terça-feira, 2 de novembro de 2010

A ala proibida

Em memória de Algernon Blackwood (1869-1951)

“Haverá além da noite silenciosa um dia eterno?
Será a morte um caminho que nos leva à luz?
Isso nós jamais saberemos...”
Declaração do liberto.

Ele agora tinha certeza. Um homem o observava pela fresta da porta de seu quarto e se afastara ao perceber que ele estava acordado. Scott pulou da cama assustado; queria gritar, mas não conseguiu. Precisava ir até o quarto de seus pais.
Porém, ao abrir a porta ainda viu o ser que o observava atravessar o corredor arrastando a perna. O medo de ser atacado em sua própria casa por um estranho o fez recuar e fechar a porta.
Seus olhos se encheram de lágrimas ao constatar que havia um fantasma na mansão de sua família. E que caso fosse bater na porta do quarto de seus pais àquela hora, certamente seria repreendido severamente. Nem passou pela sua cabeça a idéia de acordar um dos empregados. Eles nunca acreditariam em um garoto de sete anos. Ou talvez acreditassem, mas iriam embora tão logo o sol nascesse e isso deixaria seu pai irritado.
Sentou-se na cama ainda trêmulo tentando manter-se forte. Seus cabelos castanhos claros desgrenhados estavam sobre seus olhos verdes. A lembrança do fantasma o assustava. E tinha certeza de que era um fantasma, pois se fosse um ladrão, pelo tempo que estava na casa, já teria levado algo.
Há dias estava sendo observado. Não sabia precisar a data, mas fora há quase duas semanas que acordara no meio da noite e vira a figura nefasta à porta, o observando. Inicialmente, acreditou estar no meio de um pesadelo, mas as freqüentes visitas noturnas lhe tiraram essa dúvida.
Voltou a se deitar pensando em seus pais, nos empregados, no fantasma, até começar a confundir os pensamentos. O sono voltara e o conduzia de volta ao mundo dos sonhos doces da infância.


Scott morava com seus pais em Buckhaven, no interior da Escócia pós segunda guerra mundial, que tentava se reerguer a partir do estrago causado por Hitler pelo mundo. Tudo mudara, mas a família do rapaz se esforçava para tocar a vida como se nada daquilo tivesse acontecido.
Jacob e Delilah, seus pais, já estavam à mesa quando ele acordou pela manhã. Os beijou e enquanto bebia seu leite percebeu que seu pai lia o jornal indiferente à sua mãe, que falava incessantemente enquanto ajeitava os cabelos dourados. Delilah era linda e era a que mais se esforçava para fazer com que todos acreditassem que o ditador alemão era apenas uma piada de mau gosto.
- Mãe – disse ele tentando fazê-la desistir de falar – há um fantasma na mansão.
- Oh sim, querido. Coma seus biscoitos.
Voltou a falar sobre o jardineiro com Jacob, que apenas assentia como se estivesse prestando atenção.
Scott perdeu a calma. Querendo uma resposta, continuou:
- Você sabia que há fantasmas aqui, mamãe?
- Fantasmas não existem, Scott – disse ela sem olhá-lo – O que acha de violetas, Jacob?
- Mas eu vi, mãe! – continuou ele inquieto.
- Seus pais estão conversando, Scott. O que eu já disse sobre isso?
- Mas há um fantasma na casa!
- Sim, há! – disse ela perdendo a calma. A guerra e a espera pelo marido a deixaram mais nervosa – É o fantasma da ala proibida. E se você não for obediente, ele virá te buscar e te levará pra lá para todo o sempre!
Oh, que Deus abençoe a inocência infantil. Naquele momento, a explicação de sua mãe pareceu ser a mais óbvia e Scott se calou, recolhido em seus pensamentos. Se existia mesmo um fantasma na velha mansão, só poderia habitar a ala oeste, já que este espaço da mansão era inabitado e proibido.
Não pôde deixar de sentir uma certa fascinação e um receio, em saber que um fantasma vagava pela casa e os observava atentamente, assistindo ao cotidiano de sua família como se assistisse a um filme e depois se recolhia em sua ala.
Ninguém, nenhum ser vivo, entrou na ala oeste desde que ela foi determinada proibida. Os empregados costumavam contar casos terríveis sobre o lugar, trancado há sete anos, depois que fôra palco de uma tragédia.
