Ausente Ocupado Invisível
Fulano está solteiro(a) há 14 minutos. Beltrano está em relacionamento enrolado(a) há 33 minutos. Virei a ampulheta... O tempo corre e você precisa encontrar a sua cara metade. Sicrana também? Solteiro(a) há 2 minutos. Como assim? Como alguém se apaixona ou desapaixona em tão pouco tempo? Cronometrado, medido! Será que isto aconteceu diante de um monitor? Diante de milhares de testemunhas virtuais? Curti! Sicrana curtiu Fulano. Será que ela gostou de saber que Fulano não ama mais. Agora, há 16 minutos? Seria essa informação um anúncio publicitário? Vende-se Sicrana, solteiro(a) há 18 minutos. Vejam como eu penso, o que eu escrevo, onde moro, o que eu gosto de fazer... E as fotos? Assim, essa aqui... De ladinho... Encolhe a barriga, empina a bunda. Gostosa. Quem dá mais? Quem dá mais? Comprei, ou melhor, curti! Já se passaram 25 minutos e nada. Me curtiram... Não gostei! Deleto! Como assim? Extermino sem piedade! Era um "fake", mas... E se não fosse? Esquece! Nem lembro mais para ser sincero. Vou desligar. Preciso comer alguma coisa. Estou desde ontem conectado... Que dia é hoje?
Cale-se enquanto isso...
O amor vai além do discurso. Não se mede em palavras. O amor é tudo! O início e o fim. É a certeza... A entrega completa. A perfeição no oblíquo, a ciência no insano. O amor é assim... O resto é apenas desejo... Desejo de amar. Então, quando me procurar e me disser que me ama... Cale-se! Você só pensa em você!
Sufocar que seja (Não é necessário por aspas em textos nem para iniciar o corpo do texto. A voz do narrador já se impõe sozinha.)
Você pode falar e escrever o que quiser. Nada daquilo que foi lido ou dito pode ter significação correspondente. O inefável só pertence a mim! Sufocar o pensamento é a pior das agressões.
Raio XOlhe a fotografia. Eles estão abraçados e celebram aquele momento único. Especial talvez... Para eles, é claro! Mas o que os levou até ali? O que os levou a registrar e compartilhar aquela cena? Ela, uma "puta"! Mal caráter de carteirinha, profissional da cobiça. Alguém suficientemente incapaz de se sustentar por meio do seu próprio esforço... Sempre em busca de mordomia. Prazer barato proporcionado pelo que o dinheiro pode comprar. Racionalidade monetária. Corpo e sentimento em leilão. E ele? Inexpressivo. Funcionário bem remunerado por desempenhar a sua própria anulação. A empresa o adora. Escova os dentes depois das refeições, controla sistematicamente a conta bancária, ações, investimentos... Usa terno todos os dias. Viagens a trabalho, a negócios... Com ela também, é claro! Nas férias, é óbvio! Compram perfumes no Dutty Free. Conversam sobre a vida.
É... Guardarei a fotografia. Quem sabe não a uso na próxima pesquisa da escola da minha filha. Sempre pedem para colar em uma cartolina. Talvez, peçam exemplos de casais que se amam, felizes".
“Cegueira”_
_Hã?
_
_Não entendi...
_
_Não entendo esses sinais... O que isto quer dizer?
_
_Ele é “mudinho”, “tadinho”.
O surdo sorri. Acha graça da própria exclusão. Quantas vezes ele já passou por situações constrangedoras como esta... Por quantas ainda irá passar? Possivelmente, já se acostumou com esse tipo de comentário ignorante e preconceituoso. Mas por que isso? Por que o tratam como “anormal”? Mas... O que é ser “normal” nesse mundo de diferenças? Mundo de multiplicidades culturais, globalização, da miscigenação étnica, do medo de burlar... Mais ainda! Desde quando essa “pseudonormalidade” pode ser considerada como uma referência absoluta?
