sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O VELHO

Chamavam-no "o velho da casa verde na colina".
Poucos realmente o conheciam, alguns o tinham visto só de relance.
O fato é que ele era esquisito, assim diziam.
Saía poucas vezes, para comprar mantimentos ou consultar algum médico no vilarejo próximo.

Quem com ele havia conversado, brevemente, percebera seu caráter misantropo, e uma certa rabugice. E sempre falava com a testa franzida e evitando o contato olho no olho.
Talvez sofrera alguma desilusão amorosa, perdera algum parente muito próximo... A verdade é que ele era esquisito.

Outros diziam que era um bom homem, visto a alimentar os pombos na pracinha da região, e até se contava, nas rodinhas de mexeriqueiras, que era adepto do dízimo e da filantropia; e que ajudava algumas pobres almas com mantimentos semanalmente.

O fato é que era um mistério, e muito esquisito.

Morreu, como já era esperado devido a ordem natural das coisas.

Na casa verde e escondida entre amendoeiras, encontraram canários, cachorros, peixes e até uma tartaruga. Todos gordos, bem-cuidados.
Se odiava homens e mulheres, talvez amasse as criaturas inferiores...
Acharam isso deveras excêntrico.
Uma peculiaridade interessante, na verdade.

Ao seu enterro poucos foram, mas o padre e a madre superiora do orfanato lá estavam. E uma jovem senhora, muito bem trajada e bonita, que se descobrira ser filha do velho. Ela, muito educada, nada estranha.

Contam até que foram vistas duas solitárias lágrimas correrem do rosto da madre, que, diziam, era muito severa, e esquisita...


Laura Guerra.

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