse, por exemplo, um argentino dizendo para outro: “Vete a hacer puñetas!”, querendo simplesmente mandá-lo sair de sua presença, já que está causando muito aborrecimento. Como seremos estruturalistas em uma sociedade totalmente mergulhada na diversidade linguística?
Acordei outro dia e fiquei pensando em nomes de ruas. E cá com os meus botões imaginei: que tal uma rua com o nome: Diatópica? Em pleno centro de Recife, alguém perguntaria: “Onde fica a Rua Diatópica, por favor? Outra pessoa responderia com o seu sotaque de vogais abertas:” Ó, é fácil: Droba a direcha e na primera esquina jaé a rua.” Que linda essa transgressão! Em meio a tanta forma de falar, Saussure poderia ter um colapso ou mesmo se engasgar com um “nós foi!”. O João povinho nunca ouviu ou ouvirá falar do célebre “Ferdinand”, ou da “langue”, ou da noção de significado linguístico, ou dos pressupostos acadêmicos da norma culta. Zé da Silva quer saber é que todo o mês tem que receber o “bolsa-família”, que Lula prometeu e que Dilma ainda está cumprindo. Quanto ao resto – se isso concorda com aquilo – ou se o verbo é defectivo, ou se o signo tem que ser linear e arbitrário, é “conversa pra boi dormir”. Afinal o que é melhor do que “um bom chops” e “dois pastel?”

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