segunda-feira, 23 de maio de 2011

O PLANO

Já era hora de falar com o professor, todos estavam apreensivos devido às notas anteriores terem sido, de maneira geral, baixas. Mas, eu já sabia o que iria ocorrer: prova final! Fui até onde estava, vi a nota, assinei o papel e, por nervosismo, comecei a rir. Meus amigos que já sabem como sou entenderam: estava em prova final. O que eles não imaginavam é que eu havia ficado em prova final por um ponto...
Ao final da aula, ele comunicou à turma que estaria disposto a conversar com quem quisesse vista de prova. Numa tentativa, em vão, fui procurá-lo e argumentei que ele havia sido rígido demais na correção da primeira questão. O resultado já era o que eu esperava: não houve mudança na nota. Passei o dia irritada, porque sabia que havia sido pessoal, outros alunos haviam cometido o mesmo erro que o meu e ele não foi tão rígido na correção como foi comigo. Só havia um jeito de mudar aquela situação: tentar uma conversa a sós, na esperança de sem outros alunos por perto, ele considerar.
Mandei um e-mail na mesma tarde, propondo conversarmos no final daquela semana ou quando melhor fosse para ele. Na manhã seguinte, obtive resposta e para minha surpresa ele aceitou, mas não poderia ser para o final da semana como propus, teria que ser no começo da outra. Passei o final de semana todo pensando se deveria fazer o que estava pensando: seduzi-lo! Tentei me distrair para não transparecer para ninguém o que pensava em fazer, só eu e ele saberíamos.
No dia marcado acordei cedo, me perfumei, me maquiei, usei um vestido bem decotado e provocante, pus um salto alto e fui à faculdade. Havíamos marcado no refeitório, já que seria uma conversa informal. A me ver, se levantou e sorriu, mas não transpareceu nada, a não ser uma modesta cordialidade. Aceitei me sentar na cadeira que ele havia puxado, cruzei as pernas e o olhei, mas não era o mesmo olhar de sempre, havia malícia em meu olhar e, para minha surpresa, ele me lançou um olhar discreto, porém sutilmente sensual, um olhar que só eu e ele entendemos.
A conversa já havia mudado de curso há alguns minutos e aquela altura eu já não mais sabia quem seduzia quem, só pensava numa coisa: diga o local e vamos logo! Ficamos mais alguns minutos, rimos um pouco e então ele se deu conta que já era hora de ir para seu outro trabalho. Nos levantamos e houve um longo silêncio, nos olhamos e então perguntou se estava indo para casa ou se tinha algum compromisso. Entramos no elevador e lhe respondi que tinha o resto do dia livre e então fui surpreendida mais uma vez: me convidou para almoçarmos juntos. Tentei transparecer certo desdém, lhe dizendo que não havia vindo preparada financeiramente, dei um sorriso sem graça e olhei para baixo. Ele levantou meu queixo e disse que minha companhia era o suficiente, que não me preocupasse e sorriu. Aceitei.
Caminhamos juntos em direção ao estacionamento. Aquela altura ele já não estava tentando disfarçar nada, ao menos não para mim, deixando bem claro qual seria o cardápio. O estacionamento estava um pouco escuro, pois havia deixado seu carro no subsolo. Loucura ou desejo incontido ele fez o que qualquer homem em seu lugar faria: me empurrou para a parede atrás de mim e me beijou. Foi um beijo forte, cheio de desejo e um certo tom de selvageria. Parou, segurou meu rosto entre as mãos e me olhou fixamente. Ficamos assim alguns minutos até que escutamos passos e nos recompusemos, caminhando discretamente. Entramos e novamente me agarrou, agora com certa indiscrição, já que do lado de fora não se via o que ocorria entre nós devido aos vidros escuros e também à pouca luz. Decidimos ir para um lugar mais sossegado e, assim, fazermos o que realmente queríamos sem nos preocuparmos se alguém nos veria.
Passados alguns minutos, lá estávamos. Sem dizermos nada, nos abraçamos, nos olhamos e nos beijamos, mas desta vez sem a ferocidade anterior, agora o fazíamos com carinho e as carícias quem as faziam eram nossos lábios. Nos despimos, com toda a calma e sensualidade que um momento como este necessita e, finalmente, nos embebemos um com o sexo do outro. Por fim, ficamos abraçados nos olhando e nos acariciando até que nos demos conta que havíamos passado a tarde juntos. Ele devia explicações ao trabalho e eu precisaria de uma boa desculpa ao chegar em casa tão tarde se só iria conversar por alguns minutos com o professor. Nos vestimos sem pressa, já que de qualquer forma estávamos atrasados, ele pagou a conta e, para minha surpresa, me deixou na porta de casa. A gentileza me comoveu.
Ao chegar ao meu destino, o circo já estava armado. Minha mãe me esperava com seriedade à porta. Ao me deparar com seu rosto sem expressão e o olhar fixo, me sobressaltei de susto. Tentando não contar exatamente o que havia ocorrido, expliquei que perdi a noção do tempo por ficar conversando mais do que somente a prova com o professor e que se achasse necessário que telefonasse para a faculdade e perguntasse na portaria o horário de minha saída. Rezei para que não ligasse. Não fez. Mas, me fez prometer que se o mesmo voltasse a ocorrer que telefonasse avisando que me demoraria, pois ela ficava preocupada. Por fim perguntou-me qual havia sido o resultado da conversa. Ri e lhe expliquei que havíamos conversando muito sobre literatura, mas que nem por um segundo me lembrei de lhe perguntar. Ela estranhou no inicio, mas devido à minha personalidade distraída, fui salva. Lhe expliquei que enviaria um e-mail para ele mais tarde lhe perguntando. Foi o que fiz, mas além da resposta me foi perguntado algo que nunca esperaria ouvir. Me confirmou que me passaria, mas que a forma com a qual lhe devolvi o favor havia sido modesta demais e ele queria mais e me perguntou se estaria livre no fim de semana. Não lhe respondi de imediato, não sabia ao certo o que responder. Pensei e repensei e cheguei a uma divina conclusão: ele trabalhava em outro lugar e sempre enviava convites aos seus alunos para conhecer o local e assistirmos a palestras. Inclusive minha mãe mais de uma ocasião me perguntou por que não ia. Resolvi assim: à ele lhe respondi com sinceridade; à minha mãe lhe dei uma desculpa. Chegado o dia ele preferiu por me buscar em frente ao meu prédio, nos dirigimos ao local programado e nos tomamos como já era previsto.
O que de inicio era uma vingança passou a ser um romance. A aluna passou a ser amante. Passamos a nos encontrar toda semana. O pagamento agora se chamava paixão. Passaram-se meses até que ele veio com uma conversa que não esperava: me disse que se havia apaixonado. Largaria mulher, trabalho para ficarmos juntos, conversaria com minha mãe... Não quis! O encantamento se quebrou. O perigo me excitava. Não queria carinho ou qualquer outro sentimento. Vingança era o que me acometia.

Lília Durán

Nenhum comentário:

Postar um comentário