terça-feira, 2 de novembro de 2010

O TESOURO

O sol estava no seu ápice quando o pequeno barquinho chegava ao litoral da ilha. Suado, cansado e esfomeado – esse era o estado do barqueiro, que remara por todo esse quase – infinito oceano, até àquela ilhota, tendo como companhia apenas uma pá, uma espada e o grande Baú. De noite, guiara-se pelas estrelas e de dia, pelo escaldante sol; e Deus era testemunha de como tinha sido difícil.
Tudo começara com o saque vitorioso – e extremamente lucrativo – a uma pequena cidade. Ele – o capitão Barba Azzur – e a tripulação de seu navio pirata fugiram com o Baú do tesouro. O plano já estava traçado: iriam, como sempre, enterrar o Baú na ilha em que todos os saques estavam escondidos. Porém aconteceu o inesperado: um motim. Toda sua tripulação – aquela outrora fiel marujada – voltara-se contra ele e iria dividir o tesouro entre si. Entretanto, Barba Azzur queria manter o plano inicial, por isso fugiu de seu próprio navio com o Baú, uma pá e sua velha espada. E, com o pequeno barquinho, remara dois dias e duas noites até à ilha; agora era uma corrida contra o tempo: deveria enterrar o Baú num local que só ele saberia e fugir antes da sua ex-tripulação chegar. E isso iria acontecer, pois a ilha era o lugar mais óbvio para procurá-lo.
Pois ali ele estava. Após descer do barco e carregar o Baú até o local mais indicado para o esconderijo, o pirata começa a cavar o solo com a pá, tendo a espada a tiracolo. Após meia hora e muito suor, Barba Azzur pára de cavar, julgando fundo o bastante o novo lar daquele enorme Baú. Porém, nesse instante, algo lhe chama a atenção: ruídos surdos vindo do interior da ilha. Parando até mesmo de respirar para ouvir melhor, ele percebe que os sons são – por mais absurdo que poderia parecer! – do galopar de um cavalo. Mas no meio daquela remota ilha?
E não é que, de repente, do meio da mata do interior da ilha, um homem com um chapéu estranho, um revólver no coldre, uma corda em laço pendurado na cintura, botas com esporas e uma engraçada roupa de couro, aparece galopando um forte garanhão de cor marrom, em direção ao estupefato pirata?
- Parado aí, pirata!
Barba Azzur sai do buraco que acabara de cavar e põe a mão na espada, preparando-se para uma possível batalha.
- Quem é você, cavaleiro?
- Meu nome é Kid Espoleta, o cowboy mais temido do Velho Oeste!
- Kid Espoleta? Que raio de nome é esse?
- Bom... Isso não vem ao caso. Qual o seu nome, pirata?
- Capitão Barba Azzur, o pirata mais temido dos sete mares!
- Nome curioso, não é?
- Por quê?
- Porque você não tem barba.
- Bom... Isso também não vem ao caso.
- E se tivesse, imagino que não seria azul.
- Não é Azul, é Azzur!
- Bom, de qualquer jeito, peço que se afaste do Baú, volte para o barco e se mande daqui.
- Meu amigo, me responde uma coisa. De onde você veio?
- Como assim? Você não viu? Da mata ali, ó! – diz o cowboy, apontando para trás.
- Tudo bem, isso eu vi, mas você mora aqui na ilha?
- Não.
- E como você chegou aqui, então?
- Como que VOCÊ chegou?
- Naquele barco. Que por sinal, você acabou de me mandar voltar para ele.
- E se eu fosse você, aceitaria o convite de muito bom grado.
- Você ainda não me respondeu como que você fez para chegar aqui.
- Senhor Barba, o senhor acha que só você possui um barco em todo o planeta?
- Ah, você veio num barco parecido com o meu?
- É possível, não é?
- Claro que sim, mas só se o seu cavalo viesse nadando logo atrás, porque me dizer que você veio num barquinho com o cavalo é, no mínimo, me chamar de otário.
- Ah, o cavalo... Bom, de qualquer forma, você está fazendo perguntas demais; não estou com espírito para jogar conversa fora. Vim pelo Baú do tesouro.
- Olha moço, me desculpe, mas o Baú é meu. Trabalhei duro por ele.
- Trabalhou duro? Você roubou isso!
