OUTRO DIA
por
Aos
poucos, eu perdi a vontade. Como se ali, ao meu lado, estivesse um estranho.
Completamente diferente de tempos atrás. O início... Ah, o início... Distante.
É tudo tão diferente. Ali... Agora... Perdido em seu próprio mundo e intruso na
minha vida. Por uma fração de segundos, eu sinto medo. Confesso. Medo de querer
ser livre... De querer não me importar mais... Não dá. Não me permito pensar assim. E tudo isso aqui dentro?
Tantos anos juntos, tantas histórias, uma vida em comum construída das seis às
vinte e três. Lado a lado. De vinte e três e um as cinco e cinquenta e nove. De
segunda a segunda. Por vezes intenso... Especial. Monótono quase sempre. Não.
Isso deve ser momentâneo... Passageiro. Não é definitivo.
As coisas não passam por nós como se fossem por acaso. A
gente usa, cansa e se desfaz. Eu sei que não. Talvez não seja bem assim... E as
escovas de dente? O que fazer com elas? Eu reparo a escova de dente sobre a pia
e a maldita toalha jogada no canto. As roupas espalhadas pelo chão. Eu reparo a
infeliz mania de falar sobre o passado, sobre as festas em família e o que vai
passar depois da novela. Não. Isso não pode ser verdade. Não pode acontecer
comigo. E as juras de amor? É... Ele se tornou insuportável. Quer saber onde
estou e o que eu faço. Com quem eu vou e que horas eu volto. Preocupação... Preocupação
nada. Controle. Posse. Sufoca. Minhas amigas sempre me disseram isso. Sempre me
aconselharam a não me dividir em pedaços. Metades... Até parece. E a minha parte?
Chega! Não quero mais. Eu preciso da minha vida de volta... De hoje não passa.
Barulho na porta. Ele chega. Parece aborrecido. Que diferença isso faz? Deve
ser por causa do trabalho. Coloco os partos na mesa... Ele não toca na comida.
_Beto...
_Sandra...
_Fala você...
_Sandra...
_Fala você...
_ Fala Sandra...
_ Fala você, Beto.
_ Sandra...
_Fala Beto!
_Sandra, eu não te amo mais.
_ Como assim, Beto? A gente vive tão bem... Eu te amo tanto...
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