Lua
Profunda
Afunda
Rua
Apronta
Tonta
Loucamente tua
Usa
Abusa
Desnuda
Completamente nua
Muda
Manda
Chama
Cama
Pervertida
Torcida
Molhada
Acabada
Marcada
Amada.
Kelly Sampaio Vianna da Conceição
28/11/2010
O objetivo é divulgar produção de textos em que a língua, com toda sua polissemia, possa exercer a criatividade necessária à poesia. Participantes: todos os ex-alunos da Faculdade CCAA que quiserem compartilhar esse espaço.
sábado, 18 de dezembro de 2010
DIMENSÕES
O mundo se apequenou
Meu desejo aumentou
Nossos corpos se estreitaram
Nossas bocas se incorporaram
Nossos olhos se aprofundaram
Nossas mãos se radicaram
Nossos suspiros se agonizaram
O mundo se agigantou...
Kelly Sampaio Vianna da Conceição
26/11/2010
Meu desejo aumentou
Nossos corpos se estreitaram
Nossas bocas se incorporaram
Nossos olhos se aprofundaram
Nossas mãos se radicaram
Nossos suspiros se agonizaram
O mundo se agigantou...
Kelly Sampaio Vianna da Conceição
26/11/2010
MOVIMENTO
Quero alguém que me sufoque
Um alguém que me toque
Um cheiro que me apresse
Um beijo que me acelere.
Um vai e vem de emoções
Um vem e vai de ilusões
Um vai e vem de sensações
Um vem e vai de sons.
Vai amor, Vem calor
Vem suspiro, Vai gemido
Vai calor, Vem amor
Vem sofreguidão, Vai satisfação.
Kelly Sampaio Vianna da Conceição
13/11/2010
Um alguém que me toque
Um cheiro que me apresse
Um beijo que me acelere.
Um vai e vem de emoções
Um vem e vai de ilusões
Um vai e vem de sensações
Um vem e vai de sons.
Vai amor, Vem calor
Vem suspiro, Vai gemido
Vai calor, Vem amor
Vem sofreguidão, Vai satisfação.
Kelly Sampaio Vianna da Conceição
13/11/2010
CINEMA COM MARIDO
- Amor, aonde vamos namorar hoje?
- Mainha, sabe que estou com saudades dos seus beijos, mas quero mais que isso hoje.
- Tenho uma ideia, nos vemos no cinema.
Fomos assistir a Lista de Schindler.
- Mainha, quero você!
Enquanto todos prestavam atenção no que estava acontecendo na tela, estávamos aproveitando para intensificar nosso tesão.
Vestido serve para isso, saia também.
- Tire a calcinhas!
- Hum, adorei a ideia.
Mãos passam com delicadeza pela barriga, passeiam pelas coxas provocando uma deliciosa sensação de desejo e de fome.
Lambidas na orelha, sussurros de palavras deliciosas de se ouvir na cama, e fora dela também.
- Safada! Vagabunda gostosa!
- Ai, adoro quando me chama assim, continua...
- Cachorra, e disso que você gosta. Vou te dar o que você quer.
Seus dedos encontraram o que buscava, penetrou com força e fome, me deixou louca, alucinada, desesperada por mais.
- Quero gritar, calma...
- Grite, vou adorar ouvir seu prazer...
Gemi forte e gostoso em seu ouvido enquanto gozava em seus dedos intensamente.
O filme estava no auge, todos com a atenção voltada para as mortes dos Judeus na tela, do lado direito uma senhora de meia idade nem se movia, e nós com movimento e sexo.
- Agora é minha vez, quero te dar prazer também.
- Não piranha, hoje eu te devoro!
- Mas...
- Calada, já falei, amanhã conversamos sobre isso.
Me deu um beijo molhado se levantou e saiu.
Continuei sentada até acabar o filme.
- Querida, quem estava do seu lado? Ouvi você conversando com alguém.
Sorri satisfeita.
Kelly Sampaio Vianna da Conceição
- Mainha, sabe que estou com saudades dos seus beijos, mas quero mais que isso hoje.
- Tenho uma ideia, nos vemos no cinema.
Fomos assistir a Lista de Schindler.
- Mainha, quero você!
Enquanto todos prestavam atenção no que estava acontecendo na tela, estávamos aproveitando para intensificar nosso tesão.
Vestido serve para isso, saia também.
- Tire a calcinhas!
- Hum, adorei a ideia.
