terça-feira, 2 de novembro de 2010

UM DESTINO INEXORÁVEL

- Senhor Mauro Eduardo S. da Costa?
Ao ouvir a voz, Mauro abre os olhos, sentindo-se muito confuso. A visão turvada aos poucos começa a se acostumar com a claridade do local.
- Senhor Mauro Eduardo S. da Costa? – repete a voz.
Mauro repara que está deitado numa cama de um quarto bem iluminado. Ao virar o rosto para a direita, ele vê o dono da voz: um homem bem apessoado, aparentando ter uns trinta anos, com um cavanhaque enfeitando-lhe o rosto, um sorriso simpático e uma foice na mão, em pé ao lado da cama.
- Sim, sou eu, mas onde estou?
- Senhor Mauro, sua hora chegou.
- Como é? Que hora?
O homem solta um suspiro desanimado, demonstrando um forte cansaço ao se apoiar no cabo da foice.
- Eita trabalhinho complicado...
- Onde eu estou?
- No quarto de um hospital particular. Deixa eu resumir a história, para não ter mais complicações: você foi atropelado por um carro, teve um traumatismo craniano e não resistiu.
- Não resisti? Como assim?
- Morreu, meu camarada.
- Morri?
- Morreu... Empacotou, virou presunto, bateu as botas, engavetou, virou comida de minhoca, vai vestir paletó de madeira ou seja lá como você queira chamar, mas o que não dá é eu ficar aqui repetindo tudo toda hora que nem um papagaio. Tenho mais o que fazer. Vamos embora.
- Como assim morri? Não é possível!
- Não é, mas foi.
- Mas ontem eu estava tão bem...
- Ontem, bem, hoje, morto... A vida é assim mesmo, Senhor Mauro. Agora dá aquela aceleradinha aí, porque estou com o dia meio lotado.
- Mas quem é você, afinal?
- Nossa senhora... Vamos lá, faça um esforço e tente adivinhar.
- Ahn... Um médico?
- Médico? Você não tinha palpite melhor, não? Já viu médico de foice?
Mauro olha para a foice com semblante desanimado.
- Não, nunca vi, mas...
- Mas a esperança é a última que morre, não é? Não, Senhor Mauro, sou quem você, lá no fundo, imagina quem sou: A Morte.
- A Morte? Você então não deveria ser uma caveira e usar um capuz preto?
- Bem que me avisaram que a mudança de figurino iria causar problemas... Mas pelo menos mantive a foice, não é mesmo?
- Mas mesmo assim, Dona Morte...
- Senhor.
- O quê?
- Senhor Morte, por favor.
- Ah, claro. Desculpe. É o costume.
- Mas você ia dizendo...
- Claro. Mas mesmo assim, Senhor Morte, eu esperava que, já que o Senhor realmente existe, que pelo menos viria a caráter.
- Olha, tenho o direito de mudar de figurino como todo mundo! E para mim, a foice por si só já basta. Agora vamos, chega de jogar conversa fora.
- Mas isso tudo foi muito repentino... Eu não esperava por isso!
- Ora, não me venha com essa! A única certeza que todos têm é que um dia ou outro irão morrer. Quer dizer, exceto eu, é claro.
- Não pode ser outro?
- Outro o quê?
- Outro dia.
- Não, não pode. Olha só, Senhor Mauro, a culpa não é minha. Não era eu que estava dirigindo o tal carro. Apenas faço meu enfadonho trabalho e é só.
- Ai, meu Deus. Você pelo menos poderia ter me preparado para esse momento!
- Preparado?
- Sei que o Senhor deve ser um homem muito ocupado.
- Não imagina o quanto.
- Pois é. Mas poderia pelo menos ter me facilitado, gastado um tempinho para me preparar melhor para esse momento, e não uma coisa assim tão repentina.
- Ora, mas só me faltava essa! Você queria o quê? Receber uma carta em casa escrito “Bom dia, Senhor Mauro. Prepare as malas, pois você vai bater as botas em cinco dias.” ?
- Não sei. Só sei que não estou preparado agora.
- Olha, isso já não é comigo. Então, pare de atrasar o meu lado e deixe-me fazer meu trabalho.
- Isso vai doer?
- Isso o quê?
- Morrer, ora raios!
- Me diga você. Eu nunca morri.
- E para onde eu vou?
- Ih, isso já é com o responsável de outra repartição.
- Como é?
- Olha, não estou aqui para julgar seu passado, Senhor Mauro. Não me interessa saber se você foi bom ou um crápula enquanto vivo. Não é meu trabalho saber se você vai para um campo florido ou para o poço do fogo eterno.
- Acho que prefiro a primeira opção.
- Imagino que sim. Agora vamos?
- Calma! Olha, deve haver alguma alternativa.
- Alternativa?
- Quem sabe poderia lhe dar algum dinheiro?
- Dinheiro? E para que eu iria querer isso? Comprar uma foice nova?
- Ou talvez um capuz preto novo.
- Dinheiro não me interessa, Senhor Mauro.
- Talvez pudéssemos fazer algum tipo de aposta?
- Como o quê, por exemplo?
- Talvez um jogo de xadrez. Já li em algum lugar que você gosta desse jogo. Se eu ganhar, você me deixa vivo.
- E o que ganho com isso?