- Isso é uma piada, não é? E você acha que você está fazendo o quê?
O cowboy pára, com um semblante pensativo.
- Lá vem você de novo com essas perguntas idiotas. Já vi que serei obrigado a atirar em você.
O cowboy desce do cavalo. No exato instante que ele põe os dois pés no chão e solta a rédea, o cavalo de repente cai no chão, pesadamente, e ali fica paralisado. Tanto o pirata quanto o cowboy dão um salto para trás, assustados.
- O quê, em nome de Cristo, aconteceu com seu cavalo?
Kid Espoleta cutuca levemente o cavalo com a ponta do pé. Nada acontece.
- Ahn... Ele está dormindo.
- Dormindo? Para mim ele parece estar morto, isso sim.
- Ele costuma fazer isso.
- Costuma fazer o quê? Morrer?
- Morrer não, pirata estúpido! Costuma dormir assim, de repente. Deve estar cansado.
- Cavalo estranho, esse seu.
- Vamos deixa meu cavalo em paz e vamos voltar ao assunto. Onde estávamos?
- Você ia atirar em mim.
- Ah, é – diz o cowboy, sacando o revólver do coldre – Sua última chance, pirata. Passe o Baú para cá.
- Mas não vou mesmo. Esse Baú me custou um navio e uma tripulação e não vai ser um cowboy de meia – tigela com um cavalo narcoléptico que vai me tirar o prêmio!
- Amigo, você é o idiota mais corajoso que eu já vi.
O cowboy aponta o revólver para o pirata. Quando ia apertar o gatilho, um enorme estrondo ribomba no céu, seguido de um forte clarão. Kid Espoleta e Barba Azzur fecham os olhos graças à enorme claridade.
- Olá, terráqueos!
O pirata e o cowboy abrem os olhos. O dono da voz era um homem com uma roupa toda prateada e acolchoada; até mesmo suas estranhas botas eram dessa cor.
- Olá, terráqueos! – repetiu o homem, com um sorriso amigável no rosto.
- Quem é você? – pergunta o cowboy.
- Sou o Homem do Espaço.
O cowboy e o pirata se entreolham.
- Como é?
- Sou o Homem do Espaço.
- Qual o seu nome, amigo? – pergunta o pirata, desconfiado.
- Ué! Mas já não acabei de falar?
- Vai me dizer que esse é o seu nome? Homem do Espaço?
- É.
- Ah, mas você tem que ter um nome melhor do que esse.
- Tenho?
- Claro. Homem do Espaço não chega nem a ser um nome.
- Ahn... Bom... Meu nome é impronunciável para sua raça.
- Boa desculpa.
- Bem, eu vim do espaço.
- Óbvio. Por isso que você é o Homem do Espaço.
- Sim, claro. Eu me teletransportei da minha nave, que está a anos – luz daqui, para essa ilha no seu planeta.
- Hum – resmunga o cowboy – E para quê tanto trabalho?
- Olha, na verdade, não é trabalho nenhum. É só apertar um botãozinho azul no painel da nave e...
- Ok, ok... O que eu queria perguntar, na verdade, é: o que você quer aqui nessa ilhazinha no meio desse oceano?
- Ora, vim para pegar o Baú!
- Ah, não é possível! Você atravessou esse espaço todo para vir pegar o meu Baú?
- Meu Baú, você quer dizer! – exclama o pirata.
- Ta bom, nosso Baú.
- Nosso Baú uma vírgula!
- Rapazes – diz o Homem do Espaço – Vamos acabar logo com isso. Não desejo usar a violência.
- Ah, chega! – grita o pirata – Cansei de ser ameaçado por todo mundo. Kid Espoleta, atira nele!
- Kid Espoleta? Que raio de nome é esse? – pergunta o Homem do Espaço.
- Pelo menos é um nome. Mas chega de papear – diz o cowboy e aperta o gatilho.
O som do tiro ecoou por toda a ilha, porém só isso aconteceu. O Homem do Espaço mantinha-se em pé, sem um mero arranhão.
- Ih, acho que você errou, Kid – disse o pirata.
- Ahn... Bom... Isso foi só um aviso! Volta para o espaço e deixa meu Baú em paz!
- Meu Baú, você quer dizer.
- Seja o que for, Barba, mas dele não é.
