sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

DIÁLOGO


DIÁLOGO[1]

por
Sill Claudio Lopes Furtado

Antunes possuía uma vida plana, pacata, sem ondulações, completamente uníssona, previsível, poderia mesmo se dizer estável no significado mais extremado do termo.  Casado, morador do bairro de Higienópolis, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em um apartamento alugado de dois quartos, pintado com cores neutras, com sua mulher Ana e seus dois filhos, o menino Antonio, que herdara o gênio do pai, calado, quase autista, porém estudioso e responsável e uma menina, Mara, obediente, religiosa e zelosa com as coisas do lar, como a mãe.

Desde a infância, Antunes evitava conversas, discussões, nem pensar, nas peladas com os moleques da rua, preferia o gol.  Poucos são os que se preocupam com a técnica ou a tática empregada pelos goleiros, não deixar a bola entrar bastava. Afinal aquelas explicações e debates ao fim do jogo deixavam-no intranquilo e na sua visão eram desnecessários. Afinal o resultado não poderia ser mudado. 

No esporte, o futebol, o atraía, mas escolhera para torcer o São Cristovão Futebol Clube, o alvinegro da Leopoldina, campeão em 1930 ou 1933, sei lá, não importa, o principal é que não havia outros meninos com quem tivesse de dividir sua paixão e perder tardes e noites discutindo sobre os lances, as infelicidades, os gols perdidos e a falta de engajamento dos atletas que não demonstravam seu amor pelo seu glorioso.

A vida escolar trazia algumas complicações, todavia, destacava-se nas ciências exatas, simplesmente porque elas eram como ele imaginava o mundo, simples e sem senões, não havia tentativa persuasiva que convencesse quem quer que fosse que a raiz quadrada de sessenta e quatro não era oito.

A língua, não era seu forte, adorava o sujeito oculto, tinha certa simpatia pelo indeterminado e pelo passivo, porém detestava o composto. Agora, se a mestra ameaçasse chamá-lo para interpretar algum texto, por mais simples que fosse o pequeno Murilo (este era seu primeiro nome), se estremecia todo, ficava com urticárias, gaguejava e danava a chorar.  Decididamente, não seria um bom orador, político nem pensar.  

Nas outras disciplinas, talvez por seu bom comportamento, concordava com tudo e com todos, não teve maiores dissabores, seus professores sempre o promoviam ao ano seguinte.  Certa vez, na aula de biologia tivera dificuldade para entender o mecanismo da metamorfose como forma de proteção natural, não conseguia entender a naturalidade do recurso utilizado. 

A vida avançou Murilo agora já era um rapaz, Murilo Antunes Calado, prestou serviço militar no exército brasileiro.  Soldado muito conceituado, Calado, era seu nome de guerra, entendeu perfeitamente o papel que deveria desempenhar para dar sua contribuição à pátria, obedecer sempre seus superiores e realizar as tarefas sem questionamento.  Era a época do regime de exceção, da ditadura.  Bons tempos aqueles.

Calado, posteriormente saiu do exército antes de ser promovido a cabo.  Houve mudanças no país e na estrutura das Forças Armadas que não o satisfizeram, além do que, deixando de ser proscrito, deveria expor suas idéias a um pequeno grupo de comandados o que poderia ser desgastante, provavelmente alguns discordariam (o novo regime já o permitia), haveria debate e ele odiava polêmicas.

O jovem Murilo sente que seu corpo anseia por um complemento, busca um adjunto para o restante de sua existência.   Nos bailes (como eram conhecidos as baladas, a night ou o pancadão de hoje) que freqüenta, seu jeito introvertido acaba dividindo opiniões, algumas meninas o acham misterioso e praticamente imploram por uma palavra de carinho.

Em uma tarde dessas que se destacam das outras seja pela clareza e luminosidade ou pelos fatos eloqüentes que a circundam, Calado avistou Ana, vestida de azul claro, tristonha, sentada sozinha na mesa em frente à lanchonete do Clube de Sargentos do Rocha, onde a matinê havia sido cancelada e as atrações remarcadas para o sábado seguinte, se não houvesse outros imprevistos que não as impedissem.  

Certamente você deve estar se perguntando quais foram os imprevistos que impediram a matinê daquela tarde luminosa do baile do Rocha em que Calado conheceu Ana, mais infelizmente Calado nunca disse uma só palavra sobre isso.

 

 

 

O que realmente importa é que Antunes ao conhecer Ana, sentiu que ela era sua cara metade, sua alma gêmea, a goiabada para o seu queijo, a tampa da sua garrafa, a linha para sua agulha e o chinelo para seu pé descalço.  Afinal Antunes, falava pouco ou quase nada, mas seus hormônios o faziam sentir intensamente o que não sabia expressar.

O namoro foi quase automático, sem maiores delongas, Ana, moça de família, filha única, católica fervorosa, prendada, simples e muito dedicada à mãe Luzia, deficiente visual, viúva de um militar há mais de quinze anos, como todas as raparigas da época tencionava encontrar um rapaz sério e trabalhador que a levasse ao altar.

A reputação de Antunes falava por si só.  Sisudo, porém honesto, tímido, mas, sobretudo trabalhador, bom filho estava sempre ao lado da mãe, Dona Inês, também viúva que infelizmente por ocasião da morte do esposo em um acidente com explosivos, perdera definitivamente a audição, fato que em nada diminuíra a estima que nutria por seu filho Calado.