Comentavam-se sobre a presença de espíritos, sendo percebidos através de vultos, murmúrios, gemidos... Por temerem a ala oeste é que a rotatividade de empregados era tão intensa na velha mansão. E todos os que saíam, se encarregavam de espalhar histórias, muitas vezes fantasiosas, fazendo assim com que os novos empregados nem ousassem se aproximar da ala oeste. A limpeza e a organização das áreas próximas ao temido lugar cabiam à velha governanta Berta, sendo de sua inteira responsabilidade.
Aquela tarde, enquanto se encontrava em sua limpeza diante da porta de cedro que levava até a ala oeste, Berta viu Scott se aproximar curioso do lugar. Sorrindo, ela encostou a vassoura na parede e se aproximou:
- Procurando algo, patrãozinho?
- Não, Berta, só estou curioso.
- E por quê?
- Queria saber por que todos temem a ala proibida. Pra mim parece normal.
- Acredite, patrãozinho, não há o que temer nesse lugar. Às vezes nossa cabeça nos prega peças quando temos medo de alguma coisa.
- Disseram que uma descendente nossa, Grace, acho, matou os filhos aqui depois se matou. É por isso?
- Todos contam muitas histórias sobre essa casa, patrãozinho, mas grande parte delas é falsa.
Scott se calou, subitamente entristecido.
- O que houve? - perguntou ela lhe acariciando o rosto.
- É que... – disse com os olhos cheios de lágrimas – eu queria que fosse real.
- O que?
- O homem que me observa todas as noites.
Berta se arrepiou.
- Que homem é esse?!
-Não sei, mas mamãe diz que é o fantasma da ala proibida.
Mais calma, a velha senhora disse:
- Fantasmas não existem, Scott. Quando alguém morre feliz vai direto pro céu e então...
- E se não morrem felizes, o que acontece?
- Eu não sei, patrãozinho, mas se alguém o observa, pode ser o seu guardião e não um fantasma do mal.
- É o que acontece com quem não morre feliz? Vira um guardião?
- É, talvez – disse respirando fundo com um sorriso enquanto pegava o balde e a vassoura – Mas para tranqüilizá-lo, vou vê-lo antes de dormir, certo?
Ela se afastou ainda sorrindo; era a doçura encarnada. Scott então abriu a mão e olhou para a chave mestra, tirada do escritório de seu pai momentos antes. Estava disposto a vasculhar toda a ala oeste. Mas antes, resolveu encostar o ouvido na porta na esperança de ouvir algo.
Silêncio total. Então, estando prestes a abrir a porta, ouviu um grito de dor do outro lado. O susto o fez largar a chave. Ele a pegou nervosamente e instintivamente, voltou a escutar atrás da porta.
- Está louco, homem?!! – gritou a voz do outro lado em tom grave. Scott arregalou os olhos - O que pensa que vai conseguir com isso?! – voltou a gritar de dor – Você a ama, não é? Você a quer! Eu já desconfiava!
Outros gritos de uma dor agonizante foram ouvidos e por último, Scott ouviu um estrondo, como se o forro do teto estivesse desabando, sufocando a voz.
Ele morreu ali – pensou o garoto enquanto corria assustado até o quintal – Ele está triste e quer conversar. Mamãe diz que isso sempre ajuda.
Porém, imaginar que talvez fosse o escolhido, não lhe agradava nem um pouco. Pelo contrário, o assustava.

Seus pais haviam deixado seu quarto há pouco mais de duas horas e ele ainda não conseguia fechar os olhos para dormir. Por duas vezes percebera que Berta passara pela porta de seu quarto, certificando-se de sua segurança. Isso o fez sentir-se mais calmo para tentar dormir.
Porém, quando o relógio da sala principal badalou doze vezes, seu sono ainda não havia chegado e, de olhos fechados, ficou pensando em coisas que lhe davam sono. Para algumas pessoas não há nada mais incômodo do que tentar dormir sem sono algum, apesar de cansados. E Scott sentia aquilo naquela noite fria de outono.
O vento forte sacudia as árvores do quintal violentamente enquanto os cavalos passeavam inquietos pelo celeiro. Então a porta do seu quarto abriu calmamente, mas Scott percebeu em seu interior que não fôra por ação do vento e fechou os olhos com mais força. O fantasma da ala proibida estava entrando em seus aposentos.
