Dedicado a John Carpenter
- Doces ou travessuras? – perguntou Michael à velha Aretha Jones, na porta de sua casa.
Atrás dele, as crianças da pequena Willows andavam de um lado para o outro em busca de guloseimas, sem importar-se com o vento gelado que soprava ameaçadoramente.
- Oh, feliz Halloween, meu jovem – disse ela enquanto jogava um punhado de balas de caramelo em seu saco laranja, com aquela doçura que fazia as vísceras do garoto se manifestar de forma nada agradável – Se eu não tivesse balas, qual seria sua travessura?
- Nem queira saber... – respondeu Michael secamente, com seu olhar frio e objetivo, enquanto se afastava pensando que lhe contar que o velho Sr. Jones estava tendo um caso com uma aluna vinte anos mais nova que ele, seria uma excelente travessura.
Quando voltou a olhá-la, na soleira do portão, ela estava sendo cercada por um grupo de Telletubbies.
- Isso realmente me assusta – dizia rindo.
Michael olhou para as ruas, a lua, as árvores que ladeavam aquela pacífica cidade e pensou que talvez ela já tivessem tido calma demais por uma vida, uma vez que ele mesmo estava cansado de tudo aquilo; de todo aquele cotidiano hipócrita. Iria colocar um ponto final naquilo e marcar para sempre a todos, lhes tirando o sorriso dos rostos.
- O diabo vai dar uma festa e me encarregou da lista de convidados – disse a si mesmo enquanto depositava o saco de doces em algum lugar do jardim bem cuidado dos Thompson.
Caminhou então fantasmagoricamente, com sua beca branca e máscara prateada, rumo à casa vitoriana onde residia o casal mais antipático da cidade: Paul e Sophie Burton. Pela fachada sem enfeites, as crianças sabiam que eles não estavam dispostos a colaborar com doces, por isso evitavam a casa. Mas Michael tinha assuntos pendentes com aquele senhor.
Há dois dias, quando completou 14 anos, ganhou uma bola de futebol americano e passou o dia jogando com Tommy, seu melhor amigo. Pelo menos até a bola cair no quintal dos Burton, de quem a família de Tommy era vizinha, e ele se apossar dela por pura maldade. Um dos únicos presentes que Michael ganhara na vida e o garoto queria recuperá-la de qualquer maneira. A maldade dele iria...
- O que quer aqui, moleque?! – perguntou o velho de pijamas no momento em que abriu a porta, segurando seu malcheiroso cachimbo.
- Minha bola ou travessuras!
- Ora se não é o Michael maluco. Como é mesmo o seu sobrenome? Myers! Michael Myers! Nome de louco, não é?
- Meu pai quis homenagear John Carpenter.
- O velho Beau Myers é tão louco quanto você. Vem dos genes.
Michael fechou os olhos e comprimiu os lábios com raiva, tentando destilar aquele sentimento que oscilava dentro de sua alma. Por fim, disse deixando claro sua raiva:
- Minha bola ou travessuras, velho maldito!
Meio surpreso com o que acabara de ouvir, o velho o olhou com uma expressão incrédula para dizer em seguida:
- Vá pra casa antes que eu me aborreça seriamente.
Porém, antes que pudesse fechar a porta, Michael sacou uma arma e atirou em sua perna sem demonstrar piedade. O velho caiu urrando de dor enquanto algumas crianças e seus pais se afastavam gritando, assustadas com o tiro. Michael ouviu um deles gritar e sorriu:
- Meu Deus, o velho Burton enlouqueceu.
Calmamente, Michael lhes sorriu e entrou na casa do Sr. Burton, trancando a porta em seguida. O velho estava visivelmente apavorado, dizendo entre soluços:
- S-seu louco... Seus pais vão saber disso...
- Claro que vão, quando você se encontrar com eles no inferno. Quis que eles fossem os primeiros convidados – tirou a máscara prateada, revelando um olho roxo na face machucada – Eles não deviam beber pra me espancar e não deviam ter uma arma guardada na gaveta da cozinha. Vamos, Sr. Burton, onde está a bola? Eu não quero perder a paciência.
Colocou mais três balas no velho 38 de seu pai, então atirou no braço esquerdo do velho, fazendo o sangue espirrar na porta. Seus gritos chamarem a atenção de todos na rua.
