21 ago. 2009
Ensaísta: Marcelo Fernades
Quando perguntado o que seria a obra Vidas secas, Graciliano Ramos respondeu que se tratava de “um livrinho sem paisagens, sem alegria, sem diálogo e sem amor”. Na verdade, estamos diante de um romance triste, cheio de tensões críticas entre o homem e o seu meio. Um meio social, um meio de violência, de latifúndio, enfim, um meio natural, hostil e seco.
Duas temáticas podem ser percebidas neste romance: as adversidades em relação ao meio e as adversidades em relação ao outro. Graciliano Ramos trabalha nas esferas do social e do universal, do particular e do coletivo. Falar em regionalismo em Vidas Secas é diminuir, então, esta obra. O nordeste será meramente o palco destas discussões, uma vez que os nordestinos estarão em voga, sobretudo na geração de 30.
Esta obra de Graciliano Ramos é produzida em 1938 e está inserida em um contexto em que nomes consagrados da Literatura Brasileira, como por exemplo Jorge Amado, farão de sua obra um instrumento de denúncia; José Lins do Rego, autor do ciclo da cana de açúcar; Raquel de Queiroz, com O quinze, é a primeira mulher a entrar no universo da Academia Brasileira de Letras. Há ainda, na poesia, nomes como Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. São estes autores que responderão artisticamente ao grande momento de fermentação ideológica e política. Os ideais de comunismo, socialismo, fim de latifúndio serão senso comum entre os intelectuais da época. A ideia de socializar, dar uma condição melhor para empregados também povoarão os ideais desta geração. Toda ela transferirá uma responsabilidade maior para o indivíduo sobre seus atos. Vemos aí a presença da práxis[1] na tentativa de cada indivíduo mudar sua condição.
Vidas secas – que é comparado às vezes a uma metáfora contra o Estado Novo – é composto de treze capítulos autônomos. Estes treze capítulos autônomos formam uma estrutura narrativa um tanto quanto “seca”. O primeiro capítulo, que é intitulado “Mudança”, mostra uma família de retirantes composta – a princípio – por seis membros: Fabiano, Sinhá Vitória, o menino mais novo e o menino mais velho, a cachorra Baleia e um papagaio. Nada é dito ao leitor com relação à origem desta família, assim como nada é dito sobre os lugares por onde eles passam. Da mesma forma, nenhuma informação é dada ao leitor desta obra no que diz respeito ao destino final desta família. Não se sabe para onde a família está migrando. Outro fato curioso é que o autor não dá nenhuma localização temporal. Isto comprova que Vidas secas é uma obra atemporal, clássica, jamais envelhecerá.
O romance apresenta uma estrutura narrativa que pode ser considerada aberta. Graciliano Ramos não é um narrador que conta apenas os fatos que acontecem. Ele dá voz aos personagens para que cada um – inclusive os animais – se coloque enquanto indivíduos naquele meio adverso. Daí se dizer que os animais são humanizados, já que colocam a sua visão com relação a sua condição “humana”. Em contrapartida, os personagens são animalizados. Incapazes de articular seus pensamentos, os personagens podem ser facilmente comparados a um papagaio, que só reproduz. Quando Sinhá Vitória mata o papagaio para que a família o comesse, eles estariam comendo, sim, semelhante, um igual.
Fabiano – que é branco, ruivo e de olhos azuis – é extremamente “seco”, assim como todas os demais personagens. A sina de Sinhá Vitória é almejar a vitória, a estabilidade. Os meninos são igualmente “secos”, uma vez que não lhes é atribuído pelo autor nomes – são somente tidos como o menino mais novo e o menino mais velho. Isto denota uma grande falta de identidade, falta de raízes – que eles estão indo buscar nem sabem onde. Graciliano Ramos, que é dono de um traço pessimista em outras obras, dá em Vidas secas uma tênue esperança. Fica subentendido no final da obra que eles partem para outro lugar, para onde o que importa é que ainda há movimento em busca de vida, mesmo que seja seca.
[1]“Metafísica da vida cotidiana”. In: Dialética do concreto. Karel Kosik. Kosik analisa as mistificações ‘da pseudoconcreticidade’, que é o mundo da ‘reificação’, das aparências enganadoras, dos preconceitos, da ‘práxis fetichizada’. Para não se perder em face dos múltiplos aspectos fenomênicos da realidade que a autêntica práxis vai desvendando, o conhecimento humano precisa discernir no real, a cada passo, a unidade dialética da essência e do fenômeno. Por isso, Kosik insiste no caráter necessariamente totalizante do conhecimento.
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