Apavorantemente, o ambiente pareceu baixar sua temperatura, deixando o lugar mais frio do que já estava. Ele entrara pela primeira vez desde que começara a observá-lo. Scott então, apesar do medo, atreveu-se a tentar vê-lo pelos olhos entreabertos.
E não foi uma das melhores visões que já tivera. Era a pior e com certeza lhe marcaria eternamente.
Um homem moreno e de meia idade, Scott notara, com sobrancelhas grossas e uma barba cerrada bem aparada. Vestia um terno marrom, surrado e empoeirado, que sobressaía sobre sua pele branca, levemente arroxeada, e sem vida. Como um zumbi. Mas a leve transparência na aparição o fizera ter certeza de que o que estava ali era um fantasma. Uma alma penada.
Andava de um lado ao outro do quarto, tocando levemente as paredes e os brinquedos do garoto que estavam espalhados pelo chão. Parecia fazer um reconhecimento do local pelo o modo sinistramente minucioso com o qual ele observava cada detalhe do lugar.
Scott estava atento a tudo, observando por entre as pálpebras enquanto fingia dormir um sono tranqüilo e despreocupado. Percebeu que havia um imenso ferimento na nuca da estranha figura pelo qual um filete de sangue escorria interminavelmente. Era apavorante vê-lo daquela forma, com uma expressão tão triste no cadavérico rosto ossudo; tão assustador que a angústia crescente fez as lágrimas encherem seus pequenos olhos. Mas o medo se apoderou completamente dele no momento em que sentiu sua mão ossuda e gelada tocar seus pés descobertos. Talvez ele só quisesse cobri-los, mas era tarde; Scott já gritava apavorado com qual força tinha.
A estranha figura saiu do quarto resmungando e encontrou Berta que, de camisola e toca, ia a auxílio do pequeno Scott. Naquele momento sua expressão esboçou terror e surpresa, empalidecendo rapidamente ao dizer:
- Patrão... É o senhor mesmo?
Ele se afastou sem nada dizer. Ao ver a ferida e o filete de sangue, Berta não conseguiu evitar o que lhe aconteceu. Encostou-se na parede sentindo o peito doer, tentando gritar, mas sem forças para articular qualquer som; não conseguia aceitar o que vira apesar de ser verdade. Então caiu sem se mexer, com os olhos levemente abertos em um rosto terrificado.
Jacob e Delilah apareceram rapidamente, seguidos por outros empregados e a encontraram morta. Infarto fulminante, diriam os médicos.


Scott jamais chorara tanto antes, desde que se lembrava. Berta era muito especial para ele e a perda dela o atingia profundamente. Nada que dissessem ou fizessem apagaria aquela dor, da qual a culpa pertencia ao fantasma da ala proibida. Era capaz de sentir tanto ódio quanto medo.
Quando seus pais voltaram do enterro, ao qual tiveram a sensata atitude de não permitir que ele fosse, encontraram-no cabisbaixo na sala de estar.
Delilah se aproximou carinhosamente dele e sorriu dizendo:
- Não precisa chorar, meu filho. Eu estou aqui.
- Mas Berta se foi, mamãe. Eu a amava e nem pude dizer adeus. Vai ser sempre assim, mamãe? As pessoas que amamos simplesmente vão embora sem se despedir?
- Muitas vezes sim – ela chorava, pensativa - Por isso devemos demonstrar amor antes que algo aconteça. O importante é que ela está em um lugar melhor agora, acredite nisso.
- Ela morreu porque viu o fantasma.
- Querido, sei que eu lhe disse isso, mas, perdoe-me, não existem fantasmas. A nossa religião nos ensina isso, você sabe. A essa hora, Berta não deve nem ter mais lembranças daqui.
- É o que a nossa religião diz, mas não é no que acredito.
- Mas é no que deve acreditar! – disse Jacob se aproximando de maneira rude; os quase cinco anos defendendo seu país pioraram em muito sua personalidade – Já está na hora de você saber que nessa casa não há lugar para lendas.
- Mas há um fantasma vivendo aqui.
Jacob riu ironicamente:
- Um fantasma “vivendo” aqui? Interessante. Quando vim morar aqui não sabia que essa casa podia ressuscitar pessoas.
- Há muita coisa que o senhor não sabe sobre essa casa! – gritou Scott furioso.
A expressão zombeteira de Jacob mudou, deixando-o levemente corado de raiva. Prevendo o que aconteceria, Delilah tentou intervir, mas o marido fez sinal para que não se aproximasse.
