quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

“QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA...?”


QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA...?”

 

por

Ricardo Macedo dos Santos

 

         Seria verossímil um cubano levantar pela manhã e ler no jornal: Estados Unidos são rebaixados?... Alguém acreditaria que em Patolândia os irmãos Metralha estariam trabalhando como caixas em um supermercado? Você acreditaria que Tio Patinhas casou com Margarida e hoje os dois trabalham como voluntários em obras sociais em Patolândia?  Será que você poderia crer, se eu lhe dissesse que o professor Pardal foi reprovado em um concurso de ideias para inovação tecnológica no qual participava Pateta, detentor do prêmio? Não, claro que não, eu também, que escrevo essas linhas, não poderia acreditar. Mas é a verdade.

         É como resgatar o “chame o ladrão” do Chico. Tudo está de ponta- cabeça. Nos jornais desta última semana, as notícias davam conta de que a Apple tinha mais dinheiro em caixa do que o próprio Tesouro norte-americano. Wow, diria qualquer um que tivesse dormido durante vinte anos e acordasse hoje. Li neste dia,  no O Globo, digno representante do pentágono na imprensa brasileira, que os EUA haviam sofrido um revés em seu nível de risco. De AAA cairam para AA+.

         Para Tio Manoel, que costuma compreender tudo literalmente, foi somente uma mudança no código da pilha palito. Tia Albertina quase se mijou de tanto rir quando soube da conclusão de titio. O fato é que as notícias são tão inimagináveis que ficamos tontos ao sabermos que a China, sim, a mesma China de Mao, é a maior credora dos EUA. Como o Tio Patinhas suportou esse descalabro? Soube de Mickey, que o velho pato capitalista foi internado com uma crise depressiva em um hospital público de Patolândia. Está na UTI desse hospital e teve que aguardar na fila para poder ser atendido. Comenta-se, “a boca pequena”, ou seria “a bico pequeno”? que Patinhas, além de ter milhares de ações do Banco Lehman Brothers, que causou a crise de 2008, teria emprestado sua moeda n° 1 a Obama, para o presidente fazer lobby  junto aos congressistas republicanos. Como suportar isso o coração de um pato?

         Uma zona total, disse titia ao ler as últimas notícias na Internet. Fiquei aguardando dela um comentário mais acadêmico, não tão frouxo, no entanto, ela resolveu se calar. Disse para titia que as coisas dos yankees não poderiam trazer reflexos em nosso ânimo. Eles que se danassem. Afinal de contas, acho que tudo isso é uma colheita, uma espécie de castigo por tudo que esse país tem causado à humanidade. Houve muita semeadura. As duas bombas atômicas jogadas sobre o Japão na II Grande Guerra, as mortes que inflingiu ao povo vietnamita, o maldito conluio com os governos militares na América Latina, a destruição dos países árabes, as incursões sigilosas de seus órgãos de inteligência espalhados em todo o mundo, resultando em mortes e desaparecimento de pessoas...

        São muitas sementes – muitos descalabros criminosos.

         Tia Albertina acha que já tem gente em Miami que quer pegar seu barquinho e  remar de retorno à Havana.

         Há em Cuba um silêncio mordaz. Imagino o seguinte quadro onírico: Estão José Martí, Che Guevara, Fidel Castro e seu irmão Raúl sentados na areia da praia. Brincam cercados por crianças com uniformes escolares, das cores de sua bandeira. São os melhores alunos do Mercosul.  Bem em frente à praia está a Flórida. Ali mora o berço da fantasia, mas também para lá foram crianças sequestradas em Cuba nos idos de 1960. Crianças que jamais conheceram seus pais legítimos. Guevara olha aquele lugar distante e sonha com um mundo diferente onde haveria a paz, a concórdia e a justiça. Imagina o surgimento de pessoas bem-educadas, consoantes à sua pátria, em unidade com um só pensamento, um só objetivo de vida: servir à nação e receber dela segundo suas necessidades.

         Tia Albertina desconfia que o capitalismo está em seu leito de morte. De repente, Tio Manoel se retira da sala para poder ouvir o jogo do Vasco. Ficamos ali então eu e minha amiga, a mulher de melhor senso crítico deste planeta, a cofiar os bigodes de nossa perplexidade.  Como confiar nas notícias e como não nos deixar levar por comentários dos derrotistas de plantão. Parece até que já vimos várias situações semelhantes.

         Do outro lado, no velho continente, a Europa se escondeu e as notícias do mercado comum já não pululam com tanta ênfase.

         Contei para titia que tenho visto muitos filmes ultimamente e um dos melhores que vi foi “21 anos em um dia”. Ela me perguntou então de que se tratava, mas sempre indo além do raciocínio comum. Falei-lhe que essa obra analisa a participação dos EUA, leia-se Lincoln Gordon, Presidentes Kennedy e Johnson, no golpe militar de 1964. Ela logo concluiu: “Já sei, é uma denúncia irrefutável da ignomínia, do dano, da covardia, presentes nas ações norte-americanas que deram suporte à  ação dos militares durante os anos de chumbo no Brasil.” Disse-lhe que sim com o meu olhar.

         Tio Manoel entra de novo na sala e faz uma cara de muxoxo. Além do Vasco estar perdendo, o assunto não era do seu agrado. Tia Albertina só faltava xingar titio. Meneava a cabeça e prosseguia se queixando de um mundo que não depende mais da gente para ser melhor e agora nem dos opressores para ser pior.

 

 

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