sexta-feira, 5 de novembro de 2010

SEM TÍTULO III

Hoje quero confusão! Acordei com raiva do mundo! Mas isso também é fácil! A hipocrisia impera! A futilidade domina! Não aguento tanta baboseira! Tanta mentira e tanta gente que olha, mas não enxerga um palmo a sua frente; cegos por opção! Seus umbigos são as suas únicas referências de espaço e sentido. Poupem-me desse circo de marionetes de sorrisos pintados a hidrocor!"

Alexandre Calheiros

SEM TÍTULO II

Confiei no que todos me disseram. Acreditei cegamente na experiência vivida por outras pessoas. Busquei ajuda especializada. Tentei me entender melhor e até consegui. Tive paciência e sofri calado. Mas, será que sou tão diferente assim a ponto de não me incluir no lugar comum?

Alexandre Calheiros

FACADA

O olhar
Gira
Pelo salão,
Ronda,
Ronda,
De ronda.
Capta
Mãos em festa
Bocas em flor.
Alma caída no chão...
Corpo girando em turbilhão.

Angélica Castilho

PERNAS

Dia desses fui, como de costume, ao consultório da minha terapeuta (chique, não?) Coisa boa esse negócio de terapia. Li em algum lugar que fazer terapia é assim: Imagine uma sala escura que você não conhece e em que vai entrar pela primeira vez. O papel do psicoterapeuta é acender a luz. Com a claridade você poderá ver o que tem na sala e decidir o que quer fazer com isso, onde quer sentar, se quer mudar algo de lugar, se vai trocar a mobília ou a cor das paredes, etc. Maravilha, né?
A terapeuta recebeu-me com o carinho e simpatia costumeiros. Notei, no entanto, um detalhe aparentemente irrelevante, mas que acabaria por tornar-se significativo. Ela, coisa rara para não dizer inusitada, usava uma comportada minissaia.
A saia realmente não era curta. Tinha lá suas três ou quatro polegadas abaixo do limite considerado mínimo pelos especialistas, o que, apesar de não garantir a total discrição, representava uma margem de segurança bastante razoável. As pernas tinham contorno adequado, eram pernas maduras, torneadas graças às caminhadas do dia-a-dia, ao contrário das pernas adolescentes forjadas nos aparelhos de academia, que frequentemente avistamos a passeio pelos calçadões-passarelas da cidade.
Tenho uma queda por pernas, confesso. Nada de fetichismo exacerbado, entenda-se, mas prefiro as surpresas das bainhas aos mistérios dos decotes. Não se trata de desprezar um colo voluptuoso, mas as pernas... Ah, as pernas... A curva dos joelhos, o ângulo das coxas, as linhas das panturrilhas, tudo isso atrai o olhar como a flor olorosa atrai a abelha.
A moça caminhou até a poltrona, sentou-se cuidadosamente e, na tentativa de evitar um constrangimento mútuo, sorriu e segurou com força a barra da saia. O meu olhar encabulado, por mais que eu tentasse evitar, insistira em segui-la no trajeto e agora teimava em fixar-se em seus joelhos. Respirei fundo, sorri amarelo e me concentrei num quadro da parede oposta, uma cena bucólica de jardim florido e damas com vestidos até os joelhos.
Conversa vai, conversa vem, cada cruzada de pernas era um exercício tão complicado que os nós dos dedos da moça ficavam esbranquiçados devido ao esforço em manter a saia sob controle. E eu, entre esforçado em relatar minha história e angustiado com o movimento das pernas à minha frente, ia ficando corado e suarento.
Fim de papo, preparo-me para sair: uma rápida olhada em volta, será que esqueci algo? Caminhamos lado a lado até a porta. Cumprimentamo-nos e ela, ainda embaraçada, me pergunta:
- Pode ser quinta às 18? Tenho um cliente que só pode vir às 17...
- Lamento, na quinta tenho joelhos...
- Como?
- Hã?
- Joelhos?!? Você disse joelhos.
- Quem disse joelhos?
- Você! Você disse: "Lamento, na quinta tenho joelhos..."
- Eu? Ehr... Eu disse dentista. Na quinta tenho dentista!
Saí do consultório encabulado. Mas que eram belas pernas... Ah, eram...

César Calheiros

O MENINO

Dormindo um sono tranquilo,
Alheio à miséria e à fome.;
Por que caminho irá conduzi-lo
Aquela mulher sem nome?

Será que já foi feliz
O menino ao relento?
Que agora vive por um triz,
Enfermo, apático, macilento…

A mãe que o segura ao colo
Resiste, apanha da vida,
À espera do sagrado óbolo
Com a sofrida mão estendida.

Laura Guerra

SENTIMENTO VETUSTO

Não há dor na tentativa de extrair água de pedra com as próprias mãos
Não há dor entre o choque de um soco e a ponta da faca
Há dor, no momento que beija outro.
Os olhos sangram,
O coração chora, mas resisto e sigo.
Para onde?
Não sei --- mas vou!
A melhor frase para se dizer é feita de palavras cheia de substantivos, artigos, adjetivos e preposições, mas com apenas um pronome.
“Nós ...” é frase sentimental, é o sentimento do sentir o sentido, sentindo o verdadeiro sentir.
A fragrância do medo no provar, está no querer mais, no tudo haver e na confusa querência de não dever, mas querer mais.
A sinopse dos amásios é vetusta, não causa entrave aos pronomes ocultos com sazonamento sempiterno aos olhos dos que praticam.
Há jactância em qualquer abalançamento
Há jactância em nossos olhares - olhares que parecem redundar quando se encontram – e redundam.
Queria esquecer os costumes dos gestos, mas como posso se ainda não esqueci você.
Queria esquecer seu bailar de sensualidade abalizada,
Queria não ficar teso ao te desejar,
Queria não ter conhecido momentos tão efêmeros
Realidade ou utopia?
Vergonha ou ufania?
Por entre as frestas da janela o dia alvorece.
Os pensamentos se transformam,
A noite se foi,
O zéfiro tem cheiro de chuva,
As veleidades e a ventura no destino não tem epílogo nem ermo?
Sempre buscam unificamento.
Quem vive desse jeito?
EU, TU ou NÓS?
Qual pronome?
“Nesta vida ainda procuro pela pessoa certa, mas enquanto não encontro, vivo intensamente com as erradas”
Teremos o mesmo epílogo?
... .
Marcelo Zaly

CONFIANÇA

Ter ou não confiança em si mesmo não é uma questão de insegurança, apenas de ter medo de ser usado e sofrer novamente. Então, se creio ter desconfiança, por que meus pensamentos pairam em ti?! Se meu vazio se preenche ao te ver, por que sigo teimando não te amar e continuar a sofrer?! Não dizer que te amo não significa que o sentimento não exista, mas simplesmente que não tenha coragem de dizer ou dizer e ouvir não como resposta.
Ouvir o que meus pensamentos teimam em me alertar é mais fácil que ouvir as palavras que meu coração teima em esconder e se for pra te amar que seja em meu coração e não por palavras. Se te perder é meu medo não te perderei por medo, mas que te perda lutando por ti. Prefiro perder a guerra que desistir da batalha. Se não te tiver ao menos saberei que não desisti e que lutei por ti.

Lília Durán

SEM TÍTULO I

Eu só queria ser como todos os outros que viveram situações semelhantes a minha. Quantas pessoas me disseram as mesmas coisas e me deram os mesmos conselhos – Vai passar – Pois é! Não passou!

Alexandre Calheiros

ALUCINAÇÃO

ANDO, ando e ando.
Pareço não chegar a lugar algum.
OLHO, olho e olho.
Não enxergo nada.
Tenho olhos e visão,
Mas não vejo VOCÊ!
Estaríamos brincando?

Não restam mais cantos,
E você ainda não apareceu!
A casa ainda é a mesma,
Os quartos estão vazios.
CADÊ VOCÊ?

Aflito me encontro,
Só não encontro você!
O teto está gris.
Como pode?
No céu, uma nuvem carregada parece te esconder.
Será que você se foi?
Que casa grande é esta?
Agora vejo: não parece a mesma casa.
Estes lençóis brancos com siglas!
Onde estou? Cadê você?
CADÊ VOCÊ?

Sinto-me prisioneiro,
As janelas tem barras de proteção.
Quem são estas pessoas de branco?
Será que morri ou fiquei louco?
Paris ou Milão?
Ando, olho e por pouco...
CADÊ VOCÊ?
CADÊ?
CADÊ!!!

Marcelo Zaly

RAPOSAS, COELHOS E OUTROS ANIMAIS

Tenho pavor de livros de auto-ajuda. Será que alguém conhece alguém que conhece alguém que já mudou a própria vida (pra melhor, é bom que se diga!) seguindo os conselhos dum livreco desses? Eu não conheço. E o que me incomoda não é propriamente a inutilidade desse tipo de literatura, mas o "lugar-comum", a falta de criatividade, a verborragia modorrenta e sem substância dos textos "lição-de-moral" que a gente encontra por aí.
Os de cunho espiritualista então, são terríveis. Geralmente oferecem uma verdadeira salada conceitual, sem critério plausível, uma mistureba oriental sem precedentes, ainda por cima ocidentalizada sem eira nem beira.
De repente, vivemos uma pandemia de pseudo-boas-intenções transcritas nos mais variados meios. Estão nos jornais, revistas, nas transmissões de rádio e de TV, nos acervos das livrarias, nos discursos dos auditórios, em toda parte. Entranham sob a pele como uma urticária espiritual, coçando a alma dos incautos. E enriquecem os falsos mestres, os gurus-de-araque, os profetas-de-butique, cidadãos abaixo de comuns travestidos de grandes lumiares da espiritualidade.
Vá lá que, às vezes, uma simples palavra de consolo, como um carinho na alma, já opere verdadeiros milagres, coisa orgânica, visceral, de luz interior mesmo. O problema é a postura do cidadão que, do alto da sua falsa sabedoria, desfia, "roliudianamente", um rosário de pérolas toscas, pura filosofia de botequim, abençoando e condenando sem nenhuma autoridade, distribuindo conselhos de bisavó esclerosada à parcela incauta da humanidade. Gente que vende livros como água, dá entrevistas fúteis em talk-shows exibindo um semi-sorriso na caraça, as mãos postas sobre os joelhos e o olhar de santo-do-pau-oco, numa ode à mediocridade.
Há quem se salve dessa horda, mas são poucos. A grande maioria não passa de uma chusma de picaretas, ensinando o padre-nosso ao vigário como quem descobriu o segredo sagrado da alma. Dizem o que se quer ouvir, palavrório sem consistência, como um pão de côdea soberba, mas sem miolo. É a vitória da embalagem sobre o conteúdo, da imagem sobre a idéia.
Tenho pena dessa gente inocente, sem rumo, sem referências religiosas consistentes, que busca consolo nas palavras vãs desses charlatães espirituais.

César Calheiros

ALEGRIA

Pasárgada
é
estado de graça
de ficar à toa
a voar
em torno.
Sabores
pelas voltas,
em volta,
revoltas dos arcos do triunfo:
Lapa!

Angélica Castilho

SEM TÍTULO

O minúsculo orifício
da sua orelha
atiça-me tanto quanto
seus olhos de amêndoa.

Cada poro, cada pêlo,
toda célula morta.
Qualquer parte de você
idolatro, tal qual
a beleza perfeita
do mais puro
mármore esculpido.

Cada sim, cada não.
toda articulação.
Qualquer esgar, sorrir,
futuros espasmos,
lágrimas e suores.
Mínimos cederes,
repetidas recusas.

Para sempre.
Nunca.
Mesmo que só em parte.
TODA.

Laura Guerra

AMOR... MEU GRANDE AMOR...

Por tanto tempo te amei e quando pensei:
"Eu o perdi!" o Destino brincou comigo.
Te deixou perto, tão perto...
De meus olhos, sim, mas longe do meu toque...
E, novamente, o Destino brincou comigo.
Me permitiu o toque, permitiu-me sentir-te ainda mais perto...
Perto de minhas mãos, mas longe do coração.
Destino, amargo e doce.
Por que brincas comigo?
O deixas assim perto e tão longe do que anseio?!

Ironicamente, não o deixava longe... ao contrário.
O deixava perto, mas com seu livre arbítrio.
Seu livre arbítrio o mantinha longe de meu coração.
Longe do coração?! Doce ilusão...
Sempre o tive, mas na inocente...
Inocente melancolia!
Melancolia de minha mente!
Não enxergava o que estava na minha frente.

Amor, meu grande amor...
Ali! Na minha frente!
Mas, não acreditava... seria óbvio demais...
Doce Destino! Por estar comigo o tempo todo...
Pensei que, na verdade, nunca o tivera...
Inocência ou simples medo?
Não sei...
Sei apenas que sempre o tivera e não sabia...
O tempo todo! Ao meu lado...
Amor, meu grande amor...

Lília Durán

LUIZA

Então a amiga me ofereceu um drink e me disse:
- A mulherada tá louca hoje! Vamos pegar geral.
Eu o olhei seriamente e respondi:
- Só existe uma, e ela não está aqui.
Continuei bebendo meu drink enquanto ela se divertia. Não demorou muito tempo e ela volta a puxar assunto:
- Vou para casa! Não estou legal, sinto falta da Luiza!
Pagamos a conta e fomos embora.