- Vocês vão mesmo me obrigar a usar a violência, não é? – pergunta o Homem do Espaço, sacando uma pistola bastante futurista, com muitas luzes piscando e uma aparência tão aterrorizadora quanto um filhote de urso panda.
- Quê isso? Uma árvore de Natal em miniatura? – pergunta Azzur.
- Muito engraçado, senhor pirata, porém não vai achar tão cômico quando eu usar em vocês minha Pistola Neuro – Paralizadora Intergaláctica.
- Nossa Senhora! Que nome enorme! – exclama o cowboy – Não tem um nome menorzinho, não?
- Melhor não abusar da ironia, Senhor Kid. Você não irá gostar do resultado se eu apertar o gatilho. É melhor você... Dá licença, posso perguntar uma coisa?
- Claro.
- Esse cavalo está morto?
- Não. Ele está dormindo.
- Mas que hora e local para tirar um cochilo...
- É realmente muito estranho esse cavalo – diz Barba Azzur.
- Deixem meu cavalo dormir em paz. Ele não está incomodando ninguém.
- Tem razão. Pois vamos ao que interessa – diz o Homem do Espaço – Podem passar para cá o meu Baú!
- Meu Baú! – exclama o cowboy Kid Espoleta.
- Meu Baú! – exclama o pirata Barba Azzur.
- Meu Baú! – exclama uma voz próxima.
-... nham... babú... – balbucia uma segunda voz, também próxima.
Os três – o pirata, o cowboy e o Homem do Espaço -, sobressaltados, olham ao redor. Um pouco próximo deles está um homem com uma roupa azul e branca colada no corpo, usando uma pequena máscara em volta dos olhos e uma longa capa azul às costas. Ao lado dele, sentado, um garoto com o mesmo uniforme, porém sem capa, chupava uma pequena pedrinha que achara no chão.
- Parados, vilões! Afastem-se do Baú ou sintam a ira do Homem – Mascarado!
- Homem – Mascarado? Ih, hoje vai ser um dia daqueles... – diz o pirata.
- Quem é você, Homem – Mascarado? – pergunta o Homem do Espaço.
- Sou um super – herói que busca a justiça e por isso vou tomar o Baú, devolvê-lo aos verdadeiros donos e levar vocês três para a cadeia.
- Antes de qualquer coisa, você pode me explicar quem é esse aí? – pergunta o cowboy, apontando para o garoto sentado no chão, que agora chupava os dedos do próprio pé.
- Ah, esse? – responde o Homem – Mascarado com um tom de voz ligeiramente envergonhado – É o meu... ahn... ajudante. È o Menino – Boy.
- Beleza de nome... – diz o Homem do Espaço.
- Mas pelo menos é um nome – diz Kid Espoleta.
- E como você pretende nos prender, Senhor Super – Herói? – pergunta o pirata, desembainhando sua espada.
- Ora, poupe sua energia, pirata. Suas armas não vão fazer efeito em mim, graças à minha super – invulnerabilidade.
- Hum... Bom, eu posso pegar o Baú e me teletransportar de volta à minha nave, no espaço – diz o Homem do Espaço, com um sorriso vitorioso no rosto.
- Ih, isso é mole para a gente, não é, Menino – Boy? – o garoto estava, no momento, mais preocupado em pegar uma borboleta que voava ali perto do que propriamente prestar atenção ao que o Homem – Mascarado falava – Com meu super – vôo eu vou até sua nave, com minha super - força eu a destruo e...
- Que humildade, não é mesmo? - diz o cowboy – Tudo é super nessa história?
- Por isso sou um SUPER – herói, ué!
- Nesse ponto ele tem razão, Kid – diz o pirata – Porém, não lhe dá o direito de pegar o Baú. Homem do Espaço, use sua Arma Neuro – Psiônica Espacial, ou seja lá qual for o nome disso.
- É pra já! – diz o Homem do Espaço, apertando o gatilho da pistola. Muitas luzes piscam e um irritante barulho de sirene é emitido por ela.
- Era para acontecer exatamente o quê comigo? – pergunta o super – herói.
- Acho que era para você ficar paralisado, ou algo do tipo.
- Bom, não funcionou muito bem, não é? – pergunta Kid Espoleta – Minha vez! – e aperta o gatilho do revólver.
