quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A NOÇÃO DA HORA


A NOÇÃO DA HORA

 

Se já perdemos a noção da hora? Nós, sem dúvida, perdemos a noção da hora. Perdemos a direção do tempo. Estamos caminhando céleres, sem rumo, sem bússola, desordenadamente... Talvez estejamos sendo levados pássaros de nossa irremediável loucura – pensamentos perdidos de outras épocas.

         Já perdemos os conceitos de tudo, como se vivêssemos numa espiral de ventos, sem referências, sem pontos de apoio... Nossas pernas já não se confundem mais debaixo dos lençóis.

         A visão dos dias, o prenúncio dos sonhos, tudo corre no caminho das contradições. Não sabemos o que fazer ou o que aguardar... É um córrego de contrassensos...

         O ar nos falta, não obstante não respirarmos. Aquela sede de tudo, hoje nem nos exige água. Tudo em nós está conformado. Vivemos o nada. Essa seria a síntese de nossa tragédia. O que somos e falamos está irremediavelmente mergulhado na expressão total do inexistente. Seria uma espécie de niilismo?

         O que parece nem chegou ainda, o que se vê só existe porque nem lhe damos a devida atenção: é, de fato, é um pensamento absurdamente niilista.

         Somos como degredados solitários, náufragos em nossa desventura. Quem sabe, o astronauta russo Gagarin, se vivo fosse, ao invés daquele azul dos anos 1950, mirando a Terra triste e corrompida de nossos dias, exclamasse: Vomitaram no mundo!

         A realidade é que precisamos de novos cangaceiros. Esperamos novas florestas. Novos heróis. As metrópoles perderam sua voz. O que vivemos concorda com Glauber: O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão. Já está tudo aí. São tantos desvarios, já rompi com o mundo, queimei nossos navios. Diz pra mim pra onde ainda poderia ir.

 

Ricardo Macedo

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