Dedicado a D. S.
“A única forma de se livrar de uma tentação
é render-se a ela.”
Oscar Wilde, O retrato de Dorian Gray.
Daniel Swanson era um advogado brilhante aos vinte e nove anos. Na verdade, o advogado trabalhista mais competente de toda Manhattan. Morava com a mãe, gorda, depressiva e solitária, e o irmão mais novo, um encostado, além de ter uma doce noiva, Anita, há três anos.
Começou como estagiário na Norman and Son, um antigo escritório na baixa Manhattan, onde ajudou seus patrões a aumentarem consideravelmente suas contas bancárias. Depois disso se juntou a Patricia Diaz, sua amiga de faculdade, e abriu o próprio escritório no Brooklin, num local de baixa concorrência, onde se transformou em sucesso imediato. Com o sucesso, veio o dinheiro. E com o dinheiro veio a petulância.
Daniel aprendeu a gostar de esbanjar e dava valor a aparência física mais do que tudo. Julgava as pessoas pelas roupas, pelo nível social... E isso se refletia em si mesmo. Estava sempre impecável. Começou a olhar com desprezo para a família, os amigos e mesmo para a noiva, uma atendente de livraria que era simples e ambicionava ser escritora.
- Eu não sei o que está acontecendo entre nós, Daniel – disse ela durante um jantar.
- Por que não come devagar? – repreendeu ele com severidade – Será que nunca aprende a ter modos?
- Por que está sempre me criticando? Não está feliz comigo como eu sou?
- Se você puder melhorar, não te fará mal. Não cuida desse cabelo, dessas roupas... Só pensa em comprar livros e escrever...
- Quando eu publicar meu livro...
- Quando! Não é melhor você dizer ‘se’? Caia na real, Anita. Isso pode nunca acontecer. Ponha os pés no chão!
Anita se calou, segurando as lágrimas. Não que ela fosse feia, não era. Era até muito bonita. Mas Daniel sempre queria mais. E quando virou a cara para não olhar sua noiva contendo as lágrimas, viu esse algo mais.
Do lado de fora viu um belo rapaz. Realmente belo, de feições orientais e um corpo interessante. Fumava um cigarro quando se virou. Então o olhou e sorriu, fazendo o advogado se arrepiar encabulado. Logo voltou a si, se recompondo, e disse à noiva:
- Se não for mais comer, vamos pra casa.
Ao sair, olhou novamente a procura do rapaz oriental sem saber o porquê. Não o viu nas proximidades e novamente sem saber o porquê ficou desapontado.
Algumas semanas depois compareceu a uma festa de um casal de amigos gay de Anita. Detestava ir até o apartamento dos Axel, como chamava Ryan e Frederic por terem o mesmo esquisito sobrenome. Os dois haviam se conhecido na Internet há anos atrás e Ryan, que trabalhava em uma importante emissora de televisão, logo conseguiu um emprego para Frederic, o trazendo de Seattle.
Moravam em um apartamento no SoHo e gastavam todo o dinheiro que recebiam em sua manutenção e em reuniões estúpidas como festas de aniversário dos cães, uma tentativa idiota de fingirem que tinham filhos como Daniel pensava. E já se sentia entediado no momento em que entraram no apartamento e foram saudados pelo exageradamente simpático Ryan e pelo monossilábico Frederic. A cada dia que passava eles ficavam mais gordos e menos bonitos.
- Olá – disse Ryan sorrindo – Como vão os padrinhos da minha Pearl?
Outra coisa que Daniel detestava era o fato de ter sido escolhido, ao lado de sua noiva, padrinho de Pearl, uma poodle mal encarada e com mania de pular nele o tempo inteiro enchendo seus ternos de pêlo e baba.
Apesar de sorrir o tempo todo e parecer o mais simpático, Daniel a tudo olhava com reprovação. Decoração, convidados, roupas, belezas inexistentes... Poderia agüentar mais meia hora daquilo e então inventaria uma desculpa para sair.
Até que os últimos convidados chegaram. O chefe dos Axel, um gay velho e acabado, acompanhado do mais belo ser que Daniel já vira. E o estava vendo pela segunda vez. O rapaz oriental.
- Daniel, Anita... – falou Frederic cuidando das apresentações – Este é meu chefe Thomas Michaels e seu companheiro Hiro.
Daniel não conseguia afastar os olhos do rapaz, sem saber a razão. Aproveitou o momento em que ele foi até a varanda fumar para puxar assunto.
- Nossa, que coincidência estranha – começou ele – Há alguns dias eu te vi na rua e agora nos encontramos aqui.