Alexandre Calheiros

A NOIVA DA CIDADE

O piscar de olhos do padre, ao entrar na nave da igreja, logo após o confissionário, ao contrário do sentimento de indignação provocou-lhe lascívia. Seus pensamentos ruminaram sonhos libidinosos numa explosão de contentamento. Os minutos passaram rápidos e foram se acomodando às visões delirantes do cura sobre ela. A missa corria lânguida, prolixa e inútil. O padre, em seu gestual de santarrão, exclamava expressões repetitivas, ora em latim ora em português, levantando um castiçal reluzente. A moça observava o rito, e o castiçal lhe parecia um grande objeto de desejo. Suas coxas tremiam, suas faces coravam... Era o medo de ser observada. Sua mãe, sentada a seu lado, estava bem distante daquele sentimento que assomava pelo corpo de sua filha. O ato da comunhão, em que a moça pôde sentir o dedo do padre tocando seus lábios para introduzir a hóstia em sua boca, foi o desfecho de seus desejos mais silentes. Olhou para cima e o padre mais uma vez piscara para ela. O piscar era um convite ou apenas seu desejo materializando-se? Ele perceberia? Seu olhar a denunciaria? O toque da língua nas pontas dos dedos que se ofertavam era sentido?

Tinha 14 anos, seus seios eram rijos, com bicos salientes, que tocavam em sua blusa na esperança de respirar. Aquela moça era uma pérola rara, cristal vibrante de luz. Era a noiva da cidade.

Em seus sonhos e, às vezes, pesadelos, a figura mítica do Tutu-Marambá, personagem que seu avô usava como artifício para contar suas histórias, assolava-lhe a mente e a moça ouvia os versos que saíam da canção:
“Tutu-Marambá não venha mais cá
Que a mãe da criança te manda matar''
Tutu-Marambá não venha mais cá
Que a mãe da criança te manda matar''

Acordava quase sempre cansada, porque corria muito nos sonhos com medo de Tutu. Nesses arroubos de medo e fantasia, a moça se descuidava de propósito só para brincar com o acaso. Quem sabe pelo menos um dos marmanjos da cidade estaria à espreita olhando pela vidraça de seu quarto seu corpo acordando, aparecendo leve, moreno, deixando ver seus seios viçosos chegarem à janela, de maneira despretensiosa.

Esta semana seu pai foi para a roça já que tem terras que precisam ser vendidas dada a seca da região. Sua mãe sempre passeia pela cidade. Diz para os vizinhos que o médico lhe recomendara que se distraísse e caminhasse pela manhã. Hoje, sábado, a moça não vai à escola. Levanta-se pelas dez. Seus cabelos negros, longos e soltos... Seus olhos não incham com a noite. Acorda como se não tivesse adormecido. Sua beleza se derrama no quarto e os pássaros dão leveza ao dia com o seu canto.

Fora dali, na rua, seu corpo, seu cheiro, sua pele... não eram sentidos. O dia se repetia como os demais, e a vida da moça transitava entre a virtude e volúpia. Se ela fosse provida de um ouvido sobrenatural conseguiria, sem dúvida, perceber que algo batia diferente na cidade. Desejava escutar o sobressalto do coração dessa gente.

Ela, com seu encanto, chegaria a roubar o sono dessa gente. Todos gostariam de vê-la dormindo toda transparente, com suas lindas pernas entreabertas pressupondo amor? Em seus delírios, todos da cidade, ao redor de sua cama, estariam então entoando uma canção de ninar:

“Boi, boi, boi, boi da cara preta
Pega essa menina que tem medo de careta''

Ricardo Macedo dos Santos

VOVÓ OLINDA

Vovó Olinda tem 73 anos. Mas quem imagina uma vovó-modelo, grisalha, de vestido escuro, manejando céleres agulhas de tricô, está fadado à decepção. Vovó Olinda é hoje uma daquelas vovós ultra-modernas, cabeleira vermelha (segundo ela, a tintura chama-se vermelho-vibrante-intenso), jaqueta de couro, jeans justíssimo e óculos estilo "matrix".

Nem sempre foi assim. Viúva aos quarenta e poucos, viveu a meia-idade dentro de uma bolha de amargura e saudade até os sessenta e nove. Durante esses quase trinta anos, foi exatamente a vovó tradicional estilo "história do chapeuzinho vermelho". Até conhecer o Mazinho.

Mazinho, que desde a adolescência não escondia sua preferência por balzaquianas, e sempre foi um entusiasmado defensor das senhoras de idade avançada. Enquanto os meninos de dezesseis anos corriam atrás das ninfetinhas de tez imaculada, ele se divertia nos braços das quarentonas empoadas, de pele já não tão sedosa e macia. Dizia que as mulheres maduras tinham muito mais a oferecer, que a experiência superava qualquer vigor juvenil.

Conheceram-se numa festa. O pátio da igreja lotado de barraquinhas vendendo todo o tipo de quitute junino e bugigangas diversas. Crianças, jovens e adultos circulando sob o sereno e a música estridente reverberando.

Então os olhares se cruzaram e foi como se o ar ficasse, de repente, carregado de eletricidade estática. Sem jeito, Olinda baixou os olhos, espantada com o olhar penetrante do jovem de 25 anos. Ele se aproximou devagar, perguntou o seu nome e ofereceu-lhe uma maçã-do-amor. Conversaram durante toda a noite, assistiram juntos à queima de fogos e ao leilão, dividiram a cartela do bingo, comeram salsichão e riram de boca cheia de farofa, trocaram números de telefone.

No dia seguinte, encontraram-se na praça e foram a uma lanchonete. Ele pediu chá, ela, uma coca-cola bem gelada, com gelo e limão. Ele roçou de leve a mão dela sobre a mesa, ela corou mas gostou da sensação de estremecimento a tanto tempo esquecida.

E, então ficaram juntos.

Estou sentado na varanda, Vovó Olinda me acena do outro lado da rua e vem ao meu encontro. Seu sorriso é impressionante, mais até que a mini-saia e a meia arrastão preta.

- Vou dar uma voltinha de moto – Ela diz.

- Ué, vó, o Mazinho tá de moto?

- Não. É minha. Uma 250, lindona, tirei no consórcio!

- E o Mazinho?

- Ah, o Mazinho já era! Tô pegando um garotão de 34. Cansei de franguinho!

É... Essa é a vovó Olinda...


Cesar Calheiros

AJUDA DIVINA

Acordo pela manhã. Levanto-me da cama após brigar com o despertador umas três vezes. Abro a janela, pois apesar do frio imagino que o dia lá fora esteja lindo. Ops! Doce engano. O céu está cinza e não vejo nem mesmo um raio de sol. Já vi que meu dia será ruim, porque já começou mal. Não tenho nem o brilho do “astro maior”.
Chego ao Metro. Meu Deus! A fila para comprar o ticket está enorme. Realmente hoje é meu dia. Quando penso que estava ruim, vejo que a situação ainda iria piorar. Descendo a escada da estação que me deixará na plataforma, me deparo com um imenso formigueiro. Muitas pessoas com os rostos amassados e inchados. Ainda bem que eu não sou o único.
O metro chega a plataforma. As portas se abrem. Pessoas se empurram. Tenho que me equilibrar para não ser pisoteado pelos demais. Pensei mais uma vez: “eu sabia que hoje seria um mal dia!” – Me perguntando o que estava fazendo ali, já que tive uma visão ou um aviso prévio do que seria meu dia.
Ufa! Cheguei ao trabalho, meu sofrimento agora acabou. Hey! – gritou meu chefe – você está atrasado! É... esquece o que eu falei, meu sofrimento continua. Pior, ele aumenta, pois além da bronca ganhei também uma pilha de papéis para despachar. Ruim o meu dia? Que nada... ele está um “inferno”!
Meu tempo no trabalho não poderá ser narrado. Sabe como é, né? Se contar a minha tarefa posso perder meu emprego. Digamos que isto é segredo de profissão.
O trabalho acabou. O metro entupido chegou. Fui exprimido na “latinha rodante” até a minha estação. Ah! Lar doce lar! Cheguei em casa, que momento mágico. Hora de refletir como foi o meu dia.
Após um período de reflexão me dou conta que o meu dia foi maravilhoso. Ué, maravilhoso? Sim. Porque vejo que apesar das circunstâncias Deus me sustentou. Ebenézer! Até aqui nos ajudou o Senhor!

Bruno Petrópolis

A RESPOSTA

O dinheiro não pode te salvar.
Nem teu cargo, teu partido.
Teu líder também não.
Mestre algum vai te libertar…
O desejo só acalma,
anestesia momentaneamente.
Esse litro não vai preencher o vazio.
Muito menos o amor dela ou o dele,
ou o meu.
Credo, símbolo ou livro algum pode te salvar.
Mas o que trazes aí dentro
pode ajudar.
Senta - escreve,
canta,
dança,
expressa!
Cria que a cura um dia virá.

Laura Guerra

ENTARDECER DE DOMINGO

No charme do maracanã
Brilho do verde, tapete
Cerco de bravos brasileiros
Banhados, sol amarelo
Entardecer de domingo

Espera!

Movimentos de Pernas
Gloria que farão
Esfera branca simbólica

Encontro com as redes
guardado por mastros
Grito, alegria, céu azul
De quem muito chorou!

Lincoln Santos

COMO ABRIR O SAQUINHO DE PLÁSTICO?...

Tenho acompanhado tristonho e irritado a notícia de que querem acabar com as sacolas de plástico dos supermercados. Essa notícia me preocupou tal como a chegada à lua dos americanos inquietou a Gil. Lunik 9 diz que "é chegada a hora de escrever e cantar talvez as derradeiras noites de luar". Gil se preocupava com o nosso satélite. Um certo constrangimento poético ocorreu-lhe: como dividir esse astro com astronautas? Pisar no que sempre idealizei como musa dos meus luares e canções. Pois bem, me acometeu o mesmo escândalo.
Que farei com as minhas compras sem o saquinho simpático e óbvio? Logo agora que já estava quase aprendendo a abri-los. Tia Albertina é esperta no abrir os saquinhos. Parece que as pontas dos seus dedos carregam uma lubrificação especial que, ao primeiro toque, acontece o absurdo rompimento do saco. "Eu não consigo!" disse para a caixa que me via como um incompetente e que, com ar de reprovação, dizia-me: "não é assim, senhor! De repente, aquela moça tão rápida no que eu era lerdo, jogou-me nas mãos um pano úmido para que eu pudesse ter sucesso na minha grande empreitada. O que eu queria mesmo é que ela fizesse o serviço. Tempos maravilhosos quando havia os empacotadores rápidos que despachavam num átimo nossas compras e ainda as colocavam no carrinho. Hoje é uma raça extinta. Os donos dos supermercados nos delegaram esse serviço, sem nos ensinar como abrir os saquinhos. Tia Albertina gargalha quando lhe falo sobre isso. Ela também é radicalmente contra se acabar com os "amiguinhos" de plástico. E além disso concorda comigo em que deveria haver um treinamento exclusivo para clientes, e que em sua ementa houvesse um capítulo para questões datiloscópicas. Tenho uma professora que também não consegue dar velocidade às suas compras em função dos famigerados saquinhos de plástico. Tudo vai bem até que chega a hora de empacotar o que comprou. E passa o dedo aqui, e desliza o dedo pra lá, e sopra o saquinho por cima...É uma luta insana contra um saquinho de compras. Rimos muito quando ela comentou esse fato. O que fazer? Eu me pergunto: por que não vim com o dom de abridor de sacos de plástico? por que, como Tia Albertina, não sou versado nessa arte? ou seria tecnologia? Tio Manoel, que trabalha no IBOPE, disse que esse tema daria para uma pesquisa interessante sobre homens e mulheres abridores de saquinhos. Poderia conter até o grau de dificuldade e a completa inapetência para esse mister. "Tenho pensado tanto, mas não sei", como cantou Gil. Acho melhor mesmo o saco de papel, assim não encho o saco com tanto lero-lero.

Ricardo Macedo dos Santos

ORFANDADE

Dor. Dor. Dor.
Caminho há dias dentro de mim para terra alguma.

O que faz o homem quando quem lhe deu a vida morre?

Angélica Castilho

O VELHO

Chamavam-no "o velho da casa verde na colina".
Poucos realmente o conheciam, alguns o tinham visto só de relance.
O fato é que ele era esquisito, assim diziam.
Saía poucas vezes, para comprar mantimentos ou consultar algum médico no vilarejo próximo.

Quem com ele havia conversado, brevemente, percebera seu caráter misantropo, e uma certa rabugice. E sempre falava com a testa franzida e evitando o contato olho no olho.
Talvez sofrera alguma desilusão amorosa, perdera algum parente muito próximo... A verdade é que ele era esquisito.

Outros diziam que era um bom homem, visto a alimentar os pombos na pracinha da região, e até se contava, nas rodinhas de mexeriqueiras, que era adepto do dízimo e da filantropia; e que ajudava algumas pobres almas com mantimentos semanalmente.

O fato é que era um mistério, e muito esquisito.

Morreu, como já era esperado devido a ordem natural das coisas.

Na casa verde e escondida entre amendoeiras, encontraram canários, cachorros, peixes e até uma tartaruga. Todos gordos, bem-cuidados.
Se odiava homens e mulheres, talvez amasse as criaturas inferiores...
Acharam isso deveras excêntrico.
Uma peculiaridade interessante, na verdade.

