O(a) amigo(a) já ouviu falar na família Alveolar? Não? Sorte sua. Eu conheci. E saiba que não é só um mosquitinho que tem deixado uma metrópole inteira a beira de um ataque de nervos. Outras bizarrices também têm florido esse belo jardim murcho que muitos insistem em chamar de Cidade Maravilhosa. O que vem a seguir é apenas mais uma folha podre que caiu e que hoje voa até você, leitor(a), através desta curta e intensa aventura grotesca.A família Alveolar, juntamente com a dengue, foi manchete em vários jornais do Rio graças aos irmãos Alveopalatais, que aprontaram grande confusão. Mesmo gêmeos, nunca tiveram problemas por serem parecidos, pois algo os diferenciava: um era Sonoro e o outro, Surdo. Qualquer pessoa ao vê-los, não sabia quem era quem. Mas quando queriam dizer algo, a diferença se fazia nítida. Um falava, falava, falava, não parava, e o outro também era muito comunicativo... em Libras. E assim foi por toda a vida até Alveolar Sonoro começar a namorar. Oclusiva era uma mineirinha linda vinda do interior que tinha acabado de chegar ao Rio.Oclusiva e Alveolar Sonoro estavam felizes. Tudo ia bem. Até o dia em que Alveolar Sonoro viu Oclusiva com outro. E o outro era quem? Seu irmão gêmeo Alveolar Surdo.- Como você pôde fazer isso comigo, Oclusiva? Por que? Hein? Por que comigo? Fala pra mim.- Uái, pensei que fôsse ocê!- Mas você não percebeu nada? Nadinha? Nenhuma diferença? Você sabia que eu tinha um irmão gêmeo, não sabia? Você sabia, não sabia? Você sabia!!! Ele falou algo com você? Não? Claro! E Você nem reparou? E o beijo? O beijo você reparou, não foi? Diz! Diz! Reparou? Hein?- Pois é. Ele xegô pegano eu, beijano eu, nem deu tempo de dizê oi. E nesse trem de bêjo aí, até que ocês são bem dos parecido num sabe?Alveolar Sonoro ficou uma fera! E voltou toda sua raiva para seu irmão.- Ah! E você. Meu próprio irmão! Sangue do meu sangue, não é? É! Por quê? Olhando nos meus olhos, responde pra mim: Por quê? Por quêêêêê?- Uái, ele não é surdio?- É mesmo. Ele é surdo, não é surdo? É sim. Meu irmão é surdo.Ambos começaram a discutir em Libras. De um lado, Alveolar Sonoro dizendo que aquilo tinha sido uma traição, uma apunhalada pelas costas. Do outro, Alveolar Surdo respondendo que sempre foi colocado em segundo plano por ser Surdo. E no meio, Oclusiva olhava para os dois com cara de “o que é que eu estou fazendo aqui?”.De repente, os irmãos começaram a brigar. Oclusiva gritou por ajuda. Uma viatura policial, que passava pelo local, parou para ver o que estava acontecendo.- Seu puliça, seu puliça, desculpa incomodá, mas dá pru sinhô separá aqueles dois ali óh?- Positivo. Vamos proceder na separação dos dois elementos ali avistados.Entra em cena o policial Tepe. Separou os irmãos brigões e quis saber o porquê da briga.- Esse aí, seu policial. Esse aí estava com minha namorada. Estava, não estava? Estava sim. Com minha namorada, minha namorada, não era? Era sim. Era? Não é mais! E você não é mais meu irmão, não é? Não é mais, não!- A senhorita confirma a acusação?- Óia, eu até cunfirmo. Má eu quero ispricá q eu fui inganada, tá?Alveolar Sonoro reagiu.- Enganada, enganada. Enganada é? Você acha? É? Você acha? Enganado fui eu. Fui eu, seu policial. Fui eu! Qual seu nome, mesmo? Tepe, né? Tá escrito Tepe, não é? É. Pois é, Tepe, o enganado aqui sou eu! Chego aqui e vejo meu irmão, meuuuu irmão, sangue do mesmo sangue, não é? Pois é, meuuuu irmão, dando uma fricativa na minha Oclusiva. Pode? Pode? Não pode!- Alveolar Surdo, mesmo sem ouvir uma palavra, fazia caras e bocas do tipo “peguei mesmo!”. E Oclusiva se defendia.- Primêro que não foi uma fricativa.- Não? – Perguntaram Tepe e Alveolar Sonoro.- Não. Foi um trem mais bilabial. – Disse, rindo. – Me deixou toda retroflexa.- Alveolar Sonoro partiu pra cima da Oclusiva. Tepe o segurou.- Pelo o que noto na ocorrência, todos os elementos presentes terão que prestar esclarecimentos na delegacia. Todo mundo pra dentro da viatura, vamo lá!Tepe já saía com sua viatura levando os três, quando apareceu o pai dos gêmeos, o deputado Alveopalatal.- Posso saber o que está acontecendo por aqui, senhor policial?- Bem, três elementos foram detidos por importunarem a ordem e estão sendo levados para a delegacia.- Meus filhos?Tepe olhou com olhos de “tô fudido!” e perguntou:- São seus filhos?- Os dois são. A menina não.- Bem que eu estava achando que a menina tinha sido a grande causadora da briga dos dois. Rapazes, vocês podem ir. Você, menina, vai comigo.- Não vai não. – Surgiu a mãe da Oclusiva, Dona Glide. – O que minha filha está fazendo dentro de uma viatura?- Minha senhora, eu só estou fazendo meu papel de manter a paz nas ruas da cidade do Rio.- E certamente minha filha representa um perigo imenso, não é mesmo?-É...bem...quer dizer...- Tepe ficou sem palavras e resolveu liberar a menina.Dona Glide tomou a dianteira para resolver o problema.- Então, o que aconteceu aqui?- Meu irmão deu uma africada tão fricativa na minha Oclusiva que deixou ela toda retroflexa tanto na lateral quando no palatal dela. – Foi direto ao ponto Alveolar Sonoro.- Não foi uma fricativa! – Foi enfática Oclusiva. – Foi um treco mei labiodental.- Você tinha dito bilabial. – Falou Tepe de dentro da viatura.- É q ocê num viu o que nós fês dentro do seu carro, seu puliça.A confusão voltou. Alveolar Sonoro não sabia se pegava primeiro Oclusiva, ou se dava um jeito no irmão. O pai dos gêmeos, o deputado Alveopalatal, afastava um do outro o quanto podia. Dona Glide, mãe da Oclusiva, perguntava para a filha qual era o envolvimento dela naquilo tudo. Tepe, o policial, pedia reforço pelo rádio. Por falar em rádio, a catarse foi tanta que repórteres de rádio e TV tomaram conta da rua. Rua esta onde eu também moro. Rua esta que, quando me mudei para cá, me garantiram que eu teria paz. Rua esta que... deixa pra lá. Nem espere que eu vá dizer o nome da minha rua, amigo(a) leitor(a). Sei lá se você vai arrumar confusão aqui só pra sair no meu próximo texto.
Dio Costa
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