- Não existe isso de coincidência – ele sorriu, causando um arrepio no advogado – Não deveria acreditar nisso.
- Não acredito, de jeito nenhum! Só falei pra quebrar o gelo.
- Sim.
- Você não acha isso aqui tudo muito chato? Essas pessoas são tão superficiais.
- Gosto de pessoas superficiais. Fica mais fácil parecer profundo no meio deles.
- É – ele sorriu – Você me deu um novo ponto de vista sobre o assunto.
- Tenho pontos de vista interessantes sobre diversos assuntos.
Daniel respirou fundo, sentindo-se estanho conforme o assunto seguia. E a conversa durou por horas, até o momento em que cantaram parabéns. Em seguida, Anita o chamou para irem embora.
- Gostei muito de conversar com você – disse ele apertando a mão de Hiro – Espero que nos falemos em breve.
Quando tirou a mão, deixou um cartão seu com o rapaz. Ele sempre quis o melhor e nunca, entre homens ou mulheres, viu algo melhor que aquele rapaz.
- Você conversou muito com o Hiro – disse Anita a ele no táxi – O Ryan não gosta nada dele.
- A opinião do Ryan não me interessa, você sabe.
- Ele diz que o tal do Hiro acabou com a vida do chefe dele.
- Acho que aquele velho decrépito já estava acabado antes mesmo do rapaz nascer.
- Não creio, ele tem apenas trinta e nove anos.
Daniel riu.
- Com aquele corpo murcho? Não creio que isso seja possível.
- Mas é. E começou a definhar depois que se envolveu com Hiro, que a cada dia que passa fica mais bonito.
- Sério? Não consigo acreditar nisso.
- Mas a verdade é que...
- Anita, por que você não cala a boca?
Pega de surpresa, Anita se calou enquanto Daniel se entregava a pensamentos mais mundanos envolvendo Hiro. Ele era o melhor... E um advogado bem sucedido como ele não merecia o melhor?
As coisas seguiram normais no decorrer dos dias. E Hiro sequer telefonara, o deixando numa ansiedade terrível. Depois de conhecer o rapaz, nada mais tinha sabor para ele. Nem mesmo o sexo com Anita, que era a única coisa que mantinha aceso o romance dos dois.
Durante a noite era acordado por sonhos envolvendo o rapaz. Alguns eram assustadores enquanto outros eram no mínimo excitantes. Perdeu as contas de quantas vezes se masturbou por causa dos tais sonhos.
Quando já não tinha mais esperanças, dois meses depois, Hiro ligou. Parecia aflito e precisava, segundo ele, de ajuda jurídica.
- Desculpe – falou ele assim que se encontraram no escritório – Não sabia a quem recorrer.
- Recorreu a pessoa certa – disse Daniel tentando esconder sua ansiedade – Qual o problema?
- Thomas está morrendo.
- Não diga – tentou parecer preocupado em seu tom, mas só conseguiu parecer fingido – Sinto muito.
- O problema é que a fortuna que acumulamos juntos está toda em seu nome e não pode vir para o meu, pois sou um imigrante ilegal no país.
- Bom, Thomas pode passar o dinheiro para alguém de confiança.
- Não temos alguém de confiança – então o olhou fixamente – Pelo menos ainda não.
Daniel não sabia o que pensar, estava confuso. Ao invés disso, trêmulo, segurou as mãos de Hiro como se suplicasse.
- Não consigo parar de pensar em você e não sei por que.
- Eu sei.
- Não brinque comigo, eu tenho alguém na minha vida. O que estou sentindo é no mínimo imoral.
- A imoralidade existe e está ao alcance das mãos. Tem seu sabor, é verdade, do contrário não conquistaria a tantos.
Com lágrimas nos olhos, Daniel o abraçou.
- Eu te quero, rapaz. Eu te desejo loucamente, como nunca desejei nada na minha vida. A seu lado eu tenho vontade de cometer todos os pecados possíveis.
Hiro então o beijou, sensualmente.
- A pessoa que inventou o pecado realmente sabia se divertir, não acha?
- Acho – falou ele um tanto nervoso, bastante excitado – Realmente acho.
Os dois então voltaram a se beijar e antes que percebessem já estavam nus sobre o assoalho do escritório.
Daniel se entregou a um relacionamento animal com Hiro, deixando de lado suas obrigações para poder se divertir ao lado do rapaz. Nunca se imaginou tão feliz em toda sua vida. Mantinha o noivado com Anita, apesar de evitá-la o máximo que podia. Todas suas atenções estavam voltadas a uma única pessoa.