Mãos passam com delicadeza pela barriga, passeiam pelas coxas provocando uma deliciosa sensação de desejo e de fome.
Lambidas na orelha, sussurros de palavras deliciosas de se ouvir na cama, e fora dela também.
- Safada! Vagabunda gostosa!
- Ai, adoro quando me chama assim, continua...
- Cachorra, e disso que você gosta. Vou te dar o que você quer.
Seus dedos encontraram o que buscava, penetrou com força e fome, me deixou louca, alucinada, desesperada por mais.
- Quero gritar, calma...
- Grite, vou adorar ouvir seu prazer...
Gemi forte e gostoso em seu ouvido enquanto gozava em seus dedos intensamente.
O filme estava no auge, todos com a atenção voltada para as mortes dos Judeus na tela, do lado direito uma senhora de meia idade nem se movia, e nós com movimento e sexo.
- Agora é minha vez, quero te dar prazer também.
- Não piranha, hoje eu te devoro!
- Mas...
- Calada, já falei, amanhã conversamos sobre isso.
Me deu um beijo molhado se levantou e saiu.
Continuei sentada até acabar o filme.
- Querida, quem estava do seu lado? Ouvi você conversando com alguém.
Sorri satisfeita.
Kelly Sampaio Vianna da Conceição
CHEIRO...
Sinto seu cheiro pelas ruas
Inebriante...
Devaneio ou Saudade?
Devaneio seria te sentir...
Saudade é quando te sinto...
Lília Durán
Inebriante...
Devaneio ou Saudade?
Devaneio seria te sentir...
Saudade é quando te sinto...
Lília Durán
ENCOMENDA
Seu Edgar gostava de caminhar pela praça naquele passinho miúdo. Ficava olhando em volta, devagar, apreciando o movimento. Um velho de noventa anos não devia ter mesmo muito que fazer. As crianças correndo ao redor e o velho lá olhando. Admira um velho desses ter tanta paciência. Ednice, a enfermeira do velho, o carregava pendurado no braço. Era uma mulata gostosa, as coxas roliças e a bunda enorme meio contida numa saia curta. Todo mundo olhava a bunda de Ednice.
Capitão França, o rei do carteado da praça, comentava sempre que o velho devia comer a enfermeira. E eu dizia que era impossível, que o coroa não tinha força nem para andar, quanto mais para dar conta de uma bunda daquelas. O velho França respondia que seu Edgar fazia cara de tarado sempre que passeava pela praça. A velharada que jogava ria de babar quando ele falava.
Um dia, fui entregar uma encomenda para o Barão, vizinho do seu Edgar. Barão colecionava uns “berros” que eu trazia. Só que também gostava de dar uns tecos e mais de uma vez desfilou com a nareba suja de pó pelo bairro. E já tinha escapado de levar um sacode da polícia, tudo na mais pura sorte. Só que, apesar de vacilão, o Barão era bom freguês, pagava certo e não dava mole com os “berros”.
Chegando ao apartamento, bati na porta e ninguém atendeu. Pensei, porra, aquele merda do Barão esqueceu o combinado e saiu. Deve ter fungado umas três carreiras e detonou a cabeça de vez.
Aí fui apurando o ouvido para ver se escutava alguma coisa no apê do Barão e ouvi um gemido abafado. Não era o Barão, era no apartamento de cima, do Seu Edgar. Será que o velhote estava traçando a mulata? Resolvi investigar, curioso.
Quando me encostei à porta, ela abriu silenciosamente. Dei com as costas enrugadas do velho. A cueca do velho parecia um saco vazio pendendo daquela bunda seca. E, diante dele, amarrado no sofá, estava o Fabinho, filho do porteiro, de olhão arregalado, boca tampada com um pano imundo e também de cueca. Ednice roncava na poltrona, de calcinha, com a seringa ainda espetada na veia do braço.
Lembrei-me do França e da descrição da cara do tarado e saquei imediatamente qual era o negócio. A pistola saltou rápido da minha cintura e quatro pipocos atravessaram as costas do velho saindo no peito murcho. Uma das balas abriu um rombo no sofá ao lado da enfermeira. Ela abriu um olho e fechou em seguida, para nunca mais abrir. Esvaziei o pente no peito da mulata e corri até o garoto: some, moleque, vaza, desaparece e nem pensa em falar porra nenhuma do que você viu aqui! O moleque me olhou e quase sorriu.