Certamente se o sujeito conhecesse a Língua Brasileira de Sinais ou tivesse acesso a Lei número 10.436 de 24 de abril de 2002, ele não cometeria tamanho desatino. Por outro lado, é fácil de se entender o porquê de tamanha ignorância. Os veículos de comunicação, embora obrigados oficialmente, não disponibilizam espaço para os que não ouvem.
Para se entender um pouco melhor a surdez, genericamente, podemos classificá-la de duas maneiras: a perda da audição durante a vida adulta e o surdo pré-lingual. Elas se diferem pela percepção de seus problemas e por meio de suas necessidades. Os pré-linguais, muito embora aceitem com maior facilidade esta perda, têm enormes dificuldades de comunicação. Por sua vez, descobrem a sua própria língua, de natureza visual-motora.
A perda auditiva pode ser: leve, moderada, com possibilidade de audição por meio de aparelhos, acentuada, severa e profunda.
Vale ressaltar também a perda sensorial. Esta, a forma mais grave. Ela impossibilita a compreensão da voz humana e a percepção precisa do som. Percebe-se tão somente sons graves e fortes. Há ainda, os hipersensíveis. Para estes, o som provoca dor.
É... O surdo sorri novamente e diante da perplexidade do ignorante. O cidadão se abaixa, apanha a carteira do sujeito, a entrega e sai em seguida silenciosamente.
“Obrigado, “mudinho”. Eu não vi que a minha carteira tinha caído...”
Tarifa“Vai me dar um dinheiro? Vai ou não? Se me der um dinheiro pode até ser...”
Não sei ao certo o porquê deste diálogo ter me despertado tanto interesse. Sinceramente, eu não quero acreditar na possibilidade de ser mais uma vítima do mundo hipermoderno, do capitalismo exacerbado e de todos os “hipers” possíveis e inimagináveis deste organismo vivo e devorador, entretanto, por alguns instantes me concentro naquela conversa e divago.
Sim! É verdade. Se uma viagem de ônibus pode se transformar em um excelente exercício de observação da vida alheia, tentar entender o que se passa pela cabeça das pessoas, então, ultrapassa os limites do discernimento. Beira a insanidade!
Pois bem, eis a cena: sem titubear, aquele menino implora por carinho, pelo colo e concorda com o que a sua mãe pede. Claro! O moleque não tem a mínima noção do que aquilo representa nem mesmo o bonequinho verde, brinde promocional da mais famosa fast food mundial, é capaz de trazer-lhe sentido. Seria indício do surgimento de uma geração sem referências e ideologicamente esvaziada? Surgimento mesmo ou tão somente manutenção dela?
“Vai me dar um dinheiro? Vai ou não? Se me der um dinheiro pode até ser...”
“Vou, mamãe! Vou!”
Após alguns míseros minutos de afagos, ela se irrita com a própria angústia e passa novamente a criança para os braços da avó.
“Vem, amor. A vovó compra uma revista para você quando chegarmos lá.”
Puxo a cordinha. O próximo ponto é o meu.
Beijarei tua boca tão somente isso...
"Beijarei tua boca até engolir a sua língua! Beijarei tua boca até que nossas almas se misturem em saliva! Beijarei tua boca até seu sexo derreter por entre suas pernas! Beijarei tua boca até o cheiro se tornar mais forte do que o seu gosto.
Beijarei tua boca tão somente isso...
Quatro dias de CarnavalO que de pior pode se ver não é nem sombra do que alguém pode tentar guardar como segredo. Quantos são os que se escondem atrás das máscaras e que não percebem que o carnaval dura apenas quatro dias.
Sem pudoresEla costuma se olhar no espelho enquanto se lambuza com o falo. Em um determinado momento, a mocinha interrompe o ato e diz: preciso de dinheiro. Imediatamente, preencho um cheque. Ela não para. Entrego-lhe a folha e ouço sua voz... Falando baixinho: desculpe ter te pedido grana, assim... Tão sem pudores!
Sorriso de CelofaneConversas no "reservado":
_E aí, Barcelos, tudo bem com você?
_Tudo bem...
Percebo Barcelos reticente e sigo em frente.
