DIÁLOGO[1]
por
Sill
Claudio Lopes Furtado
Antunes possuía uma vida
plana, pacata, sem ondulações, completamente uníssona, previsível, poderia
mesmo se dizer estável no significado mais extremado do termo. Casado, morador do bairro de Higienópolis, na
zona norte da cidade do Rio de Janeiro, em um apartamento alugado de dois
quartos, pintado com cores neutras, com sua mulher Ana e seus dois filhos, o
menino Antonio, que herdara o gênio do pai, calado, quase autista, porém estudioso
e responsável e uma menina, Mara, obediente, religiosa e zelosa com as coisas
do lar, como a mãe.
Desde a infância, Antunes
evitava conversas, discussões, nem pensar, nas peladas com os moleques da rua,
preferia o gol. Poucos são os que se
preocupam com a técnica ou a tática empregada pelos goleiros, não deixar a bola
entrar bastava. Afinal aquelas explicações e debates ao fim do jogo deixavam-no
intranquilo e na sua visão eram desnecessários. Afinal o resultado não poderia
ser mudado.
No esporte, o futebol, o
atraía, mas escolhera para torcer o São Cristovão Futebol Clube, o alvinegro da
Leopoldina, campeão em 1930 ou 1933, sei lá, não importa, o principal é que não
havia outros meninos com quem tivesse de dividir sua paixão e perder tardes e
noites discutindo sobre os lances, as infelicidades, os gols perdidos e a falta
de engajamento dos atletas que não demonstravam seu amor pelo seu glorioso.
A vida escolar trazia
algumas complicações, todavia, destacava-se nas ciências exatas, simplesmente
porque elas eram como ele imaginava o mundo, simples e sem senões, não havia
tentativa persuasiva que convencesse quem quer que fosse que a raiz quadrada de
sessenta e quatro não era oito.
A língua, não era seu
forte, adorava o sujeito oculto, tinha certa simpatia pelo indeterminado e pelo
passivo, porém detestava o composto. Agora, se a mestra ameaçasse chamá-lo para
interpretar algum texto, por mais simples que fosse o pequeno Murilo (este era
seu primeiro nome), se estremecia todo, ficava com urticárias, gaguejava e
danava a chorar. Decididamente, não
seria um bom orador, político nem pensar.
Nas outras disciplinas, talvez
por seu bom comportamento, concordava com tudo e com todos, não teve maiores dissabores,
seus professores sempre o promoviam ao ano seguinte. Certa vez, na aula de biologia tivera dificuldade
para entender o mecanismo da metamorfose como forma de proteção natural, não
conseguia entender a naturalidade do recurso utilizado.
A vida avançou Murilo
agora já era um rapaz, Murilo Antunes Calado, prestou serviço militar no
exército brasileiro. Soldado muito
conceituado, Calado, era seu nome de guerra, entendeu perfeitamente o papel que
deveria desempenhar para dar sua contribuição à pátria, obedecer sempre seus
superiores e realizar as tarefas sem questionamento. Era a época do regime de exceção, da ditadura. Bons tempos aqueles.
Calado, posteriormente
saiu do exército antes de ser promovido a cabo. Houve mudanças no país e na estrutura das
Forças Armadas que não o satisfizeram, além do que, deixando de ser proscrito, deveria
expor suas idéias a um pequeno grupo de comandados o que poderia ser
desgastante, provavelmente alguns discordariam (o novo regime já o permitia),
haveria debate e ele odiava polêmicas.
O jovem Murilo sente que
seu corpo anseia por um complemento, busca um adjunto para o restante de sua
existência. Nos bailes (como eram conhecidos as baladas, a
night ou o pancadão de hoje) que freqüenta, seu jeito introvertido acaba dividindo opiniões,
algumas meninas o acham misterioso e praticamente imploram por uma palavra de
carinho.
Em uma tarde dessas que se
destacam das outras seja pela clareza e luminosidade ou pelos fatos eloqüentes
que a circundam, Calado avistou Ana, vestida de azul claro, tristonha, sentada
sozinha na mesa em frente à lanchonete do Clube de Sargentos do Rocha, onde a
matinê havia sido cancelada e as atrações remarcadas para o sábado seguinte, se
não houvesse outros imprevistos que não as impedissem.
Certamente você deve estar
se perguntando quais foram os imprevistos que impediram a matinê daquela tarde
luminosa do baile do Rocha em
que Calado conheceu Ana, mais infelizmente Calado nunca disse
uma só palavra sobre isso.
O que realmente importa é
que Antunes ao conhecer Ana, sentiu que ela era sua cara metade, sua alma
gêmea, a goiabada para o seu queijo, a tampa da sua garrafa, a linha para sua
agulha e o chinelo para seu pé descalço.
Afinal Antunes, falava pouco ou quase nada, mas seus hormônios o faziam
sentir intensamente o que não sabia expressar.
O namoro foi quase
automático, sem maiores delongas, Ana, moça de família, filha única, católica
fervorosa, prendada, simples e muito dedicada à mãe Luzia, deficiente visual, viúva
de um militar há mais de quinze anos, como todas as raparigas da época
tencionava encontrar um rapaz sério e trabalhador que a levasse ao altar.
A reputação de Antunes
falava por si só. Sisudo, porém honesto,
tímido, mas, sobretudo trabalhador, bom filho estava sempre ao lado da mãe, Dona
Inês, também viúva que infelizmente por ocasião da morte do esposo em um
acidente com explosivos, perdera definitivamente a audição, fato que em nada
diminuíra a estima que nutria por seu filho Calado.