Segurou Scott pelo braço com força, o machucando, e disse:
-Vamos acabar com isso agora mesmo!
Jacob o arrastou com força, ignorando os apelos de Delilah para que o largasse. Porém, quando ela se postou diante deles, foi brutalmente esbofeteada e se calou submissa.
O garoto chorava. Sabia que estava sendo levado para a fonte de seus medos: a ala oeste.
Jacob abriu uma das grandes portas empoeiradas e empurrou Scott com força para dentro, trancando a porta em seguida.
- Só sairá daí quando aprender a respeitar os mais velhos!
- Então só sairei daqui quando os mais velhos merecerem respeito!
- Como preferir!
Os gritos desesperados de Scott enquanto socava a porta apavoraram Delilah que, suplicante, implorou ao marido;
- Tire-o de lá, Jacob! Você sabe o que aconteceu naquele maldito lugar!
- Não me venha você também com esses receios idiotas, Delilah! Isso é pura besteira.
- Não é, não! E você só faz isso porque ele não é seu filho.
John Jacob segurou então seu pescoço com ferocidade. Sua testa avermelhada suava, parecia uma fera nervosa ao dizer:
- Algumas coisas devem ser mantidas em segredo, Delilah.
- Por favor, Jacob... O pai dele morreu lá...
- Samson sabia que a estrutura do velho quarto da baronesa estava condenada. O forro desprendeu do teto, foi um acidente.
Seus olhos se encheram de lágrimas:
- Mais um motivo para tirá-lo de lá.
- Eu o tiro de lá quando decidir que já é o bastante.
- Se acontecer algo a ele, eu...
- Você o que?! – disse soltando-lhe o pescoço, arrumando em seguida a cabeleira negra – Está me ameaçando, Delilah?! Cuidado, eu posso levar a sério.
De repente, a janela diante deles se estilhaçou como se alguém a tivesse empurrado com força. Jacob tentou ignorar que sentiu um calafrio, puxando a esposa de lá com força.


Cansado de chorar e bater na porta, Scott se recolheu em pânico observando o ambiente escurecendo com a sutil chegada da noite. A ala oeste, ou ala proibida, era mesmo assustadora. As cortinas vermelhas e rasgadas tentavam proteger as janelas sujas, de onde a pouca claridade que entrava permitia ver-se os móveis velhos, infestados de cupim.
Porém, o que mais assustou Scott foi ver que juntamente com a noite, chegavam pessoas à ala oeste que fingiam não vê-lo. Entravam e saíam dos quartos rindo, chorando ou resmungando. Pessoas de várias épocas, que viveram ali há muito tempo. Pessoas que já não estavam mais entre nós. Mortos.
Tudo estava se tornando cada vez mais perturbador e no momento em que a noite tomou completamente o lugar do dia, ele passou a ouvir choros infantis, gritos de agonia e risadas macabras. Aquele lugar era povoado por almas penadas.
Para tentar se sentir mais calmo, tapou os ouvidos com as mãos e começou a cantar uma canção sobre o mar que Berta lhe ensinara anos antes. Então um garotinho se aproximou dele. Tinha parte do rosto estraçalhado e ria. Um sorriso sinistro, mas ainda sim com inocência infantil.
- Vamos brincar? – perguntou ele dando risadinhas.
- Não!
- Ah, vamos – olhou em volta e baixou o tom de voz, como se lhe confidenciasse algo – Mas longe dos cães do barão... Eles são maus. Veja o que fizeram comigo.
Ele então levantou a blusa. Parte da barriga e do peito não existiam, parecendo terem sido dilacerados por animais selvagens.
Scott gritou apavorado, voltando a bater na porta com força, implorando por ajuda.
Então Berta apareceu, saindo de um dos quartos com pressa. Os pequeninos olhos do garoto se arregalaram com a surpresa e seu coração acelerou os batimentos. Estava aterrorizado.
Berta lhe deu um sorriso amável e disse, se voltando ao garotinho deformado:
- Biff, pare de incomodar meu patrãozinho. Vá se recolher!
- E os cães?
- Os cães estão longe e não podem mais te fazer mau.
Ele sorriu e correu, como qualquer criança preocupada apenas em brincar.
Scott sorriu.
- Você está viva?!
- Em algum lugar, sim. Venha, seu pai deseja vê-lo.
