“Linda” - veio-lhe o pensamento à mente tão logo ela surgiu diante da sua mesa. Pela janela ampla do restaurante vazio ele vira a cidade mergulhar lentamente na noite, já quase sem esperança de encontrá-la. Uma luz violácea banhava o salão, emprestando ao ambiente uma aura gélida, apesar do calor da noite. O prato de carpaccio jazia intocável sobre a mesa. Não tinha fome. Além disso ela detestava carpaccio, mas ele não pudera controlar o desejo de comparar a cor leve da carne crua ao rubor suave daqueles lábios macios. Ela raramente usava batom.
Ele levantou-se e ofereceu-lhe gentilmente a cadeira, ainda em silêncio. Seus olhares se encontraram por um centésimo de segundo, o que pode significar uma eternidade em momentos mágicos como aquele. Ela sentou-se, sorriu um meio-sorriso e baixou os olhos para o prato vazio esquecido sobre a toalha creme. Tinham estado perto demais e ele ainda sentia o seu perfume ao se sentar...
- Você pediu carpaccio... – ela disse.
- É... – ele respondeu constrangido.
- Como na primeira vez...
- Sim. – ele reparara na cor dos lábios dela desde antes do primeiro encontro, quando só a via de longe, os braços ao redor dos livros, a caminho da biblioteca pública. A mais ou menos vinte anos... Depois disso tanta coisa acontecera, tantos encontros e desencontros, tantas noites tórridas e tantos dias monótonos...
- Vinho?
- Ahn? – ela parecera momentaneamente em transe.
- Você bebe vinho?
- Ah, sim, claro.
- Garçom!
Falaram de suas vidas, mas a situação era surreal. Era como se mal se conhecessem, como se vinte anos tivessem desaparecido num lapso de tempo e memória. Ela falava dos filhos e do marido com falso entusiasmo enquanto ele controlava o desejo de interrompê-la com um beijo arrebatador, enquanto assentia com a cabeça mecanicamente. Beijá-la teria sido terrível, ele sabia que jamais o faria, e ela sabia que ele sabia, por isso parecia tão desarmada, tão presente e ao mesmo tempo tão distante.
Conversaram durante horas que pareceram minutos. Então, olhando o relógio distraidamente, ela disse:
- Bem, já vou indo... – havia um ar de disfarçado mas indiscutível desalento em sua voz.
- Não quer jantar? – ele tinha esperança de ouvir um "sim", se ela aceitasse haveria uma chance de prolongar o momento mágico, a sensação atemporal de relógio parado, de mundo parado, como se só existissem os dois e aquela luz, aquela paz, aquela música da voz dela dentro dele.
- Não posso... O Júnior sai em dez minutos, a escola fica a uns seis quarteirões...
- Tá bom. Vai com Deus. – a frase saiu sem querer, brusca demais, mas era a frase possível, os ponteiros do relógio voltavam a correr a sua corrida impiedosa e interminável, a sua maratona definitiva em direção ao inexorável.
- Fica com Deus – e ela levantou-se ganhando, a passos largos, a rua deserta sob as luzes amareladas da noite, pra nunca mais voltar...
César Calheiros
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