sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A NOIVA DA CIDADE

O piscar de olhos do padre, ao entrar na nave da igreja, logo após o confissionário, ao contrário do sentimento de indignação provocou-lhe lascívia. Seus pensamentos ruminaram sonhos libidinosos numa explosão de contentamento. Os minutos passaram rápidos e foram se acomodando às visões delirantes do cura sobre ela. A missa corria lânguida, prolixa e inútil. O padre, em seu gestual de santarrão, exclamava expressões repetitivas, ora em latim ora em português, levantando um castiçal reluzente. A moça observava o rito, e o castiçal lhe parecia um grande objeto de desejo. Suas coxas tremiam, suas faces coravam... Era o medo de ser observada. Sua mãe, sentada a seu lado, estava bem distante daquele sentimento que assomava pelo corpo de sua filha. O ato da comunhão, em que a moça pôde sentir o dedo do padre tocando seus lábios para introduzir a hóstia em sua boca, foi o desfecho de seus desejos mais silentes. Olhou para cima e o padre mais uma vez piscara para ela. O piscar era um convite ou apenas seu desejo materializando-se? Ele perceberia? Seu olhar a denunciaria? O toque da língua nas pontas dos dedos que se ofertavam era sentido?

Tinha 14 anos, seus seios eram rijos, com bicos salientes, que tocavam em sua blusa na esperança de respirar. Aquela moça era uma pérola rara, cristal vibrante de luz. Era a noiva da cidade.

Em seus sonhos e, às vezes, pesadelos, a figura mítica do Tutu-Marambá, personagem que seu avô usava como artifício para contar suas histórias, assolava-lhe a mente e a moça ouvia os versos que saíam da canção:
“Tutu-Marambá não venha mais cá
Que a mãe da criança te manda matar''
Tutu-Marambá não venha mais cá
Que a mãe da criança te manda matar''

Acordava quase sempre cansada, porque corria muito nos sonhos com medo de Tutu. Nesses arroubos de medo e fantasia, a moça se descuidava de propósito só para brincar com o acaso. Quem sabe pelo menos um dos marmanjos da cidade estaria à espreita olhando pela vidraça de seu quarto seu corpo acordando, aparecendo leve, moreno, deixando ver seus seios viçosos chegarem à janela, de maneira despretensiosa.

Esta semana seu pai foi para a roça já que tem terras que precisam ser vendidas dada a seca da região. Sua mãe sempre passeia pela cidade. Diz para os vizinhos que o médico lhe recomendara que se distraísse e caminhasse pela manhã. Hoje, sábado, a moça não vai à escola. Levanta-se pelas dez. Seus cabelos negros, longos e soltos... Seus olhos não incham com a noite. Acorda como se não tivesse adormecido. Sua beleza se derrama no quarto e os pássaros dão leveza ao dia com o seu canto.

Fora dali, na rua, seu corpo, seu cheiro, sua pele... não eram sentidos. O dia se repetia como os demais, e a vida da moça transitava entre a virtude e volúpia. Se ela fosse provida de um ouvido sobrenatural conseguiria, sem dúvida, perceber que algo batia diferente na cidade. Desejava escutar o sobressalto do coração dessa gente.

Ela, com seu encanto, chegaria a roubar o sono dessa gente. Todos gostariam de vê-la dormindo toda transparente, com suas lindas pernas entreabertas pressupondo amor? Em seus delírios, todos da cidade, ao redor de sua cama, estariam então entoando uma canção de ninar:

“Boi, boi, boi, boi da cara preta
Pega essa menina que tem medo de careta''

Ricardo Macedo dos Santos

Nenhum comentário:

Postar um comentário