Ela lhe estendeu a mão e no momento em que a tocou, ele sentiu seu corpo gelar de frio. Berta estava levemente arroxeada, mas parecia uma pessoa normal. Um alívio naquele lugar estranho ao qual era conduzido.
- Berta – disse ele olhando em volta - acho que meu pai está lá fora.
- Seu pai está aqui dentro há muito tempo – chegaram até a porta de um quarto e pararam diante dela. Berta suspirou – Entre. Seu pai lhe espera.
Berta virou-se e caminhou lentamente até desaparecer na escuridão do corredor. Scott se viu sozinho diante da porta, que se abria lentamente.
No quarto havia um entulho de madeira que, como pôde perceber, se desprendera do teto há muitos anos. E, olhando para esse entulho, estava seu visitante de todas as noites. Calmamente ele se virou e o olhou, fazendo o jovem pensar em correr. Mas desistiu quando o homem o chamou para perto de si de forma delicada, gesticulando com os dedos. Fitaram-se em silêncio até que, por entre algumas lágrimas, o homem falou:
- Você cresceu bastante.
- O Sr. já me conhece?
- Delilah talvez... Talvez não, ela nunca falou de mim, mas eu sou seu pai.
- Não! – disse indignado - Meu pai está lá fora.
- Aquele não é seu pai. É John Jacob, o homem que nos separou pra sempre. - olhou em volta como se mostrasse o lugar ao garoto – Eu morri aqui. Há muitos anos.
- Por que o sr me visita todas as noites?
- Porque ninguém pode me ver e eu consigo me certificar de que está bem. Faço isso desde que você era um bebezinho.
- Mas eu estou sempre bem.
Estava chorando. A melancólica atmosfera daquele fúnebre lugar provocaria o mesmo efeito até no mais seguro e controlado dos homens.
- Nem sempre você está bem, como agora, por exemplo. Eu te assusto, Scott? Seja sincero.
- Um pouco – respirou fundo e analisou com sua inocência a tristeza daquela situação – Como o Sr. morreu? – e frisou – Desculpe por perguntar.
- Bem, ninguém conhece de verdade ninguém e isso é algo que você não pode esquecer. O ser humano é um excelente ator de acordo com sua conveniência. Isso começa cedo, com a primeira mentira. Percebemos que é mais fácil mentir que encarar os erros, e esse é o maior erro da nossa existência. Pensar que o caminho mais fácil é o mais correto e que os fins justificam os meios – tossiu secamente – Isso deve ter ocorrido a um grande amigo meu. Ele se apaixonou pela minha bela esposa e se tornou um obcecado. Quanto a isso não o culpo. A beleza de Delilah provoca isso nos homens; provocou em mim. Mas ele sabia que enquanto eu estivesse aqui, jamais deixaria qualquer homem se aproximar dela. Então, enquanto fazíamos uma inspeção nesse lugar, ele me atacou a pauladas e me matou aqui, derrubando o forro do teto sobre mim. Pareceu acidente. Depois ele voltou lá e fingiu que achou meu corpo. Como você sabe, a ala oeste que já era tida como assombrada, permaneceu trancada desde então. E você era apenas um recém nascido.
Scott parecia impossibilitado de dizer qualquer coisa; jamais ouvira coisas tão cruéis. O fantasma de seu pai percebeu e o abraçou. Uma frieza se apossou do garoto, como se ele estivesse sem roupas no meio de uma nevasca.
- Desculpe, filho. O tempo me tirou a delicadeza. Mas isso é algo que você deveria saber.
- Por que a mamãe jamais me contou? – perguntou em meio às lagrimas.
- Só ela poderá te responder isso.
- O Sr. sente falta dela?
- Parei de sentir quando ela parou de usar o anel que eu lhe dei de presente no nosso primeiro aniversário de casamento.
- E quando ela parou de usar?
- Quando casou com Jacob.
Scott secou o rosto e se sentou.
- Posso lhe fazer uma confissão?
- Claro, pode confiar em mim.
- Eu jamais amei o Jacob como a um pai. É estranho, mas eu só sinto respeito. Sempre fomos distantes um do outro. Ainda mais após a guerra.
- Talvez em seu coração você sempre soubesse a verdade. Lembre-se, quando seus sentidos lhe pregarem uma peça, ouça o seu coração; ele nunca se engana.
Sorriram um para o outro. Então se ouviu um barulho na porta que separava a ala oeste do restante da casa e a voz de Delilah ecoou nos corredores mortos. Scott virou-se rapidamente e quando voltou a olhar o pai, ele não mais se encontrava ali.