- Engole o choro! – disse ele comprimindo os olhos com raiva, deixando algumas lágrimas escaparem – Não chore, moleque. Isso me deixa furioso!
Abriu a porta e sem pensar, atirou em todos os que viu. Uma menina vestida de fada levou um tiro no pescoço, seu pai teve a orelha perfurada por uma bala que se alojou em seu cérebro, um garoto vestido de xerife sentiu uma bala atravessar sua clavícula antes de cair e uma mulher, gritando em pânico, se calou tão logo o sangue amargo sufocou sua garganta, assim que uma bala perfurou seu peito.
- Criança maldita! – gritou consigo mesmo – Não sei por que eu fui ter filhos! – então olhou para o velho Sr. Burton e sorriu transtornado enquanto voltava a fechar a porta – A bola, Sr. Burton – e complementou – por favor.
- N-no quarto... No armário.
Ele sorriu de forma maléfica. Era a personificação da morte, sem dúvida. Burton estava apavorado quando ele o olhou com vida uma última vez:
- Calma, velhote, tem uma só pra você.
Foi o que disse antes de atirar contra a cabeça do homem, que continuou sentado no mesmo lugar, com seus olhos abertos e sem vida. Uma mancha de sangue pode ser vista ali ainda hoje, como prova do evento terrível que a cidade presenciou naquele 31 de outubro.
Subiu as escadas nervoso, mas deliciando-se com a situação. A festa seria um sucesso e o demônio lhe daria todas as glórias.
- Vamos ter tempo pra rir muito disso em uma mesa quente no inferno.
Chegou à porta do quarto e a forçou. Estava trancada por dentro. Alguém soluçava lá dentro, chorando.
- Está aí dentro, Sra. Burton? – disse aproximando o ouvido da porta.
- Eu chamei a polícia! – gritou ela chorando.
- Espero que sim.
- O que você quer, maldito?
- A bola!
- Tudo isso por uma bola?!
- Não, por tudo que o mundo fez contra mim. Eu sou o anticristo, estou aqui a mando do demônio. Vamos, abra a porta, maldita! Não que ver seu marido?!
- Não!!!
- Não a culpo. Do jeito que ele está ninguém vai querer vê-lo.
- Desgraçado! – gritou ela chorando – Você é louco! Louco! Enlouqueceu depois que o padre Temple abusou de você, na igreja!
- Abra a porta maldição! – explodira em uma onda de ódio e desespero, pondo-se a esmurrar e debater-se contra a porta – Abra isso, abra, vamos! Vamos, eu quero forças... Demônio...
Como um possuído, se jogou contra a porta em impactos violentos até que ela cedeu e abriu, revelando um cômodo bem arrumado, com móveis envernizados e projetado com muito bom gosto. Quanto mais via aquilo, mais gostava de pensar que poderia destruir tudo. Aquela vida pacata; aquela gente hipócrita; aquela cidade bucólica e detestável.
Dentro do armário, a Sra. Burton tentava se esconder, mas foi assassinada quando ele o abriu e atirou à queima-roupa contra ela, manchando sua camisola branca de sangue. Na mão da velha estava o gatilho de tudo aquilo: uma simples bola.
Ele a segurou sorrindo, como se empunhasse um troféu. Naquele momento, as sirenes da polícia puderam ser ouvidas, enquanto cercavam a casa. Michael sentou-se na cama e recarregou a arma; em seguida, bloqueou a porta com uma pequena cômoda de cedro. Ao olhar pela janela, viu os policiais correndo ao redor da casa, se posicionando de maneira estratégica.
- Vou me encontrar com muitos deles no inferno, há, há!
Ajoelhou-se ao lado da cama e esvaziou os bolsos, tirando toda a munição que guardara ali, jogando-as sobre a colcha branca.
- Vamos festejar o dia das bruxas!!!
Então levantou uma das balas na altura dos olhos e a guardou no bolso.
- Essa é pro final. Minha passagem pro inferno. Agora, vamos distribuir os convites...
Posicionou a arma, se aproximou da janela calmamente, observando a situação. Então respirou fundo:
- Vamos ver quantos vão ganhar passagens grátis para o inferno.
E começou a atirar, parando ocasionalmente para recarregar a arma enquanto olhava para o corpo da Sra. Burton. Então sorria.
Anderson S. Vieira
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