Um fato veio a antecipar os planos de matrimônio de Antunes e Ana. Passeavam pelas ruas tranqüilas do bairro, Inês e Luzia, quando não se sabe bem de onde, surge uma vemaguete em alta velocidade e num descuido visual de Luzia e apesar dos gritos dos transeuntes que não foram ouvidos por Dona Inês, colheu as duas senhoras, colocando Luzia em estado grave no Hospital Salgado Filho no Méier, ato contínuo Inês é morta.

Ana e Antunes se calam perante os acontecimentos, ele mais uma vez órfão, ao perder sua confidente sente que ninguém mais vai ouvi-lo com a mesma doçura.  

Ana ainda tem a esperança que a providencia divina não lhe faltará, infelizmente, o destino também retira Luzia, que não resistiu aos ferimentos, de sua vida, falta-lhe a partir de agora a luz que guiava seus caminhos, tudo parece ser revestido por trevas, ainda bem que Ana tem o consolo dele, Calado.

Ana, filha única de pai militar, na falta da mãe, passa a receber a pensão do genitor, propõe a Antunes a junção dos trapos, morarem juntos (regime precursor da união estável) e Calado, para não perdê-la (não se sabe se a companheira ou a pensão) aceita. 

Para Antunes a não formalização do casamento fora uma saída bastante conveniente, proclamas, testemunhas, a famosa resposta à pergunta do padre, nada disso o agradava muito, além disso, o importante era a junção das vidas numa só carne, uma só idéia e, sobretudo numa só palavra.

Vieram os filhos, primeiro Mara, linda, delicada, lembrava à avó paterna, chorava pouco, dispensava maiores cuidados, desde cedo cativava o pai, era capaz de ficar horas e horas a contemplá-lo sem exigir um só murmúrio ou exclamação de satisfação ou agrado.

Antonio, Toninho como era pouco chamado, trazia nos olhos um que de auto-suficiência, de conhecimento interior que dispensava maiores explicações, aprendera todas as operações e as letras instintivamente, possuía as melhores notas da sala, lembrava muito ao pai, porém não comungava da mesma paixão pelo São Cristovão, preferia dedicar-se entusiasticamente ao Bonsucesso, mesmo contrariando às pretensões implícitas de seu genitor.

Exímio escrevente processual, Calado fazia a sua profissão como verdadeiro sacerdócio, concursado que fora, mesmo tendo zerado a prova oral, que era apenas classificatória, havia ido tão bem na etapa escrita que foi aprovado.  Quando chamado para a posse não foi contemplado com tarefas edificantes, o que não o agradou, porém não esmoreceu e continuou calado.

Antunes já não é mais o mesmo de antes, sua vida profissional passa por turbulências que jamais imaginara enfrentar.  Acusado de corrupção passiva, Calado prefere silenciar por entender que o silêncio é a principal arma dos justos e que dessa forma pautou toda a sua vida.

Exonerado, injustamente, sente que a família é agora seu único porto seguro, volta ao seio do lar, com imensa dificuldade em encarar sua mulher e filhos, pois poupara a todos das agruras que vinha atravessando.  Suas feições são outras, seu semblante pesado, o olhar firme e sereno de outrora mareja com a lembrança dos verbetes terríveis proferidos contra ele.  Regurgita ainda a impressão causada pelos vocábulos, as interjeições e as exclamações usados para lhe acusar.  

Julgado e sentenciado, mesmo tendo exercido o direito de permanecer calado, Calado fora injustiçado e destituído daquilo que havia conseguido por direito e mérito próprio, a palavra de outrem, não a sua, que o uso tanto evitara, se voltara contra ele e o igualara ao mais vil dos seres, o que não tem dignidade, serventia, pois perdera seu objeto de labor e com ele a sua voz.

Murilo, sentindo-se mudo diante dos fatos, eleva seus pensamentos aos céus, recorre às orações que aprendera na infância, mas sente intensa dificuldade de manter ligação espiritual com Deus.  Sempre preferira as preces tradicionais, prefeitas, pois que não clamam pela dialética, basta a simples súplica e o merecimento para serem atendidas. Modernamente, dizem os espiritualizados ser necessária a comunhão de mentes e espíritos para conseguirmos as graças solicitadas.

No silencio de seu interior, Antunes toma uma decisão e resolve poupar àqueles que ama ensurdecedoramente, de seus infortúnios.  Manter-se-á calado diante dos acontecimentos e ele, Calado, sairá de casa.  Seus filhos já estão criados, sua mulher recebe a pensão paterna do exercito que é o bastante para mantê-la e além do mais são fortes e como ele Calados, não merecem o exprobro público.

Calado sai de casa pela manhã bem cedo, não consegue mais encarar a mulher e os filhos, deixa apenas um bilhete onde pede que não o censurem e que os ama com toda a força que suas palavras não serão capazes de traduzir.  A luz do dia que raia no horizonte é sua única testemunha.  A vida parece se lhe esvair e a angustia em seu peito prenuncia a realidade de seu novo mundo.

Desde o início do relato das desventuras de Antunes Calado, muitos anos se passaram.  Calado, maltrapilho e desnutrido, leva a vida sem maiores pretensões como um morador de rua comum.  À noite, divide um barraco com outros sem terra, sem família, sem voz e sem dignidade, no Morro do Quieto e durante o dia pode ser visto pelos passantes mais atentos, pelas ruas sombrias da Cidade Maravilhosa, com as mãos estendidas, suplicando: Dialoguem comigo pelo amor de Deus.

 

 



[1] Trabalho apresentado ao Professor André Scucato como requisito parcial para aprovação na disciplina Tópicos Especiais do curso de Letras da Faculdade CCAA. Rio de Janeiro. 08 de novembro de 2011
 
 

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