E mais uma vez aquele estrondo. E mais uma vez nada acontece.
- Mas que porcaria de arma! – exclama o cowboy, jogando a arma no chão.
- Que porcaria de mira, isso sim! – exclama o pirata.
- Vocês não desistem? Agora vamos, vou levar vocês para a prisão.
- Como você vai fazer para levar todo mundo? – pergunta o Homem do Espaço.
- Ah, na hora eu vejo. O improviso é a alma do negócio.
- Existe prisão para cavalo? – pergunta o cowboy.
- Cavalo? – diz o Homem – Mascarado, encarando o cavalo paralisado no chão – Ah, nem vou me dar ao trabalho. O bicho está morto!
- Ah, chega! Hoje todo mundo resolveu matar meu cavalo! Agora eu vou pro tapa! – e o cowboy sai correndo em direção ao super – herói.
- Ah, era isso que estava faltando! – grita o pirata, correndo também para a briga.
- Esperem por mim! – grita também o Homem do Espaço, correndo em direção a eles, com um sorriso no rosto.
E a briga começou. Um batia no outro, o outro batia no um: eram chutes para cá, tapas para lá e beliscões para acolá. Todos participavam da briga – exceto o cavalo e o Menino – Boy – com um sorriso estampado no rosto, como se aquele fosse o momento mais esperado do dia.
Quando, de repente, o capitão pirata Barba Azzur se levanta – pois todos já se engalfinhavam no chão, cobertos de poeira até o último fio de cabelo -, encarando o vasto oceano à frente com um semblante assustado.
- Ô, droga!
Com isso o pirata consegue chamar a atenção dos outros três, que param de brigar e seguem o olhar do pirata. O que vêem no oceano é um enorme navio aproximando-se da ilha rapidamente; uma bandeira preta com uma caveira desenhada tremulava no mastro principal.
- Ô, droga! – diz o cowboy.
- Ô, droga! – diz o Homem do Espaço.
- Ô, droga! – diz o Homem – Mascarado.
-... anham... brrrllll... – balbucia o Menino – Boy, agora chupando a máscara que tirara do próprio rosto.
- Droga, é a minha ex-tripulação, no meu ex-navio.
- O que eles querem aqui? – pergunta o Homem do Espaço.
- O Baú.
- Deus do céu! Todo mundo quer esse Baú? – pergunta Kid Espoleta.
- Não temam! Eu vou salvá-los! Com meu super – vôo vou até o navio e com minha super – força vou afundá-lo e...
- Olha, pára de tagarelar e faz alguma coisa! – grita Kid Espoleta olhando para o navio, que já se encontrava bem perto da ilha.
- Deixa comigo! – grita o super – herói.
O Homem – Mascarado levanta um braço em direção ao céu, agacha o corpo para pegar impulso – todos olham para ele com esperança estampada no rosto – e salta. E pousa no solo alguns centímetros à frente.
- É isso? – pergunta, incrédulo, o pirata.
- Esse é o seu super – vôo? – pergunta, mais incrédulo ainda, Kid Espoleta.
- Bom, até concordo que não foi um super – vôo, mas foi alguma coisa – diz o herói.
- Não, não foi – diz o Homem do Espaço – Foi um pulinho, e daqueles bem sem graça.
- Ah, já sei. Sua Pistola Neuro – Catalisadora Interplanetária, ou seja qual for o nome, deve ter anulado meus poderes.
- Faz sentido – diz o Homem do Espaço.
- E o que vamos fazer? – pergunta o pirata.
- Calma. Eu posso teletransportar todos nós para minha nave apenas apertando esse botão no meu Painel Portátil Eletromagnético Teletransportador Tridimensional localizado no meu pulso! – diz o Homem do Espaço, apertando um botão num aparelho localizado no seu braço.
Mais uma vez, algumas pequenas luzes piscam, porém nada acontece. Todos encaram o Homem do Espaço com olhares ansioso, enquanto ele dá três pancadinhas com a mão no aparelho. Por fim, ele solta um profundo suspiro.
- Acho que acabou a bateria desse troço – fala, decepcionado, o Homem do Espaço.
- É, acho que agora começo a entender o porquê de você querer o tesouro, Homem do Espaço – diz Kid Espoleta – Você gastou toda sua verba em luzes piscantes e patentes de nomes enormes para os seus aparelhos, mas nada funciona!