_Aconteceu alguma coisa, meu caro mestre?
_É... Aconteceu...
_O que houve, Barcelos?
_Descobri que por tanto tempo dediquei o meu amor por tão pouco.
_Como assim?
_Redes sociais são um paraíso para investigadores solitários, curiosos patológicos, obsessivos depressivos...
_Desembucha, Barcelos! Desembucha!
_Encontrei na internet, o perfil da mulher que mais amei na minha vida.
_E aí, Barcelos? E aí?
_Olhei algumas fotos. Ela não está sozinha...
_Está triste com isso, meu caro?
_Sim, querido... Estou.
_Não fique assim, meu amigo. Sofrer por amor é inerente ao ser humano. Acontece com todos...
Barcelos me interrompe como quem se engasga com a própria saliva.
_Não, meu querido! Não é nada disso...
_O que foi então, Barcelos? Por que está triste então?
_Estou triste, porque paguei adiantado a minha terapia. Não gasto mais um centavo com esse assunto.
De fato, Barcelos sempre achou frescura esse negócio de divã.
Garantias por tempo indeterminadoBarcelos é o típico malandro agulha. Quantas vezes se faz de bobo para sair de uma saia justa. Certo dia, conversávamos animadamente no boteco do portuga lá na Glória. Enquanto degustávamos salaminho e entornávamos algumas geladas, perguntei-lhe como quem não quer nada sobre o casamento: "E então, Barcelos, quando você casa com a Desiré? Mulher apaixonada deve ser levada para o altar antes que seja tarde."
Barcelos sorriu, palitou os dentes e me respondeu: "Altar? Só se for para o sacrifício. Mulher nunca se apaixona, apenas te usa por conveniência. Daqui a pouco muda de operadora, troca o chip e distribui o telefone para um bocado."
Me surpreendi com a revelação e continuei: "Mas Barcelos... E todo aquele amor entre vocês?"
"Ué... É o de sempre! O do momento, presente. Ela só não joga a sua agenda telefônica fora. Está tudo anotadinho a caneta. Garantias por tempo indeterminado."
"Traz mais uma bem gelada, portuga!"
Fartar-seQue tal um chope? Sugere Barcelos. Prefiro destilado, responde Desiré. Gosto de Scoth, sem gelo. Te acompanho. Não. Eu bebo uma cerveja. E o destilado? Insiste ele. Peça uma água sem gás. Salada? Bife com fritas. Muita gordura. Barcelos e Desiré se levantam e saem sem consumir nada. Não pagam sequer o couvert artístico. Foram a um motel e se fartaram de amor...
220A conheci em uma night. O clima esquentou. Ferveu! Fomos ao seu apê. Apalpei-lhe os seios. Ela gritou: devagar! São 220 ml. Uma fúria animal me fez puxar suas madeixas. Ela suspirou: gastei 500 pratas no mega hair. Decidi possui-la sobre o piano de cauda. Ela gritou: não! Vai desafinar! Pôe o preservativo. Não tomei o remédio. Não gosto assim. Cuidado com o móvel. Comprei um Mac lanche feliz e ganhei o bonequinho do "Coisa". Melhor!
Passa a cachaça pra cá!Fomos a um barzinho de esquina da Rua da Glória. Uns 20 amigos. Homens e mulheres. Barcelos pediu uma aguardente daquelas de arder o rabo e uma vitamina mista. O garçom que nos servia, colocou os dois copos sobre a mesa. A bagaça para Barcelos e o suco de saúde para Desiré. Ela gritou: machista de merda! Passa a cachaça pra cá!
Tia OdeteBarcelos comprou uma rosa para Desiré. Ela, apesar do bafo de cana, retribuiu o carinho com o beijo "isolados no mundo". Sabe quando tentamos conversar com um casal, mas nos sentimos meros oportunistas dos seus momentos de distração um do outro. Pois é, "isolados no mundo". Depois do beijo e de sentir o perfume da flor, Desiré virou-se para todos e disse: me lembrei da tia Odete. Fomos ao enterro dela.
Alexandre Calheiros
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