Hiro também mantinha seu relacionamento com Thomas, que a cada dia que passava estava mais velho e definhado. A idade chegara cedo demais para um homem que ainda nem tinha quarenta anos e os médicos o diagnosticaram com uma síndrome rara, que fazia com que o metabolismo da pessoa se acelerasse de uma maneira absurda provocando o envelhecimento precoce. Daniel não se importava, só queria que o velho morresse.
- Sabe – disse ele a Hiro certo dia em um quarto de motel – Me sinto meio culpado com o que estamos fazendo com o Thomas e a Anita. Você não?
- Não. E não consigo entender isso.
- O que? A culpa?
- A culpa eu entendo. Só não entendo por que deveria me sentir culpado se eu gosto tanto do que faço. Posso até me arrepender, mas na primeira oportunidade eu vou fazer tudo de novo. A carne é imensamente fraca e eu não me esforço nem um pouco para fortalecê-la.
- Você tem um modo de pensar que me fascina. Não queria ter de te dividir com ninguém.
- E não vai precisar. Thomas não tem mais do que alguns dias de vida. E está disposto a passar todos os nossos bens para o seu nome. Trata-se de muito dinheiro, Daniel. Você nem precisaria mais trabalhar se não quisesse, afinal, somaríamos nossas fortunas.
- Você parece ter tudo planejado.
- Sempre.
- E não me diz muita coisa sobre você. Eu nem mesmo sei sua idade.
- Já sou velho o bastante para estar pelado ao seu lado numa cama de motel, se quer saber.
Naquela mesma tarde encontraram Thomas no hospital para que ele assinasse os papéis em que passava todos os seus bens para Daniel. O advogado fizera aquilo meio a contra gosto, mas era uma garantia de que teria Hiro pra sempre a seu lado.
Thomas estava em um estado lastimável, assustadoramente doente. Os médicos diziam que ele andava tendo visões durante a noite, com demônios que entravam voando pela janela e ficavam parados no teto a rir de sua dor. Hiro nem se abalou com os relatos; parecia frio demais. E Daniel interpretou aquilo como sendo apenas uma reação a vontade de ficar livre de tal homem.
Quando saíram do hospital, Daniel era um homem milionário. Nunca em sua vida pensara que receberia dinheiro de maneira tão rápida e fácil.
Romper com Anita, que já andava desconfiada, não foi difícil. Deixou o celular em sua mão enquanto entrava no banco para resolver alguns problemas e quando retornou viu que a noiva lera todas as mensagens de amor trocadas entre ele e Hiro.
- Como você explica isso, Daniel?
- Não se explica. Estou realmente namorando o Hiro.
- Vocês estão tendo um caso?
- Caso eu tenho com você, Anita. Com ele é algo mais forte, mais profundo. Algo que uma pessoa como você jamais vai entender.
- Ele vai acabar com sua vida, Daniel. Eu te amo...
- Não me interessa o que diz sentir, Anita. Acabou. O que havia entre nós acabou.
- Então vá. Vá viver esse seu conto de fadas sodomita!
- Vou sim, por que eu já vivi três anos de um filme de terror com você.
- Filme de terror – ela chorou – Pois espere pra saber o que significa isso. Você não me merece, Daniel. Nunca mereceu.
- Quanto a isso devo concordar. Sempre mereci algo muito melhor. E agora eu tenho.
- Queria dizer que não vou chorar por você, Daniel, mas eu vou. Vou chorar o quanto eu tiver lágrimas pra chorar. Depois vou me empenhar em esquecer que você existe.
- Espero que se empenhe melhor do que se empenha em seus livros. Nunca vi escritora mais medíocre.
- E eu nunca vi ser humano mais podre.
- O que há por fora compensa.
- Mas por quanto tempo, não é?
- O tempo necessário.
Depois daquele encontro, Daniel largou a mãe depressiva com o irmão encostado e se mudou para uma luxuosa cobertura em Manhattan. Não estava nem um pouco preocupado em esconder sua nova vida das pessoas e desfilava com Hiro para todos os lados. Formavam um casal muito bonito, é verdade, mas os holofotes só estavam neles por causa do jovem oriental.
Quando Thomas morreu, Daniel comemorou com champanhe. Hiro o olhava da varanda da cobertura fumando o seu cigarro despreocupadamente.
- Menos um no nosso já lotado mundo.
- Mais um no ainda mais lotado mundo de baixo – falou Hiro, com um brilho no olhar.
- O que quer dizer com isso? – perguntou o advogado, parecendo um tanto assustado.