Ao seu enterro poucos foram, mas o padre e a madre superiora do orfanato lá estavam. E uma jovem senhora, muito bem trajada e bonita, que se descobrira ser filha do velho. Ela, muito educada, nada estranha.

Contam até que foram vistas duas solitárias lágrimas correrem do rosto da madre, que, diziam, era muito severa, e esquisita...


Laura Guerra.

ALMAS GÊMEAS

Suas lágrimas são minhas lágrimas, sua dor minha dor também o é...
se choras eu sinto, se ries eu fico alegre, se dormes eu tenho sono...
se tens raiva fico nervosa e quando amas me recomponho. Em tuas mãos eu sou mulher, nos teus olhos sou menina e nos teus sonhos eu sou teu anjo. Sou teu desejo, tua fome, tua paixão...
Sinto em mim teus maiores medos, tuas frustrações se tornam as minhas e por quê? Porque estou em ti, estou em tua pele...
sou tua pele...
teu coração. Sua alegria e sua tristeza. Tenho em mim a certeza de que sua alma me completa isto porque antes tinha um vazio e depois que te conheci este buraco me foi preenchido. Já não mais sinto em mim um vazio, sinto paz. Meu coração agora se encheu de luz, de amor, de teu amor, de tua luz. Me tens e sempre me terás...
Mesmo que chegues a me magoar um dia saiba que será apenas por um instante porque o amor que temos é maior que qualquer dor que temos ou ainda está por vir. Se um dia eu chorar saiba que foram apenas lágrimas, pois dor maior seria te perder. Assim, se um dia eu me cansar de ti saiba que foi apenas uma brincadeira da Rotina tentando nos separar, mas a Esperança sempre me fará retornar pra você...
Se a saudade um dia apertar saiba que sobreviverei, pois é apenas o amor querendo nos fazer encontrar. Se um dia me fizeres sofrer sei que não foi por mal, pois teu amor é maior que tal sofrimento. Se um dia eu partir, saiba que foi só por um momento que para sempre não partirei jamais...
Se um dia eu correr de ti, saiba que é apenas para que venhas ao meu encontro e me abraces forte para te ouvir dizer ao meu ouvido que me amas e que não me abandonarás jamais e eu sorrirei ao ouvir...
Se eu morrer que seja de saudade...
pois não aguentarei morrer sem ti. Quero morrer ao teu lado, quero morrer junto a ti, quero morrer um dia, mas que não seja por ti, que seja pela idade e que não seja de saudade...
Morrer de saudade só se for na poesia, pois na realidade morreria por ti apenas por uma mortal fatalidade, só morreria se houvesse necessidade...
Por ti morreria com honestidade, pois seria uma honrada fatalidade por ti morrer numa casualidade. Não penses que minhas lágrimas são de dor ou que minha dor é mágoa por ti, nem que se um dia choro é porque sofro por ti... (ar de choro)
até sofreria por ti, mas se me pedisses com carinho ou se minha alma suplicasse este pedido, pois dor alguma perto de ti faz sentido...
Não é um pedido é um lamento verte chorar por mim...
te peço...
não chores por mim sem eu pedir, nem sofras se eu não reclamar...
posso ao menos chorar sem razão?! Por que tem que haver uma razão para tudo?! Choro sem sentido, choro com sentido, choro sorrindo, choro até dormindo, mas não choro é por ti! Só choro de amor por ti. Choro de saudade, choro por saudade e chorarei na saudade. Choro de verdade, choro com vontade...
já chorei por fatalidade e hoje choro de saudade...
Mas não chores por mim...
nem evites chorar perto de mim, mas te suplico não derrames lágrimas por mim, pois se choras teu coração grita por mim e eu não consigo me mover de tamanha dor que sinto ao sentir teu lamento e ouvir teu choro. Tuas lágrimas choram de sinceridade...
eu sei, mas choram ainda mais de saudade e disso eu já sei, mas se choras por mim eu sentirei. Se eu me negar a te perdoar saiba que será apenas por um momento. Não consigo te odiar por um momento e sinceramente sei que raiva eu jamais sentirei. Saiba que sempre te perdoarei. É uma lei. Não resistirei sentir teu lamento e continuar magoada sem nem ao menos pôr uma lágrima. Sou assim e pra sempre serei, mas sempre te amarei...
Sinto se te faço chorar, mas é o meu jeito de amar e não conheço outra maneira de me expressar. Quando choro muitas vezes não é por raiva ou por não te amar, mas simplesmente porque minha alma pede pra eu chorar...
já chorei sem nem saber o porquê nem por quem e já chorei por amar quem deveria odiar...
já chorei por não saber que me amavam e já chorei porque me amavam...
e chorei ao saber que tu me amavas. Chorei ao saber que me querias e choro ainda hoje porque me queres e chorarei amanhã porque me amas. Expresso o que sinto com lágrimas, não porque não te ame ou porque me magoam apenas porque é assim que eu amo. Amo com lágrimas e as derramo com amor, com todo meu amor eternizado e instaurado dentro de mim...
Não conheço outra maneira de te amar que não seja em meio a lágrimas e sinto muito se erro ao derramá-las, mas é assim que me expresso pelas pessoas amadas. Se não chorar é porque não eras deveras amado, mas se hoje as derramei me perdoe foi um engano, te falo. Sinceramente te amo e não quero magoá-lo só falo, porque devo dizer-te como sou por quem eu amo. Choro por quem amo e não me arrependo de nenhuma lágrima que derramo só não mereço teu lamento, mereço tua alegria meu amado...
Não consigo ouvir outra melodia que não a tua. Eras para mim o mais encantador de todos os homens porque me tocas o que nenhum conseguiu tocar meu coração! O tocaste não nego e te amo não te nego, mas se derramo lágrimas por ti acredite que te amo deveras e não quero ver-te sofrer...
então...
não chores...
pois choro por ti. Sinto teu lamento e posso te sentir e se sofres eu vou sentir e choro por ti.

Lília Durán

RECORDANDO À INFÂNCIA

São 05:30 da manhã
minha rua acordou.
Do 66 vinha uma bela melodia — os passarinhos estão acordando.
Dom, dom, dom era o som que vinha do salão.
Já passam das oito.
Por baixo do viveiro, uma passagem levava André e Eu a novas artes — Quantas artes!

Naquela rua particular
De entrada estreita e paralelepípedos, não haviam maldades - nem perigo.
Éramos todos conhecidos.
Ora, ora, ora, quem não se lembra do Nicola?
E do Walmir que era chamado de Biski,
com suas pipas e linhas cortantes aplumadas no céu constantemente.
Hoje já não és a mesma!
Ó! Quantas saudades daquelas rivalidades de criança...
... bobagens da infância!!!

Marcelo Zaly

PACIÊNCIA ENCERRADA

Então? Por que será que te incomodo? Por que será?
Só porquê nesse momento, o teu desejo proibido, o teu segredo escondido a sete chaves foi violado pelo meu olhar crítico? Será que essa minha curiosidade patética de quem observa o que se quer que seja mostrado te transforma em herói nacional?
Poupe me do teu constrangimento, da sua timidez, mas poupe me também do seu interesse pela vida alheia que invade todos os dias a sua casa em horário nobre. Quem será que tem a privacidade invadida?
Quem me dera poder entender melhor o comportamento humano sem julga lo o tempo todo. Utópico seria se eu conseguisse essa proeza... mas há de se remar contra a maré.

Há de se deixar de lado o prazer de atirar pedras no telhado de vidro do vizinho...

Se a clausura das paredes transparentes transforma “escolhidos” em celebridades e a cada esquina somos monitorados por observadores de plantão, não me venha com explicações freudianas ou observações conceituais para justificar o seu interesse voyeur pela vida dos outros.
Olhe para a lente! A luz vermelha piscando indica que nesse momento, você não pode ser você mesmo! Você é o alvo e deve seguir o combinado! O modelo idealizado de perfeição. O protótipo de hipocrisia feito sob medida!
É sempre assim! Todos se olham entre si o tempo todo! Todos se cobram o tempo todo! Conceitos e valores invertidos ou não: moralidade tarifada! Ligações encerradas! Quais seriam esses valores? Tabus sagrados! Verdade absoluta ou farsa dramatizada?
Me poupe de tanta futilidade, desse estereótipo de conduta...
Desliga a TV e vá ler um livro!

Alexandre Calheiros

REENCONTRO

“Linda” - veio-lhe o pensamento à mente tão logo ela surgiu diante da sua mesa. Pela janela ampla do restaurante vazio ele vira a cidade mergulhar lentamente na noite, já quase sem esperança de encontrá-la. Uma luz violácea banhava o salão, emprestando ao ambiente uma aura gélida, apesar do calor da noite. O prato de carpaccio jazia intocável sobre a mesa. Não tinha fome. Além disso ela detestava carpaccio, mas ele não pudera controlar o desejo de comparar a cor leve da carne crua ao rubor suave daqueles lábios macios. Ela raramente usava batom.
Ele levantou-se e ofereceu-lhe gentilmente a cadeira, ainda em silêncio. Seus olhares se encontraram por um centésimo de segundo, o que pode significar uma eternidade em momentos mágicos como aquele. Ela sentou-se, sorriu um meio-sorriso e baixou os olhos para o prato vazio esquecido sobre a toalha creme. Tinham estado perto demais e ele ainda sentia o seu perfume ao se sentar...
- Você pediu carpaccio... – ela disse.
- É... – ele respondeu constrangido.
- Como na primeira vez...
- Sim. – ele reparara na cor dos lábios dela desde antes do primeiro encontro, quando só a via de longe, os braços ao redor dos livros, a caminho da biblioteca pública. A mais ou menos vinte anos... Depois disso tanta coisa acontecera, tantos encontros e desencontros, tantas noites tórridas e tantos dias monótonos...
- Vinho?
- Ahn? – ela parecera momentaneamente em transe.
- Você bebe vinho?
- Ah, sim, claro.
- Garçom!
Falaram de suas vidas, mas a situação era surreal. Era como se mal se conhecessem, como se vinte anos tivessem desaparecido num lapso de tempo e memória. Ela falava dos filhos e do marido com falso entusiasmo enquanto ele controlava o desejo de interrompê-la com um beijo arrebatador, enquanto assentia com a cabeça mecanicamente. Beijá-la teria sido terrível, ele sabia que jamais o faria, e ela sabia que ele sabia, por isso parecia tão desarmada, tão presente e ao mesmo tempo tão distante.
Conversaram durante horas que pareceram minutos. Então, olhando o relógio distraidamente, ela disse:
- Bem, já vou indo... – havia um ar de disfarçado mas indiscutível desalento em sua voz.
- Não quer jantar? – ele tinha esperança de ouvir um "sim", se ela aceitasse haveria uma chance de prolongar o momento mágico, a sensação atemporal de relógio parado, de mundo parado, como se só existissem os dois e aquela luz, aquela paz, aquela música da voz dela dentro dele.
- Não posso... O Júnior sai em dez minutos, a escola fica a uns seis quarteirões...
- Tá bom. Vai com Deus. – a frase saiu sem querer, brusca demais, mas era a frase possível, os ponteiros do relógio voltavam a correr a sua corrida impiedosa e interminável, a sua maratona definitiva em direção ao inexorável.
- Fica com Deus – e ela levantou-se ganhando, a passos largos, a rua deserta sob as luzes amareladas da noite, pra nunca mais voltar...

César Calheiros

SENTANDO-ME À MESA

Será que sabem que estou aqui? De certo que não,
Alguns me olham, mas sequer me vêem. Os olhos,
São os mesmos que os meus?! Parece que não,
Pois estão todos ali tão quietos em suas fomes e
Tão ilusórios em suas presenças que, se morro agora,
É certo que apenas perguntariam:
“Onde está a comida?”

É certo que parece funesto tal pensamento, mas
Poderia pensar o contrário quando sirvo animais aos invés de homens??
Podem achar incorreto embutilos em tal definição, mas
Não são os animais que em sua sede de fome sequer olham sua presa?!
E não é certo que estes aqui sentados à mesa sequer me olham?! Enquanto ponho a mesa.

Errado seria de minha parte se, enquanto ponho a mesa,
Lhes service comida morta, ainda sangrando, e, ao invés de mesa,
Simplesmente jogasse a comida para que saíssem correndo
Ao alcance da presa.
Mas, seria mesmo tão errado?!
Penso, agora pondo a mesa.

Agora, de certo notarão minha presença,
Em meio a murmúrios, devaneios, algumas risadas desconexas
Observo estes pequenos animais esperando a presa.
Por que me notam??
Mas é certo que me notarão!
Agora me junto aos animais e
Sento-me à mesa.

Lília Durán

FESTA JULINA

O homem que se contorce
no chão também não é gente?
Não possui os mesmos músculos, nervos,
como todos vocês?

Essas luzes, esses risos,
a pseudo-alegria…
Não falem de Paz!

O homem que agoniza, e fede,
e morre aos poucos
é o resultado da terrível ausência do BEM.

Laura Guerra

VOU INVENTAR...