Um fato veio a antecipar
os planos de matrimônio de Antunes e Ana. Passeavam pelas ruas tranqüilas do
bairro, Inês e Luzia, quando não se sabe bem de onde, surge uma vemaguete em
alta velocidade e num descuido visual de Luzia e apesar dos gritos dos
transeuntes que não foram ouvidos por Dona Inês, colheu as duas senhoras,
colocando Luzia em estado grave no Hospital Salgado Filho no Méier, ato
contínuo Inês é morta.
Ana e Antunes se calam
perante os acontecimentos, ele mais uma vez órfão, ao perder sua confidente
sente que ninguém mais vai ouvi-lo com a mesma doçura.
Ana ainda tem a esperança
que a providencia divina não lhe faltará, infelizmente, o destino também retira
Luzia, que não resistiu aos ferimentos, de sua vida, falta-lhe a partir de
agora a luz que guiava seus caminhos, tudo parece ser revestido por trevas,
ainda bem que Ana tem o consolo dele, Calado.
Ana, filha única de pai
militar, na falta da mãe, passa a receber a pensão do genitor, propõe a Antunes
a junção dos trapos, morarem juntos (regime precursor da união estável) e
Calado, para não perdê-la (não se sabe se a companheira ou a pensão)
aceita.
Para Antunes a não
formalização do casamento fora uma saída bastante conveniente, proclamas,
testemunhas, a famosa resposta à pergunta do padre, nada disso o agradava
muito, além disso, o importante era a junção das vidas numa só carne, uma só
idéia e, sobretudo numa só palavra.
Vieram os filhos, primeiro
Mara, linda, delicada, lembrava à avó paterna, chorava pouco, dispensava
maiores cuidados, desde cedo cativava o pai, era capaz de ficar horas e horas a
contemplá-lo sem exigir um só murmúrio ou exclamação de satisfação ou agrado.
Antonio, Toninho como era
pouco chamado, trazia nos olhos um que de auto-suficiência, de conhecimento
interior que dispensava maiores explicações, aprendera todas as operações e as
letras instintivamente, possuía as melhores notas da sala, lembrava muito ao
pai, porém não comungava da mesma paixão pelo São Cristovão, preferia
dedicar-se entusiasticamente ao Bonsucesso, mesmo contrariando às pretensões
implícitas de seu genitor.
Exímio escrevente
processual, Calado fazia a sua profissão como verdadeiro sacerdócio, concursado
que fora, mesmo tendo zerado a prova oral, que era apenas classificatória, havia
ido tão bem na etapa escrita que foi aprovado.
Quando chamado para a posse não foi contemplado com tarefas edificantes,
o que não o agradou, porém não esmoreceu e continuou calado.
Antunes já não é mais o
mesmo de antes, sua vida profissional passa por turbulências que jamais
imaginara enfrentar. Acusado de
corrupção passiva, Calado prefere silenciar por entender que o silêncio é a
principal arma dos justos e que dessa forma pautou toda a sua vida.
Exonerado, injustamente,
sente que a família é agora seu único porto seguro, volta ao seio do lar, com
imensa dificuldade em encarar sua mulher e filhos, pois poupara a todos das
agruras que vinha atravessando. Suas
feições são outras, seu semblante pesado, o olhar firme e sereno de outrora
mareja com a lembrança dos verbetes terríveis proferidos contra ele. Regurgita ainda a impressão causada pelos
vocábulos, as interjeições e as exclamações usados para lhe acusar.
Julgado e sentenciado,
mesmo tendo exercido o direito de permanecer calado, Calado fora injustiçado e
destituído daquilo que havia conseguido por direito e mérito próprio, a palavra
de outrem, não a sua, que o uso tanto evitara, se voltara contra ele e o
igualara ao mais vil dos seres, o que não tem dignidade, serventia, pois
perdera seu objeto de labor e com ele a sua voz.
Murilo, sentindo-se mudo
diante dos fatos, eleva seus pensamentos aos céus, recorre às orações que
aprendera na infância, mas sente intensa dificuldade de manter ligação
espiritual com Deus. Sempre preferira as
preces tradicionais, prefeitas, pois que não clamam pela dialética, basta a
simples súplica e o merecimento para serem atendidas. Modernamente, dizem os
espiritualizados ser necessária a comunhão de mentes e espíritos para
conseguirmos as graças solicitadas.
No silencio de seu
interior, Antunes toma uma decisão e resolve poupar àqueles que ama
ensurdecedoramente, de seus infortúnios.
Manter-se-á calado diante dos acontecimentos e ele, Calado, sairá de
casa. Seus filhos já estão criados, sua
mulher recebe a pensão paterna do exercito que é o bastante para mantê-la e
além do mais são fortes e como ele Calados, não merecem o exprobro público.
Calado sai de casa pela
manhã bem cedo, não consegue mais encarar a mulher e os filhos, deixa apenas um
bilhete onde pede que não o censurem e que os ama com toda a força que suas
palavras não serão capazes de traduzir. A
luz do dia que raia no horizonte é sua única testemunha. A vida parece se lhe esvair e a angustia em
seu peito prenuncia a realidade de seu novo mundo.
Desde o início do relato
das desventuras de Antunes Calado, muitos anos se passaram. Calado, maltrapilho e desnutrido, leva a vida
sem maiores pretensões como um morador de rua comum. À noite, divide um barraco com outros sem
terra, sem família, sem voz e sem dignidade, no Morro do Quieto e durante o dia
pode ser visto pelos passantes mais atentos, pelas ruas sombrias da Cidade
Maravilhosa, com as mãos estendidas, suplicando: Dialoguem comigo pelo amor de
Deus.
[1] Trabalho apresentado ao Professor André
Scucato como requisito
parcial para
aprovação na disciplina Tópicos
Especiais do curso de Letras da Faculdade CCAA. Rio de Janeiro.
08 de novembro de 2011
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