sábado, 18 de dezembro de 2010

ENCOMENDA

Seu Edgar gostava de caminhar pela praça naquele passinho miúdo. Ficava olhando em volta, devagar, apreciando o movimento. Um velho de noventa anos não devia ter mesmo muito que fazer. As crianças correndo ao redor e o velho lá olhando. Admira um velho desses ter tanta paciência. Ednice, a enfermeira do velho, o carregava pendurado no braço. Era uma mulata gostosa, as coxas roliças e a bunda enorme meio contida numa saia curta. Todo mundo olhava a bunda de Ednice.
Capitão França, o rei do carteado da praça, comentava sempre que o velho devia comer a enfermeira. E eu dizia que era impossível, que o coroa não tinha força nem para andar, quanto mais para dar conta de uma bunda daquelas. O velho França respondia que seu Edgar fazia cara de tarado sempre que passeava pela praça. A velharada que jogava ria de babar quando ele falava.
Um dia, fui entregar uma encomenda para o Barão, vizinho do seu Edgar. Barão colecionava uns “berros” que eu trazia. Só que também gostava de dar uns tecos e mais de uma vez desfilou com a nareba suja de pó pelo bairro. E já tinha escapado de levar um sacode da polícia, tudo na mais pura sorte. Só que, apesar de vacilão, o Barão era bom freguês, pagava certo e não dava mole com os “berros”.
Chegando ao apartamento, bati na porta e ninguém atendeu. Pensei, porra, aquele merda do Barão esqueceu o combinado e saiu. Deve ter fungado umas três carreiras e detonou a cabeça de vez.
Aí fui apurando o ouvido para ver se escutava alguma coisa no apê do Barão e ouvi um gemido abafado. Não era o Barão, era no apartamento de cima, do Seu Edgar. Será que o velhote estava traçando a mulata? Resolvi investigar, curioso.
Quando me encostei à porta, ela abriu silenciosamente. Dei com as costas enrugadas do velho. A cueca do velho parecia um saco vazio pendendo daquela bunda seca. E, diante dele, amarrado no sofá, estava o Fabinho, filho do porteiro, de olhão arregalado, boca tampada com um pano imundo e também de cueca. Ednice roncava na poltrona, de calcinha, com a seringa ainda espetada na veia do braço.
Lembrei-me do França e da descrição da cara do tarado e saquei imediatamente qual era o negócio. A pistola saltou rápido da minha cintura e quatro pipocos atravessaram as costas do velho saindo no peito murcho. Uma das balas abriu um rombo no sofá ao lado da enfermeira. Ela abriu um olho e fechou em seguida, para nunca mais abrir. Esvaziei o pente no peito da mulata e corri até o garoto: some, moleque, vaza, desaparece e nem pensa em falar porra nenhuma do que você viu aqui! O moleque me olhou e quase sorriu.
Saí do prédio. Não vendo mercadoria usada, o Barão ia ficar na mão. Também, que mandou o otário ir passear na hora errada?

César Calheiros
28/11/2010

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