“QUEM LÊ TANTA
NOTÍCIA...?”
por
Ricardo Macedo dos Santos
Seria verossímil um cubano levantar
pela manhã e ler no jornal: Estados
Unidos são rebaixados?... Alguém acreditaria que em Patolândia os irmãos Metralha
estariam trabalhando como caixas em um supermercado? Você acreditaria que Tio
Patinhas casou com Margarida e hoje os dois trabalham como voluntários em obras
sociais em Patolândia? Será que você
poderia crer, se eu lhe dissesse que o professor Pardal foi reprovado em um
concurso de ideias para inovação tecnológica no qual participava Pateta,
detentor do prêmio? Não, claro que não, eu também, que escrevo essas linhas,
não poderia acreditar. Mas é a verdade.
É como resgatar o “chame o ladrão” do
Chico. Tudo está de ponta- cabeça. Nos jornais desta última semana, as notícias
davam conta de que a Apple tinha mais dinheiro em caixa do que o próprio
Tesouro norte-americano. Wow, diria qualquer um que tivesse dormido durante
vinte anos e acordasse hoje. Li neste dia,
no O Globo, digno representante do pentágono na imprensa brasileira, que
os EUA haviam sofrido um revés em seu nível de risco. De AAA cairam para AA+.
Para Tio Manoel, que costuma
compreender tudo literalmente, foi somente uma mudança no código da pilha
palito. Tia Albertina quase se mijou de tanto rir quando soube da conclusão de
titio. O fato é que as notícias são tão inimagináveis que ficamos tontos ao
sabermos que a China, sim, a mesma China de Mao, é a maior credora dos EUA.
Como o Tio Patinhas suportou esse descalabro? Soube de Mickey, que o velho pato
capitalista foi internado com uma crise depressiva em um hospital público de
Patolândia. Está na UTI desse hospital e teve que aguardar na fila para poder
ser atendido. Comenta-se, “a boca pequena”, ou seria “a bico pequeno”? que
Patinhas, além de ter milhares de ações do Banco Lehman Brothers, que causou a
crise de 2008, teria emprestado sua moeda n° 1 a Obama, para o presidente fazer
lobby junto aos congressistas republicanos.
Como suportar isso o coração de um pato?
Uma zona total, disse titia ao ler as
últimas notícias na Internet. Fiquei aguardando dela um comentário mais
acadêmico, não tão frouxo, no entanto, ela resolveu se calar. Disse para titia
que as coisas dos yankees não poderiam trazer reflexos em nosso ânimo. Eles que
se danassem. Afinal de contas, acho que tudo isso é uma colheita, uma espécie
de castigo por tudo que esse país tem causado à humanidade. Houve muita
semeadura. As duas bombas atômicas jogadas sobre o Japão na II Grande Guerra,
as mortes que inflingiu ao povo vietnamita, o maldito conluio com os governos
militares na América Latina, a destruição dos países árabes, as incursões
sigilosas de seus órgãos de inteligência espalhados em todo o mundo, resultando
em mortes e desaparecimento de pessoas...
São muitas sementes – muitos descalabros criminosos.
Tia Albertina acha que já tem gente em
Miami que quer pegar seu barquinho e
remar de retorno à Havana.
Há em Cuba um silêncio mordaz. Imagino
o seguinte quadro onírico: Estão José Martí, Che Guevara, Fidel Castro e seu
irmão Raúl sentados na areia da praia. Brincam cercados por crianças com
uniformes escolares, das cores de sua bandeira. São os melhores alunos do Mercosul. Bem em frente à praia está a Flórida. Ali
mora o berço da fantasia, mas também para lá foram crianças sequestradas em
Cuba nos idos de 1960. Crianças que jamais conheceram seus pais legítimos.
Guevara olha aquele lugar distante e sonha com um mundo diferente onde haveria
a paz, a concórdia e a justiça. Imagina o surgimento de pessoas bem-educadas,
consoantes à sua pátria, em unidade com um só pensamento, um só objetivo de
vida: servir à nação e receber dela segundo suas necessidades.
Tia Albertina desconfia que o
capitalismo está em seu leito de morte. De repente, Tio Manoel se retira da
sala para poder ouvir o jogo do Vasco. Ficamos ali então eu e minha amiga, a
mulher de melhor senso crítico deste planeta, a cofiar os bigodes de nossa
perplexidade. Como confiar nas notícias
e como não nos deixar levar por comentários dos derrotistas de plantão. Parece
até que já vimos várias situações semelhantes.
Do outro lado, no velho continente, a
Europa se escondeu e as notícias do mercado comum já não pululam com tanta
ênfase.
Contei para titia que tenho
visto muitos filmes ultimamente e um dos melhores que vi foi “21 anos em um
dia”. Ela me perguntou então de que se tratava, mas sempre indo além do
raciocínio comum. Falei-lhe que essa obra analisa a participação dos EUA,
leia-se Lincoln Gordon, Presidentes Kennedy e Johnson, no golpe militar de
1964. Ela logo concluiu: “Já sei, é uma denúncia irrefutável da ignomínia, do
dano, da covardia, presentes nas ações norte-americanas que deram suporte
à ação dos militares durante os anos de
chumbo no Brasil.” Disse-lhe que sim com o meu olhar.
Tio Manoel entra de novo na sala e faz
uma cara de muxoxo. Além do Vasco estar perdendo, o assunto não era do seu
agrado. Tia Albertina só faltava xingar titio. Meneava a cabeça e prosseguia se
queixando de um mundo que não depende mais da gente para ser melhor e agora nem
dos opressores para ser pior.
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