segunda-feira, 23 de maio de 2011

A Era de Aquário é aqui...

por Felipe Aveiro

"Quando a lua dominar o céu
E Júpiter chegar em Marte
A paz há de lavar o mundo
O amor vai derramar
Na madrugada dessa Era de Aquário"

A Era de Aquário já começou e está em cartaz até o fim do mês no Teatro Oi Casa Grande em mais um maravilhoso espetáculo da dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho. A peça é "Hair", versão da peça homônima que estreou no off-Broadway em 1967 com música de Galt MacDermot e letras e libreto de James Rado e Gerome Ragni tornando-se um fenômeno que marcou época.

Enquanto os Estados Unidos causavam horror ao mundo através do primeiro conflito televisionado internacionalmente, a Guerra do Vietnã, um movimento contracultural pregava o pacifismo, o uso de drogas e o sexo livre. Os hippies. A trama principal gira em torno de Claude (Hugo Bonemer), jovem que é convocado para a guerra e nos conflitos que essa convocação causa nele próprio e na "Tribo", o grupo ao qual pertence liderado por Berger (Igor Rickli) e conta ainda com Sheila (Carol Puntel), Jeanie (Carol Puntel, engraçadíssima), Woof (Marcelo Octavio), Crissy (Tatih Köhler), Dionne (Karin Hils, ex-integrante do grupo Rouge que dá um show cantando "Aquarius") entre outros. Aqueles familiarizados com a versão cinematográfica, dirigida por Milos Forman de 1979, perceberão algumas diferenças no enredo.

Apesar de 40 anos já terem se passado, a mensagem da peça permanece atual. Os hippies já abraçavam o ambientalismo muito antes de se ouvir sobre o aquecimento global. A legalização das drogas é um tema que tem sido discutido e ganhou adeptos de peso como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Impossível não tratar do tema da liberdade sexual, levando em consideração às agressões homofóbicas recentes em São Paulo e no Rio de Janeiro. E como não falar da paz enquanto forças aliadas bombardeiam a Líbia. "Hair" é, sobretudo, uma colorida celebração à liberdade, principalmente a comportamental.

A montagem brasileira não deixa nada a dever às americanas, com o belo cenário de Rogério Falcão, emulando uma espécie de galpão abandonado, com uma kombi psicodélica e latões com os rostos pintados de John Lennon, Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison (quantos "jotas"!). Os figurinos hippies elaborados por Marcelo Pies contribuem ainda mais para a profusão de cores que é o espetáculo. E tudo perfeitamente iluminado por Paulo Cesar Medeiros, que já trabalhou com Möeller e Botelho, assinando a iluminação de "O Despertar da Primavera" que lhe rendeu um prêmio Shell. Os números de dança coreografados por Alonso Barros são brilhantemente executados e completam as versões das canções em português de Cláudio Botelho, com direção musical de Marcelo Castro, para as canções que viraram hinos como "Aquarius", "Hair" e "Let the Sunshine In".

Mas o que mais chama a atenção é o talento do elenco composto por 30 jovens atores-cantores-dançarinos, selecionados em cerca de 700 audições, e que vêm mostrar que essa nova geração do teatro musical brasileiro é extremamente profissional e já está dando o que falar. Ao final, o elenco convida o público a participar da festa e a juntar-se a eles no palco para todos deixarem "o sol entrar".

Cabeludos no Brasil

A primeira montagem de Hair no Brasil estreou em outubro de 1969, menos de um ano após a publicação do AI-5, em plena ditadura militar. A peça causou polêmica com sua cena de nudez que repercutiu por todo o país. A peça dirigida por Ademar Guerra, contou com nomes, hoje consagrados, como Antônio Fagundes, Aracy Balabanian, Ney Latorraca e a estreante Sônia Braga, cuja participação no espetáculo foi imortalizada na canção "Tigresa" de Caetano Veloso ("Ela me conta que era atriz, e trabalhou no Hair...").

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