- Com o tipo de vida que levava seria demagogia dizer que Thomas iria para o céu. Sabe quem estava no enterro? Aquele detestável casal Axel e Anita.
- Falaram com você?
- Por que falariam? Sabem que eu causei a ruína de Thomas.
- Você não causou a ruína de ninguém, meu amor – disse ele se jogando a seus pés apaixonadamente – Você seria incapaz de ferir qualquer um.
- Isso é verdade. Mas é verdade também que causei a ruína de Thomas. A meu lado ele se entregou a prazeres incomensuráveis que só vieram a agravar sua desconhecida doença.
- Não gosto que fale assim, Hiro.
- As pessoas não costumam ser sinceras no nosso mundo. Eu, pelo contrário, o sou. Em mim você encontra beleza, prazer e sinceridade. E a verdadeira sinceridade hoje em dia não dá a mínima para o politicamente correto.
Cada vez que falava algo desse gênero, mais Daniel se entregava. Era capaz de se entregar por inteiro ao jovem. Até mesmo seria capaz de matar se assim ele pedisse.
- Hiro...
- Sim.
- Sou capaz de qualquer coisa por você.
- Qualquer coisa é muito vago.
- Por você eu roubaria, mataria... Meu espírito te pertence.
Hiro se levantou com um estranho sorriso nos lábios, realçado pela luz do luar.
- Poderia repetir isso?
- Meu espírito te pertence.
Ele o beijou.
- Mais uma vez.
- Meu espírito te pertence!
Hiro então passou suavemente a mão pelo seu rosto.
- E você nunca vai voltar atrás nisso?
- Nunca, nunca...
- Perfeito – disse ele jogando o cigarro fora e arrastando Daniel em seguida para o quarto.
Na manhã seguinte, Daniel reparou que estava com cabelos brancos nos lados da cabeça.
E Hiro parecia cada vez mais jovem.
Quando começou a perder cabelo e se sentir cansado, procurou tratamento. Nada podia ser feito. A solução foi disfarçar tingindo os fios brancos.
E Hiro estava cada vez mais forte bem disposto.
Em seu aniversário de trinta e três anos a comemoração foi particular, já que não tinha mais amigos. Afastara-se de todos com medo de que algum deles pudesse tirar Hiro de seus braços. Naquela noite, enquanto faziam amor, viu que os pêlos de seu peito estavam ficando grisalhos. Nervoso, falhara pela primeira vez. Hiro não se importou e o acariciou.
- Não se preocupe, está tudo bem.
- Não está, Hiro, eu estou me sentindo estranho. Os meses passam e eu me sinto a cada dia mais velho, enquanto você está cada vez mais jovem e mais bonito.
- Genética oriental, o que eu posso fazer?
- Não é isso... Você é exatamente igual a quando te conheci. O tempo parece não passar pra você. Você é lindo, extremamente divertido, nunca fica doente, raramente dorme... Não sei o que você tem.
- Eu sou especial – então o beijou – Você não sabia disso?
- Estou com medo de morrer...
- Isso é só o que se pode esperar da vida. Ela é injusta. Quanto mais perto de nos divertir estamos, mais próximos da morte chegamos.
- Não gosto do seu tom.
- Claro que gosta. Por que não tenta dormir um pouco.
Daniel se aconchegou no peito de Hiro e adormeceu. Infelizmente nunca se lembrou do terrível pesadelo que teve aquela noite, caso contrário poderia tentar escapar do que estava destinado a ele.
Apesar do dinheiro, não abandonou o trabalho totalmente. Continuava a ir ao escritório ocasionalmente, atendia alguns clientes e então voltava pra casa.
Aquele dia, porém, a visita que recebeu foi de alguém que esperava não ver nunca mais na vida. Ryan Axel.
- Daniel.
- O que faz aqui, Ryan?
- Vim lhe trazer umas fotos, para preveni-lo de algo, mas vejo, pela sua aparência medonha, que é tarde demais.
- Do que está falando? Eu estou melhor do que nunca.
- Acho de verdade que nem você acredita muito nisso.
- O que quer aqui? – perguntou mais uma vez, furioso.
- Já disse – jogou um pacote sobre a mesa – Lhe entregar umas fotos.
- Já o fez. Por que agora não se retira daqui?
- Como quiser – falou ele com um sorrisinho que irritou Daniel profundamente – Só saiba que a pessoa que está com você não é quem diz.
- É quem é?
- Só estou dizendo que...
- Não ouse terminar isso.
- O que? Que o seu namoradinho é uma criatura das trevas?
