A NOÇÃO DA HORA
Se
já perdemos a noção da hora? Nós, sem dúvida, perdemos a noção da hora.
Perdemos a direção do tempo. Estamos caminhando céleres, sem rumo, sem bússola,
desordenadamente... Talvez estejamos sendo levados pássaros de nossa
irremediável loucura – pensamentos perdidos de outras épocas.
Já perdemos os conceitos de tudo, como se vivêssemos numa
espiral de ventos, sem referências, sem pontos de apoio... Nossas pernas já não
se confundem mais debaixo dos lençóis.
A visão dos dias, o prenúncio dos sonhos, tudo corre no
caminho das contradições. Não sabemos o que fazer ou o que aguardar... É um
córrego de contrassensos...
O ar nos falta, não obstante não respirarmos. Aquela sede de
tudo, hoje nem nos exige água. Tudo em nós está conformado. Vivemos o nada.
Essa seria a síntese de nossa tragédia. O que somos e falamos está
irremediavelmente mergulhado na expressão total do inexistente. Seria uma
espécie de niilismo?
O que parece nem chegou ainda, o que se vê só existe porque
nem lhe damos a devida atenção: é, de fato, é um pensamento absurdamente
niilista.
Somos como degredados solitários, náufragos em nossa
desventura. Quem sabe, o astronauta russo Gagarin, se vivo fosse, ao invés
daquele azul dos anos 1950, mirando a Terra triste e corrompida de nossos dias,
exclamasse: Vomitaram no mundo!
A realidade é que precisamos de novos cangaceiros. Esperamos
novas florestas. Novos heróis. As metrópoles perderam sua voz. O que vivemos
concorda com Glauber: O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Já está
tudo aí. São tantos desvarios, já rompi com o mundo, queimei nossos navios. Diz
pra mim pra onde ainda poderia ir.
Ricardo Macedo
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