- Mas o que vamos fazer agora? – pergunta o herói.
- Tive uma idéia! – exclama o cowboy – Vamos entregar Barba Azzur para eles. Afinal de contas, não temos nada a ver com isso.
- Não vai adiantar nada, ô caipira! Eles também querem o Baú. E vocês não vão desistir do Baú logo agora, à essa altura do campeonato, vão? – pergunta o pirata.
- Não! – gritam os outros, em uníssono.
- Então, vocês estão comigo ou não?
- Sim! – gritam os outros, em uníssono.
- Então, vamos derrotar esses piratas, retomar o navio e... Ô, droga! – exclama o pirata, olhando o navio, que começava a virar sua lateral em direção à ilha.
- O que está acontecendo? Por que ele está virando? – pergunta o Homem do Espaço.
- Eles vão usar os canhões em nós – responde Azzur.
- Ô, droga! – diz o cowboy.
- Canhões? O negócio está ficando barra pesada – fala o Homem – Mascarado.
Eles viram quando, de quatro escotilhas na lateral do navio, os canhões apareceram, ameaçadores. E ouviram as ensurdecedoras explosões, quando os mesmos foram acionados. Apenas fecharam os olhos, esperando o resultado. Nesse instante – quando já era possível ouvir o zunir das balas dos canhões se aproximando – uma voz vinda do alto exclamou:
- Meninos! Venham lanchar!
- Ah, mãe... Logo agora que íamos lutar contra os piratas? – pergunta, decepcionado, Denis.
- Depois do lanche vocês poderão lutar contra quantos piratas quiserem, mas agora vão lanchar que já é hora. E ai de vocês se não taparem aquele buraco que fizeram no meu quintal e não catarem todas essas tranqueiras. Agora vamos e traga seu irmãozinho.
- Ta bom, mãe – responde Denis.
O garoto olha para o quintal. Além do buraco, que deveria tapar de novo, havia: um pedaço de madeira que servira como barco; um navio de brinquedo; uma pá de plástico; uma espada de brinquedo; um cavalo de pau; um revólver de espoleta; um pedaço de corda; uma arma espacial de plástico; um chapéu de pirata, outro de cowboy; uma toalha – agora imunda, por sinal – que servira como capa, entre outras coisas, incluindo, obviamente, o baú recheado de brinquedos. É, era bastante tranqueira para catar.
Ele, então, olha para os amigos: André, com uma fantasia de cowboy, Bruno com uma fantasia imunda de pirata e Djalma – o traje mais engraçado de todos! – estava com fitas isolantes prateadas envolvendo o corpo. Denis então olha para sua própria fantasia de super – herói – ele achava o máximo, mas só tinha um problema: não tinha capa; mas ele improvisara uma -, tira a pequena máscara do rosto, pega seu irmãozinho Lucas no colo e corre para casa, seguido por seus amigos. A fome estava batendo forte.
Os quatro amigos sentaram à mesa enquanto a mãe de Denis dava de mamar para o pequeno Lucas. Os meninos avançam sobre o lanche: sanduíches e leite achocolatado. A mãe falava algo para Denis – provavelmente algo sobre o fato de seu irmão estar imundo também – porém ele não conseguia prestar atenção. Sua cabeça estava, na verdade, longe, pensando sobre piratas, heróis, cowboys, homens do espaço, aventuras. Ele tinha muito que pensar: na continuação da brincadeira. O que iria acontecer com os quatro agora? Eles iriam conseguir fugir dos tiros de canhões? Eles iriam conseguir derrotar os piratas? Claro que sim. Eles iriam se safar dessa. Eles sempre conseguiam se safar. Mas quem – a principal questão – iria ficar com o Baú e todo o tesouro que continha nele?
Inconscientemente, os quatro amigos começam a comer mais rapidamente, ansiosos para voltar à brincadeira. Em certo momento eles se entreolham, com as bocas cheias de sanduíches, e sorriem uns para os outros, contentes com o dia cheio de brincadeiras e aventuras. Apesar de serem bastante jovens – todos tinham apenas nove anos de idade cada um -, eles podiam sentir que aquelas amizades eram verdadeiras.
Definitivamente, aquele tesouro era de todos eles.

Rômulo

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