Daniel não esperou que ele terminasse. Pulou de sua mesa e avançou contra Ryan, o enchendo de socos.
- Socorro – ele gritou, em pânico.
Mas o advogado não parou e conseguiu derrubá-lo. Quanto mais sangue via em seus punhos, mais espancava o rapaz. Precisou ser contido por sua sócia e dois seguranças. O rosto de Ryan estava deformado.
- Eu vou te processar!
- Faça o que quiser! – gritou ele, rindo – Quem está medonho agora? Quem, heim?
Quando voltou a si, percebeu o erro que cometera, mas já era um pouco tarde demais. Ryan já devia estar na polícia naquele momento.
Olhou para a mesa. O pacote ainda estava lá, sujo de sangue. Pensou em atear fogo em tudo sem abrir, mas a curiosidade falou mais alto. Eram fotos de Hiro e Thomas juntos, desde que haviam se conhecido há alguns anos. Em todas as fotos, Hiro era exatamente o mesmo. Mesma beleza, mesma postura, mesmo olhar... Já Thomas... Ryan tomou a estúpida liberdade de colocar as fotos pela ordem das datas, só para mostrar melhor a degradação de um homem em tão pouco tempo.
Da primeira foto até a data daquele dia, já havia se passado mais de dez anos. Por que será que Hiro não envelhecia?
Largou as fotos sobre a mesa e correu para o banheiro. Entendeu o que Ryan dissera. Estava realmente pavoroso, com as entradas mais evidentes, rugas pelo rosto, ganhando peso e ficando com a pele um tanto áspera. O que estava acontecendo? Ainda era tão novo... Pelo menos ainda detinha os direitos sobre a fortuna de Hiro, portanto, mesmo que ficasse horroroso, nunca seria abandonado pelo rapaz.
Estava apenas passando por algum tipo de estresse. Ao contrário do que Ryan, aquele amigo de Anita, pudesse estar querendo fazê-lo acreditar. Mesmo assim, não custava levar as fotos e cobrar explicações de Hiro.
Porém, ao chegar em casa não o encontrou. Seu celular, aparentemente, estava desligado. Veio a noite e se foi, sem que Hiro aparecesse. Daniel estava agoniado, querendo notícias de seu amado.
Estava preocupado. Não que algo ruim tivesse acontecido a ele, mas que alguém o tivesse seduzido e o levado para longe. Já nem se preocupava mais com explicações. Com raiva, queimou todas as fotos.
E as horas passavam. Sua preocupação aumentava. Assim como seu ciúme.
Pensou em ligar para a polícia, mas daria parte do desaparecimento de quem? Um jovem oriental chamado Hiro. E o que mais? Não havia mais o que dizer. Além do mais, devia estar sendo procurado por causa do que fizera a Ryan.
Trocou o telefone por uma garrafa de conhaque. O conhaque pelas notícias de tragédias na Internet. A Internet por Martini. E o Martini pela cama
Quando despertou, com a cabeça doendo, Hiro estava fumando aos pés da cama. Já era noite novamente e o ambiente estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca que entrava pelas janelas.
- Onde esteve?! – perguntou mais ansioso e desesperado do que queria.
- Por aí – respondeu ele calmamente, soltando uma baforada em seguida.
- Você... Você me traiu?
- Preciso responder mesmo?
Daniel então o abraçou, chorando.
- Nunca mais faça isso, por favor. Eu te amo. Eu te amo.
- E tudo ficará bem se você não se esquecer disso.
Daniel não gostou da frieza em sua voz, mas ele estava ali. E não seria capaz de dizer nada que o fizesse se afastar. Precisava dele. Precisava da presença de sua beleza ao seu lado. Não podia viver sem ele... Não suportaria... Não permitiria.
- A gente passa a vida inteira tentando ser agradável aos outros, mas não consegue sequer ser agradável a si mesmo.
- O que quer dizer com isso? – perguntou Hiro, o acariciando.
- Acho que acabei com minha carreira de advogado.
- Como assim?
- Eu arrebentei a cara do Ryan Axel... Por que ele ousou falar mal de você.
Hiro então o olhou com um sorriso. Havia um brilho em seu olhar. Um brilho estranho demais.
- Você fez isso mesmo?
- Fiz. Você está decepcionado?
- Estou orgulhoso de você. Deixe-me ver suas mãos.
Daniel estendeu suas mãos, mostrando as marcas causadas pelos socos que desferiu contra Ryan. Hiro então chorou, beijando delicadamente toda extensão de sua mão enquanto murmurava:
- Tudo é muito estranho, não acha? As pessoas só conhecem umas as outras quando a noite chega... Durante o dia as máscaras estão bem presas ao rosto.
