Dia desses fui, como de costume, ao consultório da minha terapeuta (chique, não?) Coisa boa esse negócio de terapia. Li em algum lugar que fazer terapia é assim: Imagine uma sala escura que você não conhece e em que vai entrar pela primeira vez. O papel do psicoterapeuta é acender a luz. Com a claridade você poderá ver o que tem na sala e decidir o que quer fazer com isso, onde quer sentar, se quer mudar algo de lugar, se vai trocar a mobília ou a cor das paredes, etc. Maravilha, né?
A terapeuta recebeu-me com o carinho e simpatia costumeiros. Notei, no entanto, um detalhe aparentemente irrelevante, mas que acabaria por tornar-se significativo. Ela, coisa rara para não dizer inusitada, usava uma comportada minissaia.
A saia realmente não era curta. Tinha lá suas três ou quatro polegadas abaixo do limite considerado mínimo pelos especialistas, o que, apesar de não garantir a total discrição, representava uma margem de segurança bastante razoável. As pernas tinham contorno adequado, eram pernas maduras, torneadas graças às caminhadas do dia-a-dia, ao contrário das pernas adolescentes forjadas nos aparelhos de academia, que frequentemente avistamos a passeio pelos calçadões-passarelas da cidade.
Tenho uma queda por pernas, confesso. Nada de fetichismo exacerbado, entenda-se, mas prefiro as surpresas das bainhas aos mistérios dos decotes. Não se trata de desprezar um colo voluptuoso, mas as pernas... Ah, as pernas... A curva dos joelhos, o ângulo das coxas, as linhas das panturrilhas, tudo isso atrai o olhar como a flor olorosa atrai a abelha.
A moça caminhou até a poltrona, sentou-se cuidadosamente e, na tentativa de evitar um constrangimento mútuo, sorriu e segurou com força a barra da saia. O meu olhar encabulado, por mais que eu tentasse evitar, insistira em segui-la no trajeto e agora teimava em fixar-se em seus joelhos. Respirei fundo, sorri amarelo e me concentrei num quadro da parede oposta, uma cena bucólica de jardim florido e damas com vestidos até os joelhos.
Conversa vai, conversa vem, cada cruzada de pernas era um exercício tão complicado que os nós dos dedos da moça ficavam esbranquiçados devido ao esforço em manter a saia sob controle. E eu, entre esforçado em relatar minha história e angustiado com o movimento das pernas à minha frente, ia ficando corado e suarento.
Fim de papo, preparo-me para sair: uma rápida olhada em volta, será que esqueci algo? Caminhamos lado a lado até a porta. Cumprimentamo-nos e ela, ainda embaraçada, me pergunta:
- Pode ser quinta às 18? Tenho um cliente que só pode vir às 17...
- Lamento, na quinta tenho joelhos...
- Como?
- Hã?
- Joelhos?!? Você disse joelhos.
- Quem disse joelhos?
- Você! Você disse: "Lamento, na quinta tenho joelhos..."
- Eu? Ehr... Eu disse dentista. Na quinta tenho dentista!
Saí do consultório encabulado. Mas que eram belas pernas... Ah, eram...
César Calheiros
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