sábado, 18 de dezembro de 2010

A ATRIZ OU “LIE”

Até aqui foi tudo uma mentira.

Lisa esperava o terceiro sinal, sentada na coxia. Ninguém poderia dizer que era uma má atriz. Há 35 anos vinha interpretando a si mesma -- aquela que queria que pensassem que era.
O teatro estava cheio naquela noite.
– Só me faltava essa – pensou, enquanto espiava atrás das cortinas e vira Vic na segunda fileira. Se pudesse, iria embora, jogaria tudo pro alto. Cansara dessa palhaçada. Não suportava o diretor, o elenco de apoio era medíocre, mas o texto, ah, o texto valia a pena. Mas pra que modernizar Salomé? Querer inovar somente conferia um ar ridículo ao que seria perfeito se fosse da forma mais simples possível: um cenário, maquiagem e boa luz.
Não, cacete, aquele afetado tinha que colocar rock ao fundo e inverter os gêneros das personagens pra mostrar que era criativo. No que é perfeito não se mexe.
– Quando se tem contas a pagar tudo muda. Arte pela Arte soa muito bonito pra quem nasceu em berço de ouro. – e num suspiro se encaminhou para o palco.

“... Ah! beijei-te a boca, Iocanaã, beijei-te a boca. Havia um sabor acre nos teus lábios: Seria o sabor do sangue?... Mas talvez seja o sabor do amor. Diz-se que o amor tem um sabor acre...” emitia as frases automaticamente, as faíscas em seus olhos não eram mais as mesmas de antes.
Aquele na platéia, o intruso, tantas vezes passara o texto com ela. Queria tirar aquele sorrisinho de canto de boca do seu rosto com um murro.
Logo acabaria, hoje é a última noite. Então, táxi, aeroporto, bye bye Vic, tchau família, adeus, adeus, não me procurem mais. Iria começar a viver de verdade.

Ninguém conhecia a Lisa de verdade a não ser ela. Ela que nunca duvidou. Não atrás de não, olhares disfarçados e gestos reveladores. Só Diana sabia quem era aquela mulher.
Porém era uma atriz, convencia a si mesma das mentiras nas quais se forçava a repetir, repetir, até que se tornavam verdade para o mundo.
Noivo, planos, amigas de escola, happy hours animadas, noites dançantes... tudo mentira. O choro que sufocava noite sim, noite não nos travesseiros de Vic, e o rosto que imaginava quando o beijava... eram de Diana.
Diana, a única parte dela que não fingia.

Conheceram-se numa livraria. Diana bateu o olho e gamou. Nunca hesitava em puxar assunto com quem quer que fosse, da empregadinha à perua de nariz empinado. Com seu charme andrógino sempre conseguia pelo menos um sorriso daquela a quem dirigia seu olhar clínico. Já estava treinada, lia nos gestos, nos olhos, nas palavras e nas entrelinhas. -- Toda mulher é bissexual até que se comprove o contrário. Abusada, talvez, mas quem não arrisca... bem...

Numa dessas tardes passeando pelo Arpoador, que coincidência! Lá estava ela. Com um cara “pintoso”, como dizia, ao lado, mas não percebia afinidade alguma. Ficou só observando. Quando viu que ele se despedia com um beijo no rosto da mulher, ficou de prontidão. Contou até 50, e se aproximou. Como quem não quer nada, puxou um assunto. Falou do tempo, apresentou-se e logo estavam marcando de tomar um chope.

Foi o primeiro de inúmeros. Não tocava em assunto algum sobre namoro, casamento, homens, mulheres, gays, lésbicas etc. Só conversavam, sobre cinema, sobre música, sobre teatro, sobre o tempo. Ou deixavam seus olhos se entenderem. Diana via através da máscara. Lisa era uma atriz, mas com seu verdadeiro amor se despia da personagem. Até o primeiro beijo, que em minutos progrediu para a primeira noite. Então, todo o tempo livre que Lisa tinha, ela se disfarçava de si mesma e era feliz.

Mas como quase sempre, -- Meu Deus, o que minha mãe iria pensar, e meu pai, e o povo da Igreja? Casamento marcado, putzgrila... Devo estar louca.
E as crises se intensificavam. Ela mergulhava em alguma peça, em algum livro, em meia dúzia de garrafas, ou três maços de cigarro.

A Felicidade cutucava, e incomodava, e queria entrar. Fingia não ouvir, entorpecia os sentidos pra não ver. De óculos escuros ficava mais fácil disfarçar os olhos vermelhos, as olheiras profundas.
Diana não pressionava, não sofria. Sabia que havia ganhado a parada. Lisa nunca havia amado homem algum, ela era a única, e o que estava escrito, estava escrito, acreditava. Eram metades perdidas que sozinhas não funcionavam.

Então, surgiu a chance. – Vou fazer um curso de cinema em NY. Pois bem, não mentiu, mas também não deixou que descobrissem que era pretexto. Vic sabia, mas não ligava, mulher pra ele não seria problema. Rico, bonito, chato pra cacete...

Na dança de Salomé para Herodes, a atriz se empolgou, e a cada véu que tirava era uma mentira jogada fora. E ria como louca, adrenalina e felicidade, ou loucura mesmo, porque amor é loucura.

O avião a decolar, elas se entendiam só olho no olho. Não precisavam de palavras.
E que se foda a personagem!

Laura V. Guerra
Novembro, 2010.

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