O garoto então saiu do quarto correndo e abraçou a mãe chorando.
- Você está bem? – perguntou ela.
- Por que não me disse?
- Por que não te disse o que?
- Que meu pai morreu aqui e é o fantasma da ala proibida!
- Do que você está falando?
- Meu pai foi assassinado por um homem na ala oeste.
- Não fale besteiras, Scott! Seu pai sofreu um acidente em um dos quartos.
- Não foi! – gritou ele chorando – Eu sei a verdade!!!
- Pára com isso, Scott! Você está descontrolado e está me deixando assustada.
- Me diga, mãe, quem achou o corpo do meu pai ali – apontou para o corredor – Quem o achou lá?!
- Foi o Jacob... – respondeu ela apreensiva – Por que?
Scott a empurrou e correu gritando:
- Assassino!!!
- Scott, espere!
Mas o garoto não a ouvia. Só pensava em seu verdadeiro pai e em seu assassino, que encenara seu papel por tanto tempo. Por instinto, Scott sabia que encontraria Jacob no escritório. Empurrou a porta e o encontrou fumando sossegadamente seu cachimbo. Ao vê-lo, ele disse:
- Sua mãe já te soltou.
- Você – disse chorando sem fôlego – você matou meu pai.
Jacob arregalou os olhos e se levantou, depositando o cachimbo sobre a escrivaninha.
- Quem te disse uma asneira dessas?
- Meu pai! Na ala proibida.
- Eu sou seu pai!
- Não, não é. Você é apenas o homem que nos separou pra sempre.
- Se continuar com essas asneiras, eu vou prendê-lo na ala oeste por um mês.
- Eu não tenho mais medo de lá! Você é que tem que ter. Você vai pra cadeia.
Jacob riu.
- Mas você é só uma criança, não tem como provar nada.
Delilah entrou no escritório naquele momento e parou perplexa, olhando Jacob:
- Você está admitindo isso?!
- Ora, Delilah, você não vai dar ouvidos a uma criança, vai?
- Claro que não, mas você não deve agir assim com ele. Ele esteve assustado preso naquele lugar sombrio, teve alucinações e além do...
- Não foram alucinações! – gritou Scott – Eu vi meu pai. E ele disse que a Sra. não devia ter parado de usar o anel.
- Como? – disse ela chorando.
- Que anel é esse?! – gritou Jacob.
- O anel que ela parou de usar quando casou com você.
- Como você pode saber disso?! – ela soluçava – Só eu sabia.
- A Sra. e o papai.
Suas lágrimas rolaram com mais intensidade pelo seu rosto alvo. Jacob não sabia o que pensar; tentando parecer forte, ele tirou o cinto e avançou contra o enteado.
- Vai aprender uma lição, garoto.
- Dessa vez não! – gritou Delilah se colocando diante do filho – Você não vai bater nele!
- Se você não sair da frente...
- Para machucar meu filho vai precisar me matar antes.
- Matar não, mas você pediu por isso, Delilah! – gritou ele investindo contra a esposa.
No momento em que o cinto zumbia no ar em sua direção, Delilah viu estarrecida o braço direito de Jacob paralisado no ar, fortemente seguro por Samson.
Scott sorriu enquanto sua mãe o abraçava apavorada, dizendo:
- Meu Deus do céu...
Jacob empalideceu imediatamente, tentando vencer o medo e olhar para o lado. Seu corpo tremia com a estranha friagem que percorria seu corpo.
- Sabe que dia é hoje, amigo Jacob? – falou Samson com sua voz fria e etérea – Hoje faz exatamente sete anos que você me matou na ala oeste. Pelas costas, lembra-se disso?
- Eu... Eu não sei do que está falando.
- Claro que sabe, covarde! Mata pelas costas, agride mulheres e crianças... Covarde, apenas um covarde!
Jacob sentiu uma força erguer seu corpo e jogá-lo contra a parede. Delilah gritou assustada.
Scott então percebeu que várias pessoas caminhavam por ali os observando. Alguns ele já vira antes, na ala proibida. Pessoas que estavam mortas.
Samson se aproximou com uma expressão mórbida e fitou Jacob, que estava apavorado.
- Diga a todos, covarde – falou ele firme – Diga o que você fez?
- E-eu não fiz nada!