Saí do prédio. Não vendo mercadoria usada, o Barão ia ficar na mão. Também, que mandou o otário ir passear na hora errada?
César Calheiros
28/11/2010
Capitão França, o rei do carteado da praça, comentava sempre que o velho devia comer a enfermeira. E eu dizia que era impossível, que o coroa não tinha força nem para andar, quanto mais para dar conta de uma bunda daquelas. O velho França respondia que seu Edgar fazia cara de tarado sempre que passeava pela praça. A velharada que jogava ria de babar quando ele falava.
Um dia, fui entregar uma encomenda para o Barão, vizinho do seu Edgar. Barão colecionava uns “berros” que eu trazia. Só que também gostava de dar uns tecos e mais de uma vez desfilou com a nareba suja de pó pelo bairro. E já tinha escapado de levar um sacode da polícia, tudo na mais pura sorte. Só que, apesar de vacilão, o Barão era bom freguês, pagava certo e não dava mole com os “berros”.
Chegando ao apartamento, bati na porta e ninguém atendeu. Pensei, porra, aquele merda do Barão esqueceu o combinado e saiu. Deve ter fungado umas três carreiras e detonou a cabeça de vez.
Aí fui apurando o ouvido para ver se escutava alguma coisa no apê do Barão e ouvi um gemido abafado. Não era o Barão, era no apartamento de cima, do Seu Edgar. Será que o velhote estava traçando a mulata? Resolvi investigar, curioso.
Quando me encostei à porta, ela abriu silenciosamente. Dei com as costas enrugadas do velho. A cueca do velho parecia um saco vazio pendendo daquela bunda seca. E, diante dele, amarrado no sofá, estava o Fabinho, filho do porteiro, de olhão arregalado, boca tampada com um pano imundo e também de cueca. Ednice roncava na poltrona, de calcinha, com a seringa ainda espetada na veia do braço.
Lembrei-me do França e da descrição da cara do tarado e saquei imediatamente qual era o negócio. A pistola saltou rápido da minha cintura e quatro pipocos atravessaram as costas do velho saindo no peito murcho. Uma das balas abriu um rombo no sofá ao lado da enfermeira. Ela abriu um olho e fechou em seguida, para nunca mais abrir. Esvaziei o pente no peito da mulata e corri até o garoto: some, moleque, vaza, desaparece e nem pensa em falar porra nenhuma do que você viu aqui! O moleque me olhou e quase sorriu.
Saí do prédio. Não vendo mercadoria usada, o Barão ia ficar na mão. Também, que mandou o otário ir passear na hora errada?
César Calheiros
28/11/2010
A ATRIZ OU “LIE”
Até aqui foi tudo uma mentira.
Lisa esperava o terceiro sinal, sentada na coxia. Ninguém poderia dizer que era uma má atriz. Há 35 anos vinha interpretando a si mesma -- aquela que queria que pensassem que era.
O teatro estava cheio naquela noite.
– Só me faltava essa – pensou, enquanto espiava atrás das cortinas e vira Vic na segunda fileira. Se pudesse, iria embora, jogaria tudo pro alto. Cansara dessa palhaçada. Não suportava o diretor, o elenco de apoio era medíocre, mas o texto, ah, o texto valia a pena. Mas pra que modernizar Salomé? Querer inovar somente conferia um ar ridículo ao que seria perfeito se fosse da forma mais simples possível: um cenário, maquiagem e boa luz.
Não, cacete, aquele afetado tinha que colocar rock ao fundo e inverter os gêneros das personagens pra mostrar que era criativo. No que é perfeito não se mexe.
– Quando se tem contas a pagar tudo muda. Arte pela Arte soa muito bonito pra quem nasceu em berço de ouro. – e num suspiro se encaminhou para o palco.
“... Ah! beijei-te a boca, Iocanaã, beijei-te a boca. Havia um sabor acre nos teus lábios: Seria o sabor do sangue?... Mas talvez seja o sabor do amor. Diz-se que o amor tem um sabor acre...” emitia as frases automaticamente, as faíscas em seus olhos não eram mais as mesmas de antes.
Aquele na platéia, o intruso, tantas vezes passara o texto com ela. Queria tirar aquele sorrisinho de canto de boca do seu rosto com um murro.
Logo acabaria, hoje é a última noite. Então, táxi, aeroporto, bye bye Vic, tchau família, adeus, adeus, não me procurem mais. Iria começar a viver de verdade.