E então se beijaram. A polícia bateu na porta. Eles ignoraram, se entregando ao desejo. Quando a porta foi arrombada, os policiais os encontraram nus e exaustos na cama.
Daniel enfrentou um processo violento por parte de Ryan, mas não chegou a ficar preso. Teve de indenizar o rapaz, uma grande quantia, e desistir da advocacia. Mas nada o abalou, pois ainda tinha o amor de Hiro. Mesmo que ele envelhecesse mais e mais a olhos vistos, seu namorado estava cada vez mais bonito e viçoso. As pessoas não conseguiam entender o que acontecia e, para se livrar das perguntas ele se livrou das pessoas. Passou a viver exclusivamente para seu amor.
A vida era perfeita.
Até o dia que se pegou tossindo sangue no banheiro. Desesperado, pediu que o Hiro o levasse ao hospital. O diagnóstico não foi outro senão câncer de pulmão, em grau avançado.
- Como assim câncer de pulmão? – perguntou ele ao médico, ao que Hiro apenas observava – Mas eu nem fumo.
- O fumo passivo também é perigoso – disse ele se olhando ao rapaz, que fumava na janela.
- Mas ele raramente fuma perto de mim. É sempre na janela ou a varanda.
- Há quanto tempo você fuma? – perguntou o médico a Hiro.
- Eu? Desde sempre.
- Então seria bom que eu tirasse uma chapa de seus pulmões também.
- Não julgo necessário.
- Eu julgo – o médico olhou para Daniel, o incitando a tomar seu partido.
- Hiro, querido, eu acho uma boa idéia. Talvez se...
- Se você acha.
Para surpresa do médico, os pulmões de Hiro pareciam o de um recém nascido de tão saudável. Ao contrário dos de Daniel.
- Isso é assombroso – olhou para Daniel com os olhos arregalados – É como se o rapaz ali fumasse com os seus pulmões.
Hiro apenas sorriu, diante do olhar de Daniel, como se dissesse o quão absurdo era aquilo. Absurdo ou não, a questão é que Daniel precisaria enfrentar várias sessões de quimioterapia.
- Só não sei se terá resultados, pois, como eu disse, o estágio da doença já é bem avançado.
- Está dizendo que eu vou morrer?
- Estou dizendo que é uma possibilidade.
Daniel olhou para Hiro, buscando algum tipo de apoio, mas seu companheiro estava fumando calmamente na janela como se nada estivesse acontecendo. Diante do médico, Daniel desabou em lágrimas.
Os meses que se seguiram ao tratamento foram terríveis para Daniel, que convalescia cada vez mais, e iguais para Hiro que não mudara em uma linha de expressão sequer. O rapaz saía quase sempre, passando horas na rua, e Daniel nunca o questionou por medo de que o rapaz resolvesse abandoná-lo.
Estava feio demais, reparou ao se olhar no espelho. O tratamento estava acabando com ele, se já não bastasse sua velhice precoce. E Hiro, sempre belo. Não havia como negar, algo estava errado naquilo tudo. Muito errado.
Chorou por horas, até que o rapaz apareceu vindo de algum lugar. Nunca lhe dava satisfações. O ambiente estava bem escuro, pois não tinha vontade de estar à luz. Não da forma como estava.
- Como foi o dia? – perguntou ele simplesmente.
- Você... Alguma vez você me amou, Hiro?
- À minha maneira.
Então se sentou, acendendo um cigarro.
- Isso mesmo. Fume com o que sobrou dos meus pulmões.
- Estou sentindo uma ponta de ironia? – perguntou após uma baforada.
- Diga a verdade, você me usou completamente, não foi?
- Defina usar.
- Usou meu corpo, minha saúde, minha beleza, minha alma... Pra sustentar a sua. Não foi?
- Tem todas as evidências do mundo, por que ainda quer a confissão?
Daniel se calou, pensativo. Então se levantou furioso e jogou a cadeira contra o espelho da sala, gritando furioso.
- Não se exalte... – disse friamente – Sua saúde não permite isso.
- O que é você, Hiro?!
- O que sou eu? Que tipo de monstro sou eu? – ele sorriu – Me diga você, Daniel, que tipo de monstro sou eu? Ou melhor, que tipo de monstro somos nós?
- Você acabou com minha vida!