- Diga a verdade. Será que não tem nem coragem de assumir?
- Dizer o que? Que eu te matei? – disse ele tentando parecer forte e sem medo do que via – Eu te matei! E teria feito de novo! Pela frente, se necessário fosse.
Jacob então rolou pelo chão, se apoiou e pegou sobre a mesa um canivete usado para abrir correspondências, o cravou no braço de Delilah, a empurrando em seguida para agarrar Scott de forma ameaçadora.
- Se você não sumir, eu matarei seu filho!
Os olhos da forma espiritual de Samson Riley se avermelharam e ele explodiu em risadas escandalosas assustadoras. Jacob então perdeu a noção e sem pensar tentou esfaquear o garoto, mas a arma foi arrancada de sua mão pelo fantasma mais rápido do que sua mente podia processar.
- Largue-o – ordenou a figura espectral.
- Nunca!
Ele então puxou o garoto com força e tentou correr para fora. Scott se debatia inutilmente.
Delilah não podia mais suportar aquilo, ver seu filho daquele jeito. Os anos de omissão pesaram sobre ela de forma a fazê-la, furiosa, pegar o canivete e investir contra ele.
- Eu confiei que você seria um bom pai!
Mas Jacob segurou seu braço a tempo e a empurrou com força. Delilah desequilibrou-se, caindo de costas sobre a mesa do escritório.
Scott tentou correr e foi puxado pelos cabelos antes que pudesse socorrer a mãe, que parecia estar atordoada.
Samson então, calma e delicadamente, se aproximou de sua ex-esposa e a ergueu nos braços a acalentando.
- Samson... Por que me deixou? – disse murmurando enquanto chorava nervosa.
- Se a escolha tivesse sido minha, eu jamais a deixaria.
- Eu fui cega, meu amor.
- Sempre há tempo para se redimir.
- Você esteve sempre por aqui e eu nunca vi, por que? Por que não falou comigo? Por que não veio até mim quando eu te chamei durante a noite, enquanto chorava sua falta. Por que?!
Ela se levantou de pé e o encarou. Parecia o mesmo homem a quem amou há muito tempo. Tentou acariciá-lo. Sua mão o atravessou. Levou então a mão a boca em um gesto de surpresa e se recolheu envergonhada.
- Eu posso tocá-la; você não.
- Eu te amei tanto... – ela chorou ainda mais.
- E você foi a única a quem amei.
Ela tentou se aproximar, mas ele olhou para a porta. Delilah acompanhou seu olhar e entendeu.
- Nosso filho precisa de nós.
Foi a última coisa que disse antes de desaparecer. Ela sabia que não mais o veria, queria ter dito outras mil coisas se soubesse disso. Mas a situação a impedia de pensar racionalmente e encarar que era apenas uma aparição. Seu marido não voltara a viver. Então correu pelos corredores aflita, olhando para todos os lados à procura de Jacob e Scott.
Diante da escadaria que levava ao sótão encontrou Biff, o pequeno deformado. Antes que pudesse repudiar sua aparência, ele apontou para o alto em um gesto silencioso. Delilah sorriu agradecida. Olhou para os empregados que chegaram ali guiados pelo som da confusão e ordenou gritando:
- Chamem a polícia!!! Há um assassino na casa!
Foi como se anunciassem que explodiriam uma bomba. Todos correram de um lado para o outro, atordoados, pensando no que fazer.
Delilah subiu ao sótão tentando estancar o sangue do corte em seu braço, nervosa.
Encontrou Jacob ameaçando jogar seu filho da janela.
- Largue-o Jacob! – pediu ela suplicante – Ele não tem nada com isso. Mate a mim.
- Eu nunca te mataria! Preciso de você viva para fugir comigo. Vou usá-la como refém.
A tempestade que ameaçara cair durante toda a tarde sobre Buckhaven, desabou após um forte trovão seguidos de raios luminosos, que riscaram o céu enegrecido.
- Venha, Scott – gritou Jacob nervosamente – Vamos sair daqui.
Saíram pela pequena porta de acesso ao telhado e sentiram o golpe violento da chuva fria.
Scott estava apavorado, ouvindo sua mãe gritar por ele, chorando, sentindo um medo que jamais sentira ao ter a certeza da loucura de Jacob.
- O que vai fazer comigo? – perguntou Scott assustado.
- Ande! – ordenou ele.
Caminharam com cautela sobre o telhado, que podia levá-los até o velho celeiro condenado.