Vou inventar algo que não bate. E sairei por aí, em alta velocidade, ouvindo Chico, João Gilberto, a delícia do piano de João Donato, a indescritível harmonia de Jobim, e a voz de Milton, incomparável.
Vou inventar algo que não me deixe ouvir os roncos dos ônibus, o barulho das motos, os freios fricativos de carros sem manutenção.
E sairei andando nas ruas ouvindo os pássaros, fazendo a segunda voz com o melro, tão incomum nem nossos dias.
Prestarei atenção no bem-te-vi para dar-lhe “bravo” em cada expressão natural de seu canto. Vou inventar algo que mude a arrogância dos homens. E em cada rosto colocarei um sorriso e em cada voz um agradecimento, um olá, um cântico sereno... E ao entrar no elevador farei com que todos se cumprimentem, todos se olhem, todos se alegrem, todos se ajudem a ocupar o espaço físico com elegância e educação. Ao me dirigir ao caixa do Banco ele irá exclamar que hoje é o seu melhor dia e eu responderei: assim é! Ao ir à repartição pública, o bem servir será o lema e a prática dos funcionários, porque o poder público se interessou em bem remunerá-los e a tratá-los como verdadeiros colaboradores.
Vou inventar poderes novos, onde existam a harmonia entre eles, boa fé, desejo de servir e de não se locupletar com a autoridade que o povo lhes conferiu.
Vou inventar uma gente nova, diferente, próspera, ansiosa por ajudar, em estudar, em crescer no conhecimento, em não ser servil, em não querer levar vantagem em tudo, em saber seus direitos e cumprir suas obrigações.
Vou inventar caminhos novos para se perseguir, pela cidadania, pela justiça, pela verdadeira liberdade.
Vou inventar um novo amor, para todos poderem usufruir o direito de serem felizes.
Vou inventar tantas coisas que o Professor Pardal se sentirá vazio de idéias, não poderá projetar novos sonhos, porque todos eles já estarão em nossas mentes, sendo realizados em nosso viver diário.
Há! Há! Mas, cuidado, porque isso também é uma deliciosa invenção de um sonhador!!

Ricardo Macedo dos Santos

VIELAS SEM JOÃO

Meu coração, sem perdão,
Vielas sem João
Céu sem azulão
Pião sem cordão.

Carrego a dor na minha mão
Nem sinto raiva, nem chão.
Respiro da amendoeira ilusão.

Breve chegará a multidão
Para olhar o homem do chão.
Em meu peito um brasão,
Agora sem coração
Vem da igreja um varão.

Grita uma mulher!
João! João! João!
Fim de um cidadão
Vielas sem João.

Lincoln Santos

DESDOBRAMENTOS

Romântico:
- O amor possível é o fim do amor...
Moderno:
- O amor possível são todas as possibilidades de amor.
Pós-Moderno:
- Amor? Vende onde?

Angélica Castilho

SEM TÍTULO

Já que lembrei, melhor esquecer! O amor, eu guardo para mim!

Alexandre Calheiros

PRA ELA

Eu amo e só.
Um sorriso teu aquieta meu coração.
Sofro, e muito.
Mas amo, amo tanto que te liberto.

Laura Guerra

terça-feira, 2 de novembro de 2010

COM A LÍNGUA ENFIADA NISSO

Na cantina da Bruna, pedi um café. Estava quente, muito quente e eu queimei a língua. Logo fui advertido pela colega com quem havia marcado um compromisso após a aula de que um terço, pelo menos, de minhas potencialidades se perdera ali. Afinal, a língua é de extrema importância nessas ocasiões. E ela estava certa. Ainda que tenhamos chegado ao ápice de nosso intento, faltou algo. Faltou aquilo que só com o correto uso da língua eu lhe poderia proporcionar. Mas, com a língua ferida, não consegui. Não consegui mostrar a ela como são os fonemas alveolares ou os alveopalatais. Marcamos, então, novo encontro para estudar fonética.

Dejair de Azevedo Fernandes
Rio de Janeiro, junho de 2008.

ENTÃO SUBIMOS

– Pegue as bolas...
– É assim???
– Isso... Agora segure isso! Com carinho.
– Humm... Desse jeito está bom?
– Sinta como se fosse uma extensão do seu corpo.
– Ah! É que não estou acostumada!
– Vamos devagar... Tem que ter calma...
– Parece tão fácil...
– Mas tem que ter paciência. Não é tão fácil assim!
– Percebi! Seu peso incomoda um pouco...
– Primeira vez é assim mesmo! Com o tempo você pega o jeito!
– Ai... Será que consigo?
– Claro! Concentra, relaxa.
– Olha como faço!
– Nossa! Você é bom!
– Faço isso há tempos!
– Hummm...
– Toma. É todo seu! Pega com firmeza! Não precisa tremer!
– É complicado! Segurei direitinho?
– Sim! Quase uma profissional!
– Inclina mais o corpo e olhe fixamente.
– Acho que já está bom ou quer que incline mais?
– Assim está ótimo! Relaxa o corpo...
– Chego suar...
– É que você está nervosa. Se não for, tentamos outra vez.
– Você é tão paciente...
– Faz parte! Você não é a primeira.
– Lá vai!
– Não foi...
– Mais uma!
– Quase...
– Deixa eu concentrar... Relaxar...
– Desce mais o corpo, olhar fixo. Sobe um pouco mais o braço...
Silêncio.
– Conseguiiiiiiiiiiiii!!! Foi direitinho!
– Tá vendo como não é tão difícil!
– Pois é! Depende da maneira que se faz.
– Depois vai aperfeiçoando!
– Ainda farei isso muitas vezes!
– Se depender de mim sim!
– Você é um amor! Me passa as bolas e o taco!
– Deixa que eu arrumo a mesa...
– Tudo bem! Você quem manda!
– Sinuca é muito bom, né?
– Com certeza!

Victor de Barros Costa do Amaral
Rio de Janeiro, junho de 2008.

FIZERAM CÓDIGO M

Peco peme peço Pees pese petex peto pedi pezen pedo peque penem pesem pepre peque pere pemos peser pecom pepre peen pedi pedos pepor pea peque peles peque penos pelê peem peou penos peou pevem, pemas pesim pepor peal peguns. Poderia escrever em inglês, espanhol ou recorrer a um tradutor eletrônico que truncadamente passaria meu texto para o javanês, mandarim ou quíchua, mas preferi a língua do pê. Essa é uma língua velha e abandonada pelas crianças que preferem dizer, quero dizer, teclar “q a gnt tah eskentando d+ a kbça.......!!!!!” com todas as reticências e exclamações que o teclado suportar... Tb adoro... Esqueço o dedo no tecladooooooo..........! Me lembro de quando eu tinha umas canetinhas chamadas hidrocor e eu esquecia a ponta enfiada no papel e uma bola de tinta imensa ia crescendo nele. Adorava. Não posso dizer o mesmo da minha mãe.
Bem, criancices à parte... (aí elas de novo!) Até hoje nos deparamos com falantes da nossa própria língua tentando não ser compreendidos, ou melhor, tentando ser compreendidos apenas por alguns em alto e bom som. Refiro-me ao que me ocorreu um dia desses num supermercado. Não que já não tivesse ocorrido antes, mas naquele dia me pegou um tanto quanto questionador. Quando passava minhas compras pela esteira, ouvi uma voz saída dos alto-falantes do supermercado que dizia: “Atenção, colaboradores, em cinco minutos: código W!” Aquele “atenção” despertou em mim uma frustração por não alcançar a mínima compreensão daquela mensagem. O que seria o código W? Melhor: por que código? Ou pior: por que anunciar isso e dessa forma pelos – diria – alto-falantes do mercado? Naquele momento, olhei firmemente para a caixa – isso, a própria que registrava minhas compras – e tentei decifrar pela sua reação o que iria acontecer em cinco minutos. Talvez acostumada com tais códigos secretos, nem esboçou reação. Não me contive e lhe perguntei o que seria o tal código W. Com um sorrisinho de um misto de sarcasmo e de sacanagem, não me respondeu e continuou aumentando as cifras da minha conta ao passar o presunto, o pacote de Ruffles, o pote de Qualy... Insisti na pergunta a qual não foi respondida nem quando eu lhe disse que era muito importante pra mim saber o que significava o código W. Nada! Com um tom de inconformismo na voz, perguntei o porquê de estarem falando em código. O que aconteceria em menos de cinco minutos? O que de tão secreto devesse não ser comunicado a nós clientes? Quase esquecendo o refil de Gleide lavanda no balcão, paguei e saí, não entendendo o porquê dessa conspiração lingüística. Quando saltou outra vez uma voz do alto-falante dizendo: Atenção, colaboradores: código M! Ouvindo isso me senti não menos confuso, mas muito mais aliviado e vingado, porque o que quer que tenha sido o código W, tinha dado M!

José Luis Sabarís
Rio de Janeiro, junho de 2008

CHEIRO DE ÂMBAR

Faz de conta que é uma festa!
O mais a gente inventa,
tenta, sua, grita, bate, dança,
corre, goza, chora, canta,
esperneia, sonha, arranha,
amassa, encaixa, desata,
dorme, sorve, abraça,
lambuza, ri... quase morre.
Adequar o canto dual
ao ritmo uno
nos faz – por momentos – deuses.

Angélica Castilho
Rio de Janeiro, 06 de julho de 2008.

Família Alveolar

O(a) amigo(a) já ouviu falar na família Alveolar? Não? Sorte sua. Eu conheci. E saiba que não é só um mosquitinho que tem deixado uma metrópole inteira a beira de um ataque de nervos. Outras bizarrices também têm florido esse belo jardim murcho que muitos insistem em chamar de Cidade Maravilhosa. O que vem a seguir é apenas mais uma folha podre que caiu e que hoje voa até você, leitor(a), através desta curta e intensa aventura grotesca.A família Alveolar, juntamente com a dengue, foi manchete em vários jornais do Rio graças aos irmãos Alveopalatais, que aprontaram grande confusão. Mesmo gêmeos, nunca tiveram problemas por serem parecidos, pois algo os diferenciava: um era Sonoro e o outro, Surdo. Qualquer pessoa ao vê-los, não sabia quem era quem. Mas quando queriam dizer algo, a diferença se fazia nítida. Um falava, falava, falava, não parava, e o outro também era muito comunicativo... em Libras. E assim foi por toda a vida até Alveolar Sonoro começar a namorar. Oclusiva era uma mineirinha linda vinda do interior que tinha acabado de chegar ao Rio.Oclusiva e Alveolar Sonoro estavam felizes. Tudo ia bem. Até o dia em que Alveolar Sonoro viu Oclusiva com outro. E o outro era quem? Seu irmão gêmeo Alveolar Surdo.- Como você pôde fazer isso comigo, Oclusiva? Por que? Hein? Por que comigo? Fala pra mim.- Uái, pensei que fôsse ocê!- Mas você não percebeu nada? Nadinha? Nenhuma diferença? Você sabia que eu tinha um irmão gêmeo, não sabia? Você sabia, não sabia? Você sabia!!! Ele falou algo com você? Não? Claro! E Você nem reparou? E o beijo? O beijo você reparou, não foi? Diz! Diz! Reparou? Hein?- Pois é. Ele xegô pegano eu, beijano eu, nem deu tempo de dizê oi. E nesse trem de bêjo aí, até que ocês são bem dos parecido num sabe?Alveolar Sonoro ficou uma fera! E voltou toda sua raiva para seu irmão.- Ah! E você. Meu próprio irmão! Sangue do meu sangue, não é? É! Por quê? Olhando nos meus olhos, responde pra mim: Por quê? Por quêêêêê?- Uái, ele não é surdio?- É mesmo. Ele é surdo, não é surdo? É sim. Meu irmão é surdo.Ambos começaram a discutir em Libras. De um lado, Alveolar Sonoro dizendo que aquilo tinha sido uma traição, uma apunhalada pelas costas. Do outro, Alveolar Surdo respondendo que sempre foi colocado em segundo plano por ser Surdo. E no meio, Oclusiva olhava para os dois com cara de “o que é que eu estou fazendo aqui?”.De repente, os irmãos começaram a brigar. Oclusiva gritou por ajuda. Uma viatura policial, que passava pelo local, parou para ver o que estava acontecendo.- Seu puliça, seu puliça, desculpa incomodá, mas dá pru sinhô separá aqueles dois ali óh?- Positivo. Vamos proceder na separação dos dois elementos ali avistados.Entra em cena o policial Tepe. Separou os irmãos brigões e quis saber o porquê da briga.- Esse aí, seu policial. Esse aí estava com minha namorada. Estava, não estava? Estava sim. Com minha namorada, minha namorada, não era? Era sim. Era? Não é mais! E você não é mais meu irmão, não é? Não é mais, não!- A senhorita confirma a acusação?- Óia, eu até cunfirmo. Má eu quero ispricá q eu fui inganada, tá?Alveolar Sonoro reagiu.- Enganada, enganada. Enganada é? Você acha? É? Você acha? Enganado fui eu. Fui eu, seu policial. Fui eu! Qual seu nome, mesmo? Tepe, né? Tá escrito Tepe, não é? É. Pois é, Tepe, o enganado aqui sou eu! Chego aqui e vejo meu irmão, meuuuu irmão, sangue do mesmo sangue, não é? Pois é, meuuuu irmão, dando uma fricativa na minha Oclusiva. Pode? Pode? Não pode!- Alveolar Surdo, mesmo sem ouvir uma palavra, fazia caras e bocas do tipo “peguei mesmo!”. E Oclusiva se defendia.- Primêro que não foi uma fricativa.- Não? – Perguntaram Tepe e Alveolar Sonoro.- Não. Foi um trem mais bilabial. – Disse, rindo. – Me deixou toda retroflexa.- Alveolar Sonoro partiu pra cima da Oclusiva. Tepe o segurou.- Pelo o que noto na ocorrência, todos os elementos presentes terão que prestar esclarecimentos na delegacia. Todo mundo pra dentro da viatura, vamo lá!Tepe já saía com sua viatura levando os três, quando apareceu o pai dos gêmeos, o deputado Alveopalatal.- Posso saber o que está acontecendo por aqui, senhor policial?- Bem, três elementos foram detidos por importunarem a ordem e estão sendo levados para a delegacia.- Meus filhos?Tepe olhou com olhos de “tô fudido!” e perguntou:- São seus filhos?- Os dois são. A menina não.- Bem que eu estava achando que a menina tinha sido a grande causadora da briga dos dois. Rapazes, vocês podem ir. Você, menina, vai comigo.- Não vai não. – Surgiu a mãe da Oclusiva, Dona Glide. – O que minha filha está fazendo dentro de uma viatura?- Minha senhora, eu só estou fazendo meu papel de manter a paz nas ruas da cidade do Rio.- E certamente minha filha representa um perigo imenso, não é mesmo?-É...bem...quer dizer...- Tepe ficou sem palavras e resolveu liberar a menina.Dona Glide tomou a dianteira para resolver o problema.- Então, o que aconteceu aqui?- Meu irmão deu uma africada tão fricativa na minha Oclusiva que deixou ela toda retroflexa tanto na lateral quando no palatal dela. – Foi direto ao ponto Alveolar Sonoro.- Não foi uma fricativa! – Foi enfática Oclusiva. – Foi um treco mei labiodental.- Você tinha dito bilabial. – Falou Tepe de dentro da viatura.- É q ocê num viu o que nós fês dentro do seu carro, seu puliça.A confusão voltou. Alveolar Sonoro não sabia se pegava primeiro Oclusiva, ou se dava um jeito no irmão. O pai dos gêmeos, o deputado Alveopalatal, afastava um do outro o quanto podia. Dona Glide, mãe da Oclusiva, perguntava para a filha qual era o envolvimento dela naquilo tudo. Tepe, o policial, pedia reforço pelo rádio. Por falar em rádio, a catarse foi tanta que repórteres de rádio e TV tomaram conta da rua. Rua esta onde eu também moro. Rua esta que, quando me mudei para cá, me garantiram que eu teria paz. Rua esta que... deixa pra lá. Nem espere que eu vá dizer o nome da minha rua, amigo(a) leitor(a). Sei lá se você vai arrumar confusão aqui só pra sair no meu próximo texto.