- Mas só por que você me trouxe pra ela. O que acontece com as pessoas, são apenas as coisas que elas desejam. Você me desejou ao me ver, estou ao seu lado. Só que você deve arcar com as conseqüências desse desejo. Na vida, tudo tem um preço.
Daniel então forçou a calma e respirou fundo e pensando calmamente nas palavras.
- Você pretende me abandonar como fez com o Thomas?
- Poderia dizer que sim, mas não. Vou estar ao seu lado até o fim, mas só preciso de tempo para encontrar alguém para ocupar o seu lugar.
Ele então chorou, como uma criança perdida. Hiro simplesmente o abraçou, dizendo:
- Não se culpe. Lembra do que eu disse sobre a culpa?
- Sim.
- Se tivesse a chance de fazer isso de novo, você faria. Até duas vezes mais.
- Não se eu soubesse o que aconteceria. Se eu tivesse a chance de...
- Pare com isso, Daniel, pare. Você sabe que isso é impossível. Seu eu pudesse voltar no tempo... Se tivesse a chance... Você teve a chance. Teve. Mas preferiu escolher viver o que está vivendo. Você tinha a chance de uma vida conveniente, mas não era o suficiente pra você. Não pra você. Você viveu intensamente o que queria por dentro, isso se refletiu no seu exterior. Quanto mais perto chegamos da diversão e prazer intenso...
- Mais perto chegamos da morte.
- Exatamente. Que bom saber que você prestava atenção ao que eu dizia. Mas agora esqueça isso... Venha, vamos descansar um pouco! Você já se exaltou demais. Vamos fazer aquilo que você tanto gosta. Aquilo pelo o que você entregou toda sua vida.
Os dois então se beijaram, mas sem a mesma paixão.
Em seu aniversário de trinta e cinco anos, Daniel já estava num leito de hospital completamente careca e envelhecido. Era atormentado diariamente por visões assustadoras; às vezes via demônios sorridentes, outras vezes eram vultos de pessoas que ele sabia estarem mortas. Todos o olhavam, todos estavam esperando por ele. E tal pensamento era assustador. Mal conseguia falar. Apenas se comunicava nas raras visitas de Hiro, quando ainda encontrava forças para rir de alguma piada e admirá-lo.
Porém, não recebia visitas há alguns meses (com exceções das aparições). Portanto, foi uma surpresa quando a porta do quarto se abriu e por ali entrou alguém que não era um médico ou uma enfermeira.
- Daniel?
- Olá... – ele forçou um sorriso, pois não conseguia reconhecer quem chegara – Quem é você?
- Não se lembra mais de mim? Anita.
- Anita? – ele estava genuinamente surpreso – Não a reconheci.
Anita, que nunca antes estivera tão bela e jovem, como se o tempo tivesse lhe presenteado, se aproximou de Daniel que nunca estivera pior e mais velho, como se o tempo o houvesse punido.
- Vi seu nome na recepção e não pude acreditar... Você está tão... Tão...
- Diferente?
- Envelhecido. Parece muito mais velho do que é... Ryan já tinha me dito, mas parece muito pior.
- Também estou feliz em te ver, Anita. Essa doença do envelhecimento é rara e eu a contraí juntamente com um câncer.
- Essa doença do envelhecimento é rara, não é? Creio que o vírus é de origem oriental.
- Não lembrava que era tão espirituosa. Fale um pouco de você, eu quero ouvir. Preciso ouvir. Como anda a vida? Você está linda.
- Bem, obrigada – ela sorriu, mas seus olhos estavam cheios de lágrimas – Eu... Publiquei meu livro...
- Que maravilha.
- É primeiro lugar em vendas em vários países. Nosso relacionamento foi a matriz.
- Mesmo? E como se chama?
- ‘A importância de se manter humano’.
- Parece bom – disse, seguido de uma tosse carregada. Então puxou uma bacia para perto de si, onde cuspiu uma mucosa escura e fedorenta – Desculpe – respirou fundo – Não pude deixar de notar a aliança.
- Ah, sim... Estou casada. Há seis meses, com um professor de Inglês da Columbia.
- E o que faz num hospital?
Ela sorriu, passando delicadamente a mão sobre o ventre.
- Nós temos um visitante.
- Oh... Parabéns.
Os dois se olharam em silêncio por alguns segundos, até que ambos começaram a chorar.
- O que você fez da sua vida, Daniel – disse segurando sua mão.
- É só uma doença... Eu sinto que estou melhorando. Já me sinto mais disposto. Além do mais o Hiro está sempre comigo...
- Nem você consegue acreditar nas próprias mentiras.