Delilah preferiu não esperar que a polícia ou o fantasma de seu marido a ajudasse; passou pela portinhola levantando o vestido e tentou segui-los.
- Pare, Jacob. Isso já foi longe demais!
- Volte, Delilah! Para seu próprio bem.
- Deixe o Scott voltar! Eu vou com você. Faço o que você quiser.
Sob a chuva forte, Jacob estendeu a mão.
- Então venha.
Ela se precipitou em passos leves. Os trovões ensurdecedores a assustavam. Então escorregou, mas voltou a equilibrar-se.
- Volte, mamãe, por favor! – gritou Scott chorando.
Ela não o ouviu, continuou andando, mas o telhado molhado e o peso de suas roupas encharcadas a fizeram escorregar novamente. Um raio riscou o céu atingindo uma árvore diante da casa. Gritando desesperada, sentiu seu corpo se arrastar pelas telhas avermelhadas, chorando muito. Só se lembraria mais tarde que sentiu seu corpo se chocar contra o gramado e desmaiou sob a forte tempestade.
Scott a tudo viu com seus olhos tristes, gritando por sua mãe, que naquele momento julgava morta. Uma sensação de perda e desespero se abateu sobre ele e pôs-se a bater em Jacob com raiva. Jacob apenas segurou seu pescoço e o apertou com uma expressão de ódio e um certo medo.
- Vá fazer companhia a ela então!
Um relâmpago clareou momentaneamente o ambiente e Scott viu seu pai. Aproximava-se por trás de Jacob calmamente, segurando uma estaca grossa e extensa de madeira com a qual o golpeou. Jacob tonteou, mas se equilibrou e soltou Scott, o empurrando sem piedade.
O menino caiu de costas no telhado e escorregou gritando. Porém, no momento em que sentiu o ar frio e a chuva o envolver completamente, entrou em um estado de êxtase, sentindo que flutuava. Não poderia explicar ao certo o que sentiu com suas palavras, mas lembra que no momento seguinte se encontrava molhado e em segurança no sótão de casa. Ouviu então um grito meio abafado pelo estrondo da tempestade e se levantou, correndo até a portinhola.
Viu Jacob levar um novo golpe desferido por seu pai, cambalear e cair, rolando telhado abaixo. Não ouviu nenhum barulho, nada que indicasse que ele caíra no chão molhado. Mais tarde ele saberia que a queda de Jacob fora amparada pela cerca de metal em forma de lanças que o perfuraram bem no meio do corpo, o matando.


Passaram-se dois meses desde os terríveis eventos daquela noite. As pessoas ainda comentavam o estranho caso de horror vivido por Scott e sua mãe. Os empregados ajudaram a espalhar a história, em boa parte a enfeitando bastante. Algumas versões se distorciam um pouco, mas em um ponto todas combinavam; a mansão que já tivera muitos nomes e atualmente era conhecida como mansão Blackwood, erguida há dois séculos, era assombrada pelos espíritos das pessoas que ali viveram.
Dois dias depois dos eventos aqui narrados, Delilah e Scott pegaram suas coisas e trancaram a mansão, acompanhados do chefe de polícia local.
- Por que resolveram partir? – perguntou ele os ajudando com as malas.
- Por que? – disse Delilah seriamente – Porque ela agora é a mansão proibida e não cabe mais a nós ocupá-la
- Não cabe a ninguém nesse mundo, mamãe – disse Scott segurando sua mão. Olhou o anel em seu dedo e sorriu – Esse é o anel que o papai te deu?
-É sim – disse sorrindo pela primeira vez em dias – Voltei a usá-lo hoje como sinal de fidelidade aos meus sentimentos. Seu pai merece isso.
Os dois caminharam juntos de mãos dadas. O chefe de polícia respirou fundo e olhou para cima. Sua expressão mudou e sentiu seu corpo inteiro tremer. Havia pessoas paradas diante das janelas os observando com expressões sérias e frias. Arregalou os olhos e voltou-se assustado para Delilah e Scott, que se viraram calmos.
- Viu algo, chefe Boyle? – perguntou Delilah.
- Sim... – ele voltou a olhar pra cima e as janelas estavam vazias – Bem, quero dizer, não! Não vi ninguém lá em cima!
Eles então se afastaram com passos firmes deixando a agora mansão proibida para trás.

Anderson S. Vieira

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