Dio Costa

Amanda

Amo minha amada Amanda
Amanda, minha amada
Minha Amanda, somente minha
Amor maior, morte amena
Amor mortal, Amanda amada
Amo amar Amanda
Menina madura, mulher meiga
Amor amargo, mulher mortal.
Amor? Amanda
Amanda, Amanda, Amanda
A minha Amanda, a minha
Mulher amada Amanda minha.
Amo Amanda, minha amada.

Ricardo Teixeira Guimarães Júnior
Rio de Janeiro, agosto de 2008.
E aí, madame? O que faz por aqui? Uma mulher de sua classe não deveria estar num lugar desse.
Nós estamos aqui porque merecemos. A senhora não. É toda classuda. Você merece estar num hotel de luxo, sabe? Com aquelas camas grandes, boa comida...
A senhora não fala, não? Não gosta de falar com a ralé? Isso é bem típico de vocês com a nossa raça mesquinha. O que há de errado? As dondoquinhas têm medo de falar com a gente? A senhora pode falar sim. Agora é uma de nós.
Você não vai comer sua comida? Qual o seu problema? Isso aí no prato é caviar. Mas se quiser, podemos trocar por ostras. Nosso cardápio é variado. No copo, vejamos... Pode se champanhe ou vinho do porto. O que a senhora preferir. O pão ao lado do prato, pode comer também. É o pão que o diabo amassou.

Ricardo Teixeira Guimarães Júnior
Rio de Janeiro, agosto de 2008.

A MULHER QUE TEMIA A CHUVA

Dedicado à Rosângela Nazaré S. Vieira

Casas antigas...
Noites escuras...
Lugares sombrios...
Florestas...
Cemitérios...
Por que tudo precisa ser tão clichê?
Por que essas criaturas, seres das sombras, precisam desses lugares?
Porque eles precisam do nosso medo para surgir, pois o nosso medo cria a atmosfera ideal para que eles venham até nós. E em situações chave, ou clichês, o medo erradia de nós como ondas de rádio. E então eles vêm.
Depois do que vi, do que presenciei, comecei a buscar explicações. Acabei lendo notícias sobre cenas de crime, ataques terroristas e acidentes onde fotógrafos capturaram imagens ou vultos assustadores. Presenças macabras que seguiram o medo até aqueles lugares. Quanto maior a quantidade de medo, mais deles aparecem. Por isso não me surpreende que tantos deles tenham chegado à Manhattan naquele fatídico 11 de setembro, assim como não me surpreende que apenas um deles tenha chegado à casa de dona Rosália naquela noite tempestuosa de janeiro. E logo ela que tanto temia as chuvas.
Dona Rosália era minha vizinha desde que eu me entendo por gente no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro. Sua casa era um sobrado antigo, mas muito bonito, no estilo que só é encontrado mesmo nesse bairro. Se você já esteve aqui, sabe bem do que estou falando.
Minha vizinha era uma viúva de 51 anos; ainda nova, é verdade, mas já enterrara três maridos pelo menos. Nós, quando crianças, a chamávamos de viúva negra, mesmo que mal soubéssemos o significado daquilo.
Ela, assim como minha mãe, morava com um único filho. Mas ao contrário de mim, que sempre estou em casa, já que trabalho como revisor de textos, Cleiton, seu filho, passava a maior parte do tempo na rua por causa da faculdade e do trabalho. Por isso, pra compensar a solidão, dona Rosália começou a alugar os quartos do sobrado. Era uma forma de fazer amigos (Pois lá se hospedavam pessoas de todo o mundo) e ter também uma renda extra. Era uma mulher batalhadora, forte, digna de admiração. Não temia bandidos, assim como baratas ou ratos. Seu único medo eram as tempestades. Seus três maridos haviam morrido durante tempestades.
O primeiro foi atingindo por um raio, ainda quando ela morava numa fazenda no interior do estado, quando tentava levar uma vaca de volta para o celeiro. O segundo, pai de Cleiton, a levou para o Rio de Janeiro e a deixou com uma situação de vida confortável ao morrer em um acidente no cento da cidade durante um forte temporal. O terceiro a levou para sua casa em Santa Teresa e era um primo de segundo grau de minha mãe. Foi o casamento mais longo e mais feliz dela. Ele trabalhava numa companhia elétrica e certo dia, durante uma tempestade, saiu para restabelecer a luz em um dos bairros e nunca mais voltou pra casa.
Naquele janeiro, porém, não houve mortes. A tempestade nada levou, apenas trouxe.
Eu o vi saltar do bonde da minha janela. Era um sujeito estranho, de barba lisa e branca como os seus cabelos. Suas sobrancelhas eram grossas e negras. A despeito disso, não me parecia ser muito velho. Usava roupas negras, longas, e tentava se proteger da chuva sob um chapéu ordinário. Na mão, nada além de uma valise. Reparei que ele conversava sozinho, nada muito anormal. Estou acostumado a pessoas estranhas, dada a grande quantidade desses tipos aqui no bairro.
Como eu esperava, ele se dirigiu a casa de dona Rosália. Conversaram à porta por alguns minutos e então ele entrou. Mais um hóspede.

Pouco soubemos sobre Pazú, o hóspede, nos dias que se seguiram. Eu o via raramente, mas nas poucas vezes eu sentia algo sinistro nele. Algo estranho na forma como fumava e conversava com algum ser imaginário. Dona Rosália disse que ele passeava pelo país, conhecendo e fotografando lugares. Pagara para ficar hospedado por um mês, mas disse que se gostasse ficaria por mais tempo. Ela não se importou, afinal, em sua casa as pessoas vêm e vão e ninguém nunca pergunta nada. Como em um hotel. Você conhece pessoas, mas não cria laços. Uma vez me apaixonei por uma hóspede da minha vizinha, uma bela húngara. Pra mim foi intenso, pra ela foi casinho de verão; nunca mais nos vimos. Meu primeiro e frustrado amor.

Bem, no bairro, tudo continuava a mesma coisa. Nada alterava nossa rotina de bairro turístico. Pelo menos uma vez por semana eu ia até a editora onde eu trabalhava para entregar o material revisado e pegar a nova leva. Trabalhar em casa tinha suas vantagens, mas eu sempre tinha tanto o que fazer que acabava ficando sem tempo para iniciar o meu romance. Na verdade, eu escrevia bem, mas nunca achei que pudesse ter inspiração para uma história. Até então.
Nesse dia em que desci até a zona sul, tudo parecia normal. Exceto pela volta pra casa, onde eu encontrei Pazú. Poderia ter sido um encontro casual, mas eu resolvi segui-lo por alguma razão. Não entendi o porquê, mas em poucos minutos eu o vi adentrar o cemitério São João Baptista. Não fui adiante, pois fiquei com medo. Assumo, cemitérios me apavoram bastante. Por isso voltei pra casa; talvez ele estivesse apenas visitando algum conhecido enterrado ali.
Da minha janela, eu vi quando ele voltou. Ele me olhou rapidamente e acenou pra mim. Meio reticente, retribuí o aceno. Mas algo nele me assustou, não sei explicar o que. Não consegui parar de pensar nele antes de dormir.

Na manhã seguinte, encontrei dona Rosália conversando com minha mãe na cozinha. Parecia assustada. Quando perguntei o que havia acontecido, ela respondeu nervosa.
- Pazú.
- O que há com ele?
- Ontem a noite – ela disse – antes de me recolher, passei pela casa pra checar se as portas e as janelas estavam fechadas, como sempre faço. Quando passei pela porta do quarto de Pazú, ouvi uma conversa. Ele parecia rir com algumas pessoas ali dentro. Aquilo me enfureceu, pois, você sabe, tenho algumas regras no sobrado. E uma delas é que não permito visitantes após as dez da noite. Por segurança.
- Claro – concordei – a senhora está muito certa.
- Então bati na porta. A mulher que ria, logo se calou. Alguns segundos depois Pazú abriu a porta. “Pois não”, disse ele. Expliquei que na casa havia regras e como já havia passado das dez da noite, não gostaria que ele tivesse visitas no quarto. “Mas não há ninguém aqui”, falou ele abrindo a porta. O quarto estava vazio. Eu lhe disse que havia ouvido vozes, mas insistiu que estava sozinho e me convidou a inspecionar o quarto. Não havia ninguém lá, nada. A janela estava trancada por dentro, então não teria saída. Olhei sob a cama, dentro do armário e no banheiro. Nada, menino. Nada. O que eu podia fazer? Desculpei-me e saí do quarto. Assim que a porta se fechou, as mesmas pessoas voltaram a conversar. Mas não havia ninguém lá. Saí para checar os outros hóspedes. Todos estavam sós em seus quartos e eu os conheço bem o bastante pra saber que não levariam ninguém para dentro da minha casa sem minha autorização. Os barulhos vinham mesmo do quarto de Pazú.
- Você não falou nada com ele? – perguntou minha mãe, indignada. As duas eram muito amigas.
- Falar o que? Eu mesma chequei o quarto. Mas o pior foi hoje de manhã.
- O que houve? – eu perguntei.
- Fui preparar o café da manhã do Cleiton e ele me perguntou se havia hóspedes novos na casa. Respondi que não, lógico. Então ele me perguntou quem era a mulher e a criança que ele vira nos corredores quando ele chegou em casa ontem, por volta da meia-noite.
- Meu Deus, Rosália! – disse minha mãe, pálida – Eu estou toda arrepiada.
- Você não acha que...?
- Fantasmas, meu filho. Tem fantasmas na minha casa. E eles chegaram com o Pazú.
Depois daquilo, passei a ter mais medo da figura de Pazú. Achava que dona Rosália era muito corajosa por manter em sua casa pessoas das quais ela não conhecia a procedência. Proibi minha mãe de falar com aquele homem e pedi que ela convencesse dona Rosália a pedir que ele fosse embora. Mas minha vizinha já usara o dinheiro que ele pagara previamente, portanto, não poderia mandá-lo embora até o fim do mês.