Ninguém conhecia a Lisa de verdade a não ser ela. Ela que nunca duvidou. Não atrás de não, olhares disfarçados e gestos reveladores. Só Diana sabia quem era aquela mulher.
Porém era uma atriz, convencia a si mesma das mentiras nas quais se forçava a repetir, repetir, até que se tornavam verdade para o mundo.
Noivo, planos, amigas de escola, happy hours animadas, noites dançantes... tudo mentira. O choro que sufocava noite sim, noite não nos travesseiros de Vic, e o rosto que imaginava quando o beijava... eram de Diana.
Diana, a única parte dela que não fingia.
Conheceram-se numa livraria. Diana bateu o olho e gamou. Nunca hesitava em puxar assunto com quem quer que fosse, da empregadinha à perua de nariz empinado. Com seu charme andrógino sempre conseguia pelo menos um sorriso daquela a quem dirigia seu olhar clínico. Já estava treinada, lia nos gestos, nos olhos, nas palavras e nas entrelinhas. -- Toda mulher é bissexual até que se comprove o contrário. Abusada, talvez, mas quem não arrisca... bem...
Numa dessas tardes passeando pelo Arpoador, que coincidência! Lá estava ela. Com um cara “pintoso”, como dizia, ao lado, mas não percebia afinidade alguma. Ficou só observando. Quando viu que ele se despedia com um beijo no rosto da mulher, ficou de prontidão. Contou até 50, e se aproximou. Como quem não quer nada, puxou um assunto. Falou do tempo, apresentou-se e logo estavam marcando de tomar um chope.
Foi o primeiro de inúmeros. Não tocava em assunto algum sobre namoro, casamento, homens, mulheres, gays, lésbicas etc. Só conversavam, sobre cinema, sobre música, sobre teatro, sobre o tempo. Ou deixavam seus olhos se entenderem. Diana via através da máscara. Lisa era uma atriz, mas com seu verdadeiro amor se despia da personagem. Até o primeiro beijo, que em minutos progrediu para a primeira noite. Então, todo o tempo livre que Lisa tinha, ela se disfarçava de si mesma e era feliz.
Mas como quase sempre, -- Meu Deus, o que minha mãe iria pensar, e meu pai, e o povo da Igreja? Casamento marcado, putzgrila... Devo estar louca.
E as crises se intensificavam. Ela mergulhava em alguma peça, em algum livro, em meia dúzia de garrafas, ou três maços de cigarro.
A Felicidade cutucava, e incomodava, e queria entrar. Fingia não ouvir, entorpecia os sentidos pra não ver. De óculos escuros ficava mais fácil disfarçar os olhos vermelhos, as olheiras profundas.
Diana não pressionava, não sofria. Sabia que havia ganhado a parada. Lisa nunca havia amado homem algum, ela era a única, e o que estava escrito, estava escrito, acreditava. Eram metades perdidas que sozinhas não funcionavam.
Então, surgiu a chance. – Vou fazer um curso de cinema em NY. Pois bem, não mentiu, mas também não deixou que descobrissem que era pretexto. Vic sabia, mas não ligava, mulher pra ele não seria problema. Rico, bonito, chato pra cacete...
Na dança de Salomé para Herodes, a atriz se empolgou, e a cada véu que tirava era uma mentira jogada fora. E ria como louca, adrenalina e felicidade, ou loucura mesmo, porque amor é loucura.
O avião a decolar, elas se entendiam só olho no olho. Não precisavam de palavras.
E que se foda a personagem!
Laura V. Guerra
Novembro, 2010.
Lisa esperava o terceiro sinal, sentada na coxia. Ninguém poderia dizer que era uma má atriz. Há 35 anos vinha interpretando a si mesma -- aquela que queria que pensassem que era.
O teatro estava cheio naquela noite.
– Só me faltava essa – pensou, enquanto espiava atrás das cortinas e vira Vic na segunda fileira. Se pudesse, iria embora, jogaria tudo pro alto. Cansara dessa palhaçada. Não suportava o diretor, o elenco de apoio era medíocre, mas o texto, ah, o texto valia a pena. Mas pra que modernizar Salomé? Querer inovar somente conferia um ar ridículo ao que seria perfeito se fosse da forma mais simples possível: um cenário, maquiagem e boa luz.
Não, cacete, aquele afetado tinha que colocar rock ao fundo e inverter os gêneros das personagens pra mostrar que era criativo. No que é perfeito não se mexe.
