segunda-feira, 23 de maio de 2011

O ESTAGIÁRIO

Tudo ia bem aquela noite.
O expediente acabara as vintes horas e, como de costume nas sextas-feiras, a equipe do escritório saia do trabalho diretamente para o bar do Freitas, a duas quadras dali.
Marcelo, o estagiário recém-contratado fazia sua estreia no chope com a nova equipe.
Todos os bares na orla de Ipanema estavam lotados. Um cenário sempre visto naquele dia da semana e horário. Grupos de amigos, namorados e solitários estressados com o dia tumultuado buscavam fugir da rotina nos copos de bebida e aperitivos, acompanhados de boa música e diversão.
O jovem Marcelo já estava completamente fascinado por aquele novo universo. As garotas do departamento de cobrança sempre tão sérias no exercício da profissão, nem pareciam as mesmas com os cabelos bagunçados e a malha do uniforme molhada de suor que marcavam ainda mais os corpos considerados por ele, verdadeiras esculturas.
Chefes e subordinados se misturavam a cada gole de cerveja.
Marcelo queria fazer parte daquele universo tão interessante comentado pelos mais experientes da mesa.
Estava disposto a conhecer todos os prazeres naquela noite.
Começou a investir nas meninas do escritório, mas não conseguiu sucesso na conquista.
De repente, seu olhar se cruzou ao de Soraia. Uma mulher de aproximadamente uns trinta anos que fez o garoto balançar.
Os dois começaram com uma excitante troca de olhares e logo partiram para as carícias. Nenhum pudor diante das pessoas que ali estavam.
As coisas foram ficando mais quentes. Soraia convidou o garoto para uma esticada fora dali.
Marcelo se despediu dos colegas de trabalho que tentaram o alertar para o perigo.
O rapaz estava consumido pelo desejo de provar os prazeres do sexo. Disse ao pessoal para não se preocupar e garantiu que na segunda-feira estaria no escritório.
- O jovem inexperiente se deixou levar pelos impulsos de fazer parte de um universo encantador. Acabou entrando num perigoso caminho sem volta.
O menino virgem que conheceu o prazer sexual misturado à alucinação do uso da cocaína.
Um orgasmo intenso e delirante de excitação física e psicológica.
O Sol nasceu no Vidigal e o garoto já partia com a mochila abastecida com pedras de crack e trouxinhas de maconha. Atento ouvia as ordens do novo chefe. Pássaro de Fogo acabara de recrutar mais um soldado. Não houve nenhuma resistência diante dos prazeres oferecidos. Soraia, a amante de um dos maiores traficantes da cidade era isca perfeita
No escritório, ninguém mais veria Marcelo.
Meses se passaram após aquela noite e o jovem agora já faz parte da alta criminalidade.
Foi promovido à gerente do Tráfico.
Com Pássaro de Fogonegociou o direito de continuar as transas com Soraia. Essa era a musa da primeira vez, e o gozo com ela tinha gosto especial.
Ele já saia com outras meninas na comunidade. Do menino tímido do escritório, nem se tinha lembrança. Já era o pegador do beco e o sonho de muitas jovens que almejam ser a “fiel” do chefão do pedaço.
Pássaro de Fogo ensinou direitinho ao menino, e hoje tem nas mãos o administrador perfeito para o “movimento”. Marcelo cuida da boca de fumo e sabe cobrar bem quem deve dinheiro ao patrão.



Pá.Pá. Pá.....
- É a polícia marginal.
- Todo o morro tá cercado. “Vamo” invadir geral.
A polícia invade o Vidigal.
Marcelo corre com o fuzil nas mãos pelos becos da favela. O espaço é estreito e o tiroteio intenso.
Um grupo de PM’s se aproxima e um tiro certeiro estoura a cabeça de Pássaro de Fogo. Marcelo estava sozinho e perdido diante do confronto.
O rapaz lembra-se da noite no bar. Da ansiedade de pertencer ao grupo dos experientes. Do primeiro orgasmo com Soraia... Da primeira carreira de cocaína... O fuzil parece pesar em suas mãos e numa tentativa desesperada de voltar a ser o jovem estagiário, ele decide se entregar à polícia...
Tarde demais! Marcelo é atingido no peito e o tiro nem se sabe de onde partiu. Se da arma de um PM ou de algum outro criminoso que invejava sua posição no morro.
A única certeza que se tem é que Marcelo, o novo estagiário que apenas queria conhecer os prazeres daquela noite, agora sente na boca o amargo gosto de sangue.
KAREN C.

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