À época do carnaval, as comemorações de rua aqui no bairro foram canceladas por causa das chuvas ininterruptas. A cidade mais abaixo estava um caos, que todos tentavam abafar por causa das festividades.
Num desses dias, Cleiton me convidou para dar uma volta com ele na Lapa. Não sou muito chegado a noitadas, menos ainda quando chove. Mas Cleiton raramente me convidava para sair e eu muito apreciava sua companhia por causa de sua inteligência. Fui encontrá-lo no sobrado às nove da noite, como combinado.
Já havia estado naquele lugar tantas vezes, nada era novo pra mim. Enquanto aguardava por ele, dona Rosália me serviu um chocolate quente. O que ela preparava era o melhor, sem dúvida.
- Pazú está em casa? – perguntei, pois não queria encontrá-lo.
- Não. Esteve fora o dia inteiro. Já conversamos e ele disse que não pretende ficar mais do que o combinado. Só mais uma semana e estarei livre dele.
- E os outros hóspedes?
- Todos na rua.
Cleiton desceu as escadas logo. Estava arrumado demais para ir a Lapa, eu disse, mas ele não deu a mínima. Quando dona Rosália nos levava à porta, ouvimos passos no andar de cima.
- Mãe – falou Cleiton, assustado – Você disse que estávamos sós em casa.
- E estamos.
- Então quem está correndo no andar de cima?
Cleiton pediu minha ajuda para investigar o sobrado e me passou uma lanterna. Admito que estava assustado demais, mesmo assim fui com ele por todos os lugares do sobrado. Ouvimos passos e risadas pela casa, mas não havia nem sinal de qualquer ser vivo ali dentro. Ser vivo.
O clima para sair já não existia mais e diante do pavor de dona Rosália, a levamos pra minha casa. Minha mãe tratou de acalmá-la contando suas piadas (Deus a abençoe) e logo dona Rosália estava refeita.
Cleiton, porém, parecia furioso. Trouxe-o ao meu quarto para uma conversa e ele se dizia irritado com o que estava acontecendo no sobrado desde a chegada de Pazú.
- Esse nome dele – ele falou – é o que mais me intriga. Pazú. Sabe o que me lembra? Pazuzu.
- O que é isso?
- O demônio da Mesopotâmia. Diz lenda que ele chegava com os ventos do verão, levando o flagelo aonde quer que ele fosse. Era conhecido como o agarrador, pois gostava de carregar espíritos junto a ele.
- Caramba, cara, Pazú já me dava medo antes de eu o associá-lo a essa história... Agora então... Eu o vi entrar no cemitério há alguns dias atrás.
- Mesmo? Onde?
- Em Botafogo.
- Tem alguma coisa muito errada com esse homem e hoje ele vai ter de me explicar o que é.
Cleiton sempre foi muito calmo. Era a primeira vez que eu o via tão irritado. E quando faltou energia, sua irritação pareceu aumentar ainda mais. Só disfarçou quando minha mãe subiu até meu quarto acompanhada de dona Rosália. Juntos, ficamos olhando a noite chuvosa e as ruas escuras. Lembram do que eu falei sobre o medo? Pois é, ele era quase palpável naquele momento.
Quando a chuva estiou, ouvimos barulhos na rua. Alguém se aproximava segurando uma vela. Pazú. Não posso dizer se foi efeito da luz da vela sobre ele, mas sei que quando ele chegou vi dezenas de vultos escuros ao seu redor. Me apavorei.
- Vocês ficam aqui – falou Cleiton – Vou ter uma conversinha com esse cara.
- Cleiton, não... Espere a luz voltar! – falou sua mãe.
Mas ele insistiu que ela ficasse. Vi quando ele atravessou a rua e adentrou o sobrado. Nada foi ouvido por vários minutos. Nada. Os dois então saíram do sobrado juntos, mas cada um seguiu um lado. Pazú seguiu a rua principal. Cleiton voltou a minha casa.
- E então? – perguntei.
- Eu disse que vamos fazer obra no sobrado e que seria melhor que ele procurasse outro lugar pra ir. Indiquei os albergues da rua principal e ele foi até lá checar se havia quartos disponíveis. Podemos ir pra casa.
Quando os dois atravessavam a rua, a energia voltou. Os dois acenaram pra nós sorrindo. Minha mãe fez uma piadinha qualquer que eu não consigo lembrar e Cleiton respondeu de volta, rindo bastante. Foi a última vez que o vimos vivo.

Fomos acordados por dona Rosália, pedindo por ajuda. Ela dizia que Cleiton não havia acordado para ir para a faculdade e não abrira a porta do quarto quando ela chamara. Fui até lá, com a adrenalina correndo nas minhas veias, e arrombei a porta.
Cleiton estava na cama, com uma expressão de pânico no rosto. Morto. Com lágrimas nos olhos, passei mão em seu rosto para amenizar suas feições. Quando sua mãe adentrou o quarto, era o desespero encarnado. Eu não podia assistir àquilo.
Enquanto minha mãe cuidava dela, eu cuidava de entrar em contato com a polícia e do enterro. Ataque cardíaco; um rapaz de apenas vinte e três anos. Quando nos preparávamos para ir ao cemitério, no dia seguinte, Pazú voltou pra casa. Ele apenas nos olhou, pois estávamos com dona Rosália, e entrou no sobrado.
- Esse homem... – murmurou minha mãe – O que ele ainda faz aqui?
- Não deve ter conseguido outro lugar pra ficar.
Enquanto dona Rosália chorava e Cleiton era enterrado, eu não conseguia parar de pensar que de alguma forma o encontro com Pazú aquela noite decretara a morte do meu vizinho.

Dona Rosália passou os dias que se seguiram ao enterro de seu filho nos evitando, mas nós ouvíamos discussões e gritos todas as noites no sobrado. Algo estava indo mal ali. Minha mãe pediu que eu interviesse e eu liguei pra polícia. Quando eles chegaram, eu trouxe a dona Rosália pra dormir conosco. Ela estava em um estado lastimável.
- Eu vi... – disse ela – meu filho naquela casa. Ele estava conversando com Pazú.
- Isso é impossível, Rosália – falou minha mãe – Cleiton se foi. Não está mais entre nós.
- Não em corpo, mas seu espírito está lá. Sabe o que eu descobri? Que ele, Pazú, é um colecionador. Ele coleciona fantasmas. Estão todos em seu quarto, aprisionados de alguma forma naquela valise. São eles que me acordam a noite, que fazem barulhos, que perturbam os cães, que conversam... Meus hóspedes, os mais antigos, foram embora hoje. Eles têm medo do que viram... E não os culpo. São homens, mulheres, crianças... Todos no meu sobrado, agarrados por Pazú.
- Você está perturbada com a morte do Cleiton, Rosália, é só isso.
- Não é. Ele coleciona fantasmas, me ouça. Eu sei disso – ela estava trêmula – A polícia o obrigou a sair e ele vai embora amanhã. Mas eu preciso ir até o quarto dele... Preciso destruir aquela valise e libertar os espíritos. Preciso libertar meu filho.
- Isso está errado, Rosália! Você não vai lá. Você vai dormir aqui e pronto.
- Não posso... Não posso...
Mesmo assim ela adormeceu. Minha mãe se recolheu algumas horas depois. Eu fiquei acordado boa parte da noite. A maior parte eu passei ouvindo gritos e risos que vinham do sobrado do outro lado da rua. Era assustador, mas não sei até que ponto eu poderia ou não acreditar no que dona Rosália disse. Aquela valise... Colecionador de fantasmas... Então dormi. E não vi minha vizinha voltar ao seu sobrado.

Quando minha mãe me avisou que dona Rosália estava morta, na manhã seguinte, eu corri até sua casa. O corpo dela estava sobre sua cama, dando a impressão de que morrera dormindo. Porém, as meias em seus pés estavam sujas de terra, como se por toda a noite ela estivesse andando pela casa ou pelo quintal. Não fora uma morte natural. Pelo menos não de todo.
Seu hóspede, Pazú, estava acabando de sair do quarto. Foi a primeira vez que eu o vi tão de perto e senti meu coração bater descompassado. Havia algo estranho em seu olhar. Uma certa melancolia, ou ódio... Nunca poderia dizer ao certo. Deixou a chave sobre a mesa da cozinha, com uma certa quantia de dinheiro, e carregava sua velha valise. A tal valise. Eu nunca saberia o que acontecera ali naquela noite entre minha vizinha e aquele estranho.
- Sabe que ela morreu, não é? – eu disse.
- É o destino de todos nós – respondeu com sua voz rouca.
- E você não viu nada?
- Como disse à sua mãe, a encontrei no chão da cozinha e a trouxe para o quarto.
- Você não teve nada a ver com isso?
Ele não se ofendeu como eu achei que faria. Pelo contrário, acendeu um cigarro preto e sorriu.
- Quisera eu que a morte tivesse um razão.
- E eu queria que você deixasse o espírito dela livre.
Ele me encarou e riu. Riu tanto que quase engasgou.
- Deixe-me ir, rapaz, já está chovendo outra vez e eu preciso de um novo lugar pra ir. A polícia me quer longe daqui.
Ele saiu do sobrado, deixando seus passos na lama. Então, apavorado, eu vi que outros passos eram deixados atrás deles. Muitos passos. Senti um frio percorrer meu corpo, pois ele não saía sozinho da casa. Cheguei até a soleira do portão e enquanto ele seguia a rua sob a chuva até o ponto do bonde, pude ver as pegadas nas poças d`água atrás dele. Ele conversava com alguém. Quando o vento bateu, soprando a chuva na diagonal, eu vi formas distintas de pelos menos treze pessoas que o seguiam. Ele olhou pra trás e riu, me dando a certeza de que dona Rosália estava certa. Aquele homem maldito, que chegou com a chuva e se foi com ela, colecionava fantasmas. E ela, assim como seu filho, era agora uma das peças da coleção.



