Tenho pavor de livros de auto-ajuda. Será que alguém conhece alguém que conhece alguém que já mudou a própria vida (pra melhor, é bom que se diga!) seguindo os conselhos dum livreco desses? Eu não conheço. E o que me incomoda não é propriamente a inutilidade desse tipo de literatura, mas o "lugar-comum", a falta de criatividade, a verborragia modorrenta e sem substância dos textos "lição-de-moral" que a gente encontra por aí.
Os de cunho espiritualista então, são terríveis. Geralmente oferecem uma verdadeira salada conceitual, sem critério plausível, uma mistureba oriental sem precedentes, ainda por cima ocidentalizada sem eira nem beira.
De repente, vivemos uma pandemia de pseudo-boas-intenções transcritas nos mais variados meios. Estão nos jornais, revistas, nas transmissões de rádio e de TV, nos acervos das livrarias, nos discursos dos auditórios, em toda parte. Entranham sob a pele como uma urticária espiritual, coçando a alma dos incautos. E enriquecem os falsos mestres, os gurus-de-araque, os profetas-de-butique, cidadãos abaixo de comuns travestidos de grandes lumiares da espiritualidade.
Vá lá que, às vezes, uma simples palavra de consolo, como um carinho na alma, já opere verdadeiros milagres, coisa orgânica, visceral, de luz interior mesmo. O problema é a postura do cidadão que, do alto da sua falsa sabedoria, desfia, "roliudianamente", um rosário de pérolas toscas, pura filosofia de botequim, abençoando e condenando sem nenhuma autoridade, distribuindo conselhos de bisavó esclerosada à parcela incauta da humanidade. Gente que vende livros como água, dá entrevistas fúteis em talk-shows exibindo um semi-sorriso na caraça, as mãos postas sobre os joelhos e o olhar de santo-do-pau-oco, numa ode à mediocridade.
Há quem se salve dessa horda, mas são poucos. A grande maioria não passa de uma chusma de picaretas, ensinando o padre-nosso ao vigário como quem descobriu o segredo sagrado da alma. Dizem o que se quer ouvir, palavrório sem consistência, como um pão de côdea soberba, mas sem miolo. É a vitória da embalagem sobre o conteúdo, da imagem sobre a idéia.
Tenho pena dessa gente inocente, sem rumo, sem referências religiosas consistentes, que busca consolo nas palavras vãs desses charlatães espirituais.
César Calheiros
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