– Quando se tem contas a pagar tudo muda. Arte pela Arte soa muito bonito pra quem nasceu em berço de ouro. – e num suspiro se encaminhou para o palco.
“... Ah! beijei-te a boca, Iocanaã, beijei-te a boca. Havia um sabor acre nos teus lábios: Seria o sabor do sangue?... Mas talvez seja o sabor do amor. Diz-se que o amor tem um sabor acre...” emitia as frases automaticamente, as faíscas em seus olhos não eram mais as mesmas de antes.
Aquele na platéia, o intruso, tantas vezes passara o texto com ela. Queria tirar aquele sorrisinho de canto de boca do seu rosto com um murro.
Logo acabaria, hoje é a última noite. Então, táxi, aeroporto, bye bye Vic, tchau família, adeus, adeus, não me procurem mais. Iria começar a viver de verdade.
Ninguém conhecia a Lisa de verdade a não ser ela. Ela que nunca duvidou. Não atrás de não, olhares disfarçados e gestos reveladores. Só Diana sabia quem era aquela mulher.
Porém era uma atriz, convencia a si mesma das mentiras nas quais se forçava a repetir, repetir, até que se tornavam verdade para o mundo.
Noivo, planos, amigas de escola, happy hours animadas, noites dançantes... tudo mentira. O choro que sufocava noite sim, noite não nos travesseiros de Vic, e o rosto que imaginava quando o beijava... eram de Diana.
Diana, a única parte dela que não fingia.
Conheceram-se numa livraria. Diana bateu o olho e gamou. Nunca hesitava em puxar assunto com quem quer que fosse, da empregadinha à perua de nariz empinado. Com seu charme andrógino sempre conseguia pelo menos um sorriso daquela a quem dirigia seu olhar clínico. Já estava treinada, lia nos gestos, nos olhos, nas palavras e nas entrelinhas. -- Toda mulher é bissexual até que se comprove o contrário. Abusada, talvez, mas quem não arrisca... bem...
Numa dessas tardes passeando pelo Arpoador, que coincidência! Lá estava ela. Com um cara “pintoso”, como dizia, ao lado, mas não percebia afinidade alguma. Ficou só observando. Quando viu que ele se despedia com um beijo no rosto da mulher, ficou de prontidão. Contou até 50, e se aproximou. Como quem não quer nada, puxou um assunto. Falou do tempo, apresentou-se e logo estavam marcando de tomar um chope.
Foi o primeiro de inúmeros. Não tocava em assunto algum sobre namoro, casamento, homens, mulheres, gays, lésbicas etc. Só conversavam, sobre cinema, sobre música, sobre teatro, sobre o tempo. Ou deixavam seus olhos se entenderem. Diana via através da máscara. Lisa era uma atriz, mas com seu verdadeiro amor se despia da personagem. Até o primeiro beijo, que em minutos progrediu para a primeira noite. Então, todo o tempo livre que Lisa tinha, ela se disfarçava de si mesma e era feliz.
Mas como quase sempre, -- Meu Deus, o que minha mãe iria pensar, e meu pai, e o povo da Igreja? Casamento marcado, putzgrila... Devo estar louca.
E as crises se intensificavam. Ela mergulhava em alguma peça, em algum livro, em meia dúzia de garrafas, ou três maços de cigarro.
A Felicidade cutucava, e incomodava, e queria entrar. Fingia não ouvir, entorpecia os sentidos pra não ver. De óculos escuros ficava mais fácil disfarçar os olhos vermelhos, as olheiras profundas.
Diana não pressionava, não sofria. Sabia que havia ganhado a parada. Lisa nunca havia amado homem algum, ela era a única, e o que estava escrito, estava escrito, acreditava. Eram metades perdidas que sozinhas não funcionavam.
Então, surgiu a chance. – Vou fazer um curso de cinema em NY. Pois bem, não mentiu, mas também não deixou que descobrissem que era pretexto. Vic sabia, mas não ligava, mulher pra ele não seria problema. Rico, bonito, chato pra cacete...
Na dança de Salomé para Herodes, a atriz se empolgou, e a cada véu que tirava era uma mentira jogada fora. E ria como louca, adrenalina e felicidade, ou loucura mesmo, porque amor é loucura.
O avião a decolar, elas se entendiam só olho no olho. Não precisavam de palavras.
E que se foda a personagem!
Laura V. Guerra
Novembro, 2010.
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