Anderson S. Vieira

O TESOURO

O sol estava no seu ápice quando o pequeno barquinho chegava ao litoral da ilha. Suado, cansado e esfomeado – esse era o estado do barqueiro, que remara por todo esse quase – infinito oceano, até àquela ilhota, tendo como companhia apenas uma pá, uma espada e o grande Baú. De noite, guiara-se pelas estrelas e de dia, pelo escaldante sol; e Deus era testemunha de como tinha sido difícil.
Tudo começara com o saque vitorioso – e extremamente lucrativo – a uma pequena cidade. Ele – o capitão Barba Azzur – e a tripulação de seu navio pirata fugiram com o Baú do tesouro. O plano já estava traçado: iriam, como sempre, enterrar o Baú na ilha em que todos os saques estavam escondidos. Porém aconteceu o inesperado: um motim. Toda sua tripulação – aquela outrora fiel marujada – voltara-se contra ele e iria dividir o tesouro entre si. Entretanto, Barba Azzur queria manter o plano inicial, por isso fugiu de seu próprio navio com o Baú, uma pá e sua velha espada. E, com o pequeno barquinho, remara dois dias e duas noites até à ilha; agora era uma corrida contra o tempo: deveria enterrar o Baú num local que só ele saberia e fugir antes da sua ex-tripulação chegar. E isso iria acontecer, pois a ilha era o lugar mais óbvio para procurá-lo.
Pois ali ele estava. Após descer do barco e carregar o Baú até o local mais indicado para o esconderijo, o pirata começa a cavar o solo com a pá, tendo a espada a tiracolo. Após meia hora e muito suor, Barba Azzur pára de cavar, julgando fundo o bastante o novo lar daquele enorme Baú. Porém, nesse instante, algo lhe chama a atenção: ruídos surdos vindo do interior da ilha. Parando até mesmo de respirar para ouvir melhor, ele percebe que os sons são – por mais absurdo que poderia parecer! – do galopar de um cavalo. Mas no meio daquela remota ilha?
E não é que, de repente, do meio da mata do interior da ilha, um homem com um chapéu estranho, um revólver no coldre, uma corda em laço pendurado na cintura, botas com esporas e uma engraçada roupa de couro, aparece galopando um forte garanhão de cor marrom, em direção ao estupefato pirata?
- Parado aí, pirata!
Barba Azzur sai do buraco que acabara de cavar e põe a mão na espada, preparando-se para uma possível batalha.
- Quem é você, cavaleiro?
- Meu nome é Kid Espoleta, o cowboy mais temido do Velho Oeste!
- Kid Espoleta? Que raio de nome é esse?
- Bom... Isso não vem ao caso. Qual o seu nome, pirata?
- Capitão Barba Azzur, o pirata mais temido dos sete mares!
- Nome curioso, não é?
- Por quê?
- Porque você não tem barba.
- Bom... Isso também não vem ao caso.
- E se tivesse, imagino que não seria azul.
- Não é Azul, é Azzur!
- Bom, de qualquer jeito, peço que se afaste do Baú, volte para o barco e se mande daqui.
- Meu amigo, me responde uma coisa. De onde você veio?
- Como assim? Você não viu? Da mata ali, ó! – diz o cowboy, apontando para trás.
- Tudo bem, isso eu vi, mas você mora aqui na ilha?
- Não.
- E como você chegou aqui, então?
- Como que VOCÊ chegou?
- Naquele barco. Que por sinal, você acabou de me mandar voltar para ele.
- E se eu fosse você, aceitaria o convite de muito bom grado.
- Você ainda não me respondeu como que você fez para chegar aqui.
- Senhor Barba, o senhor acha que só você possui um barco em todo o planeta?
- Ah, você veio num barco parecido com o meu?
- É possível, não é?
- Claro que sim, mas só se o seu cavalo viesse nadando logo atrás, porque me dizer que você veio num barquinho com o cavalo é, no mínimo, me chamar de otário.
- Ah, o cavalo... Bom, de qualquer forma, você está fazendo perguntas demais; não estou com espírito para jogar conversa fora. Vim pelo Baú do tesouro.
- Olha moço, me desculpe, mas o Baú é meu. Trabalhei duro por ele.
- Trabalhou duro? Você roubou isso!
- Isso é uma piada, não é? E você acha que você está fazendo o quê?
O cowboy pára, com um semblante pensativo.
- Lá vem você de novo com essas perguntas idiotas. Já vi que serei obrigado a atirar em você.
O cowboy desce do cavalo. No exato instante que ele põe os dois pés no chão e solta a rédea, o cavalo de repente cai no chão, pesadamente, e ali fica paralisado. Tanto o pirata quanto o cowboy dão um salto para trás, assustados.
- O quê, em nome de Cristo, aconteceu com seu cavalo?
Kid Espoleta cutuca levemente o cavalo com a ponta do pé. Nada acontece.
- Ahn... Ele está dormindo.
- Dormindo? Para mim ele parece estar morto, isso sim.
- Ele costuma fazer isso.
- Costuma fazer o quê? Morrer?
- Morrer não, pirata estúpido! Costuma dormir assim, de repente. Deve estar cansado.
- Cavalo estranho, esse seu.
- Vamos deixa meu cavalo em paz e vamos voltar ao assunto. Onde estávamos?
- Você ia atirar em mim.
- Ah, é – diz o cowboy, sacando o revólver do coldre – Sua última chance, pirata. Passe o Baú para cá.
- Mas não vou mesmo. Esse Baú me custou um navio e uma tripulação e não vai ser um cowboy de meia – tigela com um cavalo narcoléptico que vai me tirar o prêmio!
- Amigo, você é o idiota mais corajoso que eu já vi.
O cowboy aponta o revólver para o pirata. Quando ia apertar o gatilho, um enorme estrondo ribomba no céu, seguido de um forte clarão. Kid Espoleta e Barba Azzur fecham os olhos graças à enorme claridade.
- Olá, terráqueos!
O pirata e o cowboy abrem os olhos. O dono da voz era um homem com uma roupa toda prateada e acolchoada; até mesmo suas estranhas botas eram dessa cor.
- Olá, terráqueos! – repetiu o homem, com um sorriso amigável no rosto.
- Quem é você? – pergunta o cowboy.
- Sou o Homem do Espaço.
O cowboy e o pirata se entreolham.
- Como é?
- Sou o Homem do Espaço.
- Qual o seu nome, amigo? – pergunta o pirata, desconfiado.
- Ué! Mas já não acabei de falar?
- Vai me dizer que esse é o seu nome? Homem do Espaço?
- É.
- Ah, mas você tem que ter um nome melhor do que esse.
- Tenho?
- Claro. Homem do Espaço não chega nem a ser um nome.
- Ahn... Bom... Meu nome é impronunciável para sua raça.
- Boa desculpa.
- Bem, eu vim do espaço.
- Óbvio. Por isso que você é o Homem do Espaço.
- Sim, claro. Eu me teletransportei da minha nave, que está a anos – luz daqui, para essa ilha no seu planeta.
- Hum – resmunga o cowboy – E para quê tanto trabalho?
- Olha, na verdade, não é trabalho nenhum. É só apertar um botãozinho azul no painel da nave e...
- Ok, ok... O que eu queria perguntar, na verdade, é: o que você quer aqui nessa ilhazinha no meio desse oceano?
- Ora, vim para pegar o Baú!
- Ah, não é possível! Você atravessou esse espaço todo para vir pegar o meu Baú?
- Meu Baú, você quer dizer! – exclama o pirata.
- Ta bom, nosso Baú.
- Nosso Baú uma vírgula!
- Rapazes – diz o Homem do Espaço – Vamos acabar logo com isso. Não desejo usar a violência.
- Ah, chega! – grita o pirata – Cansei de ser ameaçado por todo mundo. Kid Espoleta, atira nele!
- Kid Espoleta? Que raio de nome é esse? – pergunta o Homem do Espaço.
- Pelo menos é um nome. Mas chega de papear – diz o cowboy e aperta o gatilho.
O som do tiro ecoou por toda a ilha, porém só isso aconteceu. O Homem do Espaço mantinha-se em pé, sem um mero arranhão.
- Ih, acho que você errou, Kid – disse o pirata.
- Ahn... Bom... Isso foi só um aviso! Volta para o espaço e deixa meu Baú em paz!
- Meu Baú, você quer dizer.
- Seja o que for, Barba, mas dele não é.
- Vocês vão mesmo me obrigar a usar a violência, não é? – pergunta o Homem do Espaço, sacando uma pistola bastante futurista, com muitas luzes piscando e uma aparência tão aterrorizadora quanto um filhote de urso panda.
- Quê isso? Uma árvore de Natal em miniatura? – pergunta Azzur.
- Muito engraçado, senhor pirata, porém não vai achar tão cômico quando eu usar em vocês minha Pistola Neuro – Paralizadora Intergaláctica.
- Nossa Senhora! Que nome enorme! – exclama o cowboy – Não tem um nome menorzinho, não?
- Melhor não abusar da ironia, Senhor Kid. Você não irá gostar do resultado se eu apertar o gatilho. É melhor você... Dá licença, posso perguntar uma coisa?
- Claro.
- Esse cavalo está morto?
- Não. Ele está dormindo.
- Mas que hora e local para tirar um cochilo...
- É realmente muito estranho esse cavalo – diz Barba Azzur.
- Deixem meu cavalo dormir em paz. Ele não está incomodando ninguém.
- Tem razão. Pois vamos ao que interessa – diz o Homem do Espaço – Podem passar para cá o meu Baú!
- Meu Baú! – exclama o cowboy Kid Espoleta.
- Meu Baú! – exclama o pirata Barba Azzur.
- Meu Baú! – exclama uma voz próxima.
-... nham... babú... – balbucia uma segunda voz, também próxima.
Os três – o pirata, o cowboy e o Homem do Espaço -, sobressaltados, olham ao redor. Um pouco próximo deles está um homem com uma roupa azul e branca colada no corpo, usando uma pequena máscara em volta dos olhos e uma longa capa azul às costas. Ao lado dele, sentado, um garoto com o mesmo uniforme, porém sem capa, chupava uma pequena pedrinha que achara no chão.
- Parados, vilões! Afastem-se do Baú ou sintam a ira do Homem – Mascarado!
- Homem – Mascarado? Ih, hoje vai ser um dia daqueles... – diz o pirata.
- Quem é você, Homem – Mascarado? – pergunta o Homem do Espaço.
- Sou um super – herói que busca a justiça e por isso vou tomar o Baú, devolvê-lo aos verdadeiros donos e levar vocês três para a cadeia.
- Antes de qualquer coisa, você pode me explicar quem é esse aí? – pergunta o cowboy, apontando para o garoto sentado no chão, que agora chupava os dedos do próprio pé.
- Ah, esse? – responde o Homem – Mascarado com um tom de voz ligeiramente envergonhado – É o meu... ahn... ajudante. È o Menino – Boy.
- Beleza de nome... – diz o Homem do Espaço.
- Mas pelo menos é um nome – diz Kid Espoleta.
- E como você pretende nos prender, Senhor Super – Herói? – pergunta o pirata, desembainhando sua espada.
- Ora, poupe sua energia, pirata. Suas armas não vão fazer efeito em mim, graças à minha super – invulnerabilidade.
- Hum... Bom, eu posso pegar o Baú e me teletransportar de volta à minha nave, no espaço – diz o Homem do Espaço, com um sorriso vitorioso no rosto.
- Ih, isso é mole para a gente, não é, Menino – Boy? – o garoto estava, no momento, mais preocupado em pegar uma borboleta que voava ali perto do que propriamente prestar atenção ao que o Homem – Mascarado falava – Com meu super – vôo eu vou até sua nave, com minha super - força eu a destruo e...
- Que humildade, não é mesmo? - diz o cowboy – Tudo é super nessa história?
- Por isso sou um SUPER – herói, ué!
- Nesse ponto ele tem razão, Kid – diz o pirata – Porém, não lhe dá o direito de pegar o Baú. Homem do Espaço, use sua Arma Neuro – Psiônica Espacial, ou seja lá qual for o nome disso.
- É pra já! – diz o Homem do Espaço, apertando o gatilho da pistola. Muitas luzes piscam e um irritante barulho de sirene é emitido por ela.
- Era para acontecer exatamente o quê comigo? – pergunta o super – herói.
- Acho que era para você ficar paralisado, ou algo do tipo.
- Bom, não funcionou muito bem, não é? – pergunta Kid Espoleta – Minha vez! – e aperta o gatilho do revólver.
E mais uma vez aquele estrondo. E mais uma vez nada acontece.
- Mas que porcaria de arma! – exclama o cowboy, jogando a arma no chão.
- Que porcaria de mira, isso sim! – exclama o pirata.
- Vocês não desistem? Agora vamos, vou levar vocês para a prisão.
- Como você vai fazer para levar todo mundo? – pergunta o Homem do Espaço.
- Ah, na hora eu vejo. O improviso é a alma do negócio.
- Existe prisão para cavalo? – pergunta o cowboy.
- Cavalo? – diz o Homem – Mascarado, encarando o cavalo paralisado no chão – Ah, nem vou me dar ao trabalho. O bicho está morto!
- Ah, chega! Hoje todo mundo resolveu matar meu cavalo! Agora eu vou pro tapa! – e o cowboy sai correndo em direção ao super – herói.
- Ah, era isso que estava faltando! – grita o pirata, correndo também para a briga.
- Esperem por mim! – grita também o Homem do Espaço, correndo em direção a eles, com um sorriso no rosto.
E a briga começou. Um batia no outro, o outro batia no um: eram chutes para cá, tapas para lá e beliscões para acolá. Todos participavam da briga – exceto o cavalo e o Menino – Boy – com um sorriso estampado no rosto, como se aquele fosse o momento mais esperado do dia.
Quando, de repente, o capitão pirata Barba Azzur se levanta – pois todos já se engalfinhavam no chão, cobertos de poeira até o último fio de cabelo -, encarando o vasto oceano à frente com um semblante assustado.
- Ô, droga!
Com isso o pirata consegue chamar a atenção dos outros três, que param de brigar e seguem o olhar do pirata. O que vêem no oceano é um enorme navio aproximando-se da ilha rapidamente; uma bandeira preta com uma caveira desenhada tremulava no mastro principal.
- Ô, droga! – diz o cowboy.
- Ô, droga! – diz o Homem do Espaço.
- Ô, droga! – diz o Homem – Mascarado.
-... anham... brrrllll... – balbucia o Menino – Boy, agora chupando a máscara que tirara do próprio rosto.
- Droga, é a minha ex-tripulação, no meu ex-navio.
- O que eles querem aqui? – pergunta o Homem do Espaço.
- O Baú.
- Deus do céu! Todo mundo quer esse Baú? – pergunta Kid Espoleta.
- Não temam! Eu vou salvá-los! Com meu super – vôo vou até o navio e com minha super – força vou afundá-lo e...
- Olha, pára de tagarelar e faz alguma coisa! – grita Kid Espoleta olhando para o navio, que já se encontrava bem perto da ilha.
- Deixa comigo! – grita o super – herói.
O Homem – Mascarado levanta um braço em direção ao céu, agacha o corpo para pegar impulso – todos olham para ele com esperança estampada no rosto – e salta. E pousa no solo alguns centímetros à frente.
- É isso? – pergunta, incrédulo, o pirata.
- Esse é o seu super – vôo? – pergunta, mais incrédulo ainda, Kid Espoleta.
- Bom, até concordo que não foi um super – vôo, mas foi alguma coisa – diz o herói.
- Não, não foi – diz o Homem do Espaço – Foi um pulinho, e daqueles bem sem graça.
- Ah, já sei. Sua Pistola Neuro – Catalisadora Interplanetária, ou seja qual for o nome, deve ter anulado meus poderes.
- Faz sentido – diz o Homem do Espaço.
- E o que vamos fazer? – pergunta o pirata.
- Calma. Eu posso teletransportar todos nós para minha nave apenas apertando esse botão no meu Painel Portátil Eletromagnético Teletransportador Tridimensional localizado no meu pulso! – diz o Homem do Espaço, apertando um botão num aparelho localizado no seu braço.
Mais uma vez, algumas pequenas luzes piscam, porém nada acontece. Todos encaram o Homem do Espaço com olhares ansioso, enquanto ele dá três pancadinhas com a mão no aparelho. Por fim, ele solta um profundo suspiro.
- Acho que acabou a bateria desse troço – fala, decepcionado, o Homem do Espaço.
- É, acho que agora começo a entender o porquê de você querer o tesouro, Homem do Espaço – diz Kid Espoleta – Você gastou toda sua verba em luzes piscantes e patentes de nomes enormes para os seus aparelhos, mas nada funciona!
- Mas o que vamos fazer agora? – pergunta o herói.
- Tive uma idéia! – exclama o cowboy – Vamos entregar Barba Azzur para eles. Afinal de contas, não temos nada a ver com isso.
- Não vai adiantar nada, ô caipira! Eles também querem o Baú. E vocês não vão desistir do Baú logo agora, à essa altura do campeonato, vão? – pergunta o pirata.
- Não! – gritam os outros, em uníssono.
- Então, vocês estão comigo ou não?
- Sim! – gritam os outros, em uníssono.
- Então, vamos derrotar esses piratas, retomar o navio e... Ô, droga! – exclama o pirata, olhando o navio, que começava a virar sua lateral em direção à ilha.
- O que está acontecendo? Por que ele está virando? – pergunta o Homem do Espaço.
- Eles vão usar os canhões em nós – responde Azzur.
- Ô, droga! – diz o cowboy.
- Canhões? O negócio está ficando barra pesada – fala o Homem – Mascarado.
Eles viram quando, de quatro escotilhas na lateral do navio, os canhões apareceram, ameaçadores. E ouviram as ensurdecedoras explosões, quando os mesmos foram acionados. Apenas fecharam os olhos, esperando o resultado. Nesse instante – quando já era possível ouvir o zunir das balas dos canhões se aproximando – uma voz vinda do alto exclamou:
- Meninos! Venham lanchar!
- Ah, mãe... Logo agora que íamos lutar contra os piratas? – pergunta, decepcionado, Denis.
- Depois do lanche vocês poderão lutar contra quantos piratas quiserem, mas agora vão lanchar que já é hora. E ai de vocês se não taparem aquele buraco que fizeram no meu quintal e não catarem todas essas tranqueiras. Agora vamos e traga seu irmãozinho.
- Ta bom, mãe – responde Denis.
O garoto olha para o quintal. Além do buraco, que deveria tapar de novo, havia: um pedaço de madeira que servira como barco; um navio de brinquedo; uma pá de plástico; uma espada de brinquedo; um cavalo de pau; um revólver de espoleta; um pedaço de corda; uma arma espacial de plástico; um chapéu de pirata, outro de cowboy; uma toalha – agora imunda, por sinal – que servira como capa, entre outras coisas, incluindo, obviamente, o baú recheado de brinquedos. É, era bastante tranqueira para catar.
Ele, então, olha para os amigos: André, com uma fantasia de cowboy, Bruno com uma fantasia imunda de pirata e Djalma – o traje mais engraçado de todos! – estava com fitas isolantes prateadas envolvendo o corpo. Denis então olha para sua própria fantasia de super – herói – ele achava o máximo, mas só tinha um problema: não tinha capa; mas ele improvisara uma -, tira a pequena máscara do rosto, pega seu irmãozinho Lucas no colo e corre para casa, seguido por seus amigos. A fome estava batendo forte.
Os quatro amigos sentaram à mesa enquanto a mãe de Denis dava de mamar para o pequeno Lucas. Os meninos avançam sobre o lanche: sanduíches e leite achocolatado. A mãe falava algo para Denis – provavelmente algo sobre o fato de seu irmão estar imundo também – porém ele não conseguia prestar atenção. Sua cabeça estava, na verdade, longe, pensando sobre piratas, heróis, cowboys, homens do espaço, aventuras. Ele tinha muito que pensar: na continuação da brincadeira. O que iria acontecer com os quatro agora? Eles iriam conseguir fugir dos tiros de canhões? Eles iriam conseguir derrotar os piratas? Claro que sim. Eles iriam se safar dessa. Eles sempre conseguiam se safar. Mas quem – a principal questão – iria ficar com o Baú e todo o tesouro que continha nele?
Inconscientemente, os quatro amigos começam a comer mais rapidamente, ansiosos para voltar à brincadeira. Em certo momento eles se entreolham, com as bocas cheias de sanduíches, e sorriem uns para os outros, contentes com o dia cheio de brincadeiras e aventuras. Apesar de serem bastante jovens – todos tinham apenas nove anos de idade cada um -, eles podiam sentir que aquelas amizades eram verdadeiras.
Definitivamente, aquele tesouro era de todos eles.