Um pigarro então lhe chamou a atenção. Hiro acabava de entrar no quarto, fumando como sempre, acompanhado de um sujeito jovem, bem apessoado e com porte de atleta. Anita percebeu que ele parecia ainda mais bonito e mais jovem do que quando ela o conhecera.
- Anita, mas que prazer em vê-la.
- Não espere que eu diga o mesmo.
- Não espero. Mas já vi seu veneno ser destilado em seu livro. As mulheres de Manhattan devem ter se sentido honradas. A propósito, esse é Edward, um amigo.
- De onde? – perguntou Daniel, quase sem forças.
- Simplesmente um amigo – disse se aproximando do leito – Ainda com forças para o ciúme, heim?
- Daniel – disse Anita – se você quiser eu posso te tirar daqui e cuidar de você em outro lugar. Tenho certeza de que meu marido não...
- Obrigado, Anita – Hiro abriu um sorriso – Mas ele está bem comigo.
- Não perguntei a você. E então, Daniel?
- Meu lugar é com ele, Anita. Ele é o companheiro que eu escolhi.
- Companheiro? Duvido muito disso – ela o beijou na face enrugada – Meu marido já deve estar me esperando lá embaixo. Estimo suas melhoras, Daniel. Apesar de desconfiar que ela não virá – então se voltou a Hiro, com desprezo – Há quanto tempo está entre nós, demônio?
- O que quer dizer?
- No mundo. Há quanto tempo anda disfarçado entre nós?
- Tempo suficiente.
- Sabe, rapaz, eu estive na China há um ano, num vilarejo cujo nome é impossível de lembrar. Esse lugar tem uma lenda muito interessante, sabia?
- Nem poderia imaginar.
- A lenda fala sobre uma criatura vil, ordinária, sem sentimentos e que se mantêm viva e bela desde o início dos tempos por se alimentar da fraqueza das pessoas. Não sei porque isso me lembrou você.
- Historia interessante. Deveria incluir no seu próximo livro. Eu compraria.
Anita olhou para Daniel, que mantinha seu olhar brilhante fixo em Hiro. Ela então saiu do quarto, disposta a transformar aquelas pessoas em lembranças. Não queria corromper sua família com aquela sujeira toda.
Hiro, delicadamente, passou a mão pela cabeça careca de Daniel e sorriu para seu acompanhante, que se aproximou com uma pasta.
- Me espere na recepção. Eu não demoro.
Tanto Hiro quanto Daniel o acompanharam com os olhos, enquanto ele deixava o quarto.
- Ele é lindo, não?
- O que me interessa é essa pasta em sua mão.
- Isso? São documentos.
- Pra que?
- Para que eu possa cuidar de você enquanto está aqui. Você vai passar tudo o que é nosso para...
- O seu nome?
- Não – ele riu – Não seja tolo. Vai passar tudo para o nome do Edward.
- Mas você acabou de conhecê-lo.
- Isso não importou quando eu te conheci. Você quer que eu fique bem, ou não?
- Quero, é claro.
Hiro tirou uma caneta do bolso.
- Então assine os papéis. Você conhece o procedimento.
Diante da beleza e do olhar do rapaz, Daniel não conseguiu dizer não. Sabia o que estava acontecendo, mas não podia lhe negar aquele último capricho. Era só o que podia fazer pelo seu amado. Então assinou os documentos.
- Você não vai me abandonar, não é?
- Não vou deixar você sem cuidados.
- Mas virá me ver, não virá? – perguntou tremendo, com lágrimas nos olhos.
Hiro pegou a caneta, guardou no bolso e recolocou os documentos na pasta.
- Você me conhece, Daniel, sabe que eu não prometo o que eu não vou cumprir
Daniel o olhou, com seus lábios trêmulos. O rapaz então se inclinou sobre ele, lhe dando um beijo demorado.
- Eu te amo, Hiro.
- Eu também te amo, Daniel. Seja lá o que isso signifique.
Calmamente, e sorrindo, Hiro deixou o quarto. Daniel pensou em gritar para que ficasse um pouco mais, que o amava mais do que tudo e sempre o amaria. Mas isso seria demonstrar pela última vez que era um fraco de espírito. E de caráter.
- Hiro! Fique comigo! Por favor!
Como resposta, ele gargalhou no corredor. Era a primeira vez que fazia isso, gargalhar. Mas ele ainda o amava, pois em sua lembrança Hiro continuava a ser o mesmo sujeito belo, provocante e envolvente. E era tão bom ter alguém belo por perto. Por que será então que se sentia tão vazio?
Anderson S. Vieira
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