- Hum... Alguns minutos de entretenimento, talvez?
- Acho melhor não. Nunca fui muito bom nesse jogo.
- Eu também não.
- E afinal, Senhor Mauro, chantagem e jogatina não vão te levar a uma via expressa para os campos floridos. Agora, levante dessa cama, homem!
A Morte segura Mauro pelo braço e o faz se levantar da cama.
- Por favor, Dona Morte, eu suplico!
- Senhor Morte.
- Claro, desculpe. Mas não me mate, por favor!
- Como assim, Senhor Mauro? Você já está morto.
- Não é possível!
- O senhor é meio cético, não é mesmo? Olhe para trás e veja por si próprio.
Ao olhar para a cama, Mauro vê seu corpo deitado na cama, com um semblante tranqüilo, até mesmo pacífico.
- Nossa, você é rápido nisso!
- É, tenho alguns anos de prática. Acho que agora você já obteve a resposta para sua pergunta.
- Que pergunta?
- Doeu?
- Nem um pouco. Foi mais tranqüilo do que eu imaginava.
- Ótimo, ótimo. Agora vamos. Ainda tenho muito trabalho a fazer. Próximo cliente: Dona Esperança Carneiro Machado, ataque cardíaco fulminante.
- Dona Esperança?
- Sim. Nome curioso, não é mesmo?
- Muito. Mas Senhor Morte, antes de irmos, posso fazer uma pergunta?
- Mais uma? Você gosta mesmo de conversar, não é? Tudo bem, mas tente ser breve.
- Para que serve essa foice se você nem a usou?
- Ótima pergunta. Mas você há de concordar que causa um forte impacto nas pessoas. Já imaginou A Morte sem foice?
- Não, mas também nunca imaginei A Morte sem um capuz preto.
- Ora, chega dessa conversa. Deixe-me riscar seu nome da lista dos clientes do dia.
A Morte retira do bolso um pequeno pedaço de papel amassado.
- Deixe-me ver...
- É isso?
- O quê?
- A tal lista. Não é meio pequena?
- Ora, também sou uma criatura de Deus. Também tenho direito de descansar um pouco.
- Mas mesmo assim, sempre pensei que seria um pergaminho enorme, daqueles bem antigos, sabe?
- Acho que você pensa demais, Senhor Mauro. Agora, vejamos: Senhor Mauro Eduardo Silva da Costa, fora da lista.
- Opa!
- Próximo cliente...
- Espera um pouco!
- Dona Esperança Carneiro...
- Dona Morte!
- Olha aqui, Senhor Mauro, se continuar a me chamar de Dona Morte, eu mesmo te levo na porta do Inferno.
- Eu não sou esse aí!
- Esse o quê?
- Mauro Eduardo Silva da Costa!
- Como assim?
- Meu nome é Mauro Eduardo Soares da Costa!
- Você está brincando, não está?
- Meu Deus! Isso quer dizer que eu então não vou mesmo morrer? Foi tudo um engano?
- Isso quer dizer que eu vou levar uma bronca daquelas, isso sim! Não acredito que fiz isso de novo. Bom, aquela cervejinha no final do expediente vai ficar pra outro dia.
- Graças a Deus!
- Na verdade, foi graças a mim, mesmo. Droga, vou me atrasar todo... Bom, foi um prazer, Senhor Mauro e até outro dia.
- Espere aí! E eu nisso?
- Ah, é, ainda tem isso. Você não pode permanecer morto. Afinal, esse é o único serviço público que não se pode furar fila. Bom, qualquer coisa pense que foi um sonho, alucinação, conseqüência de uma bebedeira ou algo do tipo. Bons sonhos, Senhor Mauro.
A Morte levanta a foice acima da cabeça.
- Quem disse que existem perguntas sem respostas? Basta ter um pouco de paciência, Senhor Mauro.
Uma forte luz emana da foice e a visão de Mauro novamente se turva até cair no breu total.
Ao acordar, Mauro se encontra novamente deitado na mesma cama, no mesmo quarto.
- Senhor Mauro Eduardo S. da Costa? – pergunta uma voz ao lado da cama.
Muito hesitante, Mauro vira o rosto para a direita e vê a dona da voz: uma enfermeira. Ele respira fundo, aliviado. A enfermeira explica a situação: Mauro teve uma síncope causada por pressão baixa e, ao desmaiar na rua, bateu com a cabeça no meio – fio; foi levado ao hospital para fazer sutura no profundo corte na cabeça e apenas iria ficar no hospital para observação por pouco tempo.
Na manhã seguinte ele recebe alta do hospital e pega um táxi para voltar para casa sem conseguir parar de pensar no estranho sonho que teve no dia anterior. Terá mesmo sido um sonho? Uma alucinação causada pela pancada na cabeça? Seja o que for, ele não consegui ficar um segundo sem pensar nisso; tinha sido tudo tão claro, tão real...
Ao chegar em casa, ele joga o molho de chaves numa pequena mesa da sala e repara num pequenino papel dobrado em cima da mesma. Um calafrio sobe por sua espinha. Com as mãos tremendo incontrolavelmente, ele pega o papel, desdobra-o e lê seu conteúdo:
“Bom dia, Senhor Mauro. Prepare as malas, pois você vai bater as botas em cinco dias.”.

Rômulo

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