Rômulo

UM DESTINO INEXORÁVEL

- Senhor Mauro Eduardo S. da Costa?
Ao ouvir a voz, Mauro abre os olhos, sentindo-se muito confuso. A visão turvada aos poucos começa a se acostumar com a claridade do local.
- Senhor Mauro Eduardo S. da Costa? – repete a voz.
Mauro repara que está deitado numa cama de um quarto bem iluminado. Ao virar o rosto para a direita, ele vê o dono da voz: um homem bem apessoado, aparentando ter uns trinta anos, com um cavanhaque enfeitando-lhe o rosto, um sorriso simpático e uma foice na mão, em pé ao lado da cama.
- Sim, sou eu, mas onde estou?
- Senhor Mauro, sua hora chegou.
- Como é? Que hora?
O homem solta um suspiro desanimado, demonstrando um forte cansaço ao se apoiar no cabo da foice.
- Eita trabalhinho complicado...
- Onde eu estou?
- No quarto de um hospital particular. Deixa eu resumir a história, para não ter mais complicações: você foi atropelado por um carro, teve um traumatismo craniano e não resistiu.
- Não resisti? Como assim?
- Morreu, meu camarada.
- Morri?
- Morreu... Empacotou, virou presunto, bateu as botas, engavetou, virou comida de minhoca, vai vestir paletó de madeira ou seja lá como você queira chamar, mas o que não dá é eu ficar aqui repetindo tudo toda hora que nem um papagaio. Tenho mais o que fazer. Vamos embora.
- Como assim morri? Não é possível!
- Não é, mas foi.
- Mas ontem eu estava tão bem...
- Ontem, bem, hoje, morto... A vida é assim mesmo, Senhor Mauro. Agora dá aquela aceleradinha aí, porque estou com o dia meio lotado.
- Mas quem é você, afinal?
- Nossa senhora... Vamos lá, faça um esforço e tente adivinhar.
- Ahn... Um médico?
- Médico? Você não tinha palpite melhor, não? Já viu médico de foice?
Mauro olha para a foice com semblante desanimado.
- Não, nunca vi, mas...
- Mas a esperança é a última que morre, não é? Não, Senhor Mauro, sou quem você, lá no fundo, imagina quem sou: A Morte.
- A Morte? Você então não deveria ser uma caveira e usar um capuz preto?
- Bem que me avisaram que a mudança de figurino iria causar problemas... Mas pelo menos mantive a foice, não é mesmo?
- Mas mesmo assim, Dona Morte...
- Senhor.
- O quê?
- Senhor Morte, por favor.
- Ah, claro. Desculpe. É o costume.
- Mas você ia dizendo...
- Claro. Mas mesmo assim, Senhor Morte, eu esperava que, já que o Senhor realmente existe, que pelo menos viria a caráter.
- Olha, tenho o direito de mudar de figurino como todo mundo! E para mim, a foice por si só já basta. Agora vamos, chega de jogar conversa fora.
- Mas isso tudo foi muito repentino... Eu não esperava por isso!
- Ora, não me venha com essa! A única certeza que todos têm é que um dia ou outro irão morrer. Quer dizer, exceto eu, é claro.
- Não pode ser outro?
- Outro o quê?
- Outro dia.
- Não, não pode. Olha só, Senhor Mauro, a culpa não é minha. Não era eu que estava dirigindo o tal carro. Apenas faço meu enfadonho trabalho e é só.
- Ai, meu Deus. Você pelo menos poderia ter me preparado para esse momento!
- Preparado?
- Sei que o Senhor deve ser um homem muito ocupado.
- Não imagina o quanto.
- Pois é. Mas poderia pelo menos ter me facilitado, gastado um tempinho para me preparar melhor para esse momento, e não uma coisa assim tão repentina.
- Ora, mas só me faltava essa! Você queria o quê? Receber uma carta em casa escrito “Bom dia, Senhor Mauro. Prepare as malas, pois você vai bater as botas em cinco dias.” ?
- Não sei. Só sei que não estou preparado agora.
- Olha, isso já não é comigo. Então, pare de atrasar o meu lado e deixe-me fazer meu trabalho.
- Isso vai doer?
- Isso o quê?
- Morrer, ora raios!
- Me diga você. Eu nunca morri.
- E para onde eu vou?
- Ih, isso já é com o responsável de outra repartição.
- Como é?
- Olha, não estou aqui para julgar seu passado, Senhor Mauro. Não me interessa saber se você foi bom ou um crápula enquanto vivo. Não é meu trabalho saber se você vai para um campo florido ou para o poço do fogo eterno.
- Acho que prefiro a primeira opção.
- Imagino que sim. Agora vamos?
- Calma! Olha, deve haver alguma alternativa.
- Alternativa?
- Quem sabe poderia lhe dar algum dinheiro?
- Dinheiro? E para que eu iria querer isso? Comprar uma foice nova?
- Ou talvez um capuz preto novo.
- Dinheiro não me interessa, Senhor Mauro.
- Talvez pudéssemos fazer algum tipo de aposta?
- Como o quê, por exemplo?
- Talvez um jogo de xadrez. Já li em algum lugar que você gosta desse jogo. Se eu ganhar, você me deixa vivo.
- E o que ganho com isso?
- Hum... Alguns minutos de entretenimento, talvez?
- Acho melhor não. Nunca fui muito bom nesse jogo.
- Eu também não.
- E afinal, Senhor Mauro, chantagem e jogatina não vão te levar a uma via expressa para os campos floridos. Agora, levante dessa cama, homem!
A Morte segura Mauro pelo braço e o faz se levantar da cama.
- Por favor, Dona Morte, eu suplico!
- Senhor Morte.
- Claro, desculpe. Mas não me mate, por favor!
- Como assim, Senhor Mauro? Você já está morto.
- Não é possível!
- O senhor é meio cético, não é mesmo? Olhe para trás e veja por si próprio.
Ao olhar para a cama, Mauro vê seu corpo deitado na cama, com um semblante tranqüilo, até mesmo pacífico.
- Nossa, você é rápido nisso!
- É, tenho alguns anos de prática. Acho que agora você já obteve a resposta para sua pergunta.
- Que pergunta?
- Doeu?
- Nem um pouco. Foi mais tranqüilo do que eu imaginava.
- Ótimo, ótimo. Agora vamos. Ainda tenho muito trabalho a fazer. Próximo cliente: Dona Esperança Carneiro Machado, ataque cardíaco fulminante.
- Dona Esperança?
- Sim. Nome curioso, não é mesmo?
- Muito. Mas Senhor Morte, antes de irmos, posso fazer uma pergunta?
- Mais uma? Você gosta mesmo de conversar, não é? Tudo bem, mas tente ser breve.
- Para que serve essa foice se você nem a usou?
- Ótima pergunta. Mas você há de concordar que causa um forte impacto nas pessoas. Já imaginou A Morte sem foice?
- Não, mas também nunca imaginei A Morte sem um capuz preto.
- Ora, chega dessa conversa. Deixe-me riscar seu nome da lista dos clientes do dia.
A Morte retira do bolso um pequeno pedaço de papel amassado.
- Deixe-me ver...
- É isso?
- O quê?
- A tal lista. Não é meio pequena?
- Ora, também sou uma criatura de Deus. Também tenho direito de descansar um pouco.
- Mas mesmo assim, sempre pensei que seria um pergaminho enorme, daqueles bem antigos, sabe?
- Acho que você pensa demais, Senhor Mauro. Agora, vejamos: Senhor Mauro Eduardo Silva da Costa, fora da lista.
- Opa!
- Próximo cliente...
- Espera um pouco!
- Dona Esperança Carneiro...
- Dona Morte!
- Olha aqui, Senhor Mauro, se continuar a me chamar de Dona Morte, eu mesmo te levo na porta do Inferno.
- Eu não sou esse aí!
- Esse o quê?
- Mauro Eduardo Silva da Costa!
- Como assim?
- Meu nome é Mauro Eduardo Soares da Costa!
- Você está brincando, não está?
- Meu Deus! Isso quer dizer que eu então não vou mesmo morrer? Foi tudo um engano?
- Isso quer dizer que eu vou levar uma bronca daquelas, isso sim! Não acredito que fiz isso de novo. Bom, aquela cervejinha no final do expediente vai ficar pra outro dia.
- Graças a Deus!
- Na verdade, foi graças a mim, mesmo. Droga, vou me atrasar todo... Bom, foi um prazer, Senhor Mauro e até outro dia.
- Espere aí! E eu nisso?
- Ah, é, ainda tem isso. Você não pode permanecer morto. Afinal, esse é o único serviço público que não se pode furar fila. Bom, qualquer coisa pense que foi um sonho, alucinação, conseqüência de uma bebedeira ou algo do tipo. Bons sonhos, Senhor Mauro.
A Morte levanta a foice acima da cabeça.
- Quem disse que existem perguntas sem respostas? Basta ter um pouco de paciência, Senhor Mauro.
Uma forte luz emana da foice e a visão de Mauro novamente se turva até cair no breu total.
Ao acordar, Mauro se encontra novamente deitado na mesma cama, no mesmo quarto.
- Senhor Mauro Eduardo S. da Costa? – pergunta uma voz ao lado da cama.
Muito hesitante, Mauro vira o rosto para a direita e vê a dona da voz: uma enfermeira. Ele respira fundo, aliviado. A enfermeira explica a situação: Mauro teve uma síncope causada por pressão baixa e, ao desmaiar na rua, bateu com a cabeça no meio – fio; foi levado ao hospital para fazer sutura no profundo corte na cabeça e apenas iria ficar no hospital para observação por pouco tempo.
Na manhã seguinte ele recebe alta do hospital e pega um táxi para voltar para casa sem conseguir parar de pensar no estranho sonho que teve no dia anterior. Terá mesmo sido um sonho? Uma alucinação causada pela pancada na cabeça? Seja o que for, ele não consegui ficar um segundo sem pensar nisso; tinha sido tudo tão claro, tão real...
Ao chegar em casa, ele joga o molho de chaves numa pequena mesa da sala e repara num pequenino papel dobrado em cima da mesma. Um calafrio sobe por sua espinha. Com as mãos tremendo incontrolavelmente, ele pega o papel, desdobra-o e lê seu conteúdo:
“Bom dia, Senhor Mauro. Prepare as malas, pois você vai bater as botas em cinco dias.”.

Rômulo