VIDAS EM MEIO À
DEVASTADORA SECA EM GRACILIANO RAMOS
RAMOS, Graciliano. Vidas
secas. São Paulo: Martins, 1973.
A geração de 30 – situada com segunda fase do modernismo brasileiro – se caracterizou por ser muito inovadora e crítica e por quebrar todos os paradigmas literários do Brasil naquela época. A prosa moderna de trinta motivou a abordagem de temas nacionais, focando em uma linguagem mais brasileira, com um enfoque mais direto dos fatos que aludem a procedimentos similares ao Realismo e Naturalismo do século XIX. Os romances escritos nesse período focaram no regionalismo, principalmente do nordeste, devido a problemas como seca, migração, falta de recursos para o trabalhador rural, miséria.
A obra propõe o que se pode chamar de realismo reflexivo, nela o narrador transmite os sentimentos e pensamentos de forma analítica, indagando pontos sociais e existenciais. O discurso é seco, os capítulos são curtos e a escrita reflete essa seca. A linguagem entre os personagens é mais transmitida pelo olhar do que oral e quando falavam algo, falavam alto e quase que por monossílabos. A obra retrata vidas secas e sem grandes ambições.
O espaço na obra se dá em meio a um clima semiárido, em que a vegetação por sua vez é pobre devido à escassez de chuvas na região. O ambiente não apresenta variação paisagística tendo em vista que o sertão é um local vasto e sem nada. A obra não revela as mudanças temporais, nesta por sua vez são apontadas as variações entre passado, presente e futuro dentro de uma perspectiva linear, mas não ocorre nenhuma mudança no modo de vida da família.
O fato que leva a família a migrar durante todo o decorrer da narrativa é a seca que faz com que a família não tenha nenhuma estabilidade de moradia, o que acarreta na má qualidade de vida.
O autor da obra Graciliano Ramos ao criar esta obra expõe toda sua indignação social sobre o modo de vida dos retirantes nordestinos, por isto ele coloca nesta obra personagens que confirmam a realidade do povo nordestino no país, povo este que está sempre “condenado” a não ter nenhuma mudança em sua condição de vida social, econômica e sociocultural, são raras as exceções de pessoas que são do nordeste do país e obtêm satisfação profissional, concluem os estudos, assim como têm acesso a uma boa qualidade de vida.
O primeiro capítulo do livro, que tem por tema “Mudança”, inicia-se com a peregrinação de Fabiano, Sinhá Vitória, filho mais velho, filho mais novo, Baleia, a cadela e o papagaio. Neste capítulo, percebemos o cansaço dos personagens, a fome e as necessidades pelas quais passaram durante a peregrinação pela caatinga. Este trecho da obra também aborda a morte do papagaio que morre com a finalidade de alimentar a família. A desculpa é que o animal é mudo, logo inútil. Porém não existia a possibilidade do louro desenvolver uma boa fala, devido ao fato dos demais personagens falarem pouco. Temos aqui na figura do papagaio a síntese da falta de comunicação na família.
Localizado no capítulo dois temos os episódios de peregrinação da família pela caatinga, de hospedagem da família na fazenda que se encontrava abandonada e temos a caçada de Baleia aos preás.
O terceiro capítulo, que tem por título “cadeia”, alude à prisão de Fabiano por ter xingado a mãe do soldado amarelo, depois de ser muito importunado na feira pelo soldado.
Situado no quarto capítulo da obra “Sinhá Vitória”, percebemos o desejo que Sinhá Vitória tem de possuir uma cama de lastros de couro e as inconveniências que dizia ao marido sobre a cama de vara.
Com a chegada do inverno no capítulo sete, chega também a esperança de um futuro melhor, de ver os pastos verdejantes, as árvores frutíferas, o gado engordando e procriando, além da família ficando mais robusta.
No capítulo nove, que tem por título “Baleia”, a cadela fica muito doente e por decisão da família resolvem sacrificá-la, pois tinham medo de que a doença de Baleia fosse contagiosa e com isto atingisse os filhos. Fabiano, o chefe da família, é quem mata a cadela com um tiro; Baleia só vem a falecer depois de tanto agonizar de dor, pois o tiro que seu dono lhe deu não foi certeiro, durante o período de agonia a cadela sonhava com um mundo de felicidade plena e repleto de comida como ela sempre quis.
No capítulo final do livro, que se intitula por “fuga”, percebemos que a vida na fazenda se torna difícil devido à seca e com isto a família tem que ir embora da fazenda, apesar de não quererem afastar-se de lá. A família por vezes adiou a viagem até que chegou certo momento que a fazenda havia se transformado em um verdadeiro “cemitério”, por tudo o que estava nela e ao seu redor perecer, e é neste instante que a família decide partir para um local mais habitado, a cidade, mas temiam por não conseguir trabalho; durante a peregrinação para a cidade grande a família pensava em como seria a vida nova e o que esta poderia vir a desencadear.
De acordo com Álvaro Lins (1977), Graciliano Ramos fez a escolha deste título porque a vida dos personagens também era seca devido às condições sub-humanas, o modo de criação, os costumes da época. Álvaro Lins também diz que a obra representa um estado de razão, de lucidez, de sobriedade.
De acordo com Massaud Moisés, em seu livro História da Literatura Brasileira, o romance possui uma estrutura novelesca que se caracteriza pela ausência de um conflito central e pelo domínio da ação, de acordo com um ritmo que impõe, a cada capítulo, a mudança do protagonista e do foco de visão. Dentro desta perspectiva, a intenção de Graciliano Ramos de acordo com Massaud Moisés seria abordar com clareza o drama dos banidos pelas secas, sobretudo atribuindo um tom trágico à trajetória de vida dos personagens. Com a palavra Moíses:
Dois aspectos de
Vidas secas têm atraído a atenção dos
leitores e críticos: o da cachorra Baleia, que acompanha os retirantes como um
ser humano, protagonizando um capítulo que tem sido destacado (inclusive
publicado pelo autor) como uma história independente, um conto. E do “menino
mais velho”, o da criança, nem sempre vista com propriedade, quando lhe é dado
comparecer nos microcosmos dos retirantes.
(MOISÉS, 2001,
p.175)
Como ponto
positivo da obra, percebemos que a prosa ficcional de trinta foi considerada
como uma literatura da infância, devido a Graciliano Ramos fazer com que seus
personagens recordem a infância; tornando explícito assim a criança como a
possível invenção de um adulto problemático, descobrindo então o foco dos
possíveis problemas, para assim tentar solucioná-los premeditadamente.
Como ponto
negativo da obra, percebemos o intenso foco dado ao lado negativo da vida de
quem habita o sertão, a caatinga, o nordeste, regiões em que os habitantes
normalmente apresentam pouco grau de instrução e por isto muitas das vezes são
discriminados devido à forma de expressão coloquial que utilizam.
Michelle
da Silva Guedes
FACULDADE
CCAA, Rio de Janeiro.
REFERÊNCIAS
RAMOS, Graciliano. Vidas
secas. São Paulo: Martins, 1973.
MOISES, Massaud. História
da literatura brasileira: modernismo 1922 - atualidade. São Paulo: Cultrix,
2001. v. III.LINS, Álvaro. “Valores e Misérias das Vidas Secas”. In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 36. ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1977. p. 135-167.
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